Capítulo Sete: A Parábola da Cidade Fantasma

         

O Buddha fez este anúncio aos monges: Algures num passado remoto, há imensuráveis, ilimitados, incontáveis kalpas atrás, existiu um Buddha chamado Excelência da Grande e Universal Sabedoria (Mahâbhigñâgñanâbhibhû), Tathagata, merecedor de ofertas, de conhecimento correcto e universal, conduta perfeita e clara, bem aventurado, conhecedor do mundo, inexcedivelmente meritório, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buddha, Honrado Pelo Mundo. A sua terra era chamada Bem Constituída e o seu kalpa Grande Forma.

“Então monges, desde a extinção desse Buddha, um grande, longo tempo passou. Suponham, por exemplo, que alguém pega em todas as partículas de terra deste universo e as reduz a pó, e à medida que passa por mil terras na direcção Este, larga um minúsculo grão de pó. Novamente, ao passar por outras mil terras, ele solta outro grão de pó. Suponham que ele prossegue nesta direcção até acabar de deitar todos os grãos de pó feitos com as partículas de terra. Qual é a vossa opinião? Pensais que, em relação a estas terras, os mestres de cálculo ou os seus discípulos seriam capazes de determinar o número de terras visitadas desta forma, ou não?

“Isso seria impossível, Honrado Pelo Mundo.”

“Agora monges, suponham que alguém pegava nas terras através das quais esse homem tinha passado, quer tivesse largado uma partícula de terra ou não, e as moía em pó E suponham que cada uma dessas partículas de pó representava um kalpa. Os kalpas passados desde a extinção desse Buddha excederiam o número de partículas de pó em imensuráveis, ilimitadas centenas, milhares, dezenas de milhar de milhões de kalpas. Mas porque eu emprego o poder de conhecimento e visão do Tathagata, quando olho para esse longínquo passado, é como se fosse hoje.”

Nessa altura o Honrado Pelo Mundo, desejando expor novamente o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Quando penso no passado,
imensuráveis, ilimitados kalpas atrás,
vejo que existiu um Buddha,
mais honrado dos seres humanos,
chamado Excelência da Grande e Universal Sabedoria.
Se uma pessoa usasse a sua força
para esmagar toda a terra do universo,
reduzindo-a a poeira,
e se passa-se por mil mundos
e larga-se uma partícula de pó,
e se ela continuasse desta forma
até ter esgotado todas as partículas,
e se então pegasse em todos os solos
dos mundos por onde havia passado,
quer tivesse ou não largado um grão de poeira,
e uma vez mais reduzisse essa terra a pó,
e posto isto cada grão de poeira representasse um kalpa –
o número de finíssimos grãos
seria menor do que a soma de kalpas
que passaram desde que esse Buddha viveu.
Desde a extinção desse Buddha,
um imensurável número de kalpas
tal como este já passou.
O Tathagata, através da sua visão desimpedida,
conhece o tempo em que esse Buddha se extinguiu
e os seus ouvintes e bodhisattvas
como se estivesse a presenciar essa extinção exactamente agora.
Monges, deveis entender
que a sabedoria do Buddha é pura, subtil, maravilhosa,
sem falhas, sem impedimentos,
penetrando e alcançando imensuráveis kalpas.

O Buddha anunciou aos monges: ”O Buddha Excelência da Grande e Universal Sabedoria teve uma de vida de quinhentos e quarenta dezenas de milhares de milhões de nayutas de kalpas. Este Buddha primeiramente sentou-se no lugar da iluminação e, tendo subjugado as armadas do demónio, estava a ponto de alcançar anuttara-samyak-sambodhi mas as doutrinas dos Buddhas não apareceram diante dele. Esta situação continuou durante dez pequenos kalpas, o Buddha sentado de pernas cruzadas, corpo e mente imóveis, mas as doutrinas dos Buddhas ainda assim não apareceram diante dele.

“Nessa altura os seres celestiais do paraíso Trayastrimsha tinham estendido para o Buddha um trono de leão com uma yogana de altura sob uma árvore Boddhi, pretendendo que ele se sentaria ali após alcançar anuttara-samyak-sambodhi. Logo que o Buddha ocupou ali o seu lugar, os reis Brahma fizeram chover imensas flores celestiais, cobrindo o chão numa extensão de cem yoganas em redor. De tempos a tempos uma brisa fragrante vinha limpar as flores secas, e novas flores caiam do céu. Isto continuou sem interrupção pelo espaço de dez pequenos kalpas como uma oferta ao Buddha. Até à altura em que ele se extinguiu, essa chuva de flores prosseguiu ininterruptamente. Os quatro Reis Celestiais, como oferta ao Buddha, tocaram constantemente os tambores celestiais, enquanto outros seres celestiais tocaram instrumentos musicais celestes, todos durante dez pequenos kalpas. Até o Buddha entrar em extinção esse era o estado de coisas.

“Então, monges, o Buddha Excelência da Grande e Universal Sabedoria passou dez pequenos kalpas sem conseguir alcançar anuttara-samyak-sambodhi. Antes do Buddha deixar a vida familiar, tinha dezasseis filhos, o primeiro dos quais se chamava Sabedoria Acumulada. Cada um destes filhos tinha brinquedos e objectos raros de vários tipos, mas quando ouviram que o seu pai tinha alcançado anuttara-samyak-sambodhi, todos abandonaram esses objectos raros e foram ter com o Buddha. As suas mães seguiram chorosas atrás deles.

