Capítulo Vinte e Oito: O Incentivo do Bodhisattva Universalmente Meritório (Samantabhadra)

Nessa altura o Bodhisattva Universalmente Meritório, conhecido pelos seus poderes transcendentais, dignidade e virtude, acompanhado por um imensurável, ilimitado e indescritível número de grandes bodhisattvas, chegou da região Este. As terras por onde passou tremeram e abanaram, nelas caíram chuvas de flores de lótus e soaram imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de diferentes musicas. Além disso, inúmeros seres celestiais, dragões yakshas, gandharvas, asuras, garudas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos, rodeavam-no numa grande assembleia, cada um dando mostras da sua dignidade, virtude e poderes transcendentais.

 

Quando [o Bodhisattva Universalmente Meritório] chegou ao Monte Gridhrakuta no mundo Saha, inclinou a cabeça até ao chão em obediência ao Buda Shakyamuni, deu sete voltas em seu redor da esquerda para a direita e disse ao Buda: “Honrado Pelo Mundo, quando eu estava na terra do Buda Rei Acima da Jóia da Dignidade e da Virtude (Ratnategobhyudgata), desde longe ouvi o Sutra do Lótus a ser ensinado neste mundo Saha. Na companhia desta multidão de imensuráveis, ilimitadas centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de bodhisattvas vim para o ouvir e aceitar. Rogo que o Honrado Pelo Mundo o esponha para nós. Os bons homens e boas mulheres no período após o Tathagata se ter extinguido – como poderão eles ouvir o Sutra do Lótus?”

 

O Buda disse ao Bodhisattva Universalmente Meritório: “Se bons homens ou boas mulheres reunirem as condições necessárias após o Tathagata ter entrado em extinção, então serão capazes de obter este Sutra do Lótus. Primeiro, deverão estar protegidos e mantidos em mente pelos Budas. Segundo, deverão plantar raízes de virtude. Terceiro, devem atingir o estado em que estão seguros de alcançarem a iluminação. Quarto, devem conceber a determinação de salvarem todos os seres viventes. Se os bons homens e as boas mulheres reunirem estas quatro condições, então após a extinção do Tathagata obterão seguramente este sutra.”

 

Nessa altura o Bodhisattva Universalmente Meritório disse ao Buda: “Honrado Pelo Mundo, na era malévola e corrupta dos últimos quinhentos anos, se houver alguém que aceite e promova este sutra, eu o guardarei e protegerei, libertando-o do declínio e da dor, velando para que alcance paz e tranquilidade, e garantindo que ninguém o espie e se aproveite das suas acções, nenhum demónio, filho ou filha de demónio, servo do demónio, ou possuído por demónios, nenhum yaksha, rakshasa, kumdhanda, pishacha, kritya, putana, vedata ou outro ser que atormente humanos será capaz de se aproveitar dele.

 

“Quer essa pessoa esteja parada ou a andar, se ler e recitar este sutra, então montarei o meu elefante branco real de seis presas e com a minha multidão de grandes bodhisattvas irei até onde ela estiver. Manifestar-me-ei, oferecerei esmolas, guardando-o, protegendo-o e confortando a sua mente. Farei isto porque também eu quero oferecer esmolas ao Sutra do Lótus. Se quando essa pessoa estiver sentada pensar neste sutra, nessa altura montarei o meu elefante branco real e manifestar-me-ei na sua presença. Se essa pessoa esquecer uma única frase ou verso do Sutra do Lótus, ajudá-la-ei e juntar-me-ei a ela na leitura e recitação de modo a que compreenda. Nessa altura, a pessoa que aceitar, promover, ler e recitar o Sutra do Lótus será capaz de ver o meu corpo, ficará repleta de alegria e aplicar-se-á com mais diligência do que nunca. Por me ter visto, adquirirá imediatamente samadhis e dharanis. Estes chamam-se o dharani repetido, o dharani das cem, mil, dez mil, um milhão de repetições e o dharani expedito do som do Dharma. Essa pessoa adquirirá dharanis como estes.

 

“Honrado Pelo Mundo, nessa última era, no período maléfico e corrupto dos últimos quinhentos anos, se existirem monges, monjas, leigos ou leigas que procurem, aceitem, promovam, leiam e recitem, e transcrevam este Sutra do Lótus, que queiram praticá-lo, devem fazê-lo diligente e concentradamente por um período de vinte e um dias. Ao fim desses vinte e um dias, montarei o meu elefante de seis presas e, rodeado por um número imensurável de bodhisattvas, e com este corpo que deleita todos os seres que o vêem, manifestar-me-ei na presença dessa pessoa e ensinar-lhe-ei a Lei, trazendo-lhe instrução, benefício e alegria. Dar-lhe-ei também encantamentos dharanis. Por terem adquirido esses encantamentos, nenhum ser não humano será capaz de os ferir e não serão confundidos ou levados a perder-se por nenhuma mulher. Guardá-los-ei pessoalmente em todas as ocasiões. Por isso, Honrado Pelo Mundo, espero que me permitas pronunciar estes dharanis.” Então, na presença do Buda pronunciou estes encantamentos:

 

adande dandapati dandavarte dandakushale dandasudhare
sudhare sudharapati Budapashyane sarvadharani-avartani
sarvandhashyavartani su-avartani samghaparikshani
samghanarghatani asamge samgapagate tri-adhvasamgatulya-
arate-prapty savasamgasamatikrante sarvadharmasuparikshite
sarvasattvarutakaushalyanugate simhavikridite

 

“Honrado Pelo Mundo, se algum bodhisattva for capaz de ouvir estes dharanis, ele deve compreender que tal é devido aos poderes transcendentais de Universalmente Meritório. Se quando o Sutra do Lótus for propagado pelo jambudvipa houver quem o aceite e promova, deve pensar para si mesmo: Isto é tudo devido à autoridade e poder sobrenatural de Universalmente Meritório! Aqueles que aceitarem este sutra, o memorizarem correctamente, compreenderem os seus princípios e praticarem de acordo com o que o sutra prescreve, devem saber que estão a levar a cabo as práticas do próprio Universalmente Meritório. Na presença de um imensurável e ilimitado número de Budas terão plantado profundamente boas raízes, e as mãos do Tathagata afagarão as suas cabeças.

 

“Se não fizerem mais do que copiarem o sutra, quando as suas vidas tiverem chegado ao fim renascerão no paraíso de Trayastrimsha. Nessa altura oitenta e quatro mil mulheres celestiais, tocando todos os tipos de música, irão recebê-lo. Tais pessoas usarão coroas feitas com os sete tesouros e recrear-se-ão entre essas mulheres. Quanto mais não será no caso daqueles que aceitam, promovem, lêem e recitam o sutra, que o memorizam correctamente e entendem os seus princípios; quando as vidas destas pessoas chegarem ao fim serão recebidas pelas mãos de um milhar de Budas, que os libertarão de todo o medo e os manterão a salvo de caírem nos planos negativos de existência. Imediatamente prosseguirão para o paraíso Tushita, para o lugar do bodhisattva Maitreya. O Bodhisattva Maitreya possui as trinta e duas características e está rodeado por uma multidão de grandes bodhisattvas. Tem centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de servas celestiais e estas pessoas nascerão entre elas. Esses serão os benefícios e vantagens de que usufruirão.

 

“Por isso as pessoas sábias devem concentradamente copiar o sutra ou fazer com que outros o copiem, devem aceitá-lo, promovê-lo, lê-lo e recitá-lo, memorizá-lo correctamente e praticar de acordo com o que o sutra prescreve. “Honrado pelo Mundo, empregarei os meus poderes transcendentais para guardar e proteger este sutra. Após o Tathagata ter entrado em extinção, eu farei com que seja propagado por todo o Jambudvipa e velarei para que nunca se perca ou acabe.”

 

Nessa altura, o Buda Shakyamuni disse estas palavras de louvor: “Excelente, excelente, Universalmente Meritório! És capaz de guardar e assistir este sutra e fazer com que muitos seres viventes alcancem paz, alegria e muitas vantagens. Tu adquiris-te já inconcebíveis benefícios e grande e profunda piedade e compaixão. Desde há longas eras no passado demonstraste o desejo por anuttara-samyak-sambhodi, e fizeste o voto de guardar e proteger este sutra. Empregarei os meus poderes transcendentais para guardar e proteger aqueles que aceitem e promovam o nome do Bodhisattva Universalmente Meritório.

 

“Universalmente Meritório, se houver quem aceite, promova, leia e recite este Sutra do Lótus, o memorize correctamente, o pratique e transcreva, deves saber que tais pessoas viram o Buda Shakyamuni. É como se tivessem ouvido este sutra da boca do Buda. Deves saber que tais pessoas ofereceram esmolas ao Buda Shakyamuni, deves saber que tais pessoas foram afagadas na cabeça pelo Buda Shakyamuni. Deves saber que tais pessoas foram cobertas pelo manto do Buda Shakyamuni.

 

“Elas não serão mais gananciosas nem apegadas aos prazeres mundanos, não terão gosto pelas escrituras ou sentenças dos não Budistas, não terão sequer nenhum prazer em se associarem com tais pessoas, ou com quem estiver envolvido em ocupações malévolas tais como carniceiros, criadores de porcos ou ovelhas, de galinhas ou cães, com caçadores ou com proxenetas, que ofereçam para venda os favores das mulheres. Serão honestas e rectas de mente e intenção, com uma memória correcta, e possuidoras de mérito e virtude. Não serão perturbadas pelos três venenos, nem serão perturbadas pela inveja, soberba, presunção infundada ou arrogância. Estas pessoas terão poucos desejos, serão de fácil contentamento e saberão como levar a cabo as práticas de Universalmente Meritório.

 

“Universalmente Meritório, após o Tathagata ter entrado em extinção, no último período de quinhentos anos, se vires alguém que aceite, promova, leia e recite o Sutra do Lótus, deves pensar para ti mesmo: Não tardará muito até que esta pessoa prossiga para o lugar da prática, conquiste as multidões de demónios e alcance anuttara-samyak-sambodhi. Fará girar a roda do Dharma, baterá o tambor do Dharma, fará soar a concha do Dharma e fará cair a chuva do Dharma. Merece sentar-se no trono de leão do Dharma, entre a grande assembleia de seres celestiais e humanos.

 

“Universalmente Meritório, em idades vindouras, aqueles que aceitarem, promoverem, lerem e recitarem este sutra, nunca mais serão apegados ou gananciosos por roupa, cama, comida, bebida ou outras necessidades da vida diária. Os seus anseios não serão vãos e na sua presente existência alcançarão a recompensa de uma boa fortuna. Se houver alguém que os despreze ou diminua, dizendo, “Vós sois meros idiotas! É inútil levar a cabo essas práticas – no fim não obtereis nada!”, como punição, essa pessoa nascerá cega em existência após existência. Mas se houver alguém que lhes ofereça esmolas e os louve, então nessa presente existência terão uma manifesta recompensa por esses actos.

 

“Se alguém vê uma pessoa que aceita e promove este sutra e tenta expor as faltas ou aspectos negativos dessa pessoa, quer sejam verdadeiros ou não, será nessa presente existência afligido por lepra branca. Se alguém despreza essa pessoa ou se ri dela, em existência após existência terá dentes em falta ou demasiado espaçados, lábios feios, nariz chato, mãos e pés nodosos ou deformados e olhos vesgos. O seu corpo terá um odor infecto, com chagas malignas de onde escorrerá sangue e pus, e sofrerá de líquido no ventre, falta de ar e outras doenças malignas e severas. Por isso, Universalmente Meritório, se vires uma pessoa que aceite e promova o Sutra do Lótus, deves levantar-te e saudá-lo de longe, mostrando o mesmo respeito que prestarias a um Buda.”

 

Quando este capítulo sobre O Incentivo do Bodhisattva Universalmente Meritório foi exposto, bodhisattvas imensuráveis e ilimitados como as areias do Ganges, adquiriram dharanis que lhes permitiram memorizar centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de repetições dos ensinamentos, e bodhisattvas iguais em número às partículas de pó de um universo completaram a via de Universalmente Meritório.

 

Quando o Buda expôs este sutra, Universalmente Meritório e os outros bodhisattvas, Shariputra e os outros ouvintes, em conjunto com os seres celestiais, dragões, seres humanos e não humanos – todo o grupo da grande assembleia ficaram repletos de grande alegria. Aceitando e promovendo as palavras do Buda, fizeram uma vénia em sinal de obediência e partiram.

Capítulo Vinte e Sete: Os Actos Passados do Rei Adorno Maravilhoso

Nessa altura o Buddha dirigiu-se à grande assembleia, dizendo: “Numa era longínqua, há um imensurável, ilimitado, inconcebível número de kalpas no passado, existiu um Buddha chamado Rei da Flor da Sabedoria da Constelação Som da Nuvem de Tempestade(Galadharagargitaghoshasusvaranakshatrarâgasankusumitâbhigña), Tathagata, arhat, samyak-sambuddha. A sua terra chamava-se Adorno de Luz Brilhante(Vairokanarasmipratimandita) e o seu kalpa chamava-se Alegremente Visto(Priyadarsana). Nesta era da Lei Búddhica existia um rei chamado Adorno Maravilhoso(Subhavyaha). A mulher do rei chamava-se Pura Virtude(Vimaladatta), e eles tinham dois filhos, um chamava-se Repositório Puro(Vimalagarbha) e o outro Olho Puro(Vimalanetra). Estes dois filhos possuíam grandes poderes sobrenaturais, mérito, virtude, sabedoria e durante muito tempo cultivaram a via apropriada a um Bodhisattva, levando a cabo a dana-paramita, shila-paramita, kshanti-paramita, virya-paramita, dhynana-paramita, prajna-paramita e a paramita dos meios expeditos, praticaram a piedade, a compaixão, a alegria e a indiferença, bem como os trinta e sete auxílios para a via(9). Tudo isto eles entenderam e dominaram completamente. Além disso, obtiveram os samadhis do bodhisattva, nomeadamente, o samadhi puro e os samadhis sol, lua e estrela, o samadhi constelação, o samadhi luz pura, o samadhi cor pura, o samadhi pura iluminação, o samadhi longo adorno e o samadhi da grande dignidade e virtude, eles aperfeiçoaram completamente todos estes samadhis.

“Nessa altura esse Buddha, desejando atrair e guiar o Rei Adorno Maravilhoso, e também por pensar com compaixão nos seres viventes, pregou o Sutra do Lótus. Os dois filhos do rei, Repositório Puro e Olho Puro, foram ter com sua mãe, juntaram as palmas das mãos e disseram-lhe, “Rogamos à nossa mãe que visite o lugar do Buddha Rei da Flor da Sabedoria da Constelação Som da Nuvem de Tempestade. Também nós iremos lá e, chegando próximos dele oferecer-lhe-emos esmolas e obediência. Porquê? Porque o Buddha está a pregar o Sutra do Lótus no meio da multidão de seres celestiais e humanos e é nosso dever escutá-lo e aceitá-lo.”

“A mãe anunciou aos seus filhos, “O vosso pai acredita em doutrinas não Budistas e está profundamente apegado à Lei Bramânica. Vós deveis ir ter com o vosso pai, falar-lhe acerca disto e persuadi-lo a ir convosco.”

“Repositório Puro e Olho Puro juntaram as palmas das suas mãos e disseram a sua mãe, “Nós somos filhos do Rei do Dharma, e apesar disso nascemos nesta família de ideias heréticas!”

”A mãe disse aos seus filhos, “Vós tendes razão ao falar com preocupação do vosso pai. Deveis manifestar algum poder sobrenatural para ele. Quando ele vir isso, a sua mente será decerto limpa e purificada e ele há-de deixar-nos ir até onde está o Buddha.”

“Os dois filhos, preocupados com o seu pai, elevaram-se no ar até à altura de sete árvores tala e executaram várias maravilhas sobrenaturais, andando, sentando-se e deitando-se em pleno ar; fazendo jorrar água da parte de baixo dos seus corpos, fazendo sair fogo da parte de cima dos seus corpos, manifestando corpos imensos que enchiam os céus e então tornando-se pequenos novamente, tornando-se depois outra vez enormes, desaparecendo no céu e aparecendo subitamente no chão; desaparecendo no chão como se fossem de água; andando na água como se fosse terra. Eles manifestaram todos estes vários tipos de maravilhas sobrenaturais de modo a tornarem pura a mente do seu pai, fazendo-o acreditar e compreender.”

“Nessa altura, quando o pai viu os seus filhos demonstrarem poderes sobrenaturais deste tipo, a sua mente ficou repleta de grande deleite, tal como ele nunca tinha sentido, e ele juntou as palmas das mãos, fitou os seus filhos e disse? “Quem é o vosso mestre? De quem é que vocês são discípulos?”

“Os dois filhos responderam, “Grande rei, o Buddha Rei da Flor da Sabedoria da Constelação Som da Nuvem de Tempestade está neste momento sentado no lugar do Dharma sob uma árvore bodhi de jóias, entre a multidão de seres celestiais e humanos de todo o mundo, e expõe largamente o Sutra do Lótus. Ele é o nosso mestre e nós somos seus discípulos.”

“O pai disse aos seus filhos, “Eu gostaria de ir agora ver o vosso mestre, podeis vir comigo.”

“Com isto os dois filhos desceram do ar, prosseguiram para onde se encontrava a sua mãe, juntaram as palmas das mãos e disseram-lhe, “O nosso pai já acredita e compreende, e está inteiramente capaz de conceber o desejo de anuttara-samyak-sambodhi. Nós completamos o trabalho do Buddha em prol do nosso pai. Rogamos à nossa mãe que nos permita ir ao lugar onde está o Buddha, abandonar a vida familiar e praticar a via.”

“Nessa altura os dois filhos, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falaram em verso, dizendo a sua mãe:

Rogamos à nossa mãe
que nos permita deixar a vida familiar
e tornarmo-nos shramanas.
Os Buddhas são muito difíceis de encontrar;
nós seguiremos este Buddha
para aprendermos com ele.
Rara é a flor da udumbara,
mais raro é encontrar um Buddha,
e escapar das dificuldades é igualmente difícil –
pedimos-te que nos deixes abandonar a vida familiar.

“A sua mãe disse-lhes então, “Eu permitir-vos-ei deixar a vida familiar. Porquê? Porque o Buddha é muito difícil de encontrar.”

“Os dois filhos então dirigiram-se aos seus pais, dizendo, “Excelente, pai e mãe! Pedimo-vos também que vão prontamente ao lugar onde se encontra o Buddha Rei da Flor da Sabedoria da Constelação Som da Nuvem de Tempestade, se dirijam a ele e lhe ofereçam esmolas. Porquê? Porque encontrar um Buddha é tão difícil como encontrar a flor da udumbara. Ou tão difícil como uma tartaruga com um único olho enfiar o pescoço numa tábua com um orifício a flutuar no oceano. Nós fomos abençoados com uma grande boa fortuna de vidas anteriores e assim, nascemos numa era em que podemos encontrar a Lei do Buddha. Por esta razão o nosso pai e a nossa mãe devem deixar-nos abandonar a vida de família. Porquê? Porque os Buddhas são difíceis de encontrar, e a ocasião apropriada é também difícil de encontrar.”

“Nessa altura, as oitenta e quatro mil pessoas do pavilhão das mulheres do rei Adorno Maravilhoso foram capazes de aceitar e promover o Sutra do Lótus. O bodhisattva Olho Puro já tinha há muito tempo aperfeiçoado o samadhi da flor e o bodhisattva Repositório Puro há várias centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de kalpas, tinha-se aperfeiçoado no samadhi da fuga aos reinos malignos da existência. Isto porque ele queria tornar possível a todos os seres viventes escapar dos reinos malignos. A esposa do rei adquiriu o samadhi da assembleia dos Buddhas e foi capaz de entender o repositório secreto dos Buddhas. Os seus dois filhos, tal como foi já descrito, tinham empregue o poder dos meios expeditos para melhorar e transformar o seu pai para que ele obtivesse uma mente de fé e compreensão e amor e deleite na Lei do Buddha.”

“Então, o Rei Adorno Maravilhoso, acompanhado pelo seu séquito de ministros e secretários, a sua rainha Pura Virtude e todas as residentes e servas do pavilhão das mulheres, os seus dois filhos com os seus quarenta e dois mil serviçais, foi para o lugar onde se encontrava o Buddha. Ali chegados, inclinaram as suas cabeças até ao chão em obediência aos seus pés, andaram em volta do Buddha três vezes e depois retiraram-se, ocupando um lugar na assembleia.

