Capítulo Quatro: Fé e Compreensão

Nessa ocasião, quando os homens de longeva sabedoria, Subhuti, Mahakatyayana, Mahakashyapa e Mahamaugdalyayana ouviram do Buddha a Lei nunca antes conhecida, e ouviram o Honrado Pelo Mundo profetizar que Shariputra atingiria anuttara-samyak-sambhodi, as suas mentes comoveram-se como nunca e dançaram de alegria. De imediato levantaram-se dos seus assentos, compuseram as suas vestes, descobriram o ombro direito e ajoelharam-se sobre o joelho direito. Juntando as palmas das mãos reverentemente, e com uma só mente, curvaram-se em sinal de respeito, fitando reverentemente a face do Honrado Pelo Mundo, disseram a Buddha: “Nós encabeçamos o conjunto dos monges e estamos todos velhos e decrépitos. Acreditamos que tínhamos já atingido o nirvana e que era-mos incapazes de fazer mais, por isso nunca pensamos em atingir anuttara-samyak-sambhodi.

“Passou-se muito tempo desde que o Honrado Pelo Mundo começou pela primeira vez a expor a Lei. Durante esse tempo nós sentamo-nos nos nossos lugares, os nossos corpos cansados e inertes, meditando unicamente nos conceitos de vacuidade, não-forma e não-acção. Mas quanto aos prazeres e poderes transcendentais da Lei do bodhisattva e quanto à purificação das terras Búddhicas e à salvação dos seres viventes, nisso as nossas mentes não tomaram parte. Porquê? Porque o Honrado Pelo Mundo tornou possível para nós transcender o triplo mundo e atingir a iluminação do nirvana.

“Além disso, nós somos velhos e decrépitos. Quando ouvíamos acerca de anuttara-samyak-sambhodi, que o Buddha emprega para ensinar e converter os bodhisattvas, as nossas mentes não ficavam cheias de qualquer pensamento de alegria ou aprovação. Mas agora, na presença do Buddha, nós recebemos a profecia de este ouvinte atingiria anuttara-samyak-sambhodi e as nossas mentes ficaram plenas de deleite. Ganhamos o que nunca antes tivemos. Subitamente, nós conseguimos ouvir uma Lei que é rara de encontrar, algo que nunca até aqui esperáramos, e temo-nos na conta de muito afortunados. Nós ganhamos grande bondade e beneficio, uma jóia rara e imensurável, algo inesperado que surgiu por si mesmo.

“Honrado pelo Mundo, nós gostaríamos agora de empregar uma parábola para tornar claro o que queremos dizer. Suponhamos que existia um homem, ainda novo, que tendo abandonado o seu pai, fugiu e viveu por muito tempo noutra terra, talvez por dez anos, vinte, ou mesmo cinquenta anos. Conforme envelheceu, ficou cada vez mais pobre e necessitado. Ele procurou em todas as direcções por comida e vestuário, errando cada vez mais longe até que o acaso o levou na direcção da sua terra natal.

“O pai entretanto tinha procurado o filho sem sucesso e fixou a sua residência numa certa cidade. A sua casa era muito abastada, com inúmeras riquezas e tesouros. Ouro, prata, lápis-lazuli, coral, âmbar e cristal abundavam nos seus armazéns. Tinha muitos criados, secretários, empregados, elefantes, cavalos, carruagens, bois e veados sem conta. Estava envolvido em empreendimentos lucrativos quer na sua casa quer nas redondezas, e tinha também muitos negócios com comerciantes e caixeiros viajantes.

“Nessa altura o filho pobre vagabundeava de terra em terra, passando por muitas cidades e vilas, até que por fim chegou à cidade onde o seu pai residia. O pai pensava constantemente no seu filho, mas apesar de terem decorrido mais de cinquenta anos desde a sua partida nunca falara desse assunto a ninguém. Ele apenas ponderava para si o seu coração cheio de mágoa e saudade. Ele achava-se velho e decrépito. Tinha grandes posses e fortuna, ouro, prata e tesouros raros que enchiam a transbordar os seus armazéns, mas não tinha nenhum filho, de modo que quando morresse as suas posses seriam desbaratadas e perdidas, pois não havia ninguém a quem confiá-las.