“O seu avô, que era um rei sábio, em conjunto com cem ministros e centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de súbditos, juntou-se aos filhos do Buddha que seguiam para o lugar da prática, todos ansiosos por chegar perto do Tathagata Excelência da Grande e Universal Sabedoria, oferecer-lhe dádivas, prestar-lhe honras, venerá-lo e louvá-lo. Quando chegaram, tocaram com a cabeça no chão fazendo vénias a seus pés. Quando terminaram de circundar o Buddha, uniram as palmas das mãos e com uma única mente, fitaram reverentemente o Honrado Pelo Mundo e recitaram estes versos de louvor, dizendo:

O Honrado Pelo Mundo,
de grande autoridade e virtude,
por forma a salvar os seres viventes
passou imensuráveis milhões de anos
até que por fim conseguiu tornar-se um Buddha.
Todos os seus votos foram cumpridos –
nenhuma fortuna poderia ser maior!
O Honrado Pelo Mundo
é raro de encontrar;
após ter tomado o seu lugar
passaram-se dez kalpas,
o seu corpo e as suas mãos e pés,
repousam tranquilos e imóveis,
a sua mente está constantemente calma e plácida,
nunca em agitação ou desordem.
No final ele alcança
eterna tranquilidade e extinção,
repousando na Lei sem falhas.
Agora, conforme observamos o Honrado Pelo Mundo
em tranquilidade, tendo completado a via do Buddhado,
ganhamos excelentes benefícios
e louvamo-lo e congratulamo-lo com grande alegria.
Os seres viventes suportam constantemente sofrimento e angustia,
ignorantes, sem mestre ou guia,
não se apercebendo da existência de uma via para pôr termo ao sofrimento,
não sabendo como procurar a emancipação.
Através da longa noite
vão-se embrenhando cada vez mais nos maus caminhos,
diminuindo a multidão de seres celestiais;
das trevas eles entram nas trevas,
sem nunca ouvirem o nome Buddha.
Mas agora o Buddha atingiu a inexcedível
tranquilidade da Lei sem falhas.
Nós e os seres celestiais e humanos
por este facto obtemos o maior beneficio.
Por esta razão curvamos as nossas cabeças
e dedicamos as nossas vidas àquele de honra inexcedível.

Nessa altura os dezasseis príncipes, tendo louvado o Buddha nestes versos, incitaram o Honrado Pelo Mundo a fazer girar a roda da Lei, dizendo todos a uma só voz estas palavras: “Honrado Pelo Mundo, expõe a Lei. Assim fazendo trarás tranquilidade aos seres celestiais e humanos, confortando-os e beneficiando-os em larga medida.” Repetiram este pedido em verso, dizendo:

Herói sem par no mundo,
tu que te adornas com mil bênçãos
e atingiste a sabedoria insuperável –
rogamo-te que pregues para bem do mundo.
Salva-nos e liberta-nos
e às outras espécies de seres viventes.
Traça distinções, esclarece-nos
e permite que alcancemos a sabedoria.
Se nós podemos conquistar o Buddhado,
então todos os seres viventes o podem também fazer.
Honrado Pelo Mundo, tu conheces os pensamentos
que os seres viventes guardam no mais íntimo das suas mentes.
Conheces os caminhos que trilham
e a força da sua sabedoria,
os seus prazeres, as bênçãos que cultivaram,
as acções que levaram a cabo em existências passadas.
Honrado Pelo Mundo, tudo isto tu já sabes –
agora deves fazer girar a roda insuperável!

O Buddha anunciou aos monges: “Quando o Buddha Excelência da Grande e Universal Sabedoria alcançou anuttara-samyak-sambodhi, quinhentas dezenas de milhares de milhões de terras Búddhicas nas dez direcções tremeram e se abalaram de seis modos diferentes. Os lugares escuros e ermos nessas terras, onde a luz do sol e da lua nunca chega a penetrar, ficaram visíveis, os seus habitantes foram capazes de se verem uns aos outros, e exclamaram, ”Como é possível que tenham de repente aparecido seres viventes neste local?”

“Também os palácios dos vários seres celestiais nessas terras e os palácios de Brahma tremeram e se abalaram em seis direcções diferentes e uma grande luz brilhou em toda a parte, enchendo completamente os mundos e superando a majestade da luz celestial. Nessa ocasião, em quinhentas dezenas de milhares de milhões de terras na direcção Este os palácios de Brahma refulgiram com uma luz de um brilho cintilante e cada um dos reis Brahma pensou: “Agora o brilho do palácio é mais forte que nunca. O que poderá ter provocado este fenómeno?”

“Então os reis Brahma visitaram-se uns aos outros para discutir o assunto. Entre eles existia um grande rei Brahma chamado Salvador de Todos os Seres (Sarvasattvatrâtri), que perante a multidão de reis Brahma falou em verso, dizendo:

Os nossos palácios têm um brilho nunca antes conhecido.
Qual pode ser a causa disto?
Cada um de nós procura uma resposta.
Será devido ao nascimento de qualquer ser celestial de grande virtude, ou porque um Buddha apareceu no mundo, que esta grande luz brilha em toda a parte pelas dez direcções?

“Nessa ocasião os reis Brahma das quinhentas dezenas de milhares de milhões de terras, acompanhados dos seus palácios, cada rei despindo o seu manto exterior e enchendo-o de flores celestiais, viajaram em conjunto para a direcção Oeste para observarem aí os sinais. Eles viram o Tathagata Excelência da Grande e Universal Sabedoria no lugar da prática, sentado num trono de leão sob uma árvore bodhi, com os seres celestiais, reis dragões, gandharvas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos rodeando-o e prestando-lhe reverência. E viram também os dezasseis príncipes pedindo ao Buddha para girar a roda da Lei.

“De imediato os reis Brahma tocaram com as cabeças no chão prostrando-se aos pés de Buddha, circularam à sua volta cem mil vezes espalhando sobre ele as flores celestiais. As flores fizeram uma pilha da altura do monte Sumeru. Essas flores eram também oferta para a árvore bodhi, com dez yoganas de altura. Quando eles terminaram estas ofertas de flores, cada um tomou o seu lugar e ofereceu o seu palácio ao Buddha, dizendo estas palavras: “Esperamos que nos concedas conforto e benefícios. Rogamos-te que aceites e ocupes estes palácios que aqui apresentamos.”

“Nessa altura os reis Brahma, na presença do Buddha, com uma só mente juntaram as suas vozes na recitação destes versos de louvor:

Ó Honrado Pelo Mundo, difícil de encontrar,
dotado de imensuráveis bênçãos,
capaz de salvar a todos,
grande mestre de seres celestiais e humanos,
tu conferes ao mundo compaixão e bem estar.
Os seres viventes das dez direcções
em toda a parte recebem benefícios.
Nas quinhentas dezenas de milhares de milhões de terras
de onde viemos,
pusemos de lado a alegria da profunda meditação
de modo a trazermos oferendas ao Buddha.
Devido à nossa boa fortuna em prévias existências
os nossos palácios estão ricamente adornados.
Queremos agora apresentá-los ao Honrado Pelo Mundo,
rogando-lhe que tenha a amabilidade de os aceitar.