“Nessa altura o Buddha pregou a Lei para o bem do rei, instruindo-o e trazendo-lhe benefício e alegria. o rei estava exultante.

“Nessa altura o Rei Adorno Maravilhoso e a sua rainha tiraram dos seus pescoços colares no valor de centenas de milhares e espalharam-nos sobre o Buddha. No meio do ar os colares transformaram-se num palanquim de jóias com quatro pilares. Nesse palanquim estava uma larga almofada de jóias coberta com centenas, milhares, dezenas de milhares de mantos celestiais. Sentado com as pernas cruzadas em posição de lótus estava um Buddha que emitia uma luz brilhante.

“Nessa altura o Rei Adorno Maravilhoso pensou para si mesmo: “O corpo do Buddha é verdadeiramente raro, extraordinário em dignidade e adorno, tomando uma forma de suprema subtileza e maravilha!” Então o Buddha Rei da Flor da Sabedoria da Constelação Som da Nuvem de Tempestade falou para os quatro tipos de crentes dizendo, “Vedes este Rei Adorno Maravilhoso que está à minha frente com as palmas das mãos juntas? No seio da minha Lei este rei tornar-se-á um monge, praticando diligentemente a Lei que favorece a via do Buddha. Ele será capaz de se tornar um Buddha. O seu nome será Rei Árvore Sal, a sua terra chamar-se-á Grande Luz e o seu kalpa Rei Grande e Altivo. Este Buddha Árvore Sal terá uma multidão imensurável de bodhisattvas, bem como incontáveis ouvintes. A sua terra será nivelada e suave. Tais serão os seus benefícios.”

“O rei imediatamente entregou o seu reino ao seu irmão mais novo e ele próprio, com a sua mulher, os seus filhos e todos os seus serviçais, no seio da Lei Búddhica renunciaram à vida doméstica e praticaram a via.

“Após o rei ter deixado a vida familiar, ele aplicou-se constante e diligentemente pelo espaço de oitenta e quatro mil anos, praticando o Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa. quando este período de tempo passou, ele obteve o samadhi do adorno de todos os benefícios puros. Elevando-se no ar à altura de sete árvores tala, dirigiu-se ao Buddha dizendo: “Honrado Pelo Mundo, estes meus dois filhos levaram a cabo o trabalho do Buddha, empregando poderes transcendentais e transformações para afastar a minha mente das heresias, permitindo-me acolher-me com segurança na Lei do Buddha e fazendo com que eu visse o Honrado Pelo Mundo. Estes dois filhos foram bons amigos para mim. Eles quiseram despertar em mim as boas raízes das minhas existências passadas e enriquecer-me e beneficiar-me e por essa razão nasceram na minha casa.”

“Nessa altura o Buddha Rei da Flor da Sabedoria da Constelação Som da Nuvem de Tempestade, disse ao Rei Adorno Maravilhoso, “Assim é, assim é. É tal como disseste. Se bons homens ou boas mulheres tiverem plantado boas raízes e consequentemente, em existência após existência forem capazes de obter bons amigos, então estes bons amigos podem fazer o trabalho do Buddha, ensinando, beneficiando, deleitando e permitindo-lhes entrar em anuttara-samyak-sambodhi. Grande rei, deves compreender que um bom amigo é a grande causa e condição mediante a qual se é guiado e conduzido, e que torna possível ver o Buddha e conceber o desejo por anuttara-samyak-sambodhi. Grande rei, vês estes dois filhos? Estes dois filhos já ofereceram esmolas a Buddhas iguais em número às areias de sessenta e cinco centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de rios Ganges, aproximaram-se deles com reverência e na presença desses Buddhas aceitaram e promoveram o Sutra do Lótus, pensando com compaixão nos seres viventes que abraçam teorias heréticas e levando-os a aceitar as ideias correctas.”

“O Rei Adorno Maravilhoso desceu então do ar e disse ao Buddha, “Honrado Pelo Mundo, o Tathagata é de facto um ser raro! Devido aos seus benefícios e à sua sabedoria, o nódulo do topo da sua cabeça ilumina todos com luz brilhante. Os seus olhos são longos, largos e de cor azul escura. O tufo de cabelo entre as suas sobrancelhas, uma das suas características, é branco como uma lua de cristal. Os seus dentes são brancos, regulares, juntos e têm constantemente uma luz brilhante. Os seus lábios são vermelhos e belos como o fruto bimba.”

“Nessa altura o Rei Adorno Maravilhoso, tendo louvado desta forma as imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de benefícios, na presença do Tathagata juntou as palmas das mãos concentradamente e dirigiu-se uma vez mais ao Buddha, dizendo, “Honrado Pelo Mundo, nunca no passado se conheceu algo assim! A Lei do Tathagata é inteiramente dotada de inconcebíveis, subtis e maravilhosos benefícios. Onde os seus ensinamentos e preceitos forem observados existirá tranquilidade e sentimentos benéficos. De hoje em diante eu abandonarei as teorias heréticas e a arrogância, raiva ou qualquer outro estado mental negativo.”

“Quando acabou de dizer estas palavras, curvou-se aos pés do Buddha e partiu.”

O Buddha disse à grande assembleia: ”Qual é a vossa opinião? Será o Rei Adorno Maravilhoso desconhecido para vós? De facto ele não é senão o actual Bodhisattva Virtude da Flor. E a sua rainha Pura Virtude é o Bodhisattva Marcas do Adorno de Luz Brilhante(Vairokanarasmipratimanditarâga) que está agora na presença do Buddha. Por compaixão e piedade pelo Rei Adorno Maravilhoso e pelos seus serviçais, ele nasceu entre eles. Os filhos do Rei são os actuais Bodhisattvas Rei da Medicina e Medicina Superior.

“Estes bodhisattvas Rei da Medicina e Medicina Superior conseguiram já obter grandes benefícios como este, e na presença de imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de Buddhas plantaram numerosas raízes de virtude e adquiriram inconcebíveis benefícios. Se existirem pessoas que conheçam os nomes destes dois bodhisattvas, os seres celestiais e humanos de todo o mundo prestar-lhes-ão obediência.”

Quando o Buddha pregou este capítulo sobre os Actos Passados do Rei Adorno Maravilhoso, oitenta e quatro mil pessoas alcançaram o olho puro do Dharma, libertando-se assim da poeira e sujidade em relação aos vários fenômenos.

Capítulo Vinte e Seis: Dharani

Nessa altura o Bodhisattva Rei da Medicina levantou-se do seu lugar, descobriu o ombro direito, juntou as palmas das mãos e, fitando o Buddha, dirigiu-se a ele, dizendo, “Honrado Pelo Mundo, se existirem bons homens ou boas mulheres que aceitem e promovam o Sutra do Lótus, se o lerem e recitarem, penetrarem o seu significado ou copiarem os rolos do sutra, quanto mérito é que obterão?”

O Buddha disse a Rei da Medicina, “Se existirem bons homens ou boas mulheres que ofereçam esmolas a Buddhas iguais em número às areias de oitocentas dezenas de milhares de milhões de nayutas de rios Ganges, qual é a tua opinião? Os méritos por eles alcançados seriam seguramente muitos, não seriam?”

“Muitíssimos realmente, Honrado Pelo Mundo.”

O Buddha disse, “Se existirem bons homens ou boas mulheres que, em relação a este sutra, o aceitem e promovam, ainda que apenas quatro linhas de verso, se o lerem e recitarem, entenderem o seu princípio e o praticarem conforme o que o sutra diz, os seus benefícios serão muitos mais.”

Nessa altura o Bodhisattva Rei da Medicina disse ao Buddha, “Honrado Pelo Mundo, eu darei agora àqueles que pregam a Lei encantamentos dharani, que os guardarão e protegerão.” Então ele pronunciou estes encantamentos:

anye manye mane mamane chitte harite shame shamitavi
shante mukte muktatame same avashame sama same kshaye
akshaye akshine shante shame dharani alokabhashe-
pratyavekshani nivshte abhyantaranivishte atyantaparishuddhi
ukkule mukkule arade parade shukakashi asamasame
buddhavilokite dharmaparikshite samghanirghoshani
bhayabhayashodhani mantre mantrakshayate rute
rutakaushalye akshaye akshayavanataya abalo amanyanataya.

“Honrado Pelo Mundo, estes dharanis, estes encantamentos sobrenaturais, são pronunciados por Buddhas iguais em número às areias de sessenta e dois milhões de rios Ganges. Se alguém atacar ou ferir estes mestres da Lei, terá então atacado e ferido todos esses Buddhas!”

Nessa altura o Buddha Shakyamuni louvou o Bodhisattva Rei da Medicina, dizendo, “Excelente, excelente, Rei da Medicina! Tu dedicas a estes mestres da Lei os teus pensamentos compassivos e por isso pronuncias estes dharanis. Eles trarão grandes benefícios aos seres viventes.”

Nessa altura o Bodhisattva Dador Intrépido disse ao Buddha, “Honrado Pelo Mundo, também eu vou recitar dharanis para proteger e guardar aqueles que leiam, recitem, aceitem e promovam o Sutra do Lótus. Se um mestre da Lei adquirir estes dharanis, mesmo que yakshas, rakshasas, putanas, krityas, kumbhandas ou espíritos esfomeados o vigiem e tentem aproveitar-se dele, serão incapazes de o fazer.” Então em presença do Buddha ele recitou estes encantamentos:

jvale mahajvale ukke mukke ade adavati nritye nrityavati ittini
vittini chittini nrityani nrityakati

“Honrado Pelo Mundo, estes dharanis, estes encantamentos sobrenaturais, são pronunciados por Buddhas iguais em número às areias do Ganges. Se alguém atacar ou ferir estes mestres da Lei, terá então atacado e ferido todos esses Buddhas!”

Nessa altura o rei celestial Vaishravana, protector do mundo, disse ao Buddha, “Honrado Pelo Mundo, também eu penso com compaixão nos seres viventes e defendo e protejo estes mestres da Lei, por isso vou recitar estes dharanis.” Então ele recitou estes encantamentos:

atte natte nunatte anada nade kunadi

Honrado Pelo Mundo, com estes encantamentos sobrenaturais eu guardo e protejo os mestres da Lei. E guardarei também aqueles que promovam este sutra, garantindo que eles não sofram dano ou declínio numa área de cem yojanas.”

Nessa altura o rei celestial Defensor da Nação, que estava na assembleia com um séquito de milhares, dezenas de milhar, milhões de nayutas de gandharvas que o rodeavam e lhe prestavam reverência, avançou até ao lugar onde estava o Buddha, juntou as palmas das mãos e disse ao Buddha, Honrado Pelo Mundo, também eu empregarei dharanis, encantamentos sobrenaturais, para proteger e guardar aqueles que promovem o Sutra do Lótus.” Então recitou estes encantamentos:

agane gane gauri gandhari chandali matangi janguly vrusani
agashti

“Honrado Pelo Mundo, estes dharanis, estes encantamentos sobrenaturais, são recitados por quarenta e dois milhões de Buddhas. Se alguém atacar ou ferir os mestres da Lei, terá atacado e ferido todos estes Buddhas!”

Nessa altura estavam presentes as filhas dos demónios rakshasa, a primeira chamada Lamba, a segunda Vilamba, a terceira Dente Torto, a quarta Dente Florido, a quinta Dente Negro, a sexta Cabelo Abundante, a sétima Insaciável, a oitava Portadora do Colar, a nona Kunti e a décima Aquela que Rouba o Espírito Vital de Todos os Seres Vivos. Estas dez filhas de rakshasas, em conjunto com a Mãe da Criança Demónio, o seu filho e os seus seguidores, prosseguiram até ao local onde estava o Buddha e falaram-lhe em uníssono, dizendo, “Honrado Pelo Mundo, também nós desejamos proteger e guardar aqueles que lêem, recitam, aceitam, e promovem o Sutra do Lótus e o poupam de qualquer declínio ou deturpação. Se alguém espiar as acções destes mestres da Lei e tentar aproveitar-se deles, nós tornaremos impossíveis os seus propósitos.” Então, na presença do Buddha pronunciaram estes encantamentos:

itime itime itime atime itime nime nime nime nime nime ruhe
ruhe ruhe ruhe stahe stahe stahe stuhe shuhe

Ainda que passem sobre as nossas cabeças, nunca perturbarão os mestres da Lei! Quer sejam yakshas, pakshasas, espíritos esfomeados, putanas, krityas, vetadas, skandas(8), umarakas, apasmarakas, yakshas krityas ou humanas, ou uma febre, quer seja de um dia, de dois, três, quatro ou até sete dias, ou mesmo uma febre constante, seja na forma de um homem, de uma mulher, de um rapaz ou rapariga, ainda que apenas num sonho, nunca os perturbará!”

Então, na presença do Buddha elas falaram em verso, dizendo:

Se houver alguém que não preste atenção
aos nossos encantamentos
e perturbe e prejudique os pregadores da Lei,
as suas cabeças serão desfeitas em sete pedaços
como os ramos da árvore arjaka.
O seu crime será igual ao de alguém que mate pai e mãe,
ou de alguém que adultere o óleo
ou que engane os outros com medidas e escalas,
ou que, como Devadatta,
cause dissensões na Ordem de monges.
Se alguém cometer um crime contra os mestres da Lei
fará recair sobre si uma culpa igual a estas!”

Depois de terem recitado estes versos, as filhas de rakshasa disseram ao Buddha, “Honrado Pelo Mundo, nós usaremos os nossos próprios corpos para proteger e guardar aqueles que aceitam, lêem, recitam e praticam este sutra. Nós velaremos para que eles tenham paz e tranquilidade, livrando-os do declínio e do mal e anulando os efeitos de todas as ervas venenosas.”

O Buddha disse às filhas de rakshasas, “Excelente, excelente! Se vocês guardarem e protegerem aqueles que aceitam e promovem simplesmente o nome do Sutra do Lótus, o vosso mérito será imensurável. Quanto mais se defenderem e guardarem aqueles que o aceitam e promovem na integra, que oferecem esmolas aos rolos do sutra, flores, incenso em pó ou em pasta, colares, estandartes, dosséis, música, que queimam várias lamparinas, de manteiga, de óleo, de óleos fragrantes, de óleo da flor utpala, e que desta forma oferecem centenas de milhares de variedades de esmolas? Kunti, tu e os teus seguidores devem proteger e guardar estes mestres da Lei!”

Quando o Buddha pregou este capítulo sobre os Dharani, sessenta e duas mil pessoas alcançaram a verdade do não-nascimento.

Capítulo Vinte e Cinco: A Passagem Universal do Bodhisattva Kanzeon (Avalokitesvara)

Nessa altura, o Bodhisattva Intenção Inesgotável (Akshayamati) levantou-se do seu lugar, descobriu o ombro direito, juntou as palmas das mãos e, fitando o Buddha, disse estas palavras: “Honrado Pelo Mundo, este Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo – porque é ele chamado Contemplador dos Sons do Mundo?”

O Buddha disse ao Bodhisattva Intenção Inesgotável: “Bom homem, supõe que existem imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de seres viventes que padecem vários sofrimentos e provações. Se eles ouvirem o nome do Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo e concentradamente invocarem o seu nome, ele perceberá o som das suas vozes e serão libertados das suas provações.

Se alguém cair num grande fogo e se concentrar no nome do Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo, o fogo não o conseguirá queimar. Isto acontece devido à autoridade e aos poderes sobrenaturais deste bodhisattva. Se alguém tiver sido arrastado por uma grande cheia e chamar pelo seu nome, encontrar-se-á de imediato num lugar seco.

“Supõe que existiam cem, mil, dez mil, um milhão de seres viventes que se faziam ao mar em busca de ouro, prata, lápiz-lázuli, madrepérola, ágata, coral, âmbar, pérolas e outros tesouros. Supõe também que um vento forte arrastasse o barco para fora do seu curso e o levasse para a terra dos demónios rakshasas. Se entre essas pessoas houvesse ainda que apenas um que invocasse o nome do Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo, todas as pessoas estariam livres de problemas com os rakshasas. É por isto que esse Bodhisattva se chama Contemplador dos Sons do Mundo.

“Se uma pessoa enfrenta uma ameaça de ataque eminente deve invocar o nome do Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo, então as espadas e paus desses atacantes serão de imediato reduzidas a pedaços e ela será salva.

Ainda que yakshas e rakshasas em número suficiente para encher um universo tentassem atormentar uma pessoa, se eles ouvissem esta pessoa a invocar o nome do Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo, não seriam sequer capazes de olhar para ela com os seus olhos malignos, muito menos de lhe fazer mal.

“Supõe que num lugar cheio com todos os bandidos impiedosos do mundo, existe um guia que conduz uma caravana de mercadores carregando valiosos tesouros por uma estrada acidentada e perigosa e que alguém diz estas palavras: “Bons homens, não tenham medo! Devem concentradamente chamar o nome do Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo. Este bodhisattva pode libertar os seres viventes do medo. Se invocarem o seu nome, ficareis livres destes bandidos maldosos!”. Quando o grupo de mercadores ouve isto, levantam as suas vozes em conjunto, dizendo, “Salve o Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo! Por terem invocado o seu nome, eles estão desde logo capazes de se salvarem. Intenção Inesgotável, a autoridade e o poder sobrenatural do Bodhisattva e Mahasattva Contemplador dos Sons do Mundo são tão poderosos quanto isto!

“Se existirem seres viventes possuídos por numerosos desejos ou apegos, pensem com reverência constante no Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo e então poderão libertar-se dos seus desejos. Se eles sentirem raiva e ódio, devem pensar com reverência constante no Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo e então poderão libertar-se da sua ira. Se forem ignorantes e estúpidos, pensem com reverência constante no Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo e poderão libertar-se da estupidez.

“Intenção Inesgotável, o Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo, tal como descrevi, possui grande autoridade e poderes sobrenaturais e pode conferir muitos benefícios. Por esta razão, os seres viventes devem constantemente pensar nele.

“Se uma mulher deseja ter um filho varão, deve oferecer obediência e esmolas ao Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo e então terá um filho abençoado com mérito, virtude e sabedoria. E se ela quiser ter uma filha, ela trará todas as marcas da beleza e será alguém que no passado plantou as raízes da virtude e é amada e respeitada por muitas pessoas.

Intenção Inesgotável, o Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo tem o poder de fazer tudo isto. Se existirem seres viventes que prestem respeito e obediência ao Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo, a sua boa fortuna não será passageira ou vã. Por isso, todos os seres viventes devem aceitar e promover o nome do Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo.

“Intenção Inesgotável, supõe que existe uma pessoa que aceita e promove os nomes de tantos bodhisattvas quantos os grãos de areia existentes no rio Ganges e por toda a duração do seu corpo, oferece esmolas sob a forma de comidas e bebida, roupa, alojamento e medicamentos. Qual é a tua opinião? Ganharia esta pessoa grandes benefícios?

“Intenção Inesgotável respondeu, “Os benefícios seriam muitos, Honrado Pelo Mundo.”

O Buddha disse: “Supõe também que uma pessoa aceitava e promovia o nome do Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo e ainda que apenas uma vez lhe oferecia obediência e esmolas. A boa fortuna obtida por essas duas pessoas seria exactamente igual. Durante cem, mil, dez mil, um milhão de kalpas nunca se esgotaria nem conheceria um fim. Intenção Inesgotável, se alguém aceita e promove o nome do Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo, obterá benefícios de méritos e virtudes assim imensuráveis e ilimitadas!”

O Bodhisattva Intenção Inesgotável disse ao Buddha, “Honrado Pelo Mundo, como é que o Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo se movimenta neste mundo Saha? Como é que ele prega a Lei em prol dos seres viventes? Como é que o poder dos meios expeditos se aplica neste caso?”