“Por esta razão ele pensava tão seriamente no seu filho. E tinha também este pensamento: se eu conseguisse encontrar o meu filho e lhe pudesse confiar confiar as minhas posses, poderia então sentir-me contente e em paz, sem mais preocupações.

“Honrado Pelo Mundo, nessa altura o filho pobre passava de um emprego para outro até que por acaso foi ter a casa do seu pai. Ele parou perante os portões, olhando de longe para o seu pai que estava num trono de leão, as suas pernas apoiadas numa banqueta de jóias, enquanto Brahmans, nobres e proprietários o rodeavam com deferência. Grinaldas de pérolas no valor de milhares adornavam o seu corpo, e servos e empregados segurando grandes leques brancos ladeavam-no perfilados ao seu serviço. Um dossel de jóias cobria-o, com bandeiras floridas penduradas, água perfumada aspergida pelo chão, pilhas de flores raras espalhadas, e objectos preciosos estavam constantemente a passar e a ser levados ou trocados. Estes eram os muitos e variados adornos, os sinais e marcas de distinção

“Quando o filho pobre viu a grandeza do poder e autoridade do seu pai, ficou cheio de medo e arrependido por ter ido àquele local. Pensou secretamente para si: deve ser algum rei, ou alguém semelhante a um rei. Este não é o tipo de lugar onde eu possa arranjar trabalho e ganhar a vida. Seria melhor ir para uma vila pobre onde, se eu trabalhar arduamente, consiga encontrar um lugar para viver e ganhar o meu alimento e comida. Se eu ficar aqui por mais tempo, posso ainda ser preso! Tendo pensado assim foi-se embora daquele local.

“Nessa altura, o homem rico, sentado no seu trono, viu o seu filho e reconheceu-o de imediato. O seu coração encheu-se de alegria e pensou: Agora tenho alguém a quem confiar os meus armazéns de riquezas! Os meus pensamentos estiveram sempre com este meu filho mas eu não tinha maneira de o ver. Agora ele apareceu subitamente, correspondendo ao que eu tinha desejado. Apesar de eu ser velho e decrépito, ainda me preocupo com o destino dos meus pertences.

“Então ele mandou um empregado ir atrás do filho o mais depressa possível e traze-lo de volta. O mensageiro correu rapidamente e alcançou-o. O filho pobre, assustado e alarmado, gritou desesperado, “Não fiz nada de mal! Porque me querem prender?” mas o mensageiro segurou-o firmemente e trouxe-o de volta

“Nessa altura o filho pensou, “Não cometi nenhum crime e ainda assim sou levado prisioneiro. Ainda vão acabar por me matar!” Estava mais assustado do que nunca e caiu no chão, desmaiando de desespero.

“O pai, vendo isto à distância, disse ao mensageiro, “Não preciso deste homem. Não o forcem a vir aqui. Espalhem água pela sua cara para que recobre os sentidos e depois não lhe digam mais nada!”

“Porque é que ele fez isso? Porque sabia que o seu filho era de modestas ambições e dificilmente aceitaria o seu poder e condição eminentes. Ele sabia muito bem que esse era o seu filho mas como meio expedito não o disse a ninguém.

“O mensageiro disse então ao filho pobre, “Vou-te libertar. És livre de ir para onde quiseres.” O filho ficou radiante, ganhando o que nunca tivera antes. Levantou-se do chão e dirigiu-se para a cidade de modo a procurar comida e roupa.

“Nessa altura o homem rico, desejando atrair o seu filho de volta, decidiu empregar um meio expedito e enviar dois homens disfarçados, homens de aspecto magro e macilento sem nenhum indício ameaçador. ”Ide procurar esse pobre homem e aproximem-se dele de forma casual. Digam-lhe que conhecem um lugar onde pode ganhar o dobro do salário habitual. Se ele concordar com a proposta, trazei-o para aqui e ponham-no a trabalhar. Se ele perguntar que tipo de trabalho lhe será destinado, digam-lhe que terá de limpar excremento e que vocês trabalharão com ele.”