“Seguidamente, quando os reis Brahma acabaram de louvar o Buddha em verso, falou cada um estas palavras:” Rogamos ao Honrado Pelo Mundo que faça girar a roda da Lei, que salve os seres viventes e abra as portas do nirvana!”

“Então os reis Brahma com uma só mente juntaram as suas vozes e falaram em verso, dizendo:

Herói do mundo,
mais honrado entre os homens,
rogamos-te que exponhas a Lei.
Através do poder da tua grande misericórdia e compaixão,
salva os seres viventes no seu sofrimento e angustia!

“Nessa altura o Tathagata Excelência da Grande e Universal Sabedoria anuiu silenciosamente ao pedido.

Então monges, nas quinhentas dezenas de milhar de milhões de terras no Sudeste, os reis Brahma observaram que os seus palácios brilhavam com uma luz cintilante nunca antes vista. Dançando de alegria, entrando num modo mental raramente experimentado, foram visitar-se uns aos outros para discutir este assunto em conjunto.

“Havia no meio da assembleia um grande rei Brahma chamado Grande Compaixão (Adhimâtrakârunika) que perante a multidão de reis Brahma, falou em verso, dizendo:

Que causa está a operar
por forma a que este sinal seja manifesto?
Os nossos palácios irradiam um brilho
nunca antes conhecido.
Será devido ao nascimento de algum ser celestial de grande virtude,
ou porque um Buddha apareceu no mundo?
Nunca vimos tais sinais
e com uma só mente buscamos a razão.
Ainda que tenhamos que viajar por centenas, dezenas de milhares de milhões de terras,
juntos procuraremos a causa desta luz.
Certamente é devida ao aparecimento de um Buddha no mundo
para salvar os seres viventes do sofrimento.

“Nessa ocasião os reis Brahma das quinhentas dezenas de milhares de milhões de terras, acompanhados dos seus palácios, cada rei despindo o seu manto exterior e enchendo-o de flores celestiais, viajaram em conjunto para a direcção Noroeste para observarem aí os sinais. Eles viram o Tathagata Excelência da Grande e Universal Sabedoria no lugar da prática, sentado num trono de leão sob uma árvore bodhi, com seres celestiais, reis dragões, gandharvas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos rodeando-o e prestando-lhe reverência. E viram também os dezasseis príncipes pedindo ao Buddha para girar a roda da Lei.

“De imediato os reis Brahma inclinaram suas cabeças até ao chão prostrando-se aos pés de Buddha, circularam à sua volta cem mil vezes espalhando sobre ele as flores celestiais. As flores fizeram uma pilha da altura do monte Sumeru. Essas flores eram também oferta para a árvore bodhi, com dez yoganas de altura. Quando eles terminaram estas ofertas de flores, cada um tomou o seu lugar e ofereceu o seu palácio ao Buddha, dizendo estas palavras: “Esperamos que nos concedas conforto e benefícios. Rogamo-te que aceites e ocupes estes palácios que aqui apresentamos.”

“Então os reis Brahma com uma só mente juntaram as suas vozes e falaram em verso, dizendo:

Sábio senhor, ser celestial entre seres celestiais,
cuja voz é igual à da ave kalavinka,
tu que te compadeces dos seres viventes e os confortas,
nós agora prestamo-te honra e reverência.
O Honrado Pelo Mundo é raro de encontrar,
aparecendo apenas uma vez em muitas e longas eras.
Cento e oitenta kalpas passaram em vão sem um Buddha,
quando os três maus caminhos estavam em toda a parte
e a multidão de seres celestiais era reduzida em número.
Agora o Buddha apareceu no mundo
para ser um olho para os seres viventes.
O mundo apressar-se-á até ele
e ele salvará e guardará todos sem excepção.
Ele será um pai para os seres viventes,
confortando-os e beneficiando-os.
Devido à nossa boa fortuna em prévias existências,
somos agora capazes de encontrar o Honrado Pelo Mundo!

“Seguidamente, quando os reis Brahma acabaram de louvar o Buddha em verso, falou cada um estas palavras:” Rogamos ao Honrado Pelo Mundo que se compadeça e conforte a todos e faça girar a roda da Lei!

“Então os reis Brahma com uma só mente juntaram as suas vozes e falaram em verso, dizendo:

Grande sábio, faz girar a roda da Lei,
revela as características dos ensinamentos,
salva os seres viventes do seu sofrimento e angustia,
permite-lhes que atinjam a grande alegria.
Quando os seres viventes ouvirem esta Lei
encontrarão o caminho ou renascerão no céu;
os dos reinos inferiores serão reduzidos em número
e aumentarão os de bondade paciente.

“Nessa altura o Tathagata Excelência da Grande e Universal Sabedoria anuiu silenciosamente ao pedido.

Então monges, nas quinhentas dezenas de milhar de milhões de terras no Sul, os reis Brahma observaram que os seus palácios brilhavam com uma luz cintilante nunca antes vista. Dançando de alegria, entrando num modo mental raramente experimentado, foram visitar-se uns aos outros para discutir este assunto em conjunto, dizendo, “Qual é a razão dos nossos palácios emitirem esta luz brilhante?”
“Havia no meio da assembleia um grande rei Brahma chamado Lei Maravilhosa (Sudharma) que perante a multidão de reis Brahma, falou em verso, dizendo:

Os nossos palácios cintilam com um brilho inexcedível.
Isto tem de ter uma razão – devíamos investigar.
Nos cem mil kalpas passados
nunca vimos tais sinais
Será devido ao nascimento de algum ser celestial de grande virtude,
ou porque um Buddha apareceu no mundo?

“Nessa ocasião os reis Brahma das quinhentas dezenas de milhares de milhões de terras, acompanhados dos seus palácios, cada rei despindo o seu manto exterior e enchendo-o de flores celestiais, viajaram em conjunto para a direcção Nordeste para observarem aí os sinais. Eles viram o Tathagata Excelência da Grande e Universal Sabedoria no lugar da prática, sentado num trono de leão sob uma árvore bodhi, com seres celestiais, reis dragões, gandharvas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos rodeando-o e prestando-lhe reverência. E viram também os dezasseis príncipes pedindo ao Buddha para girar a roda da Lei.