O Buddha disse ao Bodhisattva Intenção Inesgotável: “Bom homem, se existirem seres viventes na terra que precisem de alguém sob a forma de um Buddha de modo a serem salvos, o Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo manifesta-se imediatamente no corpo de um Buddha e prega a Lei para eles. Se precisarem de alguém sob a forma de um pratyekabuddha para serem salvos, imediatamente ele manifesta um corpo de pratyekabuddha e prega a Lei para eles. Se precisarem de um ouvinte para serem salvos, imediatamente ele se torna um ouvinte e prega a Lei para eles. Se precisarem de um Rei Brahma para serem salvos, imediatamente ele se torna um Rei Brahma e prega a Lei para eles. Se precisarem de um Senhor Shakra para serem salvos, imediatamente ele se torna um Senhor Shakra e prega a Lei para eles. Se precisarem de um do ser celestial Liberdade para serem salvos, imediatamente ele se torna um ser celestial Liberdade e prega a Lei para eles. Se precisarem de um grande general celestial para serem salvos, imediatamente ele se torna um grande general celestial e prega a Lei para eles. Se precisarem de um Vaishravana para serem salvos, imediatamente ele se torna um Vaishravana e prega a Lei para eles. Se precisarem de um rei piedoso para serem salvos, imediatamente ele se torna um rei piedoso e prega a Lei para eles.

Se precisarem de um homem rico para serem salvos, imediatamente ele se torna um homem rico e prega a Lei para eles. Se precisarem de um proprietário para serem salvos, imediatamente ele se torna um proprietário e prega a Lei para eles. Se precisarem de um ministro para serem salvos, imediatamente ele se torna um ministro e prega a Lei para eles. Se precisarem de um Brahman para serem salvos, imediatamente ele se torna um Brahman e prega a Lei para eles. Se precisarem de um monge ou de uma monja, de um leigo ou de uma leiga para serem salvos, imediatamente ele se torna um monge ou uma monja, um leigo ou uma leiga e prega a Lei para eles. Se precisarem da mulher de um homem rico, de um proprietário, de um ministro ou de um Brahman para serem salvos, imediatamente ele se torna qualquer uma dessas mulheres e prega a Lei para eles. Se precisarem de um rapaz ou de uma rapariga para serem salvos, imediatamente ele se torna um rapaz ou uma rapariga e prega a Lei para eles. Se precisarem de um ser celestial, um dragão, um yaksha, um gandarva, um asura, um garuda, um mahoraga, um ser humano ou não humano para serem salvos, imediatamente ele se torna qualquer um desses e prega a Lei para eles. Se precisarem de um Deus Vajra para serem salvos, imediatamente ele se torna um Deus Vajra e prega a Lei para eles.

“Intenção Inesgotável, este Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo conseguiu realizar estes benefícios e, adoptando uma variedade de formas, percorre os mundos salvando os seres viventes. Por esta razão, tu e os outros deveis concentradamente oferecer dádivas ao Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo, pois ele pode dar segurança àqueles que estão em situações perigosas, adversas e difíceis. Por isso é que neste mundo Saha todos lhe chamam “Aquele Que Dá Segurança”(Abhayandada).”

O Bodhisattva Intenção Inesgotável disse ao Buddha, “Honrado Pelo Mundo, agora vou oferecer esmolas ao Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo.”

Então ele pegou no seu colar adornado com numerosas pedras preciosas, no valor de centenas de milhares de peças de ouro e apresentou-o ao bodhisattva, dizendo, “Senhor, aceita por favor este colar de preciosas jóias como oferta no Doaram.”

Nessa altura o Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo não quis aceitar a oferta.

Intenção Inesgotável falou uma vez mais ao Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo, “Senhor, por compaixão para connosco, por favor aceita este colar.”

Então o Buddha disse ao Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo, “Por compaixão para com este Bodhisattva Intenção Inesgotável e pelos quatro tipos de crentes, pelos reis celestiais, dragões, yakshas, gandharvas, asuras, garudas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos, deveis aceitar esse colar.”

Então o Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo, por compaixão para com os quatro tipos de crentes, os reis celestiais, dragões, seres humanos e não humanos e outros, aceitou o colar e, dividindo-o em duas partes, ofereceu uma parte ao Buddha Shakyamuni e a outra à torre do Buddha Muitos Tesouros.

[O Buddha disse,] intenção Inesgotável, estes são os poderes sobrenaturais exercidos livremente pelo Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo nas suas movimentações pelo mundo Saha.”

Nessa altura, o Bodhisattva Intenção Inesgotável colocou a questão em verso:

Honrado Pelo Mundo,
dotado de maravilhosas características,
pergunto-te agora uma outra vez
por que razão é este filho de Buddha chamado
Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo?

O Honrado Pelo Mundo, dotado de maravilhosas características, respondeu também em verso ao Bodhisattva Intenção Inesgotável:

Escuta as acções do Contemplador dos Sons do Mundo,
quão prontamente ele responde nas várias direcções.
O seu juramento é vasto como o oceano;
passam os kalpas mas ele
permanece além da compreensão.
Ele serviu muitos milhares de milhões de Buddhas,
afirmando o seu grande e puro voto.
Eu descrevê-lo-ei resumidamente para ti –
ouve o seu nome, observa o seu corpo,
conserva-o em mente,
não deixando passar o tempo em vão,
pois ele pode varrer as penas da existência.
Supõe que alguém concebe o desejo de te magoar
e te empurra para um grande poço de chamas.
Pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo
e o poço de chamas transformar-se-á num lago!
Se fores arrastado à deriva no vasto oceano,
ameaçado por dragões, peixes e vários demónios,
pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo,
e as ondas não te poderão afogar!
Supõe que estás no pico do Monte Sumeru
e alguém te empurra.
Pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo
e ficarás suspenso no ar como o sol!
Supõe que és perseguido por homens mal intencionados,
que te querem atirar desde uma montanha de diamante.
Pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo
e não poderão sequer destruir um dos teus cabelos!
Supõe que estás rodeado de bandidos impiedosos,
cada um brandindo uma faca para te ferir.
Pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo
e de imediato serão tomados de compaixão!
Supõe que tens problemas com as leis de um reino,
enfrentas uma punição e estás prestes a perder a vida.
Pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo
e a espada do executor quebrar-se-á em pedaços!
Supõe que estás preso com cangas e correntes,
os pés e as mãos presos com grilhões e algemas.
Pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo
e essas cadeias cairão, deixando-te livre!
Supõe que com pragas e ervas venenosas
alguém tenta fazer-te mal.
Pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo
e o mal recairá sobre o seu causador.
Supõe que encontras rakshasas malignas,
dragões venenosos e vários demónios.
Pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo
e nenhum se atreverá a fazer-te mal!
Se fores cercado por feras,
com as suas assustadoras presas e garras,
pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo
e elas fugirão a correr amedrontadas.
Se fores ameaçado por lagartos,
cobras, víboras, escorpiões,
com o seu veneno que queima como fogo,
pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo
e elas ao ouvirem a tua voz desaparecerão por si mesmas.
Se as nuvens trouxerem tempestade
e caírem relâmpagos, granizo e chuvas copiosas,
pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo
e nesse momento as nuvens dissipar-se-ão
Se os seres viventes ficarem fatigados ou em perigo,
abatidos por imensuráveis sofrimentos,
o poder do Contemplador dos Sons do Mundo
pode salva-los dos sofrimentos do mundo.
Ele é dotado de poderes transcendentais
e pratica largamente os meios expeditos da sabedoria.
Através das terras nas dez direcções,
não existe região onde ele não se manifeste.
Em muitos tipos diferentes de circunstâncias adversas,
nos reinos do inferno, dos espíritos esfomeados ou das bestas,
os sofrimentos do nascimento, da velhice e da morte –
todos estes ele limpa pouco a pouco.

[Então, Intenção Inesgotável, com o coração repleto de alegria, entoou estes versos:]

Tu que possuis o olhar verdadeiro,
o olhar puro,
o olhar da grande e abrangente sabedoria,
o olhar da piedade,
o olhar da compaixão –
constantemente te imploramos e olhamos com reverência.
A sua pura luz, livre de impureza,
é um sol de sabedoria que dissipa todas as trevas.
Ele pode extinguir o vento e o fogo da desgraça
e trazer em toda a parte luz ao mundo.
Os preceitos do seu corpo compassivo
abalam-nos como a tempestade,
a maravilha da sua mente piedosa
é como uma grande nuvem.
Ela faz chover o doce orvalho,
a chuva do Dharma,
para apagar as chamas dos desejos mundanos.
Quando estiveres preso ou aterrorizado no meio de um exército,
pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo
e o ódio em todas as suas formas será dissipado.
O Contemplador dos Sons do Mundo tem um som maravilhoso,
um som puro,
como o som de Brahma ou o som da vaga do oceano,
superior aos sons do mundo;
daí que se deva pensar nele constantemente,
sem nunca dar lugar à duvida!
Contemplador dos Sons do Mundo,
sábio puro,
para os que sofrem, em perigo de morte,
ele pode oferecer ajuda e conforto.
Dotado de todos os benefícios,
ele vê os seres viventes com olhos compassivos.
O oceano de bênçãos por ele acumulado é imensurável;
por isso se deve inclinar a cabeça perante ele!

Nessa altura o Bodhisattva Suporte da Terra (Dharanindhara) levantou-se de imediato do seu lugar, avançou e disse ao Buddha, “Honrado Pelo Mundo, se existirem seres viventes que ouçam este capítulo sobre o Bodhisattva Comtemplador dos Sons do Mundo, sobre a liberdade das suas acções, sobre a sua manifestação de uma Passagem Universal e sobre os seus poderes transcendentais, deve saber-se que os benefícios ganhos por essas pessoas não serão poucos!”

Quando o Buddha pregou este capítulo sobre a Passagem Universal, uma multidão de oitenta e quatro mil pessoas na assembleia conceberam a determinação de atingir o estado incomparável de anuttara-samyak-sambodhi.

Capítulo Vinte e Quatro: O Bodhisattva Miozon (Gadvadasgara)

Nessa altura, o Buddha Shakyamuni emitiu um raio de luz brilhante desde a protuberância [no alto da sua cabeça], um dos sinais distintivos de um grande homem, e também emitiu um raio de luz desde o tufo de cabelo branco entre as suas sobrancelhas, iluminando terras Búddhicas na direcção Leste iguais em número às areias de cento e oitenta mil milhões de nayutas de rios Ganges. Para lá destes numerosos mundos, estava uma terra chamada Adornada Com Luz Pura (Vairokanarasmipratimandita). Neste plano existencial existia um Buddha chamado Rei da Sabedoria da Constelação Pura Flor (Kamaladalavimalanakshatrarâgasankusumitâbhigña), Tathagata, merecedor de ofertas, de conhecimento recto e universal, clarividência e conduta perfeitas, bem sucedido, compreendendo o mundo, inexcedivelmente meritório, instrutor de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buddha, Honrado Pelo Mundo. Um imensurável e ilimitado número de bodhisattvas rodeava-o e prestava-lhe reverência e para todos estes ele pregava a Lei. O raio de luz desde o tufo branco do Buddha Shakyamuni iluminava toda essa terra.

Nessa altura na terra Adornada Com Luz Pura existia um bodhisattva chamado Som Maravilhoso (Gadgadasvara), que há muito havia plantado numerosas raízes de virtude, oferecendo esmolas atendendo a imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de Buddhas. Ele conseguira adquirir todos os tipos de sabedoria profunda, obtendo o samadhi Dhvagâgrakeyûra (Embrace do Estandarte Maravilhoso), o samadhi Saddharma-Pundarîka (Lótus da Verdadeira Lei), o samadhi Vimaladatta (Concedido por Vimala), Nakshatraragâvikrîdita (Exercício do Rei das Constelações, o Deus Lua), Anilambha [De Significado Incerto], Gñânamudrâ (Selo da Sabedoria), Kandrapradîpa (Luar), Sarvarutakausalya (Entendedor de Todos os Sons, que permite compreender as linguagens de todos os seres vivos), Sarvapunyasamukkaya (Compêndio de Piedade), Prasâdavatî (Donzela Favorável), Riddhivikrîdita (Exercício de Poderes Transcendentais), Gñanolkâ (Tocha da Sabedoria), Vyûharâga (Rei das Especulações), Vimalaprabhâ (Lustre Imaculado), Vimalagarbha (Puro Repositório), Apkritsna [Pertencente ao ritual místico chamado Âpokasina em Pali], Sûryâvarta (Sóis em Rotação). Ele obteve todos estes grandes samadhis iguais em número às areias de centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de rios Ganges.

Quando a luz emitida pelo Buddha Shakyamuni iluminou o seu corpo, ele imediatamente falou ao Buddha Rei da Sabedoria da Constelação Pura Flor, dizendo: “Honrado Pelo Mundo, devo viajar ao mundo Saha para prestar obediência, atender e oferecer esmolas ao Buddha Shakyamuni e para ver o Bodhisattva Manjushri, Príncipe do Dharma, o Bodhisattva Rei da Medicina, o Bodhisattva Dador Intrépido, o Bodhisattva Rei da Constelação Flor, o Bodhisattva Intenção das Práticas Superiores, o Bodhisattva Rei Adornado e o Bodhisattva Superior em Medicina.”

Nessa altura o Buddha Rei da Sabedoria da Constelação Pura Flor disse ao Bodhisattva Som Maravilhoso: “Não deves olhar com desprezo para essa terra ou pensar nela como inferior. Bom homem, o mundo Saha é acidentado, alto em alguns lugares e baixo noutros, cheio de lixo, pedras, montanhas, escória e impureza. O Buddha é de baixa estatura e os numerosos bodhisattvas são igualmente pequenos, enquanto o teu corpo tem quarenta e duas mil yojanas de altura e a minha seis milhões e oitocentos mil yojanas. O teu corpo tem uma forma perfeita, com centenas, milhares, dezenas de milhares de bênçãos e um brilho particularmente maravilhoso. Por isso, quando viajares até lá, não deves olhar com desprezo para essa terra ou pensar que o Buddha e os bodhisattvas são mesquinhos ou inferiores!”

O Bodhisattva Som Maravilhoso disse ao Buddha: “Honrado Pelo Mundo, a minha viagem até ao mundo Saha é inteiramente devida ao poder do Tathagata, um efeito produzido pelos poderes transcendentais do Tathagata, um adorno para a sabedoria e virtudes do Tathagata.”

Então o Bodhisattva Som Maravilhoso, sem se levantar do seu lugar ou sequer mexer o seu corpo, entrou em samadhi e através do poder desse samadhi, num lugar muito afastado do lugar do Dharma no Monte Gridhrakuta, criou um monte de oitenta e quatro mil flores de lótus feitos de jóias. Os seus caules eram feitos de ouro jambunada, as folhas de prata, os estames de diamantes e os cálices de jóias kimshuka.

Nessa altura Manjushri, Príncipe do Dharma, vendo as flores de lótus, falou com o Buddha dizendo: “Honrado Pelo Mundo, que causas provocaram o aparecimento destes auspiciosos sinais? Aqui estão várias dezenas de milhares de flores de lótus, os seus caules são feitos de ouro jambunada, as folhas de prata, os estames de diamantes e os cálices de jóias kimshuka!”

Nessa altura o Buddha Shakyamuni disse a Manjushri: “Este bodhisattva e mahasattva Som Maravilhoso quer partir da terra do Buddha Rei da Sabedoria da Constelação Pura Flor e, acompanhado por oitenta e quatro mil bodhisattvas, vir até ao mundo Saha visitar-me, oferecer-me esmolas e prestar-me obediência. Ele também deseja oferecer esmolas ao Sutra do Lótus e ouvi-lo.”

Manjushri disse ao Buddha: “Honrado Pelo Mundo, que boas raízes plantou este bodhisattva, que benefícios cultivou ele para poder agora exercer tão grandes poderes transcendentais? Que samadhi é que ele pratica? Peço-te que nos expliques o nome desse samadhi, pois nós gostaríamos de nos aplicar diligentemente na sua prática. Se levarmos a cabo este samadhi, seremos então capazes de observar o aspecto e tamanho deste bodhisattva e o seu porte e conduta. Pedimos ao Honrado Pelo Mundo que empregue os seus poderes transcendentais para trazer aqui esse bodhisattva de modo a que possamos vê-lo!”

Nessa altura o Buddha Shakyamuni disse a Manjushri, “O Tathagata Muitos Tesouros, que há muito entrou em extinção, manifestará a sua forma para vocês.

Então o Tathagata Muitos Tesouros disse ao bodhisattva [Som Maravilhoso], “Vem, bom homem. O Príncipe do Dharma Manjushri quer ver o teu corpo.”

Com isso, o Bodhisattva Som Maravilhoso desapareceu da sua terra e, acompanhado por oitenta e quatro mil bodhisattvas, apareceu aqui[neste mundo Saha]. As terras por onde ele passou no seu caminho estremeceram e abanaram de seis formas diferentes, e em todas elas choveram flores de lótus de jóias e centenas de milhares de instrumentos soaram por si mesmos, sem que tivessem sido tocados.

Os olhos deste bodhisattva eram tão grandes e largos quanto as folhas do lótus azul e uma centena, um milhar, dez milhares de luas conjugadas não poderiam superar a perfeição das suas faces. O seu corpo era da cor do ouro puro, adornado com imensuráveis centenas de milhares de bênçãos. A sua dignidade e virtude eram esplendidas, a sua luz brilhava intensamente, era dotado de muitas marcas especiais e o seu corpo era tão forte como Narayana.

Tomando o seu lugar no estrado feito com os sete tesouros, ele elevou-se no ar até atingir a altura de oito árvores tala. Então, com um séquito de bodhisattvas rodeando-o e prestando reverência, viajou para o monte Gridhrakuta neste mundo Saha. Quando aqui chegou desceu do estrado de sete tesouros. Trazendo um colar no valor de centenas de milhares, dirigiu-se ao lugar onde estava o Buddha Shakyamuni, inclinou a sua cabeça até ao chão, prestou obediência aos pés do Buddha e apresentou o colar, dirigindo-se ao Buddha nestes termos: “Honrado Pelo Mundo, o Buddha Rei da Sabedoria da Constelação Pura Flor deseja informar-se sobre o estado do Honrado Pelo Mundo. São poucas as suas doenças, poucas as suas preocupações? Pode deslocar-se de forma fácil e conveniente, movimentando-se de forma confortável? Estão os quatro elementos harmonizados de forma correcta em vós? Podeis suportar os afazeres mundanos? São os seres viventes fáceis de salvar? Não são eles excessivamente dominados pela ganância, ódio, estupidez, inveja, impureza e arrogância? Não estão em falta quanto à conduta filial para com os seus pais? Não são eles pouco respeitosos para com os shramanas e dados a doutrinas heterodoxas e outros males? Não têm falhas quanto ao controle das suas cinco emoções? Honrado Pelo Mundo, existem seres viventes capazes de subjugar os demónios? O Tathagata Muitos Tesouros, que há tanto tempo entrou em extinção, veio na sua torre de sete tesouros para ouvir a Lei? O Buddha também deseja perguntar se o Tathagata Muitos Tesouros está tranquilo e sem problemas, com poucas preocupações , paciente e disposto a permanecer aqui. Honrado Pelo Mundo, eu gostaria de ver o corpo do Buddha Muitos Tesouros. Rogo ao Honrado Pelo Mundo que me permita vê-lo!”

Nessa altura o Buddha Shakyamuni disse ao Buddha Muitos Tesouros, “Este bodhisattva Som Maravilhoso deseja ver-te.”

Então o Buddha Muitos Tesouros dirigiu-se a Som Maravilhoso, dizendo, “Excelente, excelente! Tu vieste até aqui por forma a poderes oferecer esmolas ao Buddha Shakyamuni, ouvir o Sutra do Lótus e ver Manjushri e os outros.”

Nessa altura o Bodhisattva Virtude da Flor(Padmasrî) disse ao Buddha, “Honrado Pelo Mundo, este bodhisattva Som Maravilhoso – que boas raízes plantou ele, que benefícios é que cultivou para possuir estes poderes transcendentais?”

O Buddha respondeu a Virtude da Flor: “Em tempos passados existiu um Buddha chamado Rei do Som das Nuvens de Trovões (Meghadundubhisvararâga), Tathagata, arhat, samyak-sambuddha. A sua terra era chamada Manifestação[ou Visão] de Todos os Buddhas(Sarvabuddhasandarsana), e o seu kalpa chamava-se Visto Alegremente (Priyadarsana). Durante doze mil anos o Bodhisattva Som Maravilhoso utilizou centenas de milhares de instrumentos musicais para presentear o Buddha Rei do Som das Nuvens de Trovões, e presenteou-o também com oitenta e quatro mil tigelas mendicantes feitas com os sete tesouros. Como recompensa por estas acções ele nasceu agora na terra do Buddha Rei da Sabedoria da Constelação Pura Flor e possui estes poderes sobrenaturais.