“Os dois mensageiros foram de imediato procurar o herdeiro, e quando o encontraram, falaram-lhe de acordo com as instruções recebidas. Então o filho pediu um adiantamento do seu salário e foi depois com eles para ajudar na limpeza do excremento.

Quando o pai viu o seu filho, compadeceu-se e preocupou-se com ele. Dias depois, quando olhava da janela, viu o filho à distância, o seu corpo magro e macilento, sujo de excremento, imundice e impureza. O pai de imediato tirou os seus colares, as suas vestes finas e os outros adornos e vestiu roupas velhas e sujas. Espalhou sujidade no corpo, pegou num utensílio para remover excremento e adoptando modos rudes, falou para os empregados dizendo, “Continuem o vosso trabalho! Não sejam preguiçosos!” Através deste meio expedito ele foi capaz de se aproximar do seu filho.

“Mais tarde, ele falou novamente ao seu filho, dizendo, “Deves continuar neste trabalho sem nunca me deixares. Eu aumentarei o teu salário e quanto àquilo de que precisares, quer sejam utensílios, arroz, farinha, sal, vinagre e outros bens, não te deves preocupar. Eu tenho um velho criado que te pode ajudar quando precisares. Podes estar à vontade. Eu serei como um pai para ti. Porque digo isto? Porque já sou entrado em anos, mas tu és novo e robusto. Quando estás a trabalhar nunca és enganador ou preguiçoso nem dizes palavras rancorosas ou ressentidas. Não pareces ter nenhuma dessas faltas que os meus outros trabalhadores têm. De agora em diante, tu serás como meu próprio filho”. E o homem rico tratou de escolher um nome para o homem como se ele fosse seu filho.

“Nessa altura o filho pobre, apesar de se sentir encantado com este tratamento, ainda se via a si próprio como uma pessoa de condição humilde que estava ao serviço de outrem. Entretanto o homem rico manteve-o a limpar excremento nos vinte anos seguintes. Ao fim desse tempo, o filho sentia que confiavam nele e movimentava-se à sua vontade, mas continuava a viver no mesmo lugar de sempre.

“Honrado Pelo mundo, nessa altura o homem rico adoeceu e soube que não tardaria a morrer. Falou então com o seu filho dizendo, “Tenho grandes quantidades de ouro, prata e tesouros raros que enchem os meus armazéns. Deves assumir agora o controle das somas que tenho e das despesas e receitas. Porquê? Porque de agora em diante tu e eu não nos comportaremos como duas pessoas independentes. Por isso deves manter o teu bom senso e garantir que não hajam perdas ou erros.”

“Então o filho pobre, tendo recebido estas instruções, tomou a seu cargo a vigilância de todos os bens, o ouro, a prata, os tesouros raros e os vários armazéns, mas nunca pensou em apropriar-se da mais pequena soma. Continuou a viver no mesmo local de sempre, vendo-se a si mesmo como pessoa humilde e de baixa condição.

“Após ter passado algum tempo, o pai percebeu que o seu filho, pouco a pouco, ia-se tornando mais auto confiante e disposto a concretizar tarefas importantes, apesar da opinião depreciativa que tinha de si mesmo anteriormente. Verificando que o seu fim estava próximo, ordenou ao seu filho que marcasse uma reunião com o rei do país, os ministros, os nobres e os proprietários. Quando estavam todos juntos, fez o seguinte anuncio: “Senhores, deveis saber que este é meu filho de nascimento. Em tal cidade ele deixou-me e fugiu e por cinquenta anos acarretou sofrimentos e dificuldades. Tal é o seu nome original e tal é o meu nome. No passado, quando ainda vivia na minha cidade de nascimento, preocupava-me com ele e saí a procurá-lo. Algum tempo depois, subitamente, calhei de o encontrar. Este é verdadeiramente o meu filho e eu sou o seu pai. Agora, tudo o que me pertence, todos as minhas posses e fortuna devem por direito pertencer a este meu filho. Todos os assuntos de receitas e despesas ocorridos no passado são já do seu conhecimento.”

“Honrado Pelo Mundo, quando o filho pobre ouviu estas palavras do seu pai, foi invadido por uma grande alegria, tendo ganho o que nunca possuíra, e pensou para si: “Originalmente nunca tive qualquer ideia de cobiça por essas coisas. No entanto estes armazéns de tesouros vieram por si mesmos ter comigo!