“De imediato os reis Brahma tocaram com as cabeças no chão prostrando-se aos pés de Buddha, circularam à sua volta cem mil vezes espalhando sobre ele as flores celestiais. As flores fizeram uma pilha da altura do monte Sumeru. Essas flores eram também oferta para a árvore bodhi, com dez yoganas de altura. Quando eles terminaram estas ofertas de flores, cada um tomou o seu lugar e ofereceu o seu palácio ao Buddha, dizendo estas palavras: “Esperamos que nos concedas conforto e benefícios. Rogamo-te que aceites e ocupes estes palácios que aqui apresentamos.”

“Então os reis Brahma com uma só mente juntaram as suas vozes e disseram estes versos de louvor:

Honrado Pelo Mundo, o mais difícil de encontrar,
destruidor dos desejos mundanos,
cento e trinta kalpas passaram
e agora finalmente podemos ver-te.
Os seres viventes na sua fome e sede
são saciados com a chuva do Dharma.
Alguém como nunca antes visto,
de sabedoria imensurável,
raro como a flor da udumbara,
hoje por fim apareceu perante nós.
Por terem recebido a tua luz,
os nossos palácios estão maravilhosamente adornados.
Honrado Pelo Mundo, de grande misericórdia e compaixão,
rogamo-te que os aceites.

“Seguidamente, quando os reis Brahma acabaram de louvar o Buddha em verso, falou cada um estas palavras: ”Rogamos ao Honrado Pelo Mundo que faça girar a roda da Lei, que leve os seres celestiais, demónios, reis Brahma, shramanas e Brahmans por todo o mundo a obter paz e tranquilidade e a alcançar a salvação.”

“Então os reis Brahma com uma só mente juntaram as suas vozes recitando versos de louvor, dizendo:

Rogamos ao mais honrado dos seres celestiais e humanos
que faça girar a roda da Lei insuperável.
Que bata o grande tambor do Dharma,
sopre a grande concha do Dharma,
faça cair a grande chuva do Dharma por toda a parte
para salvar imensuráveis seres viventes!
Nós dirigimos para ti toda a nossa fé e as nossas súplicas –
deixa soar a tua voz profunda e de longo alcance!

“Nessa altura o Tathagata Excelência da Grande e Universal Sabedoria anuiu silenciosamente ao pedido. Na região sudoeste e nas restantes regiões até ao nadir, ocorreu uma sucessão similar de eventos.

“Então, na região do Nadir, os reis Brahma das quinhentas dezenas de milhar de milhões de terras no Sudoeste, observaram que os seus palácios brilhavam com uma luz cintilante nunca antes conhecida. Dançando de alegria, entrando num modo mental raramente experimentado, foram visitar-se uns aos outros para discutir este assunto em conjunto, dizendo, “Qual é a razão dos nossos palácios emitirem esta luz brilhante?”

“Havia no meio da assembleia um grande rei Brahma chamado Lei Maravilhosa (Sudharma) que perante a multidão de reis Brahma, falou em verso, dizendo:

Qual é a razão para que os nossos palácios
cintilem com tal autoridade e virtude,
adornados como nunca?
Um sinal maravilhoso deste tipo
nunca foi visto ou ouvido no passado.
Será devido ao nascimento de algum ser celestial de grande virtude,
ou porque um Buddha apareceu no mundo?

“Nessa ocasião os reis Brahma das quinhentas dezenas de milhares de milhões de terras, acompanhados dos seus palácios, cada rei despindo o seu manto exterior e enchendo-o de flores celestiais, viajaram em conjunto para a direcção Nordeste para observarem aí os sinais. Eles viram o Tathagata Excelência da Grande e Universal Sabedoria no lugar da prática, sentado num trono de leão sob uma árvore bodhi, com seres celestiais, reis dragões, gandharvas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos rodeando-o e prestando-lhe reverência. E viram também os dezasseis príncipes pedindo ao Buddha para girar a roda da Lei.

“De imediato os reis Brahma tocaram com as cabeças no chão prostrando-se aos pés de Buddha, circularam à sua volta cem mil vezes espalhando sobre ele as flores celestiais. As flores fizeram uma pilha da altura do monte Sumeru. Essas flores eram também oferta para a árvore bodhi, com dez yoganas de altura. Quando eles terminaram estas ofertas de flores, cada um tomou o seu lugar e ofereceu o seu palácio ao Buddha, dizendo estas palavras: “Esperamos que nos concedas conforto e benefícios. Rogamo-te que aceites e ocupes estes palácios que aqui apresentamos.”

“Então os reis Brahma com uma só mente juntaram as suas vozes e disseram estes versos de louvor:

Que bom, que possamos ver os Buddhas,
sábios e veneráveis que salvam o mundo,
capazes de resgatar e libertar os seres viventes
do inferno do triplo mundo!
Venerável entre os seres celestiais e humanos,
de sabedoria universal,
tu compadeces-te e tens misericórdia pela multidão de criaturas,
és capaz de abrir os portões do doce orvalho
e trazer a todos a salvação.
Anteriormente, imensuráveis kalpas passaram em vão
sem que um Buddha estivesse presente.
O tempo não tinha ainda chegado
para que o Honrado pelo Mundo aparecesse,
e tudo nas dez direcções estava em constante escuridão.
Os habitantes dos três reinos inferiores
aumentavam em número
e o reino dos asuras crescia;
a multidão dos seres celestiais diminuía,
e muitos deles ao morrer caíam nos reinos malignos.
Uma vez que ninguém podia procurar o Buddha e escutar a Lei,
as pessoas incorriam em condutas improprias
e a sua força física e sabedoria
diminuía e esmorecia.
Devido aos actos nefastos por eles praticados,
perderam todo o deleite e até a ideia do deleite.
Apegaram-se a doutrinas heréticas
e não tinham conhecimento dos bons costumes e regras.
Impedidos de serem instruídos pelo Buddha,
caíam constantemente nos reinos malignos.
Mas agora tu, o Buddha, que serás o olho do mundo,
Após este longo tempo chegas-te finalmente.
Por forma a trazer piedade e conforto aos seres viventes
apareceste no mundo.
Transcendeste o mundo
para ganhar a correcta iluminação;
estamos cheios de deleite e admiração.
Nós e todos os outros na assembleia rejubilamos,
deleitando-nos no que nunca conhecemos antes.
Os nossos palácios, por terem recebido a tua luz,
estão maravilhosamente adornados.
Agora apresentamo-los ao Honrado Pelo Mundo,
na esperança de que ele se compadeça e os aceite.
Rogamo-te que o mérito obtido através desta dádiva
seja largamente repartido por todos,
de modo a que nós e outros seres viventes
possamos todos juntos atingir o Buddhado.