“Virtude da Flor, qual é a tua opinião? O bodhisattva Som Maravilhoso que nesse tempo passado compôs oferendas musicais para o Buddha Rei do Som das Nuvens de Trovões e o presenteou com esses vasos de jóias – pode ele ser desconhecido para ti? De facto, ele não é senão o bodhisattva e mahasattva Som Maravilhoso que agora está aqui!

“Virtude da Flor, este bodhisattva Som Maravilhoso já serviu e fez oferendas a um imensurável número de Buddhas. Há muito que ele plantou raízes de virtude e encontrou centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de nayutas de Buddhas iguais em número às areias do rio Ganges.

“Virtude da Flor, tu vês apenas o corpo do bodhisattva Som Maravilhoso aqui presente. Mas este bodhisattva manifesta-se através de vários corpos diferentes e prega este sutra pelo bem dos seres viventes em numerosos locais. Por vezes aparece como Rei Brahma, ou como Lord Shakra, ou como o ser celestial Liberdade, ou como um grande general celeste, ou como o Rei Celestial Vaishravana, ou como um Rei Sábio, ou como um Rei Piedoso, ou como um homem rico, ou como um proprietário, ou como um ministro, ou como um Brahman, como um monge ou uma monja, um leigo ou uma leiga, como mulher de um homem rico ou de um proprietário, de um ministro ou de um Brahman, como um rapaz ou rapariga, como um ser celestial, um dragão ou um yaksha, gandarva, asura, garuda, kimnara, mahoraga, como um ser humano ou não humano. Ele aprece com estas formas para pregar este sutra.

“Virtude da Flor, este bodhisattva Som Maravilhoso pode salvar e proteger os vários seres viventes do mundo Saha. Este bodhisattva Som Maravilhoso leva a cabo várias transformações, manifestando-se de diferentes formas neste mundo Saha e prega este sutra em prol dos seres viventes, e ainda assim os seus poderes transcendentais, as suas transformações e a sua sabedoria não sofrem dano ou diminuição. Este bodhisattva emprega vários tipos de sabedoria para iluminar este mundo Saha, fazendo com que cada um dos seres viventes obtenha a compreensão apropriada e faz o mesmo em todos os outros mundos das dez direcções que são numerosos como as areias do Ganges.

“Se for necessário tomar a forma de um ouvinte para libertar os seres, ele manifesta-se como tal para pregar a Lei. Se a forma do pratiekabuddha é a indicada para libertar os seres, ele adopta essa forma para pregar a Lei. Se a forma do bodhisattva trouxer a libertação, ele manifesta-se como um bodhisattva e prega a Lei. Se a forma de um Buddha trouxer a salvação, ele manifesta-se de imediato sob a forma de um Buddha e prega a Lei. Assim ele manifesta-se de diferentes formas, conforme o que seja apropriado para a salvação. E se for apropriado entrar em extinção para trazer a salvação ele manifesta-se como estando a entrar em extinção.

“Virtude da Flor, o bodhisattva Som Maravilhoso adquiriu grandes poderes transcendentais e o poder da sabedoria que lhe permitem fazer tudo isto!”

Nessa altura o bodhisattva Virtude da Flor disse ao Buddha, “Honrado Pelo Mundo, este bodhisattva Som Maravilhoso plantou profundamente as raízes de virtude. Honrado Pelo Mundo, qual é o samadhi que permite a este bodhisattva levar a cabo todas estas transformações e manifestações para salvar os seres viventes?

O Buddha disse ao bodhisattva Virtude da flor, “Bom homem, este samadhi chama-se Manifestando Todos os Tipos de Corpos. O Bodhisattva Som Maravilhoso, praticando este samadhi, consegue desta forma enriquecer e beneficiar imensuráveis seres viventes.”

Quando o Buddha pregou este capítulo sobre o Bodhisattva Som maravilhoso, as oitenta e quatro mil pessoas que vieram com o bodhisattva Som Maravilhoso adquiriram o samadhi que lhes permite manifestar todos os tipos de corpos, e os imensuráveis bodhisattvas deste mundo Saha também adquiriram este samadhi e dharani.

Nessa altura o bodhisattva e mahasattva Som Maravilhoso, tendo acabado de oferecer esmolas ao Buddha Shakyamuni e à torre do Buddha Muitos Tesouros, regressou à sua terra de origem. As terras que ele atravessou no seu caminho estremeceram e abanaram de seis formas diferentes, choveram flores de lótus de jóias e soaram centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de diferentes tipos de música.

Após ele ter chegado à sua terra original rodeado pelos seus oitenta e quatro mil bodhisattvas, prosseguiu para o local onde se encontrava o Buddha Rei da Sabedoria da Constelação Pura Flor e dirigiu-se ao Buddha dizendo, “Honrado Pelo Mundo, visitei o mundo Saha, enriqueci e beneficiei os seres viventes, vi o Buddha Shakyamuni e a torre do Buddha Muitos Tesouros, ofereci-lhes obediência e esmolas. Vi também o bodhisattva Manjushri, príncipe do Dharma, bem como o Bodhisattva Rei da Medicina, o Bodhisattva Obtendo o Poder do Esforço Diligente, o Bodhisattva Dador Intrépido e outros e tornei possível a estes oitenta e quatro mil bodhisattvas obterem o samadhi que lhes permite manifestarem todos os tipos de corpos.”

Quando[o Buddha] pregou este capítulo sobre as idas e vindas do Bodhisattva Som Maravilhoso, quarenta e dois mil filhos de deuses obtiveram a verdade do não-nascimento de todos os fenómenos e o Bodhisattva Virtude da Flor obteve o samadhi chamado Lótus da Verdadeira Lei.

Capítulo Vinte e Três: Os Feitos Passados do Bodhisattva Rei da Medicina (Bhaishagyarâga)

Nessa altura o bodhisattva Rei da Constelação Flor (Nakshatrararâgasankusumitâbhigña) falou ao Buddha dizendo: “Honrado Pelo Mundo, como é que o bodhisattva Rei da Medicina(Bhaishagyarâga) se movimenta no mundo Saha, ciente das muitas centenas de milhares de dificuldades que tem de enfrentar? Honrado Pelo Mundo, este bodhisattva Rei da Medicina levou a cabo centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de nayutas de difíceis e árduas práticas. Honrado Pelo Mundo, posso pedir-te que nos dês algumas explicações? Os seres celestiais, dragões, deuses, yakshas, gandarvas, asuras, garudas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos e os bodhisattvas que vieram de outras terras bem como a multidão de ouvintes, todos se deleitarão a ouvir-te.”

“Então o Buddha dirigiu-se ao bodhisattva Rei da Constelação Flor, dizendo: “Há muitos kalpas atrás, imensuráveis como as areias do Ganges, existiu um Buddha chamado Tathagata Pura e Brilhante Virtude do Sol e da Lua (Kandravimalasûryaprabhâsasrî), merecedor de ofertas, de conhecimento recto e universal, clarividência e conduta perfeitas, bem sucedido, compreendendo o mundo, inexcedivelmente meritório, instrutor de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buddha, Honrado Pelo Mundo. Este Buddha tinha oitenta milhões de grandes bodhisattvas e mahasattvas e uma multidão de grandes ouvintes igual em número às areias de setenta e dois rios Ganges. A duração da vida desse Buddha era de quarenta e dois mil kalpas, e a duração da vida dos bodhisattvas era a mesma. Na sua terra não existiam mulheres, residentes infernais, espíritos esfomeados, bestas ou asuras e nenhum tipo de adversidade. O chão era nivelado como a palma de uma mão, feito de lápiz-lázuli e adornado com árvores de jóias. Estava coberta por cortinas de jóias com bandeiras de flores de jóias penduradas; urnas de jóias e incensórios cobriam a terra por toda a parte. Havia palanques feitos com os sete tesouros, cada um com uma árvore situada à distância de um tiro com arco. Sob essas árvores de jóias sentavam-se bodhisattvas e ouvintes e em cada um dos palanques centenas de milhões de seres celestiais tocavam instrumentos celestes e ofereciam hinos de louvor ao Buddha

“Nessa altura, pelo bem do bodhisattva Alegremente Visto Por Todos os Seres(Sarvasattvapriyadarsana) e outros numerosos bodhisattvas e ouvintes, o Buddha pregou o Sutra do Lótus. Este bodhisattva Alegremente Visto Por Todos os Seres deleitava-se com árduas práticas. Sob a Lei pregada pelo Buddha Rei da Constelação Flor ele aplicou-se diligentemente e viajou por toda a parte concentrado na procura do Buddhado por um período de doze mil anos, após o que foi capaz de alcançar o samadhi em que se pode manifestar quaisquer formas físicas. Tendo ganho este samadhi, o seu coração encheu-se de grande alegria e ele pensou para si: a minha obtenção do samadhi em que se pode manifestar todas as formas físicas é inteiramente devido ao facto de ter ouvido o Sutra do Lótus. Devo agora fazer uma oferenda ao Buddha Rei da Constelação Flor e ao Sutra do Lótus!

“Imediatamente, ele entrou em samadhi e do céu choveram flores de mandarava, grandes flores de mandarava e partículas pretas de sândalo finamente moídas enchendo o céu como nuvens. Ele também fez chover incenso do sândalo que cresce nos litorais do Sul. Seis medidas deste sândalo valem tanto quanto o mundo Saha. Tudo isto ele usou como uma oferta ao Buddha.

“Quando terminou de fazer esta oferta, despertou deste samadhi e pensou para si mesmo: apesar de ter empregue os meus poderes sobrenaturais para fazer esta oferta ao Buddha, não tem o valor de uma oferta do meu próprio corpo.

“Então, ele bebeu vários perfumes, sândalo, kunduruka, turushka, prikka e aloés. Bebeu também o fragrante óleo da flor champaka e óleos de outras flores, fazendo isto por um período de doze mil anos. Ungindo o seu corpo com um óleo fragrante, apareceu perante o Buddha Pura e Brilhante Virtude do Sol e da Lua, embrulhou o seu corpo com mantos celestiais de jóias, deitou óleo fragrante sobre a sua cabeça e, recorrendo aos seus poderes transcendentais, pegou fogo ao seu corpo. O brilho que irradiou iluminou mundos iguais em número às areias de oitenta milhões de rios Ganges. Os Buddhas nestes mundos imediatamente o louvaram, dizendo: “Excelente, excelente, bom homem! Isto é verdadeira diligência. A isto é que se pode chamar uma verdadeira oferta do Dharma ao Tathagata. Mesmo que se ofereça flores, incenso, em pó ou em pasta, estandartes de sedas celestiais, dosséis, incenso do sândalo que cresce nos litorais do Sul, nada se pode comparar com isto! Mesmo que alguém ofereça os seus reinos e cidades, mulher e filhos, não poderá igualar isto! Bom homem, entre todas as oferendas, esta é a suprema. Entre todas as oferendas, esta é a mais estimada, pois oferece-se o Dharma ao Tathagata.”

“Após o bodhisattva Alegremente Visto Por Todos os Seres ter feito esta oferta do Dharma e a sua vida ter chegado ao fim, ele renasceu na terra do mesmo Buddha Pura e Brilhante Virtude do Sol e da Lua, na casa do Rei Pura Virtude(Vimaladatta). Sentado na posição de lótus, nasceu subitamente por transformação, e de imediato, em benefício do seu pai, falou em verso dizendo:

Grande Rei, deveis entender isto.
Tendo andado por um certo lugar,
obtive de imediato o samadhi que permite
a manifestação de todas as formas físicas.
Levei a cabo os meus esforços com grande diligência
e pus de parte o meu precioso corpo.

“Quando ele recitou estes versos, disse ao seu pai: “O Buddha Pura e Brilhante Virtude do Sol e da Lua está ainda presente neste tempo. Previamente eu fiz uma oferta a este Buddha e obtive o dharani que me permite compreender as palavras de todos os seres viventes. Além disso, ouvi o Sutra do Lótus com os seus oitocentos, mil, dez mil, milhões de nayutas, kankaras, vivaras, akshobhyas de versos6. Grande Rei, eu devo agora uma vez mais fazer uma oferta a este Buddha.

“Tendo dito isto, sentou-se num palanque feito com os sete tesouros, elevou-se no ar à altura de sete árvores tala e, dirigindo-se até ao local onde estava o Buddha, inclinou a sua cabeça até ao chão em reverência aos pés do Buddha, juntou os seus dez dedos e disse estes versos em louvor dos Buddhas:

O semblante tão raro e maravilhoso,
os seus raios brilhantes iluminando as dez direcções!
Já anteriormente eu fiz uma oferta
e agora uma vez mais me encontro aqui.

“Então, após ter falado estes versos, o bodhisattva Alegremente Visto Por Todos os Seres disse ao Buddha: “Honrado Pelo Mundo, está o Honrado Pelo Mundo ainda presente no mundo?”

“Ao que o Buddha Pura e Brilhante Virtude do Sol e da Lua respondeu: “Bom homem, chegou a hora do meu nirvana. Chegou a hora da extinção. Podes preparar-me um leito confortável pois esta noite ocorrerá o meu parinirvana.”

“Ele também instruiu o bodhisattva Alegremente Visto Por Todos os Seres dizendo: “Bom homem, eu tomo esta Lei dos Buddhas e confio-ta. Além disso, os bodhisattvas e grandes discípulos, bem como a Lei de anuttara-samyak-sambodhi e o mundo de milhares de variadas jóias, com as suas árvores de jóias e os palanques de jóias e os seres celestiais que o frequentam – tudo isto eu te transmito. Também te confio as relíquias do meu corpo que restem depois de eu passar à extinção. Deves distribui-las largamente e preparar oferendas para elas em toda a parte. Deves erigir muitos milhares de torres [para as acolher].”

“O Buddha Pura e Brilhante Virtude do Sol e da Lua, tendo dado estas instruções ao bodhisattva Alegremente Visto Por Todos os Seres, nessa noite, na última vigília, entrou no Nirvana.

“Nessa altura o bodhisattva Alegremente Visto Por Todos os Seres, vendo que o Buddha passara à extinção, ficou amargurado e aflito. Com o seu grande amor pelo Buddha preparou de imediato uma pira de sândalo do litoral como oferenda ao corpo do Buddha e cremou o corpo. Após o fogo se extinguir ele juntou as relíquias, preparou oitenta e quatro mil urnas de jóias e construiu oitenta e quatro mil torres, altas como os três mundos, adornadas com mastros centrais, repletos de estandartes e dosséis pendurados com imensos sinos de jóias.

“Nessa altura o bodhisattva Alegremente Visto Por Todos os Seres pensou uma vez mais para si: “Ainda que eu tenha feito estas ofertas, a minha mente não está ainda satisfeita. Devo fazer mais algumas ofertas às relíquias.

“Então ele falou aos outros bodhisattvas e grandes discípulos e aos seres celestiais, dragões, yakshas e demais membros da grande assembleia, dizendo, “Deveis prestar toda a vossa atenção. Eu vou agora fazer uma oferta às relíquias do Buddha Pura e Brilhante Virtude do Sol e da Lua.”

“Tendo dito estas palavras, imediatamente na presença dos oitenta e quatro mil torres ele queimou os seus braços como oferta, adornados com cem bênçãos, por um período de setenta e dois mil anos. Isto levou as inumeráveis multidões que procuravam tornar-se ouvintes, em conjunto com uma imensurável asamkhya de pessoas a conceber o desejo por anuttara-samyak-sambodhi, e todos eles foram capazes de alcançar o samadhi em que se pode manifestar qualquer forma física.”

“Nessa altura os bodhisattvas, seres celestiais e humanos, asuras e outros, vendo que o bodhisattva tinha destruído os seus braços, ficaram alarmados e entristecidos e disseram: “Este bodhisattva Alegremente Visto Por Todos os Seres é o nosso mestre, intruindo-nos e convertendo-nos. Agora ele queimou os braços e o seu corpo já não está completo!”

“Nessa altura, no meio da grande assembleia, o bodhisattva Alegremente Visto Por Todos os Seres fez o seguinte voto: “Eu destrui os meus braços. Estou certo de que obterei o corpo dourado de um Buddha. Se isto for verdadeiro e não falso, que os meus dois braços voltem a ser como eram!”

“Quando ele acabou de pronunciar este voto, os seus braços reapareceram por si mesmos com a forma que tinham antes. Isto aconteceu devido à sabedoria e aos muitos e profundos méritos deste bodhisattva. Nessa altura o mundo de milhares de formas foi abalado e tremeu de seis maneiras diferentes, do céu choveram flores de jóias e todos os seres celestiais e humanos ganharam o que nunca antes haviam possuído.”

O Buddha disse ao bodhisattva Rei da Constelação Flor: “O que pensais? Será este Bodhisattva Alegremente Visto Por Todos os Seres desconhecido para ti? Ele é de facto o presente bodhisattva Rei da Medicina! Ele desfez-se do seu corpo deste modo por imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de nayutas de vezes.

Rei da Constelação Flor, se alguém se tiver decidido e quiser obter anuttara-samyak-sambhodi, fariam bem em queimar um dedo da mão ou do pé como oferenda às torres votivas do Buddha. É melhor do que oferecer reinos, cidades, mulher e filhos, ou as montanhas, florestas, rios e lagos das terras de um universo, e todos os seus tesouros preciosos. Ainda que alguém enchesse três mil galáxias de mundos com os sete tesouros e os desse em oferta ao Buddha e aos grandes bodhisattvas, pratyekabuddhas e arhats, os benefícios ganhos por essa pessoa não poderiam igualar os benefícios ganhos por aceitar e promover este Sutra do Lótus, mesmo se apenas quatro linhas! Este Sutra confere os mais abundantes de todos os benefícios.

“Rei da Constelação Flor, entre ribeiros, rios e outros cursos de água, o oceano é o principal. Este Sutra do Lótus é igual, sendo o mais profundo e grandioso dos sutras pregados pelos Tathagatas. Igualmente, tal como de entre as Montanhas Sujas, as Montanhas Negras, as Pequenas Montanhas do Círculo de Ferro, as Grandes Montanhas do Círculo de Ferro, as Montanhas dos Dez Tesouros e todas as outras montanhas, o Monte Sumeru é o principal, assim é o Sutra do Lótus. Entre todos os sutras ele ocupa a mais elevada posição. E tal como entre as estrelas e afins, a Lua, filha do Sol, é a principal, assim é este Sutra Lótus. Pois entre todas as centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de tipos de sutras, ele é o mais brilhante. Tal como o Sol, filho dos Deuses, consegue banir toda a escuridão, assim este sutra é capaz de destruir a escuridão de tudo o que não é bom.

“Tal como entre os pequenos reis os reis sábios são os principais, assim este sutra é o mais honrado de entre todos os muitos sutras. Tal como o senhor Shakra é o rei entre todos os trinta e três tipos de seres celestiais, assim este sutra é o rei entre todos os sutras. Tal como o rei celestial, o grande Brahma, é o pai de todos os seres viventes, da mesma forma este sutra é o pai de todos os sábios e meritórios, os que ainda estão a aprender, os que completaram o seu aprendizado e os que se decidiram a tornar-se bodhisattvas. Tal como de entre todos os comuns mortais, o srotaapanna, sakridagamin, anagamin, os arhats e pratyekabuddhas são os principais, assim este sutra é o principal entre todos os sutras pregados por todos os Tathagatas, pregado por todos os bodhisattvas ou pregado por todos os ouvintes e pratiekabuddas, e da mesma forma este sutra é o principal entre todos os sutras. Tal como o Buddha é o rei das doutrinas, assim este sutra é o rei dos sutras.

“Rei da Constelação Flor, este sutra pode salvar todos os seres viventes. Este sutra pode levar todos os seres a libertarem-se do sofrimento e da angústia. Este sutra pode trazer grandes benefícios aos seres viventes e cumprir os seus desejos, tal como um lago límpido pode saciar todos os que têm sede. É como um fogo para quem tem frio, um manto para quem está nu. Como um grupo de mercadores encontrando um guia, uma criança encontrando a sua mãe, alguém encontrando um barco para atravessar o rio, um homem doente encontrando um médico, alguém no escuro que encontra uma lanterna, um pobre encontrando um tesouro, as pessoas encontrando um governante, um mercador viajante que encontra o seu caminho para o mar. É como uma tocha que dissipa a escuridão, como tudo isto é o Sutra do Lótus. Pode levar os seres a libertarem-se de toda a aflição, doença e dor. Pode abrir todas as cadeias do nascimento e da morte.