“Honrado Pelo Mundo, este homem velho com as suas riquezas não é senão o Tathagata e nós somos como filhos de Buddha. O Tathagata diz-nos constantemente que somos seus filhos. Mas por causa dos três sofrimentos, Honrado Pelo Mundo, no meio do nascimento e da morte nós sofremos ansiedades ardentes, ilusões e ignorância, deleitando-nos e apegando-nos às doutrinas menores.

Mas hoje o Honrado Pelo Mundo fez-nos ponderar cuidadosamente, pôr de lado essas doutrinas, os debates impuros e frívolos.

“Fomos diligentes e esforçados nestas matérias até alcançar-mos o nirvana, o que é como o salário de um dia. Assim que o atingimos, os nossos corações encheram-se de alegria e consideramos que isso era suficiente. De imediato dissemos para nós mesmos, “Por termos sido diligentes e esforçados em relação à Lei Buddhista, ganhamos esta abertura e riqueza de entendimento.”

“Mas o Honrado Pelo Mundo, sabendo como, desde o passado, as nossas mentes estavam apegadas a desejos demeritórios e se deleitavam com doutrinas menores, perdoou-nos e tolerou-nos assim, sem tentar explicar-nos dizendo, “Vocês virão a possuir a perspicácia do Tathagata, a vossa porção do repositório de tesouros!” Em vez disso o Honrado Pelo Mundo empregou o poder dos meios expeditos, pregando para nós a sabedoria do Tathagata, de tal forma que nós pudemos escutar o Buddha e alcançar o nirvana, o que é apenas o salário de um dia. E por termos considerado isto um grande ganho, não tínhamos desejo de seguir o Grande Veículo.

“Além disso, apesar de expormos e propagarmos a sabedoria Búddhica em prol dos bodhisattvas, não aspirávamos alcançá-la. Porque digo isto? Porque o Buddha, sabendo que as nossas mentes se deleitavam nas doutrinas menores, empregou o poder dos meios expeditos para pregar de uma forma adequada para nós. Por isso nós não sabíamos que era-mos na verdade filhos de Buddha. Agora sabêmo-lo finalmente.

“Em relação à sabedoria Búddhica, o Honrado Pelo Mundo é sempre generoso. Porque digo isto? Desde tempos passados nós fomos verdadeiramente filhos de Buddha, mas deleitavamo-nos apenas nas doutrinas menores. Se tivéssemos o tipo de mente que se deleita nas doutrinas maiores, então o Buddha teria pregado a Lei do grande Veículo para nós.

“Agora neste sutra o Buddha expõe apenas o veículo único. E no passado, quando em presença dos bodhisattvas ele depreciava os ouvintes como sendo os que se compraziam na doutrina menor, o Buddha estava afinal a empregar o grande Veículo para nos ensinar e converter. Por isso dizemos que, apesar de originalmente não termos uma mente que cobiçasse tal coisa, agora o grande tesouro do Rei do Dharma chegou por si mesmo até nós. É algo que os filhos de Buddha têm o direito de adquirir, e agora eles alcançaram-no inteiramente.”

Nessa altura Mahakashyapa, desejando expor o sentido das suas palavras uma vez mais, falou em verso, dizendo:

Hoje ouvimos
a voz do ensinamento do Buddha
e dançamos de alegria,
tendo ganho o que nunca possuímos.
O Buddha declara que os ouvintes
serão capazes de atingir o Buddhado.
Este cacho de jóias insuperáveis,
veio até nós de forma imprevista.
É como o caso de um rapaz
que, ainda jovem e sem entendimento,
abandonasse o seu pai e fugisse,
indo para uma terra longínqua,
andando de um pais para outro
por mais de cinquenta anos.
O seu pai, preocupado,
procurou-o em todas as direcções
até que, cansado de procurar,
se fixou numa certa cidade.
Aí construiu uma residência
onde pudesse dar largas aos cinco desejos.
A sua casa era grande e luxuosa,
com grandes quantidades de ouro, prata,
madrepérola, ágata, pérolas, lápiz-lázuli,
elefantes, cavalos, touros,
palanquins, carruagens,
campos de cultivo, empregados
e outras pessoas em grande número.
Ele envolveu-se em negócios lucrativos
em sua casa e nas terras das redondezas,
e tinha comerciantes e vendedores ambulantes
espalhados por toda a parte.
Milhares, dezenas de milhar, milhões
rodeavam-no e prestavam-lhe reverência;
ele gozava constantemente dos favores
e considerações dos governantes.
Os oficiais e famílias poderosas
todos se juntavam prestando-lhe honrarias,
e os que por uma ou outra razão
se juntavam à sua volta eram muitos.
Essa era a sua vasta fortuna,
o seu grande poder e influência.
Mas ele estava velho e decrépito
e recordava o seu filho com mais ansiedade do que nunca,
dia e noite sem pensar em mais nada:
“Agora aproxima-se a hora da minha morte.
Mais de cinquenta anos passaram
desde que aquele rapaz tolo me abandonou.
Os meus armazéns repletos de mercadoria –
o que será feito deles?”
Nessa altura o filho pobre
andava à procura de roupa e comida,
indo de terra em terra, de país para país,
por vezes encontrando algo,
por vezes não encontrando nada,
faminto e macilento,
o seu corpo coberto de feridas e infecções.
Conforme se deslocava de lugar em lugar,
chegou à cidade onde o seu pai vivia,
mudando de um emprego para outro
até chegar à casa do seu pai.
Nessa altura, o homem rico
tinha estendido um grande dossel de jóias
dentro dos seus portões
e estava sentado no seu trono de leão,
rodeado pelos seus dependentes
e vários empregados e guardas.
Alguns estavam a contar ouro, prata
e objectos preciosos,
ou registando em livros
as entradas e saídas de dinheiro.
O filho pobre,
observando quão eminente e distinto era o seu pai,
pensou tratar-se do rei de algum país
ou alguém da mesma condição.
Alarmado e cheio de admiração,
perguntou a si mesmo porque tinha ido até ali.
Secretamente pensou para si,
se eu ficar aqui muito mais tempo
ainda acabo por ser preso
ou condenado a trabalhos forçados!
Logo que este pensamento lhe ocorreu,
fugiu daquele local,
perguntando onde haveria uma vila modesta
onde pudesse arranjar emprego.
O homem rico nessa ocasião,
sentado no seu trono de leão,
viu o seu filho à distância
e reconheceu-o sem nada dizer.
Imediatamente instruiu um mensageiro
para correr atrás dele
e o trazer de volta.
O filho pobre, gritando de terror,
caiu de aflição.
“Este homem mandou-me prender
e de certeza que me vai mandar matar!
Pensar que a minha busca por comida e vestuário
havia de me trazer a isto!”
O homem rico sabia que o seu filho
era ignorante e humilde.
“Ele nunca acreditará nas minhas palavras,
nunca acreditará que eu sou o seu pai.”
Então empregou um meio expedito,
mandando outros homens ter com o seu filho,
um só com um olho, outro débil e grosseiro,
completamente destituídos de qualquer aparência imponente,
dizendo-lhes, “Falem com ele
e digam-lhe que eu lhe darei emprego
para remover excremento e sujidade,
pagar-lhe-ei o dobro do salário habitual.”
Quando o filho pobre ouviu isto ficou satisfeito, foi com os mensageiros e trabalhou a remover excremento e sujidade e a limpar as dependências da casa.
Da sua janela o homem rico podia observar constantemente o seu filho, pensando como ele era ignorante e humilde, deleitando-se nesse trabalho menor.