“Seguidamente, depois de as quinhentas dezenas de milhares de milhões de reis Brahma terem acabado de recitar estes verso em louvor do Buddha, falou cada um estas palavras:” Rogamos ao Honrado Pelo Mundo que faça girar a roda da Lei, trazendo paz e tranquilidade a muitos, trazendo a muitos a salvação.Então os reis Brahma falaram em verso, dizendo:
Honrado Pelo Mundo,
faz girar a roda da Lei,
bate o tambor do Dharma de doce orvalho,
salva os seres viventes do seu sofrimento e angustia,
abre e revela-nos o caminho do nirvana!
Rogamo-te que aceites as nossas súplicas
e que, com um grande, subtil e maravilhoso som,
tragas piedade e conforto
expondo a Lei que praticas-te por imensuráveis kalpas.

“Nessa altura o Tathagata Excelência da Grande e Universal Sabedoria, tendo recebido súplicas dos dezasseis príncipes e dos reis Brahma das dez direcções, deu de imediato três voltas da roda de doze raios da Lei. Nem shramana, Brahman, ser celestial, demónio, Brahma, nem qualquer outro ser vivente no mundo era capaz de uma tal rotação. Ele disse, “Aqui está o sofrimento, aqui está a origem do sofrimento, aqui está a aniquilação do sofrimento, aqui está o caminho para a aniquilação do sofrimento.”

“Então ele expôs largamente a Lei dos doze elos interligados de causalidade : a ignorância causa a acção, a acção causa a consciência, a consciência causa o nome e a forma, o nome e a forma causam os seis órgãos dos sentidos, os seis órgãos dos sentidos causam o contacto, o contacto causa a sensação, a sensação causa o desejo, o desejo causa o apego, o apego causa a existência, a existência causa o nascimento, o nascimento causa a velhice e a morte, a preocupação e a dor, o sofrimento e a angustia. Se a ignorância for removida, então a acção será removida, se a acção for removida , então a consciência será removida, se a consciência for removida, então o nome e a forma serão removidos, se o nome e a forma forem removidos, então os seis órgãos dos sentidos serão removidos, se os seis órgãos dos sentidos forem removidos, então o contacto será removido, se o contacto for removida, então a sensação será removida, se a sensação for removida, então o desejo será removido, se o desejo for removido, então o apego será removido, se o apego for removido, então a existência será removida, se a existência for removida, então o nascimento será removido, se o nascimento for removido, então a velhice e a morte, a preocupação e a dor, o sofrimento e a angustia serão removidos.

“Quando o Buddha no meio da grande assembleia de seres celestiais e humanos expôs esta Lei, seiscentas dezenas de milhares de milhões de nayutas de pessoas, porque deixaram de aceitar qualquer das coisas do mundo fenomenal e porque as suas mentes estavam capazes de se libertarem de imperfeições, todos alcançaram uma profunda e maravilhosa prática meditativa, adquiriram as três compreensões e os seis poderes transcendentais e foram agraciados com as oito emancipações. E quando ele fez uma segunda, terceira e quarta exposição da Lei, seres viventes iguais em número aos grãos de areia de mil dezenas de milhares de milhões de nayutas de rios Ganges, por terem igualmente deixado de aceitar qualquer das coisas do mundo fenomenal, foram capazes de se libertarem das imperfeições da mente. Daí em diante, a multidão de ouvintes tornou-se imensurável, sem limite, incapaz de ser contada.

“Nessa altura os dezasseis príncipes deixaram as suas famílias enquanto ainda jovens e tornaram-se shramaneras. As suas faculdades eram apuradas e penetrantes, a sua sabedoria brilhante e compreensiva. Já no passado eles tinham oferecido esmolas a centenas de milhares, dezenas de milhares de Buddhas, e levado a cabo práticas Brahma de forma perfeita, e lutado para atingir anuttara-samyak-sambhodi. Dirigiram-se ao Buddha em conjunto, dizendo: Honrado Pelo Mundo, estes inumeráveis milhares, dezenas de milhares, milhões de ouvintes de grande virtude, já foram bem sucedidos. Honrado Pelo Mundo, nós estamos determinados a alcançar a perspicácia do Tathagata. No mais íntimo dos nossos corações temos este pensamento, tal como o Buddha deve saber.”

“Nessa ocasião o Buddha, respondendo às súplicas dos shramaneras, passou um período de vinte mil kalpas e por fim, no meio dos quatro tipos de crentes, pregou o sutra do Grande Veículo intitulado Lótus da Lei Maravilhosa, uma Lei para instruir os boddhisatvas, uma Lei que é guardada e mantida em mente pelos Buddhas. Após ter pregado este sutra, os dezasseis shramaneras, em prol de anuttara-samyak-sambhodi, aceitaram-no e abraçaram-no, recitando e entoando-o, penetrando e entendendo o seu sentido.

“Quando o Buddha pregou este sutra, todos os dezasseis bodhisattvas shramaneras tiveram fé nele e o aceitaram, e entre a multidão de ouvintes alguns ouve que o aceitaram e compreenderam. Mas os outros milhares de dezenas de milhares de milhões de seres viventes deram lugar à dúvida e à perplexidade.

“O Buddha pregou este sutra por um período de oitocentos Kalpas, nunca parando para descansar. Após ter pregado este sutra, entrou numa sala socegada e ficou em meditação por oitenta e quatro milhares de kalpas.

“Nesta altura os dezasseis bodhisattvas shramaneras, sabendo isso, ascenderam a um trono do Dharma e de igual modo, por um período de oitenta e quatro milhares de kalpas, pregaram largamente as distinções estabelecidas no Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa, em prol dos quatro tipos de crentes. Desta forma cada um deles salvou seres viventes iguais em número aos grãos de areia de seiscentas dezenas de milhares de milhões de nayutas de rios Ganges, instruindo-os, trazendo-lhes benefícios e alegria e fazendo-os fixar as suas mentes em anuttara-samyak-sambhodi.