Se uma pessoa é capaz de ouvir este sutra, se o copia ou faz com que outros o copiem, os benefícios que obtém dessa forma são tais que mesmo a sabedoria do Buddha nunca poderá acabar de calcular a sua extensão. Se alguém copia este sutra e usa flores, incenso em pó ou em pasta, colares, estandartes, dosséis, mantos, vários tipos de lâmpadas, tais como lâmpadas de manteiga, de óleo, lâmpadas com vários óleos fragrantes, com óleo de chanpaka ou de navamalika para fazer ofertas a este sutra, os benefícios que adquire serão igualmente imensuráveis.

“Constellation King Flower, se houver uma pessoa que ouça este capítulo acerca dos feitos passados do Bodhisattva Rei da Medicina, também ele obterá imensuráveis e ilimitados benefícios. Se houver uma mulher que ouça este capítulo acerca dos feitos passados do Bodhisattva Rei da Medicina e seja capaz de o aceitar e promover, essa será a sua última encarnação como mulher e ela não voltará a nascer sob essa forma.

“Se no último período de quinhentos anos após o Tathagata ter entrado em extinção existir uma mulher que ouça este sutra e leve a cabo as práticas que este sutra prescreve, quando a sua vida aqui na terra chegar ao fim, ela irá imediatamente para o mundo Paz e Deleite(Sukhâvatî) onde reside o Buddha Amitayus rodeado por uma assembleia de grandes bodhisattvas e aí nascerá num assento de jóias no centro de uma flor de lótus. Ele7 não mais conhecerá os tormentos da cobiça, desejo, raiva, estupidez ou ignorância, ou os tormentos derivados da arrogância, inveja ou outras impurezas. Obterá os poderes transcendentais de um bodhisattva e perceberá a verdade do não nascimento de todos os fenómenos. Tendo obtido esta verdade, a sua faculdade da visão será clara e pura, e com esta visão clara e pura ele verá Buddhas e Tathagatas iguais em número às areias de setenta e dois mil milhões de nayutas de rios Ganges.

“Nessa altura juntar-se-ão a ele Buddhas dizendo palavras de louvor: “Excelente, excelente bom homem! Sob os auspícios da Lei do Buddha Shakyamuni foste capaz de aceitar, promover, ler, recitar, e ponderar este sutra e foste capaz de o pregar para outros. A boa fortuna que obtives-te desta forma é imensurável e ilimitada. Não pode ser queimada pelo fogo ou apagada pela água. Os teus benefícios são tais que um milhar de Buddhas falando em conjunto não poderiam acabar de os descrever. Agora foste capaz de destruir todos os demónios e ladrões, de aniquilar o exército do nascimento e da morte e todos os outros que trazem inimizades ou malícia foram igualmente afastados.

“Bom homem, uma centena, um milhar de Buddhas empregará os seus poderes transcendentais para em conjunto te guardarem e protegerem. Entre os seres celestiais e humanos de todos os mundos, não existirá nenhum como tu. Com a única excepção do Tathagata, não existirá ninguém entre os ouvintes, pratyekabuddhas ou bodhisattvas capaz de te igualar em sabedoria e habilidade na meditação!”

“Rei da Constelação Flor, tais serão os benefícios e o poder da sabedoria adquiridos por este bodhisattva.

“Se existir alguém, que ao ouvir este capítulo sobre os actos passados do Bodhisattva Rei da Medicina, seja capaz de o receber com alegria e louvar a sua excelência, então nesta presente existência a boca dessa pessoa exalará constantemente a fragrância do lótus azul e os poros do seu corpo exalarão constantemente a fragrância do sândalo. Os seus benefícios serão como acima se decreve.

“Por esta razão, Rei da Constelação Flor, eu confio-te este capítulo sobre os actos passados do Bodhisattva Rei da Medicina. Após eu ter passado à extinção, no último período de quinhentos anos, deves espalhá-lo largamente através de Jambudvipa e nunca permitir que seja suprimido, nem deves permitir que demónios malignos, pessoas diabólicas, seres celestiais, dragões, yakshas ou demónios kumbhanda o corrompam ou destruam!

“Rei da Constelação Flor, deves usar os teus poderes transcendentais para guardar e proteger este sutra. Porquê? Porque este sutra oferece um bom medicamento para os males das pessoas de Jambudvipa. Se alguém que tenha uma doença for capaz de ouvir este sutra, a sua doença será curada e essa pessoa não conhecerá a velhice ou a morte.

“Rei da Constelação Flor, se vires alguém que aceite e promova este sutra, deves pegar em flores de lótus azuis, polvilhá-las com incenso e espalhá-las sobre essa pessoa como oferenda. E quando tiveres feito isso, deves pensar para ti: Não tardará muito, esta pessoa colherá ervas para fazer um assento no lugar da prática e conquistará os exércitos de Mara. Então fará soar a concha da Lei, baterá o tambor da grande Lei e libertará todos os seres viventes da velhice, da doença e da morte!

“Por esta razão quando aqueles que procuram a via do Buddha virem alguém que aceita e promove este sutra, devem aproximar-se com este tipo de respeito e reverência.”

Quando o Buddha pregou este capítulo sobre os actos passados do Bodhisattva Rei da Medicina, oitenta e quatro mil bodhisattvas obtiveram o darhani que lhes permite compreender as palavras de todos os seres viventes. O Tathagata Muitos Tesouros no interior da sua torre do tesouro louvou o bodhisattva Rei da Constelação Flor, dizendo: “Excelente, excelente, Rei da Constelação Flor. Conseguiste adquirir inconcebíveis benefícios e assim foste capaz de questionar o Buddha Shakyamuni acerca deste assunto, beneficiando um número imensurável de seres viventes.”

Capítulo Vinte e Dois: Transmissão

Nessa altura o Buddha Shakyamuni levantou-se do lugar do Dharma e, manifestando os seus grandes poderes sobrenaturais, com a sua mão direita afagou as cabeças dos incontáveis bodhisattvas e mahasattvas e disse estas palavras: “Durante imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de ashamkyas de kalpas eu pratiquei esta Lei difícil de obter, a Lei de anuttara-samyak-sambodhi. Agora eu vou confiá-la a vocês. Deveis concentradamente propagar esta Lei por toda a parte, fazendo com que os seus benefícios se espalhem largamente.

Três vezes ele afagou a cabeça dos bodhisattvas e mahasattvas, dizendo estas palavras: “Durante imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de ashamkyas de kalpas eu preguei esta Lei difícil de obter, a lei de anuttara-samyak-sambodhi. Agora eu a confio a vocês. Deveis aceitá-la, promovê-la, recitá-la e propagar largamente esta Lei, fazendo com que todos os seres viventes, em toda a parte, a escutem e compreendam. Porquê? Porque o Tathagata tem grande piedade e compaixão. Ele de modo algum é avaro ou invejoso nem tem qualquer receio. Ele é capaz de conferir aos seres viventes a sabedoria do Buddha, a sabedoria do Tathagata, a sabedoria que vem por si mesma. O Tathagata é um grande rio de dádivas para todos os seres viventes. Cabe a vós estudar esta Lei do Tathagata. Não deveis ser avarentos ou invejosos.

“Em eras vindouras, se existirem bons homens e boas mulheres que tenham fé na sabedoria do Tathagata, deveis pregar e expor o Sutra do Lótus para eles, de modo a que outros o possam ouvir e compreender, pois desta forma podeis fazê-los ganhar a sabedoria do Buddha. Se existirem seres viventes que não o acreditem nem aceitem, deveis usar uma das outras profundas doutrinas do Tathagata para os ensinar, beneficiar e alegrar. Se fizerdes tudo isto tereis então pago a dívida de gratidão que deveis ao Buddha.”

Quando os bodhisattvas e mahasattvas ouviram o Buddha dizer estas palavras, experimentaram todos uma grande alegria que encheu os seus corpos. Com ainda mais reverência do que anteriormente, curvaram os seus corpos, inclinaram as suas cabeças, juntaram as palmas das mãos e, fitando o Buddha, elevaram as suas vozes em uníssono, dizendo: “Nós levaremos a cabo respeitosamente todas estas tarefas tal como o Honrado Pelo Mundo ordenou. Rogamos ao Honrado Pelo Mundo que não tenha preocupações quanto a este assunto!”

A multidão de bodhisattvas e mahasattvas repetiram estas palavras três vezes, elevando as suas vozes em uníssono e dizendo: “Nós levaremos a cabo respeitosamente todas estas tarefas tal como o Honrado Pelo Mundo ordenou. Rogamos ao Honrado Pelo Mundo que não tenha preocupações quanto a este assunto!”

Nessa altura o Buddha Shakyamuni fez os Buddhas que eram emanações do seu corpo e que tinham vindo das dez direcções voltarem cada um para a sua terra de origem, dizendo: “Cada um destes Buddhas pode proceder segundo a sua vontade. A torre do Buddha Muitos Tesouros pode também regressar à sua anterior posição.”

Quando ele disse estas palavras, os imensuráveis Buddhas emanações das dez direcções que estavam sentados em tronos de leão sob as árvores de jóias, bem como o Buddha Muitos Tesouros, Práticas Superiores e os outros da grande multidão de ilimitadas ashamkyas de bodhisattvas, Shariputra e os outros ouvintes, os quatro tipos de crentes, os seres celestiais e humanos, asuras e outros em todos os mundos, ouvindo o que o Buddha dissera, ficaram repletos de grande alegria.

Capítulo Vinte e um: Os Poderes Místicos do Tathagata

Nessa altura os bodhisattvas e mahasattvas que haviam emergido da terra, numerosos como as partículas de pó de um milhar de mundos, todos na presença do Buddha, juntaram as palmas das mãos concentradamente, e fitaram o rosto do Honrado Pelo Mundo com reverência, dizendo assim ao Buddha: “Honrado Pelo Mundo, após o Buddha entrar em extinção, nas terras onde estão presentes as emanações do Honrado Pelo Mundo, e no lugar em que o Buddha se extinguiu, nós pregaremos largamente este sutra. Porquê? Porque queremos ganhar esta grande Lei, verdadeira e pura, aceitá-la, promovê-la, lê-la, recitá-la, explicá-la, pregá-la, transcrevê-la e oferecer-lhe esmolas.”

Nessa altura o Honrado Pelo Mundo, na presença de Manjushri e das imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de outros bodhisattvas e mahasattvas que desde há muito residiam no mundo Saha, bem como dos monges, monjas, leigas, leigos, seres celestiais, dragões, yakshas, gandharvas, asuras, garudas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos – perante todos estes ele expôs os seus poderes sobrenaturais. Ele estendeu a sua longa língua para cima até alcançar o paraíso Brahma, e de todos os seus poros emitiu imensuráveis, incontáveis raios de luz que iluminaram todos os mundos pelas dez direcções.

Os outros Buddhas, sentados em tronos de leão sob as numerosas árvores de jóias, fizeram o mesmo, estendendo as suas longas línguas e emitindo imensuráveis raios de luz. Quando Shakyamuni e os outros Buddhas sob as árvores de jóias expuseram assim os seus poderes sobrenaturais, fizeram-no durante um período de cem mil anos, após o que recolheram de novo as suas longas línguas, tossiram em uníssono e em conjunto estalaram os dedos. O som produzido por estas duas acções encheu todas as terras Búddhicas nas dez direcções, e a terra em todas elas tremeu de seis modos diferentes.

Todos os seres viventes que aí habitavam, os seres celestiais, dragões, yakshas, gandarvas, asuras, garudas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos, graças aos poderes sobrenaturais dos Buddhas, viram neste mundo Saha imensuráveis, ilimitadas centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de Buddhas sentados em tronos de leão sob as numerosas árvores de jóias, e viram também o Buddha Shakyamuni e o Tathagata Muitos Tesouros sentados juntos num trono de leão na torre do tesouro. Além disso, viram imensuráveis, ilimitadas centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de bodhisattvas e mahasattvas e os quatro tipos de crentes que reverentemente rodeavam o Buddha Shakyamuni.

Quando viram estas coisas, ficaram repletos de grande alegria, tendo ganho o que nunca haviam possuído antes. Então os seres celestiais em pleno ar gritaram em altas vozes, dizendo: “Para lá destas imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de ashamkyas de mundos existe um mundo chamada Saha, e nele um Buddha chamado Shakyamuni. Está agora, em prol dos bodhisattvas e mahasattvas, a pregar o sutra do Grande Veículo chamado Lótus da Lei Maravilhosa, uma Lei destinada a instruir os bodhisattvas, uma Lei que é guardada e mantida em mente pelos Buddhas. Deveis responder com alegria do fundo dos vossos corações, e também prestar obediência e oferecer esmolas ao Buddha Shakyamuni!”

Quando os vários seres viventes ouviram as vozes no céu, juntaram as palmas das mãos, fitaram o mundo Saha e disseram estas palavras: “Salve, Buddha Shakyamuni! Salve, Buddha Shakyamuni!”

Então pegaram em diferentes tipos de flores, incenso, colares, bandeiras e dosséis, bem como em ornamentos, jóias raras e outros artigos maravilhosos com que se adornavam, e espalharam-nos para longe na direcção do mundo Saha. Os objectos assim espalhados vieram das dez direcções como nuvens que se juntam. Então, transformaram-se numa cortina de jóias que cobriu completamente a área onde se encontravam os Buddhas. Nessa altura os mundos nas dez direcções estavam abertos de modo que as passagens de uns para os outros estavam abertas e eles eram como uma única terra Búddhica.

Nessa altura o Buddha falou a Práticas Superiores(Visishtakâritra) e aos outros na grande assembleia de bodhisattvas, dizendo: “Os poderes sobrenaturais dos Buddhas, como viram, são imensuráveis, ilimitados, inconcebíveis. Se no processo de confiar este sutra a outros eu empregasse estes poderes sobrenaturais durante imensuráveis, ilimitadas centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de ashamkyas de kalpas para descrever os benefícios deste sutra, nunca poderia acabar de fazê-lo. Em resumo, todas as doutrinas possuídas pelo Tathagata, o repositório de todas as essências secretas do Tathagata – tudo isto é proclamado, revelado e claramente exposto neste sutra.

Por esta razão, após o Tathagata ter entrado em extinção, deveis concentradamente aceitar, promover, ler, recitar, explicar, pregar, transcrever e praticar segundo o que está determinado. Em qualquer das várias terras, onde quer que haja quem aceite, promova, leia, recite, explique, pregue, transcreva e pratique segundo o que está determinado, ou onde quer os rolos dos sutras sejam preservados, quer seja num jardim, numa floresta, sob uma árvore, em aposentos de monges, nas casas dos leigos de manto branco, em palácios ou em vales montanhosos ou em vastos desertos, em todos estes lugares devem ser erigidas torres e oferecidas esmolas. Porquê? Porque deveis compreender que eles são locais de prática religiosa. Nesses locais os Buddhas alcançaram anuttara-samyak-sambodhi, nesses locais os Buddhas giraram a roda da Lei, nesses locais os Buddhas entraram no parinirvana.”

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Os Buddhas, salvadores do mundo,
detém grandes poderes transcendentais,
e por forma a agradarem aos seres viventes
fazem uso dos seus imensuráveis poderes sobrenaturais.
As suas línguas alcançam o paraíso Brahma,
os seus corpos emitem incontáveis raios de luz.
Em prol daqueles que buscam a via do Buddhado
eles manifestam estes fenómenos raramente vistos.
O som da tosse dos Buddhas,
o som do estalar dos seus dedos,
é ouvido através de mundos nas dez direcções
e a terra nesses mundos estremece em seis modos diferentes.
Porque depois de o Buddha se ter extinguido
haverá quem promova este sutra,
os Buddhas estão radiantes
e manifestam imensuráveis poderes sobrenaturais.
Porque eles desejam confiar este sutra,
eles louvam e elogiam a pessoa que o aceita e promove,
e ainda que o fizessem durante imensuráveis kalpas
não poderiam nunca esgotar os seus louvores.
Os benefícios ganhos por tal pessoa
são ilimitados e inesgotáveis,
como o vasto céu pelas dez direcções
do qual ninguém pode definir um limite.
Quem quer que possa promover este sutra
na verdade já me viu
e viu igualmente o Buddha Muitos Tesouros
e os Buddhas que são emanações do meu corpo.
Da mesma forma vê-me aqui hoje
enquanto ensino e converto os bodhisattvas.
Aquele que promove este sutra
faz com que eu e as minhas emanações
bem como o Buddha Muitos Tesouros,
que já entrou em extinção,
fiquemos cheios de alegria.
Os Buddhas que estão presentes nas dez direcções
e os Buddhas de eras passadas e futuras –
ele os verá também,
oferecer-lhes-á esmolas
e fará com que fiquem cheios de alegria.
Os segredos essenciais da Lei
ganhos pelos Buddhas que se sentam no lugar da prática –
aquele que promove este sutra
acabará também por os obter.
Aquele que promove este sutra
deleitar-se-á a expor interminavelmente
os princípios das várias doutrinas
e os seus nomes e frases
como um vento no espaço aberto
movendo-se para toda a parte
sem qualquer impedimento ou obstáculo.
Após o Tathagata ter entrado em extinção,
esta pessoa conhecerá os sutras pregados pelo Buddha,
as suas causas e condições e a sua sequência correcta,
e pregá-las-á com verdade de acordo com os princípios.
Tal como a luz do sol e da lua
dissipam toda a obscuridade e penumbra,
assim esta pessoa na sua passagem pelo mundo
consegue limpar toda a escuridão dos seres viventes,
fazendo com que imensuráveis números de bodhisattvas
acabem por se fixar no veículo único.
Por isso uma pessoa sábia,
ao ouvir quão vastos são os benefícios a obter,
após eu ter entrado em extinção
deve aceitar e promover este sutra.
Tal pessoa, garantidamente e sem qualquer dúvida,
alcançará a via do Buddhado.

Capítulo Vinte: O Bodhisattva Nunca Desprezando

Nessa altura o Buddha disse ao Bodhisattva e mahasattva Ganhador de Grande Autoridade : “Deves entender isto. Quando os monges, monjas, leigos e leigas promovem o Sutra do Lótus, se alguém falar mal deles, os insultar ou caluniar, sofrerá uma retribuição severa pelo seu crime, tal como anteriormente expliquei. Expliquei também os benefícios ganhos por aqueles que promovem o sutra, nomeadamente, purificações dos seus olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e mente.

“Ganhador de Grande Autoridade, Há muito tempo atrás, há um imensurável, ilimitado, inconcebível número de asamkhyas de kalpas no passado, existiu um Buddha chamado Tathagata Rei Assombroso Som, merecedor de ofertas, de conhecimento recto e universal, clarividência e conduta perfeitas, bem sucedido, compreendendo o mundo, inexcedivelmente meritório, instrutor de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buddha, Honrado Pelo Mundo. O seu kalpa chamava-se Isento de Decadência e a sua terra Feito Grandioso.

“Este Buddha Rei Assombroso Som, durante a época em que viveu, pregou a Lei para os seres celestiais, humanos e asuras. Para aqueles que procuravam tornar-se ouvintes ele respondia pregando a Lei das Quatro Nobres Verdades de modo a que pudessem transcender o nascimento, a velhice, a doença e a morte e eventualmente alcançarem o nirvana. Para aqueles que procuravam tornar-se pratyekabuddhas ele respondia pregando a Lei dos Doze Elos Interligados de Causalidade. Para os bodhisattvas, como meio de os conduzir a anuttara-samyak-sambodhi, respondia pregando a Lei dos seis paramitas de modo a que pudessem eventualmente ganhar a sabedoria Búddhica.

“Ganhador de Grande Autoridade, este Buddha Rei Assombroso Som teve uma duração de vida de kalpas iguais em número a quatrocentos mil milhões de nayutas de grãos de areia do Ganges. A sua Lei Correcta permaneceu no mundo por tantos kalpas quantas as partículas de pó existentes num jambudvipa. A sua Lei Adulterada permaneceu no mundo por tantos kalpas quantas as partículas de pó existentes nos quatro continentes. Após este Buddha ter terminado de conferir grandes benefícios aos seres viventes, passou à extinção.