Nessas alturas o homem rico punha uma roupa suja e esfarrapada, pegava num utensílio para remover excremento e ia até junto do seu filho, usando este meio expedito para se aproximar dele, encorajando-o a trabalhar diligentemente.
“Eu aumentei os teus proventos e dei-te óleo para espalhares nos pés.
Eu verei se tens comida e bebida suficiente, cama e roupa espessa e quente.”
Outras vezes falava-lhe com severidade:
“Deves trabalhar arduamente!”
ou então dizia-lhe com uma voz gentil,
”És como um filho para mim.”
O homem rico, sendo sábio,
gradualmente foi permitindo ao seu filho
entrar e sair da casa.
Após terem passado vinte anos,
ele pô-lo na gestão dos assuntos domésticos,
mostrando-lhe o seu ouro, prata,
pérolas, cristal, e as outras coisas
que eram recebidas e trocadas,
de modo a que ele ficasse ao corrente de tudo.
Apesar do filho continuar a morar fora dos portões,
dormindo num monte de palha,
vendo-se a si mesmo como sendo pobre,
pensando, ”Nada disto é meu”,
o pai sabia que as suas perspectivas se iam alargando
e tornando mais magnânimes.
Desejando doar ao filho as suas riquezas e bens,
o pai juntou os seus dependentes,
o rei do país e os ministros,
os nobres e os proprietários.
Na presença desta grande assembleia declarou,
“Este é o meu filho
que me abandonou e vagueou pelo mundo
durante cinquenta anos.
Desde que o encontrei,
passaram-se vinte anos.
Há muito tempo, em tal e tal cidade,
quando perdi o meu filho,
viajei por toda a parte à sua procura
até ter vindo aqui parar.
Tudo o que possuo,
as minhas propriedades e empregados,
eu entrego inteiramente a ele
para que faça o que entender.”
O filho pensou então que no passado ele tinha sido pobre,
humilde e ignorante,
mas agora recebera do seu pai
este enorme legado de tesouros raros,
em conjunto com as casas do seu pai
e todos os seus bens e fortuna.
Ficou cheio de grande alegria,
tendo ganho o que nunca antes possuíra.
Assim é o Buddha.
Ele sabe as nossas preferências mesquinhas,
e por isso nunca nos disse,
“Podeis atingir o Buddhado.”
Em vez disso explicou-nos
como poderíamos livrar-nos de falhas,
empreender o pequeno veículo
e sermos Discípulos Menores,
discípulos ouvintes.
Então o Buddha mandou-nos
pregar a suprema via
e explicar que aqueles que a praticam
serão aptos a atingir o Buddhado.
Nós recebemos os ensinamentos de Buddha
e em prol dos grandes bodhisattvas
utilizamos causas e condições,
várias metáforas e parábolas,
uma variedade de palavras e frases,
para pregar a via insuperável.
Quando os filhos de Buddha
recebiam de nós a Lei,
ponderavam dia e noite,
praticando-a diligentemente e com esforço.
Nessa altura o Buddha
outorgava-lhes profecias, dizendo,
“Numa existência futura
tu conseguirás atingir o Buddhado.”
Os vários Buddhas
na sua Lei do repositório secreto
estabeleceram os verdadeiros factos
unicamente em prol dos bodhisattvas;
não é para nós
que eles expõem as verdadeiras essências.
É como o caso do filho empobrecido
que foi capaz de se aproximar do seu pai.
Apesar de conhecer as posses do seu pai,
no seu coração ele não tinha qualquer intenção de se apoderar delas.
Assim, apesar de pregarmos
o tesouro do repositório da Lei do Buddha,
não procurávamos atingi-la,
e desta forma o nosso caso é semelhante.
Nós procurávamos apenas limpar o que existia em nós,
acreditando ser isso suficiente.
Nós compreendíamos apenas isto
e nada sabíamos das outras matérias.
Ainda que ouvíssemos falar
da purificação de terras Búddhicas,
de ensinar e converter os seres viventes,
não nos deleitávamos nessas coisas.
Porquê?
Porque todos os fenómenos
são uniformemente vazios, tranquilos,
sem nascimento ou extinção,
sem grandeza ou pequenez,
sem perdas, sem acção.
E quando se pondera desta forma
não se pode sentir deleite ou alegria.
Através da longa noite,
em relação à sabedoria de Buddha
nós éramos sem avidez, sem apego,
sem qualquer desejo de a possuir.