“O Buddha Excelência da Grande e Universal Sabedoria, após terem passado oitenta e quatro mil kalpas, despertou do seu samadhi e aproximou-se do lugar do Dharma. Sentando-se calmamente, dirigiu-se à grande assembleia, dizendo: estes dezasseis bodhisattvas shramaneras são de um tipo muito raro de encontrar, as suas faculdades são apuradas e penetrantes, a sua sabedoria brilhante e na companhia desses Buddhas eles levaram constantemente a cabo práticas brahma, recebendo e abraçando a sabedoria Búddhica, e expondo-a aos seres viventes. Todos vocês devem assiduamente associar-se a eles e oferecer-lhes dádivas. Porquê? Porque se qualquer um de vocês, ouvintes, pratyekabuddhas ou bodhisattvas, for capaz de ter fé nos ensinamentos dos sutras pregados por estes dezasseis bodhisattvas, e os aceitar e acolher sem nunca os depreciar, será capaz de alcançar anuttara-samyak-sambhodi, a sabedoria do Tathagata.”

O Buddha, dirigindo-se aos monges, disse: “Estes dezasseis bodhisattvas desejaram constantemente expor este Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa. Os seres viventes convertidos por cada um destes bodhisattvas são iguais em número aos grãos de areia de seiscentas dezenas de milhares de milhões de nayutas de rios Ganges. Existência após existência, estes seres viventes renascem na companhia desses bodhisattvas, ouvem deles a Lei, e todos a crêem e compreendem. Por esta razão eles foram capazes de encontrar quarenta mil milhões de Buddhas, Honrados Pelo Mundo, e nunca até ao presente deixaram de o fazer.

“Monges, eu vos direi isto: estes discípulos do Buddha, estes dezasseis shramaneras, atingiram agora anuttara-samyak-sambhodi. Nas terras das dez direcções, eles estão presentemente pregando a Lei, com séquito de imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de bodhisattvas e ouvintes. Dois destes shramaneras tornaram-se Buddhas na região Leste. Um chama-se Akshobhya e vive na Terra da Alegria. O outro é chamado Monte Sumeru (Merukûta). Dois são Buddhas na região sudeste, um chamado Voz de Leão, o outro Aparência de Leão. Dois são Buddhas na região sul, um chamado Habitante do Vazio, o outro Sem Extinção). Dois são Buddhas na região Sudoeste, um chamado Aparência Imperial, o outro Aparência de Brahma. Dois são Buddhas na região Oeste, um chamado Amitayus, o outro Salvador de Todos dos sofrimentos Mundanos. Dois são Buddhas na região Noroeste, um chamado Poder Transcendental da Fragrância de Sândalo de Talamapatra, o outro Aparência de Sumeru. Dois são Buddhas na região Norte, um chamado Nuvem de Liberdade, o outro Rei da Nuvem de Liberdade. Dos Buddhas da região Nordeste, um é chamado Destruidor dos Medos Mundanos, o décimo sexto sou eu, Buddha Shakyamuni, que neste mundo Saha alcancei anuttara-samyak-sambodhi.

“Monges, quando eu e esses outros era-mos shramaneras, ensinamos e convertemos cada um seres viventes iguais em número aos grãos de areia de imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de rios Ganges. Eles ouviram a Lei e alcançaram anuttara-samyak-sambodhi. Alguns desses seres viventes estão agora na condição de ouvintes. Mas nós instruimo-los constantemente em anuttara-samyak-sambodhi, e essas pessoas devem ser capazes, através desta Lei, de entrar no Caminho do Buddhado, ainda que gradualmente. Porque digo isto? Porque a sabedoria do Tathagata é difícil de acreditar e difícil de compreender. Esses seres viventes iguais em número às areias de imensuráveis rios Ganges convertidos nessa altura sois vós, agora monges, e serão esses que, depois de me ter extinguido, em épocas vindouras serão discípulos ouvintes.

“Após a minha extinção, haverão outros discípulos que não ouvirão este sutra e não terão noção das práticas levadas a cabo pelos bidhisattvas nem as compreenderão, mas que, através das bênçãos que tenham sido capazes de obter, conceberão uma ideia de extinção e entrarão naquilo que acreditarão ser o nirvana. Nessa altura eu serei um Buddha noutra terra e serei conhecido por um outro nome. Esses discípulos, ainda que tenham concebido a ideia de extinção e entrado no que julgaram ser o nirvana, irão nessa outra terra procurar a sabedoria Búddhica e serão capazes de ouvir este sutra. Porque é apenas mediante o veículo Búddhico que é possível alcançar a extinção. Não existe nenhum outro veículo, se exceptuarmos as várias doutrinas pregadas pelo Tathagata como meios expeditos.

“Monges, se um Tathagata sabe que é chegado o tempo de entrar no nirvana, e sabe que os membros da assembleia são puros e limpos, firmes em fé e entendimento, cabais na sua compreensão da Lei da vacuidade e avançados profundamente na sua prática meditativa, então ele reúne a assembleia de bodhisattvas e ouvintes e prega-lhes este sutra. Não existem no mundo dois veículos pelos quais se pode alcançar a extinção. Existe apenas um e um só veículo Búddhico para alcançar a extinção.

“Monges, deveis entender isto. O Tathagata no exercício dos meios expeditos penetra profundamente na natureza dos seres viventes. Ele sabe como os seus monges se deleitam em doutrinas insignificantes e quão profundamente estão apegados aos cinco desejos. E por eles serem assim, quando ele expõe o nirvana, fá-lo de modo a que essas pessoas, ouvindo-o, possam prontamente acreditá-lo e aceitá-lo.

“Suponhamos que existe um troço de estrada mau com quinhentas yoganas de extensão, íngreme e difícil, selvagem e deserto, desabitado, verdadeiramente temível. E suponhamos que existe um certo número de pessoas que quer passar por essa estrada para alcançar um lugar onde existem tesouros raros. Eles têm um líder, de grande sabedoria e entendimento apurado, que está perfeitamente familiarizado com esta estrada íngreme, conhece a disposição das suas passagens e obstáculos, e que está preparado para guiar este grupo de pessoas acompanhando-as neste terreno difícil.