“Após a sua Lei Correcta e a sua Lei Adulterada terem chegado ao fim, um outro Buddha apareceu na mesma terra. Também ele foi chamado Tathagata Rei Assombroso Som, merecedor de ofertas, de conhecimento recto e universal, clarividência e conduta perfeitas, bem sucedido, compreendendo o mundo, inexcedivelmente meritório, instrutor de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buddha, Honrado Pelo Mundo. Este processo continuou até vinte mil milhões de Buddhas terem surgido um após o outro, todos com o mesmo nome.

“Após o original Tathagata Rei Assombroso Som ter passado à extinção e ter passado também a sua Lei Correcta, no período da sua Lei Adulterada, monges de grande arrogância detinham grande poder e autoridade. Existia então um monge bodhisattva chamado Nunca Desprezando. Ganhador de Grande Autoridade, porque razão era ele chamado Nunca Desprezando? Este monge, perante quaisquer pessoas que encontrasse, quer se tratasse de monges, monjas, leigos ou leigas, prostrava-se reverentemente e dirigia-lhes palavras de louvor, dizendo, “Tenho por vocês profunda reverência, nunca vos tratarei com desprezo ou arrogância. Porquê? Porque estão todos a praticar a via do bodhisattva e seguramente alcançarão o Buddhado.”

“Este monge não devotava o seu tempo à leitura ou recitação de escrituras, mas simplesmente fazia vénias perante as pessoas. E se calhasse de ver algum dos quatro tipos de crentes à distância, dirigia-se a ele propositadamente, curvava-se reverentemente e proferia palavras de louvor, dizendo, “Nunca me atreveria a depreciar-vos porque decerto alcançareis o Buddhado!”

Entre os quatro tipos de crentes existiam alguns que se enfureciam pois as suas mentes eram impuras, e falavam mal dele e amaldiçoavam-no, dizendo, “Este monge ignorante – de onde vem ele, atrevendo-se a declarar que não nos desprezaria e conferindo-nos profecias de que alcançaremos o Buddhado? Não nos interessam estas profecias vãs e irresponsáveis!”

“Muitos anos passaram desta forma, durante os quais este monge era constantemente sujeito a ofensas e insultos. Ele não se enfurecia, antes dizia sempre as mesmas palavras, “Certamente alcançareis o Buddhado.” Quando falava desta forma, alguns de entre o grupo pegavam em paus e pedras e batiam-lhe e apedrejavam-no. Mas mesmo quando fugia e ficava a alguma distância, continuava a falar-lhes em voz alta, “Nunca me atreveria a depreciar-vos, pois certamente alcançareis o Buddhado!” e por ele dizer sempre estas palavras, monges, monjas, leigos e leigas arrogantes deram-lhe o nome de Nunca Desprezando.

“Quando este monge estava a ponto de morrer, ouviu no céu dez mil, vinte mil, um milhão de versos do Sutra do Lótus que havia sido pregado anteriormente pelo Buddha Rei Assombroso Som, e foi capaz de aceitar e abraçar todos esses versos. Imediatamente ele obteve o tipo de purificações das faculdades da vista, nariz, língua, corpo e mente acima descritas. Tendo obtido esta pureza das seis faculdades, a duração da sua vida foi aumentada em dois mil nayutas de anos, e ele foi então pregar o Sutra do Lótus às pessoas.

“Então, quando os quatro tipos de crentes que eram arrogantes, os monges, monjas, leigos e leigas que tinham despreciado este monge e lhe dado o nome de Nunca Desprezando – quando viram que ele tinha ganho grandes poderes transcendentais, o poder de pregar com agradável eloquência e o poder da grande benignidade e tranquilidade, e quando ouviram o que ele pregava, tiveram todos fé nele e tornaram-se seus seguidores.

“Este bodhisattva converteu uma multidão de milhares, dezenas de milhar, milhões, fazendo com que alcançassem anuttara-samyak-sambodhi. Após a sua vida ter chegado ao fim, foi capaz de encontrar dois mil milhões de Buddhas, todos com o nome Brilho do Sol e da Lua, e sob a égide da Lei destes Buddhas pregou o Sutra do Lótus. Através das causas e condições assim criadas, foi capaz de encontrar dois mil milhões de Buddhas, todos com o nome Rei Lâmpada da Nuvem da Liberdade. Sob a égide da Lei destes Buddhas ele aceitou, promoveu, leu, recitou e pregou este sutra para os quatro tipos de crentes. Por esta razão obteve a perfeição dos seus olhos comuns e as faculdades dos seus ouvidos, nariz, língua, corpo e mente foram igualmente purificadas. Entre os quatro tipos de crentes ele pregava a Lei com a mente livre de temor.

“Ganhador de Grande Autoridade, este Bodhisattva e mahasattva fez desta forma ofertas a um vasto número de Buddhas, tratando-os com reverência, honrando-os e louvando-os. Tendo plantado estas boas raízes, foi capaz de encontrar posteriormente mil, dez mil, um milhão de Buddhas e sob a égide da Lei destes Buddhas pregou este sutra, obtendo benefícios conducentes ao Buddhado.

“Ganhador de Grande Autoridade, o que pensais? O bodhisattva Nunca Desprezando que viveu nesse tempo – será ele desconhecido para ti? De facto, esse bodhisattva era eu! Se nas minhas prévias existências eu não tivesse aceitado, promovido, lido e recitado este sutra e o pregado para outros, nunca teria sido capaz de alcançar anuttara-samyak-sambodhi tão depressa. Porque na presença desses Buddhas pretéritos eu aceitei, promovi, li e recitei este sutra e o preguei para outros , fui capaz de alcançar anuttara-samyak-sambodhi tão prontamente.

“Ganhador de Grande Autoridade, nessa altura os quatro tipos de crentes, monges, monjas, leigos e leigas, porque a raiva surgiu em suas mentes e me trataram com desprezo, foram por duzentos milhões de kalpas incapacitados de encontrarem um Buddha, de ouvirem a Lei ou de verem a comunidade de monges. Durante cem kalpas padeceram grandes sofrimentos no inferno de Avichi. Quando terminaram a expiação das suas ofensas, encontraram uma vez mais o bodhisattva Nunca Desprezando, que os instruiu em relação a anuttara-samyak-sambodhi.

“Ganhador de Grande Autoridade, o que pensais? Os quatro tipos de crentes que nessa altura desprezaram constantemente o esse bodhisattva – serão eles desconhecidos para ti? Eles estão agora nesta assembleia, Bhadrapala e o seu grupo, quinhentos bodhisattvas; Leão da Lua e o seu grupo, quinhentos leigos, todos chegados ao estágio em que nunca regredirão na sua procura por anuttara-samyak-sambodhi!

“Ganhador de Grande Autoridade, deves compreender que este Sutra do Lótus beneficia largamente os bodhisattavas e mahasattvas, pois pode levá-los a alcançar anuttara-samyak-sambodhi. Por esta razão, após a extinção do Tathagata, os bodhisattvas e mahasattvas devem, em todas as ocasiões, aceitar, promover, recitar, explicar, pregar e transcrever este sutra.”

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Existiu no passado um Buddha
chamado Rei Assombroso Som,
de poderes sobrenaturais e sabedoria imensuráveis,
liderando e conduzindo todos sem excepção.
Seres celestiais e humanos, dragões e espíritos,
juntavam-se para lhe darem oferendas.
Após a extinção deste Buddha,
quando a sua Lei estava prestes a extinguir-se,
existiu um bodhisattva chamado Nunca Desprezando.
Onde quer que se encontrassem os quatro tipos de crentes,
o bodhisattva Nunca Desprezando ia ter com eles dizendo-lhes,
“Nunca vos desprezarei, pois estais praticando a via
e todos vocês se tornarão Buddhas!”
Quando as pessoas ouviam isto,
zombavam dele, insultavam-no e amaldiçoavam-no,
mas o bodhisattva Nunca Desprezando
suportava tudo isto com paciência.
Depois de todas estas ofensas,
quando estava prestes a morrer,
foi capaz de ouvir este sutra
e as suas seis faculdades foram purificadas.
Devido aos seus poderes transcendentais
a duração da sua vida foi prolongada,
e pelo bem dos demais
pregou este sutra por toda a parte.
Todas as muitas pessoas que aderiram à Lei
foram ensinadas e convertidas por este bodhisattva,
que os fez fixarem-se na via do Buddha.
Quando a vida de Nunca Desprezando chegou ao fim,
encontrou numerosos Buddhas
e por ter pregado este sutra
obteve imensuráveis bênçãos.
Pouco a pouco alcançou benefícios
e depressa completou a via do Buddhado.
Nunca Desprezando, que viveu nessa altura,
não era senão eu.
E os quatro tipos de crentes
que então aderiram à Lei,
que ouviram Nunca Desprezando dizer,
“Vocês tornar-se-ão Buddhas”,
e que mediante as causas assim criadas
encontraram numerosos Buddhas –
estão hoje aqui nesta assembleia,
um grupo de quinhentos bodhisattvas
e os quatro tipos de crentes,
homens e mulheres de pura fé,
que agora na minha presença ouvem a Lei.
Em anteriores existências
eu encorajei estas pessoas
a ouvirem e aceitarem este sutra,
o supremo perante a Lei,
expondo-o, ensinando-o às pessoas,
e fazendo-as alcançar o nirvana.
Assim, em era após era,
eles aceitaram e promoveram escrituras deste tipo.
Múltiplos milhares de milhões de kalpas,
um período de tempo inconcebível,
passou antes que se pudesse finalmente
ouvir este Sutra do Lótus.
Múltiplos milhares de milhões de kalpas,
um período de tempo inconcebível,
passou antes que os Buddhas, Honrados Pelo Mundo,
pregassem este sutra.
Por isso os seus praticantes
após o Buddha se ter extinguido,
quando ouvem um sutra como este
não devem dar lugar a dúvidas ou perplexidades
mas devem com uma mente concentrada,
pregar este sutra por toda a parte,
era após era encontrando Buddhas
e completando rapidamente a via do Buddhado.

Capítulo Dezenove: Os Benefícios do Mestre da Lei

Nessa altura o Buddha disse ao bodhisattva e mahasattva Esforço Constante(Satatasamitâbhiyukta): “Se bons homens e boas mulheres aceitarem e promoverem este Sutra do Lótus, se o lerem, recitarem, explicarem e pregarem, ou se o transcreverem, essas pessoas obterão oitocentos benefícios dos olhos, mil e duzentos benefícios dos ouvidos, oitocentos benefícios do nariz, mil e duzentos benefícios da língua, oitocentos benefícios do corpo e mil e duzentos benefícios da mente. Com estes benefícios eles serão capazes de adornar os seis órgãos dos sentidos, tornando-os puros.

“Estes bons homens e boas mulheres, com os puros olhos físicos que receberam dos seus pais no nascimento, verão tudo quanto existe no interior e no exterior do variegado mundo, as suas montanhas, florestas, rios e mares, para baixo até ao inferno de Avichi e para cima até ao Cume do Ser. E no meio verão todos os seres viventes e também verão e compreenderão as causas e condições criadas pelos actos bem como os nascimentos que os aguardam como resultado e recompensa dessas acções.”

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Se no meio da grande assembleia
alguém com uma mente destemida
pregar este Sutra do Lótus,
ouçam os benefícios que receberá!
Essa pessoa ganhará oitocentos benefícios
de uma visão superior.
Como resultado destes adornos
os seus olhos tornar-se-ão extremamente puros.
Com os olhos recebidos dos seus pais
aquando do nascimento
verá todos os três mil mundos,
as suas partes exteriores e interiores,
o seu Monte Meru, o seu Sumeru,
o Circulo de Montanhas de Ferro
e todas as outras montanhas e florestas,
as águas dos seus grandes mares, rios e riachos,
para baixo até ao inferno de Avichi,
para cima até ao paraíso do Cume do Ser.
E ele verá todos os seres viventes que existem entre eles.
Apesar de ainda não ter ganho a visão celestial,
será este o poder dos seus olhos físicos.

Além disso, Esforço Constante, se os bons homens e boas mulheres aceitarem e promoverem este sutra, se o lerem, recitarem, explicarem e pregarem, ou se o transcreverem, ganharão mil e duzentos benefícios auditivos, com os quais purificarão os seus ouvidos de modo a poderem ouvir todas as diferentes variedades de mundos e sons no imensamente variado mundo, para baixo até ao inferno de Avichi, para cima até ao paraíso do Cume do Ser, nas suas partes exteriores e interiores. Sons de elefantes, de cavalos, de bois, de carruagens, choros, lamentos, sons de conchas, tambores, sinos, campainhas, sons de risos. vozes de homens e de mulheres, de rapazes e de raparigas, vozes estranhas à Lei, vozes rudes, vozes animadas, vozes dos mortais comuns, vozes de sábios, vozes alegres, vozes tristes, vozes de seres celestiais, de dragões, yakshas, gandharvas, asuras, garudas, kimnaras, mahoragas, o som do fogo, o som da água, o som do vento, vozes dos habitantes dos infernos, vozes de bestas, de espíritos esfomeados, vozes de monges, de monjas, de ouvintes, de pratyekabuddhas, de bodhisattvas e vozes de Buddhas. Em resumo, apesar de a pessoa não ter ainda ganho ouvidos celestiais, purificados os ouvidos comuns que recebeu de seus pais no nascimento será capaz de ouvir e entender todas as vozes existentes nas partes interiores e exteriores do mundo de mil variedades. E ainda que desta forma possa distinguir todos os vários tipos de sons e vozes, isto não obstruirá as suas faculdades auditivas.

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Com os ouvidos recebidos dos seus pais
aquando do nascimento,
puros e sem mácula,
com esses ouvidos vulgares,
é possível ouvirem os sons de três mil mundos,
elefantes, cavalos, carruagens, bois,
sinos, campainhas, conchas, tambores,
alaúde e harpa, flauta,
o som de um cantar puro e belo,
todos podem ser ouvidos
sem que fiquem apegados a eles.
As incontáveis variedades da voz humana –
todas podem ser ouvidas e compreendidas.
Podem ainda ser ouvidas as vozes dos seres celestiais,
subtis e maravilhosas canções,
e podem ouvir-se as vozes de homens e mulheres,
as vozes de rapazes e raparigas.
No seio das colinas, rios e vales
a voz da kalavinka, da jivakajivaka e de outras aves –
todos estes sons se podem ouvir.
Desde as multidões atormentadas do inferno
os sons dos vários sofrimentos e aflições,
sons de espíritos esfomeados e sedentos
procurando comida e bebida,
ou dos asuras que vivem nas margens do grande mar
quando falam entre si e emitem lamentos gritantes.
Assim aquele que prega a Lei
pode estar seguro entre todos estes,
ouvindo todas estas vozes desde longe
sem obstruir as suas faculdades auditivas.
Nos mundos das dez direcções
quando as bestas e pássaros chamam os seus pares esta pessoa que prega a Lei ouve a todos de onde estiver.
No paraíso Brahma e mais acima,
o Paraíso de Som e Luz,
o Paraíso Pureza Total
e acima até ao Cume do Ser,
os sons das vozes que aí falam –
o mestre da Lei, residindo aqui,
pode ouvi-las a todas.
Todas a multidões de monges e de monjas,
quer estejam a ler ou a recitar as escrituras
ou a pregá-las em benefício de outros –
o mestre da Lei residindo aqui,
pode ouvi-las a todas.
E quando existirem bodhisattvas
que leiam e recitem os ensinamentos dos sutras
ou os preguem em prol dos outros
ou seleccionem uma passagem e expliquem o seu significado,
os sons das suas vozes –
ele pode ouvi-los a todos.
Quando os Buddhas,
grandes sábios e veneráveis,
ensinarem e converterem os seres viventes,
no meio da grande assembleia
expondo e pregando
a subtil e maravilhosa Lei,
aquele que promove o Sutra do Lótus
pode ouvi-los a todos.
Todos os sons do interior e do exterior
do multi-variado mundo,
para baixo até ao inferno de Avichi,
para cima até ao paraíso do Cume do Ser –
ele pode ouvir todos estes sons
sem nunca obstruir as suas faculdades auditivas.
Porque as suas faculdades auditivas são tão apuradas
ele pode distinguir e compreender todos os sons.
Aquele que promove o Sutra do Lótus,
apesar de não ter ainda alcançado os ouvidos celestiais,
pode fazer isto simplesmente com os seus ouvidos de nascimento –
tais são os benefícios que ele recebe.

“Além disso, Esforço Constante, se os bons homens e boas mulheres aceitam e promovem este sutra, se eles o lêem, recitam, explicam e pregam, ou se o transcrevem, poderão alcançar oitocentos benefícios nasais com os quais purificarão as suas faculdades olfactivas de modo a poderem detectar todas as diferentes fragrâncias de alto a baixo e no interior e exterior do multi-variado mundo, a fragrância das flores sumana, jatika, malika, champaka, patala, do lótus vermelho, azul, branco, a fragrância das árvores floridas ou de fruto, do sândalo, aloés, tamalapatra e tagara, bem como de incenso extraído de milhares, dezenas de milhares de ingredientes, em pó, grão ou pasta. Aquele que promover este sutra, enquanto reside aqui, será capaz de distinguir tudo isto.

“Além disso será capaz de distinguir e identificar os odores dos seres viventes, de elefantes, cavalos, bois, ovelhas e outros animais, o odor de homem, de mulher, de rapaz, de rapariga, os odores de plantas, árvores, bosques e florestas. Quer estejam próximos ou longínquos ele será capaz de detectar todos estes odores e distingui-los uns dos outros sem erro.

“Aquele que promove este sutra, ainda que resida aqui, será capaz de detectar odores de vários paraísos no céu acima. O perfume das árvores parijira e kovidara, das flores de mandarava, grande mandarava e grande manjuchaka, de sândalo e aloés, de vários tipos de pó de incenso, incenso feito de sortidos de flores – de perfumes celestiais dos quais eles são extraídos ou misturados, nenhum existe que ele não possa detectar e identificar.

“Ele será também capaz de detectar o aroma dos corpos dos seres celestiais. O perfume de quando Indra Shakra Devanam no seu soberbo palácio se recreia e satisfaz os cinco desejos, ou o perfume de quando está no Salão da Lei Maravilhosa pregando a Lei para os seres celestiais de Trayastrimsha, ou o perfume de quando está passeando pelos seus jardins, bem como o perfume dos corpos dos outros seres celestiais masculinos e femininos – tudo isto ele pode detectar desde longe.

“Ele será então capaz de alargar a sua percepção até acima ao paraíso de Brahma e mais alto ainda, até ao Cume do Ser, detectando o perfume de todos os corpos dos seres celestiais e o perfume do incenso por eles queimado. Além disso, o perfume dos ouvintes, dos pratyekabuddhas, dos bodhisattvas e dos corpos dos Buddhas – todos esses ele detectará desde longe e saberá onde se encontram esses seres. E apesar de detectar todos estes cheiros, as suas faculdades olfactivas não ficarão obstruídas nem desordenadas. Se ele quiser distinguir um cheiro do outro e descrevê-lo para outra pessoa, será capaz de o fazer sem erro.”