Nós acreditávamos
que em relação à Lei
nós possuíamos a derradeira.
Através da longa noite
praticávamos a Lei da vacuidade
libertando-nos do triplo mundo
e da sua carga de sofrimento e cuidado.
Nós estávamos na nossa existência final,
próximos do nirvana.
Através do ensinamento e da conversão do Buddha
ganhamos uma via que não era vã,
e assim fazendo
expiamos a nossa dívida
para com a bondade de Buddha.
Apesar de, em prol dos filhos de Buddha,
pregarmos a Lei do Bodhisattva,
incitando-os a procurar a via do Buddha,
nós nunca aspiramos a essa Lei.
Estávamos então abandonados
pelo nosso guia e mestre
porque ele observou o que ia nas nossas mentes.
Desde o princípio
ele nunca nos encorajou
ou nos falou do verdadeiro benefício.
Era como o homem rico
que sabia que as ambições do seu filho eram fracas
e que usou o poder dos meios expeditos
para suavizar e moldar a sua mente,
de forma a, mais tarde,
lhe confiar todos os seus tesouros e fortuna.
O Buddha é assim,
recorrendo a subtis linhas de acção.
Conhecendo as preferências mesquinhas de alguns,
ele usa o poder dos meios expeditos
para moldar e temperar as suas mentes,
e só então lhes ensina a grande sabedoria.
Hoje ganhamos
o que nunca possuíramos antes;
o que nunca tínhamos previamente esperado
veio até nós por si mesmo.
Nós somos como o filho pobre
que ganhou um tesouro imensurável.
Honrado Pelo Mundo,
agora ganhamos a via e o seu fruto;
através da Lei sem falhas
nós ganhamos a pura visão.
Através da longa noite
nós observamos os puros preceitos do Buddha
e hoje pela primeira vez
ganhamos o fruto, a recompensa.
Por muito tempo, na Lei do Rei do Dharma,
nós levamos a cabo práticas brahma;
agora obtivemos o estado sem falhas,
o grande e insuperável fruto.
Agora tornámo-nos verdadeiros ouvintes,
porque nós daremos voz à via do Buddha
e fá-la-emos ouvir por todos.
Agora tornámo-nos verdadeiros arhats,
porque em toda a parte
entre os seres celestiais e humanos,
demónios e Brahmas dos vários mundos,
nós merecemos receber oferendas.
O Honrado Pelo Mundo na sua grande misericórdia
faz uso de uma coisa rara,
ensinando e convertendo com piedade e compaixão,
trazendo-nos benefícios.
Em inumeráveis milhões de kalpas
quem poderá alguma vez recompensá-lo?
Ainda que lhe ofereça-mos as nossas mãos e pés,
curvando as nossas cabeças em respeitosa obediência
e apresentemos todos os tipos de ofertas,
nenhum de nós lhe poderá alguma vez pagar.
Ainda que o transportássemos no alto das nossas cabeças,
o levássemos nos nossos ombros
por kalpas numerosos como as areias do Ganges,
prestando-lhe reverência de todo o coração;
ainda que lhe levássemos comidas delicadas,
com incontáveis mantos debruados a jóias,
enxovais, vários tipos de poções e remédios;
ainda que fizéssemos tudo isto como oferenda
por kalpas numerosos como as areias do Ganges,
ainda assim não lhe poderíamos pagar.
Os Buddhas possuem
imensuráveis, ilimitados,
inimaginavelmente grandes, raramente vistos
poderes transcendentais.
Livres de falhas, livres de acção,
estes reis das doutrinas, em prol dos fracos e humildes
exercem a paciência nestas matérias;
aos comuns mortais apegados às aparências
pregam de acordo com o que é apropriado.
Em relação à Lei, os Buddhas
são capazes de exercer uma total liberdade.
Eles compreendem os vários desejos e alegrias
dos seres viventes, bem como os seus diferentes anseios e habilidades,
e podem ajustar às suas capacidades,
empregando inumeráveis metáforas
para lhes expor a Lei.
Utilizando as boas raízes
plantadas pelos seres viventes em prévias existências,
distinguindo entre aqueles cujas raízes estão maduras
e aqueles cujas raízes ainda não amadureceram,
executam vários cálculos,
discriminações e percepções,
e então tomam a via do veículo único
e de acordo com o que é apropriado,
pregam-na como se fosse tripla.

173 thoughts on “Capítulo Quatro: Fé e Compreensão

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