“O grupo liderado por ele, após ter percorrido parte do caminho, fica desencorajado e diz ao líder, “Estamos completamente exaustos e assustados. Não podemos ir mais longe. Uma vez que ainda existe uma distância tão longa por percorrer, gostaríamos de voltar agora para trás.”

“O líder, um homem de muitos expedientes, pensa para si, “Que pena eles abandonarem os muitos tesouros raros que procuravam e quererem regressar! Tendo tido este pensamento, ele recorre ao poder dos meios expeditos e, tendo eles percorrido trezentas yoganas ao longo da estrada íngreme, conjura uma cidade. Ele diz ao grupo, “Não tenham medo! Não devem voltar atrás, porque existe agora uma grande cidade onde podem parar, descansar e fazer o que vos apetecer. Se entrarem nesta cidade estarão completamente à vontade e tranquilos. Então depois, se sentirem que conseguem ir até ao local onde está o tesouro, podem deixar a cidade.”

“Nessa altura os membros do grupo, completamente exaustos, rejubilaram, exclamando perante evento tão inesperado, “Agora podemos escapar desta estrada medonha e encontrar socego e tranquilidade!” As pessoas do grupo apressaram-se a entrar na cidade onde, sentindo-se salvos das suas dificuldades, tiveram uma sensação de completo socego e tranquilidade.

“Nessa altura o líder, sabendo que as pessoas estavam já descansadas e já não tinham temor ou preocupação, desvanece a cidade fantasma e diz para o grupo, “Agora devem continuar. O lugar onde se encontra o tesouro fica perto. Essa grande cidade de há pouco era um mero fantasma que eu conjurei para que pudessem descansar.”

“Monges, o Tathagata está numa posição similar. Ele está agora a actuar como um grande líder para vós. Ele sabe que a estrada do nascimento, da morte e dos desejos mundanos é íngreme, difícil e extensa, mas tem que ser percorrida, tem de ser ultrapassada. Se os seres viventes ouvirem falar apenas do veículo Búddhico, eles não quererão ver o Buddha, não quererão chegar perto dele, mas pensarão de imediato, “O caminho do Buddhado é longo e é necessário trabalhar diligentemente e suportar dificuldades durante um longo período antes de poder alguma vez ser bem sucedido!”

“O Buddha sabe que as mentes dos seres viventes são tímidas, fracas e pobres, e assim, usando o poder dos meios expeditos, ele prega dois nirvanas por forma a providenciar um lugar de repouso ao longo do caminho. Se os seres viventes escolhem permanecer nestes dois lugares, então o Tathagata diz-lhes: “Vocês ainda não entenderam o que tem de ser feito. Este estado em que vocês escolheram permanecer está próximo da sabedoria Búddhica. Mas deveis observar e ponderar melhor. Este nirvana que alcançásteis não é o verdadeiro nirvana. O que sucedeu foi simplesmente que o Tathagata, usando o poder dos meios expeditos, tomou o único veículo Búddhico e estabelecendo distinções, pregou-o como se fosse triplo.”

“O Buddha é como o líder que, de modo a providenciar um lugar de repouso, conjura uma grande cidade e então, quando sabe que os viajantes já estão descansados, diz-lhes, “O lugar onde se encontra o tesouro está próximo. Esta cidade não é real. É meramente algo conjurado por mim.”