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

A pureza do olfacto dessa pessoa será tal
que através deste mundo
ele conseguirá detectar e identificar
toda a sorte de odores,
fragrantes ou infectos,
das flores sumana e jatika,
de talamapatra e de sândalo,
os perfumes de aloés e cássia,
de várias flores e frutos.
E ele saberá o odor dos seres viventes,
o odor de homens e mulheres.
Ainda que este pregador da Lei se encontre longe,
conseguirá detectar os odores
e saber onde se encontram as pessoas.
Reis sábios de grande autoridade,
sábios menores e seus descendentes,
os ministros e secretários palacianos –
ele detectará o seu odor onde quer que estejam.
Tesouros preciosos para o corpo das pessoas,
armazéns de tesouros na terra,
jóias das mulheres dos reis sábios –
ele detectará o seu odor onde quer que estejam.
Ornamentos para o corpo das pessoas,
roupas e colares, todos os tipos de incenso em pasta –
detectando estes odores
ele saberá onde se encontram os seus proprietários.
Quando os seres celestiais se sentarem ou andarem,
se recrearem ou levarem a cabo transformações mágicas,
tudo isto o promotor do Lótus conhecerá
ao detectar os seus odores
As flores e frutos de várias árvores
e o aroma dos óleos de manteiga –
o promotor do sutra, residindo aqui,
saberá onde se encontram.
Os seres sencientes que habitem no seio das montanhas,
em remotos lugares onde as flores do sândalo desabrocham –
ele os conhecerá detectando os seus odores.
Os seres viventes no Círculo de Montanhas de Ferro,
nos grandes oceanos ou em terra –
o promotor deste sutra detectará o seu odor
e saberá onde se encontram.
Quando asuras machos e fêmeas
e os seus seguidores lutarem ou brincarem uns com os outros,
ele terá conhecimento disso
detectando o seu odor.
Nas vastas planícies, em lugares remotos,
leões, elefantes, tigres, lobos, búfalos e búfalos de água –
pelo seu odor ele saberá onde estão.
Quando uma mulher estiver grávida
e ninguém conseguir determinar
se a criança é masculina ou feminina,
se terá falta de faculdades ou será inumana,
pelo seu odor ele saberá tudo isso.
E através do seu poder de detectar cheiros
ele saberá se a mulher será bem sucedida ou não,
se a gravidez será bem sucedida ou não,
se ela receberá em segurança uma criança saudável.
Através do seu poder de detectar odores
ele conhecerá os pensamentos de homens e mulheres,
se as suas mentes estão poluídas
pelo desejo, estupidez ou raiva,
e ele saberá se eles praticam o bem.
Grandes quantidades de bens escondidos na terra,
ouro, prata e tesouros preciosos,
objectos guardados em vasos de bronze –
pelo seu odor ele saberá se são preciosos ou sem valor.
Vários tipos de colares
cujo valor não pode ser calculado –
pelo seu odor ele saberá se são valiosos ou não,
de onde vieram e onde se encontram.
Flores acima nos céus,
mandaravas, manjushakas, árvores parijataka –
detectando o seu odor ele conhecerá todas.
Os palácios acima nos céus,
nos seus graus baixos, intermédios e superiores,
adornados com múltiplas flores de jóias –
detectando o seu odor ele conhecerá a todos.
Os jardins e bosques celestiais,
as soberbas mansões, os observatórios, o Salão da Lei Maravilhosa,
e aqueles que aí se recreiam –
detectando o seu odor ele conhece a todos.
Quando os seres celestiais ouvem a Lei
ou se entregam aos cinco desejos,
caminhando de um lugar para outro, sentados ou deitados –
detectando o seu odor ele conhece a todos.
Os mantos usados pelas mulheres celestiais,
adornados com adoráveis flores e perfumes,
rodopiando em círculos alegremente –
detectando o seu odor ele conhece-as a todas.
Assim alargando a sua consciência até ao paraíso de Brahma,
detectando o seu odor,
ele conhece todos os que entram em meditação
ou saem de meditação.
Nos paraísos Som Puro e Pureza Total,
e para cima até ao Cume do Ser,
aqueles nascidos pela primeira vez
e aqueles que partiram –
detectando o seu odor ele conhece-os a todos.
A multidão de monges sempre diligentes no que respeita à Lei,
quer sentados quer andando,
ou lendo e recitando os ensinamentos dos sutras,
por vezes sob as árvores da floresta
concentrando as suas energias, sentados em meditação –
o promotor do sutra detecta o seu odor
e sabe onde estão todos eles.
Bodhisattvas de vontade firme e inquebrantável,
sentados em meditação, lendo os sutras
ou pregando a Lei para outros –
detectando o seu odor ele conhece-os a todos.
Os Honrados Pelo Mundo de todas as direcções,
reverenciados e respeitados por todos,
compadecendo-se da multidão, pregando a Lei –
detectando o seu odor ele conhece-os a todos.
Os seres viventes que na presença dos Buddhas
ouvem os sutras e rejubilam,
que praticam conforme o que a Lei prescreve –
detectando o seu odor ele conhece-os a todos.
Apesar de ele não ter ainda alcançado o olfacto
possuído pelo bodhisattva da Lei sem falhas,
o promotor do sutra adquirirá um olfacto
com as características aqui descritas.

Além disso, Esforço Constante, se bons homens ou boas mulheres aceitarem e promoverem este sutra, se o lerem, recitarem, explicarem e pregarem, ou se o transcreverem, ganharão vinte mil benefícios do paladar. Quer uma coisa seja agradável ou não, saborosa ou não, ou mesmo coisas amargas e adstringentes, quando saboreadas pelas faculdades da língua dessa pessoa serão transformadas em sabores deliciosos e refinados como o doce orvalho celestial, e nenhuma será desagradável.

“Se com estas faculdades da língua ele começar a pregar no meio da grande assembleia, produzirá uma voz profunda e maravilhosa capaz de penetrar a mente e causar deleite e júbilo em todos os que a ouçam. Quando os homens e mulheres do paraíso, Shakra, Brahma e outros seres celestiais, ouvirem o som desta voz profunda e maravilhosa, expondo e pregando, progredindo e argumentando ponto por ponto, reunir-se-ão todos para ouvir. Dragões e filhas de dragões, yakshas e filhas de yakshas, gandarvas e filhas de gandarvas, asuras e filhas de asuras, garudas e filhas de garudas, kimnaras e filhas de kimnaras, mahoragas e filhas de mahoragas, juntar-se-ão bem perto ao redor do possuidor dessa voz de modo a ouvirem a Lei, e vão reverenciá-lo e oferecer-lhe esmolas. Monges, monjas, leigos e leigas, monarcas, príncipes, ministros e seus assistentes, reis sábios menores e grandes reis sábios com seus sete tesouros e milhares de filhos com os seus secretários e camareiros e demais séquito virão dos seus palácios para ouvirem a Lei.

“Porque este bodhisattva é tão hábil a pregar a Lei, os Brahmans, proprietários e outras pessoas por todo o país irão até ao fim das suas vidas segui-lo e escutá-lo e oferecer-lhe esmolas. Ouvintes, pratyekabuddhas, bodhisattvas e Buddhas irão deleitar-se constantemente ao vê-lo. Onde quer que ele esteja, os Buddhas virar-se-ão na sua direcção quando pregarem a Lei, e ele será capaz de aceitar e abraçar todas as doutrinas dos Buddhas. E ademais será capaz de emitir o profundo e maravilhoso som da Lei.”

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

As faculdades da língua desta pessoa
serão tão puras
que ela nunca experimentará maus sabores,
mas tudo o que comer se tornará como doce orvalho.
Com a sua voz profunda e maravilhosa
pregará a Lei na grande assembleia,
empregando causas, condições e parábolas
para guiar as mentes dos seres viventes.
Todos os que o ouvirem rejubilarão
e oferecer-lhe-ão as melhores esmolas.
Seres celestiais, dragões, yakshas,
bem como asuras e outros,
aproximar-se-ão dele com reverência
e virão juntos escutar a Lei.
Se este pregador da Lei quiser usar a sua voz maravilhosa
para encher os três mil mundos
poderá fazê-lo à sua vontade.
Reis sábios grandes e pequenos
com os seus milhares de filhos e os seus séquitos
juntarão as palmas das mãos reverentemente
e virão constantemente ouvir e aceitar a Lei.
Seres celestiais, dragões, yakshas,
rakshasas e pishachas com igual júbilo,
deleitar-se-ão constantemente a trazer esmolas.
Os reis celestiais Brahma, o rei demónio,
as divindades Liberdade(Îsvara) e grande Liberdade(Mahesvara),
toda a multidão de seres celestiais
irão constantemente onde ele estiver.
Os Buddhas e os seus discípulos,
ouvindo o som dele a pregar a Lei,
mantê-lo-ão constantemente em seus pensamentos
e guardá-lo-ão e mostrar-se-ão de tempos a tempos
pelo seu benefício.

“Além disso, Esforço Constante, se bons homens ou boas mulheres aceitarem e promoverem este sutra, se o lerem, recitarem, explicarem e pregarem, ou se o transcreverem, ganharão oitocentos benefícios corporais. Eles obterão corpos puros, como puro lápiz-lázuli, que deleitarão a vista de todos os seres viventes. Devido à pureza dos seus corpos, quando os seres viventes do mundo de mil variedades nascerem ou morrerem, quando nascerem nas regiões superiores ou inferiores, em circunstâncias favoráveis ou desfavoráveis, em sítios bons ou maus, estarão todos reflectidos [nestes corpos]. Os reis das montanhas, do Círculo das Montanhas de Ferro, do Grande Círculo das Montanhas de Ferro, do Monte Meru e Mahameru, bem como dos seres viventes que aí habitam, estarão todos reflectidos nesses corpos. Para baixo até ao inferno de Avichi, para cima até ao Cume do Ser, todas as regiões e os seus seres viventes estarão reflectidos. Ouvintes, pratyekabuddhas, bodhisattvas, Buddhas pregando a Lei – as formas e contornos de todos estes estarão reflectidos nos seus corpos.”

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Se alguém promover o Sutra do Lótus
o seu corpo será muito puro,
como puro lápiz-lázuli –
todos os seres viventes se deleitarão ao vê-lo.
E será como um espelho de puro brilho
no qual todas as formas e contornos estarão reflectidos.
O bodhisattva no seu corpo puro
verá tudo o que existe no mundo;
ele verá claramente
o que não é visível para os outros.
Dentro dos três mil mundos
toda a mole de criaturas em crescimento,
seres celestiais e humanos, asuras,
residentes infernais, espíritos, bestas –
as suas formas e contornos
estarão todas reflectidas no seu corpo.
Os palácios dos vários paraísos
para cima até ao Cume do Ser,
do Círculo de Montanhas de Ferro,
dos Montes Meru e Mahameru,
os grandes mares e outras águas –
todos serão reflectidos no seu corpo.
Os Buddhas e ouvintes,
filhos de Buddhas e bodhisattvas,
quer sozinhos quer na assembleia pregando a Lei –
todos serão reflectidos.
Apesar desta pessoa não ter ainda adquirido
o maravilhoso corpo da natureza do Dharma, livre de falhas,
o seu corpo normal terá tal pureza
que reflectirá em si todas as coisas.

Além disso, Esforço Constante, se bons homens e boas mulheres aceitarem e apoiarem este sutra após o Tathagata ter entrado em extinção, se o lerem, recitarem, explicarem, pregarem ou transcreverem, ganharão mil e duzentos benefícios mentais. Devido à pureza das suas faculdades mentais, quando eles ouvirem não mais do que um verso ou uma frase [do sutra], serão capazes de dominar um número imensurável e ilimitado de princípios. E uma vez compreendidos esses princípios, serão capazes de explicar e pregar acerca dessa única frase ou desse verso durante um mês, quatro meses ou mesmo por todo um ano e as doutrinas por eles pregadas durante esse tempo estarão de acordo com a essência dos princípios e nunca serão contrárias à verdadeira realidade.

“Se eles expuserem algum texto mundano ou falarem de assuntos da governação ou relacionados com questões patrimoniais ou laborais, estarão em todos os casos conformes com a correcta Lei. Em relação aos seres viventes dos seis reinos de existência do mundo de mil variedades, compreenderão como funcionam as mentes desses seres viventes, como se movem, que vãs teorias mantêm.

“Assim, ainda que não tenham alcançado a sabedoria sem falhas, a pureza das suas mentes será tal que os seus pensamentos, cálculos e conjecturas e as palavras que proferem, representarão em todos os casos a Lei do Buddha, sem se desviarem da verdade e conformes com o que foi pregado nos sutras dos Buddhas anteriores.”

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

As mentes dessas pessoas serão puras,
brilhantes, argutas, sem mácula ou impureza.
Com essas maravilhosas faculdades mentais
entenderão a Lei superior, a média e a inferior.
Ouvindo não mais do que um verso,
dominarão imensuráveis princípios
e serão capazes de os pregar,
ponto por ponto, de acordo com a Lei,
durante um mês, quatro meses ou um ano.
Todos os seres viventes
nas partes interiores e exteriores deste mundo,
seres celestiais, dragões, humanos,
yakshas, espíritos, todos os que habitam os seis reinos de existência
e todos os vários pensamentos que eles têm –
tudo isso os promotores do Sutra do Lótus,
como retribuição,
conhecerão num instante!
Os incontáveis Buddhas das dez direcções,
adornados com as marcas de uma centena de bênçãos,
pelo bem dos seres viventes
pregam a Lei, e essas pessoas,
ouvindo-a, serão capazes de a aceitar e promover.
Eles irão ponderar imensuráveis princípios,
pregar a Lei de imensuráveis maneiras,
no entanto, do princípio ao fim
nunca terão um esquecimento ou um erro,
porque eles são promotores do Sutra do Lótus.
Eles entenderão as características de todos os fenómenos,
conformes com os princípios,
reconhecendo a sua ordem correcta,
serão mestres de nomes e palavras,
expondo e pregando as coisas segundo o seu entendimento.
O que essas pessoas pregam
é em todos os casos a Lei dos Buddhas pretéritos,
e porque eles expõem esta Lei,
não terão medo perante a assembleia.
Esta é a pureza das faculdades mentais
destes promotores do Sutra do Lótus.
Apesar de não estarem ainda livres de falhas
manifestarão antes disso as marcas aqui descritas.
Enquanto essas pessoas promovem este sutra
encontrar-se-ão sempre em solo seguro,
apreciadas, amadas e respeitadas
por todos os seres viventes,
capazes de empregar mil, dez mil variedades
de palavras hábeis e capazes
fazendo distinções, expondo e pregando –
porque eles promovem o Sutra do Lótus.

Capítulo Dezoito: Os Benefícios da Alegre Aceitação

Nessa altura o bodhisattva e mahasattva Maitreya disse a Buddha: Honrado Pelo Mundo, se existirem bons homens e boas mulheres que, ao ouvirem este Sutra do Lótus, respondam com alegria, que tipo de bênçãos é que adquirem?”

Então ele falou em verso, dizendo:

Após o Honrado Pelo Mundo ter passado à extinção,
se aqueles que ouvirem este sutra
forem capazes de responder com alegria,
que tipo de bênçãos é que adquirem?

Nessa altura o Buddha disse ao bodhisattva e mahasattva Maitreya: “Ajita, após o Tathagata ter entrado em extinção, supõe que existem monges, monjas, irmãos e irmãs leigos, ou outras pessoas sábias, quer sejam novas ou velhas, que, ao ouvirem este sutra, respondem com alegria e, deixando a assembleia do Dharma, vão para qualquer outro lugar, talvez um aposento monástico, um lugar deserto e sossegado, uma cidade, uma localidade, um povoado ou aldeia, e aí, de acordo com o que ouviram, se esforçam pregando e explicando pelo bem dos seus parentes, amigos e conhecidos. Estas pessoas, depois de ouvirem, respondem com alegria e também espalham os ensinamentos, e os ensinamentos continuam desta forma a ser transmitidos de um para outro até chegarem a uma quinquagésima pessoa.

“Ajita, os benefícios recebidos por este quinquagésimo bom homem ou boa mulher que responda com alegria eu os descreverei agora para ti – ouve com atenção. Imagina todos os seres dos seis reinos de existência de dez mil milhões de asamkhyas de mundos, dos quatro tipos de seres viventes, os nascidos de um ovo, de um útero, de humidade ou por transformação, quer com forma quer sem forma, dotados de pensamento ou destituídos de pensamento, nem dotados nem destituídos de pensamento, sem pernas, com duas pernas, com quatro ou mais pernas. E imagina que, entre todo este vasto número de seres viventes, aparece alguém em busca de bênçãos e, respondendo aos seus variados desejos, oferece objectos espantosos e admiráveis a todos esses seres viventes. A cada um destes seres viventes é dado ouro, prata, lápiz-lázuli, madrepérola, ágata, coral, âmbar e outras maravilhosas e preciosas jóias, bem como elefantes, cavalos, carruagens, palácios e torres feitas com os sete tesouros, suficientes para encher todo o Jambudvipa. Este grande agente da caridade, tendo oferecido presentes desta forma durante oitenta anos, pensa então para si mesmo: Doei já todos estes objectos espantosos e admiráveis a estes seres viventes, respondendo aos seus vários desejos. Mas estes seres viventes estão agora velhos e decrépitos, com mais de oitenta anos, o seu cabelo branco, as faces enrugadas, não faltará muito para que morram. Devo agora empregar a Lei de Buddha para os instruir e guiar.

“Ele então junta de imediato todos os seres viventes e propaga a Lei entre eles, ensinando, beneficiando e deleitando-os. Num momento todos estão capazes de atingir o estado de srota-apanna, o estado de sakridagamin, o estado de anagamin e o estado de arhat, esgotando as suas falhas e entrando profundamente em meditação. Todos alcançam a liberdade e ficam dotados das oito emancipações. Qual é a tua opinião? São os benefícios deste agente da caridade muitos ou não”?
Maitreya disse a Buddha: “Honrado Pelo Mundo, os benefícios deste homem são realmente muitos, imensuráveis e ilimitados. Ainda que este agente da caridade tivesse apenas oferecido todos esses objectos aos seres viventes, os seus benefícios seriam imensuráveis. Quanto mais se ele fez com que alcançassem o estado de arhat!”

Buddha disse então a Maitreya: “Eu exporei agora para ti esta questão com clareza. Este homem doou todos estes objectos de recreio aos seres viventes dos seis reinos de existência de quatro mil milhares de milhões de asamkhyas de mundos e ainda tornou possível atingirem os frutos do estado de arhat. Mas os benefícios por ele alcançados não se comparam com os benefícios da quinquagésima pessoa que ouve apenas um verso do Sutra do Lótus e responde com alegria. eles não equivalem sequer uma centésima, milionésima parte, uma parte em dezenas de milhares, milhões. Na verdade está para além do poder de cálculo, metáfora ou parábola expressar uma comparação.

“Ajita, os benefícios ganhos mesmo que pela quinquagésima pessoa que ouve o Sutra do Lótus tal como lhe é transmitido e responde com alegria são maiores por um número imensurável e ilimitado, são de facto incomparáveis.

“Além disso, Ajita, supõe que uma pessoa em prol deste sutra visita os aposentos dos monges e, de pé ou sentado, e ainda que por um momento o ouve e aceita. Como resultado dos benefícios assim obtidos, quando ele renascer na sua próxima existência usufruirá dos mais luxuosos, excelentes e maravilhosos elefantes, cavalos e carruagens, palanquins repletos de tesouros raros e subirá aos palácios celestiais. Supõe que existe alguém que se senta num local onde a Lei é exposta, e quando uma outra pessoa aparece, a incita a sentar-se e a ouvir, ou se oferece para partilhar o seu lugar e a convence a sentar-se. Os benefícios ganhos desta forma serão tais que quando ele renascer o fará num local onde o senhor Shakra está sentado, onde os rei celestial Brahma se senta ou onde se senta um rei sábio.

“Ajita, supõe que uma pessoa se dirige a outra dizendo, “Existe um sutra chamado o Sutra do Lótus. Anda comigo escutá-lo”. E supõe que a outra pessoa, quando assim instado, vai e ainda que por um instante ouve o sutra. Os benefícios da primeira pessoa serão tais que quando renascer o fará no mesmo local dos bodhisattvas dos dharanis. Ele terá faculdades apuradas e sabedoria. Durante cem, mil, dez milhares de eras ele nunca será mudo. A sua boca não emitirá maus odores. A sua língua e a sua boca nunca terão doenças. Os seus dentes não serão podres ou pretos, nem serão amarelos ou muito espaçados, nem lhe cairão nem ficarão desalinhados ou tortos. Os seus lábios não serão descaídos nem contraídos, nem grosseiros nem gretados, nem atacados por infecções, nem serão tortos, nem finos ou grossos em demasiada, nem escuros ou descoloridos nem imperfeitos de forma alguma. O seu nariz não será demasiado largo ou achatado ou torto ou demasiado arqueado. A sua face não será escura nem comprida nem curta, nem contraída nem torta. Ele não terá nenhuma característica deselegante. Os seus lábios, língua e dentes serão admiravelmente proporcionados. O seu nariz será longo e elevado, a sua face redonda e cheia, as sobrancelhas longas e altas, a sua fronte larga, doce e bem torneada e ele será dotado de todas as características próprias de um ser humano. Em cada uma das suas existências ele verá o Buddha, ouvirá a sua Lei e terá fé nos seus ensinamentos.