Nessa altura o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

O Buddha Excelência da Grande e Universal Sabedoria
sentou-se no lugar da prática por dez kalpas,
mas a Lei Búddhica não surgia diante dele
e ele não conseguia alcançar a via do Buddhado.
A assembleia de deuses celestiais, reis dragões, asuras e outros
fizeram constantemente chover sobre ele flores celestiais
como dádivas oferecidas a esse Buddha.
Os seres celestiais bateram os seus tambores
e fizeram vários tipos de música.
Um vento fragrante varria as flores murchas,
para de imediato choverem outras frescas e belas.
Quando por fim tinham passado dez pequenos kalpas,
ele foi então capaz de alcançar o Buddhado.
Os seres celestiais e as pessoas do mundo,
sentiram-se dançar em seus corações.
Os dezasseis filhos do Buddha,
na companhia dos seus seguidores,
mil dezenas de milhares de milhões,
juntaram-se e vieram ao lugar do Buddha,
tocando com as cabeças no chão,
fazendo vénias aos pés do Buddha
e pedindo-lhe que fizesse girar a roda da Lei, dizendo,
“Santo Leão, deixa que a chuva do Dharma caia sobre nós
e sobre todos os outros!”
O Honrado Pelo Mundo é difícil de encontrar,
apenas uma vez em muito tempo ele aparece.
De modo a trazer a iluminação a muitos seres
ele faz tremer e mover as regiões circundantes.
Nos mundos das dez direcções,
em quinhentas dezenas de milhares de milhões de terras,
os palácios dos reis Brahma
brilharam com uma luz nunca antes conhecida.
Quando os reis Brahma viram estes sinais
vieram à procura do lugar do Buddha
para espalharem flores como forma de oferenda,
apresentando ao mesmo tempo os seus palácios,
pedindo ao Buddha que fizesse girar a roda da Lei
e louvando-o em versos.
O Buddha sabia não ter chegado ainda o tempo,
e apesar dos pedidos, sentou-se em silêncio.
Nas outras dez direcções, nas quatro direcções intermédias,
na região superior e na região inferior,
o mesmo ocorreu,
os reis Brahma espalhando flores
apresentaram os seus palácios,
pedindo ao Buddha que girasse a roda da Lei,
dizendo, “O Honrado Pelo Mundo é difícil de encontrar.
Rogamo-te que na tua grande misericórdia e compaixão
abras os portões do doce orvalho
e faças girar a roda da Lei insuperável.”
O Honrado Pelo Mundo,
imensurável em sabedoria,
aceitou os pedidos da assembleia
e proclamou várias doutrinas,
as quatro nobres verdades,
os doze elos interligados de causalidade,
descrevendo como, desde a ignorância até à velhice e à morte,
todos os males advêm do nascimento, dizendo,
“Em relação a estas muitas faltas e penas
deveis entender que a morte
é o quinhão da humanidade.”
Quando ele expôs esta Lei,
seiscentas dezenas de milhares de milhões de triliões de seres
foram capazes de esgotar os limites dos sofrimentos,
atingindo todos o estado de arhat.
Da segunda vez que ele pregou a Lei
uma multidão igual aos grãos de areia de mil rios Ganges,
deixou de aceitar o mundo fenomenal
e foram também capazes de se tornarem arahts.
Daí que os que alcançaram o caminho
fossem imensuráveis em número –
podia ser calculado durante dez mil milhões de kalpas
sem nunca conseguir determinar o seu montante.
Nessa altura os dezasseis príncipes
deixaram as suas famílias e tornaram-se shramaneras.
Em conjunto pediram ao Buddha
que expuse-se a Lei do Grande Veículo, dizendo,
“Nós e os teus acólitos estamos
certos de alcançar a via do Buddhado.
Desejamos o olho da sabedoria de pureza incomparável
igual ao que o Honrado Pelo Mundo possui.”
O Buddha compreendeu as suas mentes imaturas
e as acções que tinham levado a cabo em existências passadas,
e empregando imensuráveis causas e condições
e várias metáforas e parábolas,
pregou-lhes os seis paramitas
e os assuntos relacionados com os poderes transcendentais,
distinguindo a verdadeira Lei,
a via praticada pelos bodhisattvas,
pregando este Sutra do Lótus
em versos tão numerosos quanto as areias do Ganges.
Quando o Buddha acabou de pregar o sutra
entrou em meditação numa sala socegada,
permanecendo no mesmo lugar
durante oitenta e quatro mil kalpas.
Os shramaneras sabiam que o Buddha
não iria emergir tão cedo da meditação
e por isso pregaram para a assembleia a sabedoria do Buddha,
cada um sentado num lugar do Dharma,
pregando este sutra do Grande Veículo.
E depois de o Buddha ter entrado em pacífica tranquilidade,
eles continuaram a proclamar,
esperando converter outros à Lei.
Os seres viventes salvos por cada um destes shramaneras
foi igual em número aos grãos de areia
de seiscentas dezenas de milhares de milhões de rios Ganges.
Após a extinção do Buddha,
essas pessoas que ouviram a Lei
moraram aqui e ali em várias terras Búddhicas,
renascendo constantemente na companhia dos seus mestres.
E estes dezasseis shramaneras,
tendo completado o caminho do Buddhado,
encontram-se no presente pelas dez direcções,
onde cada um atingiu a correcta iluminação.
As pessoas que ouviram a Lei nessa altura
estão todas em lugares onde se encontra um desses Buddhas,
e aqueles que permanecem no estado de ouvintes
estão a ser gradualmente instruídos na via do Buddhado.
Eu próprio era um dos dezasseis
e preguei no passado para vós.
Por essa razão eu empregarei um meio expedito
para vos colocar na demanda da sabedoria Búddhica;
devido a estas causas e condições
eu prego agora o Sutra do Lótus.
Eu farei com que entrem na via do Buddhado –
estai atentos e não tenhais medo!
Suponham que existe um troço de estrada íngreme e penosa,
numa região desolada e remota
com muitas feras ameaçadoras,
um lugar ermo sem água ou verdura,
temido pelas pessoas.
Um grupo de incontáveis milhares
queria passar por essa estrada íngreme,
mas a estrada era muito longa,
com quinhentas yoganas de extensão.
Havia então um líder bem informado,
dotado de sabedoria, de entendimento claro e mente determinada,
capaz de salvar pessoas de muitos perigos e dificuldades.
Os membros do grupo estavam esgotados e sem ânimo
e disseram ao seu líder,
“Estamos esgotados de fadiga
e queremos desistir e voltar para trás.”
O líder pensou então,
estas pessoas são realmente merecedoras de pena!
Porque querem voltar para trás
e perder os muitos tesouros que existem adiante?
Nessa ocasião ele pensou num meio expedito,
decidido a recorrer aos seus poderes transcendentais.
Ele conjurou uma grande cidade fortificada
e adornada de mansões,
rodeando-a de jardins e bosques,
canais de águas correntes, lagos e fontes,
com portões, altas torres e pavilhões,
todos repletos de homens e mulheres.
Logo que ele criou esta ilusão,
reconfortou o grupo, dizendo,
“Não tenhais medo – podeis entrar na cidade
e divertir-se cada um como quiser.”
Quando as pessoas entraram na cidade,
ficaram felizes, bem dispostas e tranquilas,
dizendo para si próprias que tinham sido salvas.
Quando o líder percebeu que já tinham descansado,
reuniu-os a todos e anunciou,
“Agora deveis continuar o vosso esforço –
isto não é mais que uma cidade fantasma.
Eu vi que estavam todos cansados e desanimados
e que queriam desistir a meio da viagem.
Por isso usei o poder dos meios expeditos
para conjurar esta cidade para a ocasião.
Agora deveis prosseguir diligentemente
de modo a que em conjunto possais chegar ao local do tesouro.”
Eu também faço o mesmo,
actuando como um pai para todos os seres.
Eu vejo os que buscam o caminho
ficarem desanimados a meio da viagem,
incapazes de passar além da estrada íngreme
do nascimento e da morte e dos desejos mundanos,
então, uso o poder dos meios expeditos e prego o nirvana
para lhes providenciar um local de descanso, dizendo,
“O vosso sofrimento está extinto,
vocês levaram a cabo tudo o que havia para fazer.”
Quando sei que alcançaram o nirvana
e chegaram todos ao estado de arhat,
eu reuno então a grande assembleia
e prego-lhes a verdadeira Lei.
Os Buddhas, através dos meios expeditos,
fazem distinções e pregam os três veículos,
mas existe apenas o único veículo Búddhico –
os outros dois nirvanas são pregados
para permitir um descanso ao longo do caminho.
Agora exporei a verdade para vós –
aquilo que alcançásteis não é a extinção.
Em prol da sabedoria Búddhica
deveis empregar grande esforço e diligência.
Se ganhardes a iluminação na Lei do Buddha
com a sua sabedoria e os seus dez poderes
sereis investidos dos trinta e dois sinais,
isto então sim, será a verdadeira extinção.
Os Buddhas na sua capacidade como lideres,
pregam o nirvana para prover um repouso,
mas quando sabem que já estais descansados,
eles guiam-vos até à sabedoria Búddhica.

                  

6 thoughts on “Capítulo Sete: A Parábola da Cidade Fantasma

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