Ajita, repara bem! Os benefícios ganhos apenas por encorajar outra pessoa a ir ouvir a Lei são tais como estes! Quanto mais se alguém ouve concentradamente, prega, lê e recita o sutra e perante a grande assembleia estabelece distinções pelo bem das pessoas e pratica conforme as instruções do sutra!”

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Se alguém na assembleia do Dharma
for capaz de ouvir este sutra,
ainda que apenas um verso, e responda com alegria,
o pregue para outros,
e desta forma o ensinamento seja transmitido
até chegar a uma quinquagésima pessoa,
as bênçãos ganhas por esta última
serão como eu vou agora definir.
Supõe que existe um grande agente de caridade
que atribui bens a imensuráveis multidões,
fazendo isto durante uns oitenta anos,
respondendo aos desejos de cada uma das pessoas.
Vendo os sinais da decrepitude e da velhice,
os cabelos brancos e a face enrugada,
a falta de dentes, a forma mirrada, pensa,
“A morte destes seres não está longe;
tenho de os ensinar de modo a poderem colher os frutos da via!”
Imediatamente em prol desses seres
ele emprega um meio expedito,
pregando a verdadeira Lei do nirvana:
“Nada neste mundo é duradouro ou firme
mas tudo é como bolhas de ar,
como espuma ou como uma centelha.
Por isso todos vocês devem aprender a desprezá-lo e a abandoná-lo!”
Quando as pessoas ouviram esta Lei,
foram todos capazes de alcançar o estado de arhat
dotados com os seis poderes transcendentais,
as três compreensões e as oito emancipações.
Mas a quinquagésima pessoa
que ouve apenas um verso [do Sutra do Lótus]
e responde com alegria
ganha bênçãos que são muitíssimo maiores,
para além de qualquer descrição por metáfora ou parábola.
E se alguém a quem o ensinamento foi transmitido
recebe bênçãos imensuráveis,
quanto mais não receberá alguém que está na assembleia do Dharma
ouve o sutra em primeira mão
e responde com alegria.
Supõe que alguém encoraja outra pessoa,
instando-o a ir ouvir o Lótus, dizendo,
“Este sutra é profundo e maravilhoso,
difícil de encontrar em milhares,
dezenas de milhares de kalpas!”
E supõe que a pessoa assim instada vai ouvir,
ainda que ouça apenas por um momento,
as bênçãos que essa pessoa recebe em recompensa
eu descreverei agora com detalhe:
Era após era, não terá nenhuma doença da boca,
dentes em falta, ou amarelos, ou pretos,
lábios grossos ou contraídos ou imperfeitos,
não terá nenhumas características negativas,
uma língua húmida, escura ou demasiado curta;
terá um nariz elevado, longo e direito,
testa larga, macia e bem formada,
a face e os olhos bem alinhados e impressivos,
do tipo que deleita o olhar das pessoas,
o hálito será livre de maus odores,
uma fragrância de flores de utpala
será constantemente emitida pela boca.
Supõe que alguém vai até aos aposentos dos monges
expressamente para ouvir o Sutra do Lótus
e o ouve com alegria ainda que por um momento –
eu descreverei as suas bênçãos.
Nas existências vindouras
entre seres celestiais e humanos
ele obterá maravilhosos elefantes,
cavalos, carruagens,
palanquins adornados com jóias raras,
e alcançará os palácios celestiais.
Se no local onde a Lei é exposta
alguém encoraja outro a sentar-se e ouvir o sutra,
as bênçãos que adquire permitir-lhe-ão
alcançar o assento de Shakra, Brahma e do rei sábio.
Quanto mais se uma pessoa o ouve concentradamente,
explica e expõe o seu significado
e pratica segundo o que o sutra instrui –
as bênçãos dessa pessoa não têm limites!

Capítulo Dezessete: Distinção de Benefícios

Nessa altura, quando a grande assembleia ouviu o Buddha contar como a sua vida durou um tão grande número de kalpas, imensuráveis, ilimitadas ashamkyas de seres viventes obtiveram uma grande variedade de benefícios.

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo disse ao bodhisattva e mahasattva Maitreya: “Ajita, quando eu descrevi como a vida do Tathagata dura por tal longuíssimo tempo, seres viventes numerosos como as areias de seiscentos e oitenta dezenas de milhares, milhões, nayutas de Ganges alcançaram a verdade do não-nascimento. Bodhisattvas e mahasattvas mil vezes mais numerosos obtiveram o ensinamento do dharani que lhes permite reterem tudo quanto ouçam. Bodhisattvas e mahasattvas numerosos como as partículas de pó de um mundo obtiveram a eloquência que lhes permite falar agradavelmente e sem impedimentos. Bodhisattvas e mahasattvas numerosos como as partículas de pó de um mundo obtiveram dharanis que lhes permitem memorizar centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões, imensuráveis repetições dos ensinamentos. Bodhisattvas e mahasattvas numerosos como as partículas de pó de um universo foram capazes de fazer girar a irregressível roda da Lei. Bodhisattvas e mahasattvas numerosos como as partículas de pó de duzentas terras de tamanho médio foram capazes de fazer girar a pura roda da Lei. Bodhisattvas e mahasattvas numerosos como as partículas de pó de cem pequenas terras tiveram a garantia de que alcançariam annutara-samyak-sambodhi ao fim de oito renascimentos. Bodhisattvas e mahasattvas numerosos como as partículas de pó de quatro mundos tetracontinentais tiveram a garantia de que alcançariam annutara-samyak-sambodhi ao fim de quatro renascimentos. Bodhisattvas e mahasattvas numerosos como as partículas de pó de três mundos tetracontinentais tiveram a garantia de que alcançariam annutara-samyak-sambodhi ao fim de dois renascimentos. Bodhisattvas e mahasattvas numerosos como as partículas de pó de dois mundos tetracontinentais tiveram a garantia de que alcançariam annutara-samyak-sambodhi ao fim de dois renascimentos. Bodhisattvas e mahasattvas numerosos como as partículas de pó de um mundo tetracontinental tiveram a garantia de que alcançariam annutara-samyak-sambodhi ao fim de um renascimento. Seres viventes numerosos como as partículas de pó de oito mundos foram levados a estabelecer as suas mentes em anuttara-samyak-sambodhi.

Quando o Buddha anunciou que estes bodhisattvas e mahasattvas tinham obtido os grandes benefícios da Lei, do ar choveram flores de mandarava e grandes flores de mandarava, espalhando-se sobre imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de Buddhas que estavam sentados em tronos de leão sob as árvores de jóias, e espalharam-se também sobre o Buddha Shakyamuni e sobre o Tathagata Muitos Tesouros, que há muito entrou em extinção, ambos sentados em tronos de leão na torre de sete tesouros. Espalharam-se também sobre todos os grandes bodhisattvas e sobre os quatro tipos de crentes. Além disso, choveu um pó fino de sândalo e aloés e em pleno ar soaram tambores celestiais com notas maravilhosas, profundas e de grande alcance. Choveu também uma grande variedade de mantos celestiais, engalanados com fiadas de pérolas e de várias jóias, espalhando-se por toda a parte pelas dez direcções. Em incensórios encrustados de jóias ardiam incensos preciosos, a sua fragrância espalhando-se por toda a parte como uma dádiva à grande assembleia. Sobre cada um dos Buddhas apareceram bodhisattvas segurando estandartes e dosséis, em fileiras que chegavam até ao paraíso de Brahma. Esses bodhisattvas empregavam as suas maravilhosas vozes cantando imensuráveis hinos de louvor aos Buddhas.

Nessa altura o bodhisattva Maitreya levantou-se do seu lugar, descobriu o ombro direito, juntou as palmas das suas mãos e, virando-se para o Buddha falou em verso, dizendo:

O Buddha prega uma Lei rara,
nunca antes ouvida.
O Honrado Pelo Mundo possui grandes poderes
e a duração da sua vida não pode ser medida.
Os incontáveis filhos de Buddha
ouvindo o Honrado Pelo Mundo fazer distinções
e descrever os benefícios da Lei que irão alcançar,
vêm os seus corpos repletos de alegria.
Uns residem no estado de não regressão,
outros obtiveram dharanis,
outros ainda podem falar agradavelmente e sem impedimentos
ou reter dezenas de milhar,
milhões de repetições dos ensinamentos.
Alguns bodhisattvas
numerosos como as partículas de pó
de um milhar de grandes mundos
são capazes de fazer girar a roda irreversível da Lei.
Alguns bodhisattvas
numerosos como as partículas de pó
de um milhar de mundos médios
são capazes de fazer girar a pura roda da Lei.
Alguns bodhisattvas
numerosos como as partículas de pó
de um milhar de pequenos mundos
têm a garantia de que após mais oito renascimentos
estarão aptos a completar a via do Buddhado.
Alguns bodhisattvas
numerosos como as partículas de pó
de quatro, três, duas vezes os quatro continentes
alcançarão a sabedoria após mais um renascimento.
Então, quando os seres viventes ouviram
a grande duração da vida do Buddha,
obtiveram puros frutos e recompensas
imensuráveis e livres de falhas.
Além disso, seres viventes numerosos
como as partículas de pó de oito mundos,
ouvindo o Buddha descrever a duração da sua vida,
estabeleceram as suas mentes na via insuperável.
O Honrado Pelo Mundo prega a Lei
que é imensurável e não pode ser concebida
e os que disso beneficiam são muitos,
ilimitados como o espaço aberto.
Choveram flores celestiais de mandarava
e grandes flores de mandarava;
Shakyas e Brahmas, incontáveis como as areias do Ganges,
chegaram de inumeráveis terras Búddhicas.
Choveu uma fina poeira de sândalo e aloés;
como pássaros voando no céu
espalharam-se como oferenda sobre os Buddhas.
Em pleno ar tambores celestiais
emitiram maravilhosos sons;
Mantos celestiais aos milhares,
dezenas de milhar, milhões,
desceram esvoaçantes;
incensórios maravilhosos incrustados de jóias
queimaram preciosos incensos
que se espalharam por toda a parte,
como oferenda a todos os Honrados Pelo Mundo.
A multidão de grandes bodhisattvas
segurou estandartes e dosséis
adornados com os sete tesouros,
em dezenas de milhar, milhões de variedades,
altivos, maravilhosos,
em fileiras que chegavam ao paraíso Brahma.
Perante cada um dos Buddhas
pendiam estandartes decorados com jóias e magnificas bandeiras,
enquanto em milhares, dezenas de milhares de versos
os louvores ao Honrado Pelo Mundo eram entoados.
Todas estas muitas coisas
nunca foram conhecidas no passado.
Ouvindo dizer que a duração da vida do Buddha é imensurável,
todos os seres se encheram de alegria.
O nome de Buddha é ouvido pelas dez direcções,
beneficiando largamente os seres viventes,
e todos foram dotados de boas raízes
para ajudar a estabelecer as suas mentes na via insuperável.

Nessa altura o Buddha disse ao bodhisattva e mahasattva Maitreya: Ajita, se existirem seres viventes que, ao ouvirem que a duração da vida do Buddha é tão longa, forem capazes de acreditar e compreender, ainda que um momento, os benefícios que eles alcançarão serão sem limite ou medida. Supõe que existem bons homens ou boas mulheres que, em prol de anuttara-samyak-sambodhi, durante um período de oitocentos milhões de nayutas de kalpas pratica os cinco paramitas – os paramitas de dana (generosidade), shila (observância dos preceitos), kshanti (tolerância), virya (perseverança) e dhyana (meditação), estando omisso o paramita de prajna (sabedoria) – os benefícios alcançados desta forma seriam uma centésima parte, uma milésima parte, uma multiquadrilionésima parte dos benefícios mencionados previamente. De facto, está para além do poder de cálculo, metáfora ou parábola a definição dessa comparação. Para esses bons homens que alcançaram tais benefícios previamente mencionados, regredir sem alcançar anuttara-samyak-sambodhi é completamente inconcebível.”

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Se alguém em busca da sabedoria Búddhica
por um período de oitocentos mil milhões de nayutas de kalpas
praticar os cinco paramitas,
durante todos esses kalpas
distribuindo ofertas de esmolas aos Buddhas,
aos pratyekabuddhas e discípulos,
e à multidão de bodhisattvas,
iguarias raras, ricos artigos de enxoval e peças de vestuário,
construindo mosteiros de sândalo
adornados com jardins e bosques,
se ele distribuir esmolas de muitas variedades,
todas elas refinadas e maravilhosas,
e repetir isto por todos esses kalpas
para exprimir a sua devoção ao caminho do Buddhado;
e se além disso ele cumprir os preceitos,
com pureza e sem omissão ou falha,
procurando a via insuperável, louvada pelos Buddhas;
e se ele praticar a tolerância,
permanecendo numa posição submissa e dócil,
mesmo quando assolado por vários males,
não se deixando agitar ou influenciar quando outros,
convencidos de que alcançaram a Lei
se entregarem a pensamentos arrogantes,
tratando-o com desprezo e vexando-o,
se ele suportar isso com paciência;
e se ele for diligente e perseverante,
sempre firme de intenção e pensamento,
concentrado durante imensuráveis milhões de kalpas,
nunca negligente ou descuidado,
residindo num lugar deserto e socegado por kalpas incontáveis;
e se ele praticar exercícios sentado ou em andamento,
eliminando a sonolência,
regulando constantemente a sua mente,
e em resultado dessas acções
for capaz de produzir estados meditativos,
permanecendo calmo durante oitenta dezenas de milhares de milhões de kalpas,
a sua mente sempre clara e sem confusão;
e se ele, com base nas bênçãos desta concentração
procurar a via insuperável, dizendo,
“Eu alcançarei a sabedoria e esgotarei todos os estados de meditação!”;
se esta pessoa levar a cabo as práticas acima descritas
durante cem, mil, dez mil, um milhão de kalpas,
as bênçãos obtidas desta forma
serão ainda assim menores
do que as dos bons homens e boas mulheres
que me ouçam descrever a duração da minha vida
e acreditem ainda que por um momento.
Se uma pessoa é completamente livre
de quaisquer dúvidas ou hesitações,
se no fundo da sua mente acreditar por um instante,
as suas bênçãos serão como disse.
Estes bodhisattvas que praticaram a via
durante imensuráveis kalpas,
quando me ouvem descrever a duração da minha vida
são capazes de acreditar e aceitar o que eu digo.
Estas pessoas aceitarão este sutra com gratidão, dizendo,
“O nosso desejo é que em eras futuras
possamos usar as nossas longas vidas
para salvar os seres viventes.
Tal como hoje o Honrado Pelo Mundo, rei dos Shakyas,
ruge como um leão no lugar da prática,
pregando sem medo a Lei,
possamos nós também em eras vindouras,
honrados e venerados por todos,
quando nos sentarmos no lugar da prática,
descrever a duração da nossa vida da mesma forma.”
Se existir alguém, de mente profunda,
puro, honesto e recto,
que ouvindo muito, possa reter tudo,
compreendendo as palavras do Buddha,
essa pessoa não terá dúvidas [acerca da duração da minha vida].

“Além disso, Ajita, se existir alguém que, ouvindo acerca da longa duração da vida do Tathagata, possa entender o alcance dessas palavras, os benefícios que essa pessoa alcança serão sem limite ou medida, capazes de despertar nele a sabedoria insuperável do Tathagata. Quanto mais se, então, a pessoa escuta largamente este sutra ou faz com que outros o escutem, o abraça ou leva outros a abraçá-lo, o copia ou faz com que outros o copiem, ou apresenta flores, incenso, colares, estandartes, bandeiras, dosséis de seda, óleos fragrantes ou lamparinas de óleo de manteiga como oferendas aos rolos do sutra. Os benefícios de uma tal pessoa serão imensuráveis, ilimitados, capazes de inspirar nele a sabedoria que abarca todas as espécies.

“Ajita, se bons homens ou boas mulheres, ouvindo-me descrever a grande duração da minha vida, no fundo das suas mentes acreditarem e compreenderem, verão então o Buddha residindo constantemente no Monte Gridhakuta, com os grandes bodhisattvas e a multidão de ouvintes rodeando-o enquanto prega a Lei. Verão também este mundo Saha, o seu chão de lápiz-lázuli nivelado e bem ordenado, o ouro Jambunava bordejando as suas oito avenidas, os renques de árvores cravejadas de jóias, os terraços, torres e observatórios todos feitos de jóias, e toda a multidão de bodhisattvas que aí vive. Se existir alguém capaz de ver tais coisas, deveis saber que isso é um sinal da sua fé e compreensão profundas.

“Além disso, se após o Tathagata entrar em extinção existir alguém que ouça este sutra e não o calunie ou insulte mas mostre profunda fé e compreensão e ainda mais no caso de alguém que leia, recite e abrace este sutra, essas pessoas estão na verdade a receber o Tathagata na coroa de suas cabeças.

“Ajita, estes bons homens e boas mulheres não precisam de em meu nome erigir torres e templos ou construir aposentos de monges ou fazer os quatro tipos de oferendas à comunidade de monges. Porquê? Porque estes bons homens e boas mulheres, ao receberem, abraçarem, lerem e recitarem este sutra, erigiram já torres, construíram os aposentos de monges e deram ofertas de esmolas à comunidade de monges. Deve considerar-se que eles erigiram torres adornadas com os sete tesouros para as relíquias do Buddha, largas na base e finas no topo, chegando ao paraíso de Brahma engalanadas de bandeiras, dosséis e uma miriade de sinos de jóias, com flores, incenso em pó ou em pasta, colares, muitos tipos de tambores e vários tipos de danças e diversões, com maravilhosas vozes que cantam e entoam hinos de louvor. É como se tivessem já oferecido esmolas durante imensuráveis milhares, dezenas de milhar, milhões de kalpas.

“Ajita, se após eu ter entrado em extinção existir quem ouça este sutra e possa aceitá-lo e promovê-lo, copiando-o ou fazendo outros copiá-lo, então deve ser considerado que erigiram já aposentos de monges, ou usaram sândalo vermelho para construir trinta e dois salões, altos como árvores tala, elevados, espaçosos e belamente adornados para acomodarem centenas de milhares de monges. Jardins, parques, tanques, lagos, pátios de recreio, caves para meditação, vestuário, comida, bebida, camas, tapetes, remédios e todo o tipo de utensílios para o seu conforto, e esses aposentos de monges e salões contam-se em centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões, e são na verdade imensuráveis em número. Tudo isto é apresentado perante mim como oferta de esmolas para mim e para a comunidade de monges.

“Assim eu digo, se após o Tathagata se extinguir existir alguém que aceite, promova, leia e recite este sutra ou o pregue para outros, que o copie ou faça com que outros o copiem, ou que ofereça esmolas aos rolos do sutra, então não necessitam erigir torres ou templos nem construir aposentos para monges ou oferecer esmolas à comunidade de monges. E muito mais é isto verdade para aqueles que forem capazes de abraçar este sutra e ao mesmo tempo de oferecer esmolas, manter os preceitos, praticar a tolerância e a diligência, a concentração e a sabedoria! As suas virtudes são superiores, imensuráveis e ilimitadas, tal como o céu aberto, nas direcções Este, Oeste, Norte e Sul, nas quatro direcções intermédias, acima e abaixo, é imensurável e ilimitado. As bênçãos dessa pessoa serão igualmente imensuráveis e ilimitadas, e ela atingirá rapidamente a sabedoria que abarca todas as espécies.

“Se uma pessoa lê, recita, aceita e promove este sutra ou o prega para outros; se o copia ou faz com que outros o copiem; e se pode erigir torres, construir aposentos para monges, oferecer esmolas e louvores à comunidade de ouvintes; se pode empregar centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de modos de louvor para louvar os méritos dos bodhisattvas; e se pelo bem de outros ele emprega várias causas e condições, de acordo com a regra, para explicar este Sutra do Lótus; e se observa os preceitos com pureza, procura a companhia dos que são brandos e pacíficos, é tolerante e sem raiva, firme de intenção e pensamento, favorecendo constantemente a prática da meditação sentada, atinge vários estados meditativos profundos, dominando todas as boas doutrinas, apurado nas faculdades e na sabedoria, bom a responder a perguntas difíceis – Ajita, se após eu entrar em extinção existirem bons homens e boas mulheres que aceitem, promovam, leiam e recitem este sutra e tenham bons méritos como estes, deves saber que eles prosseguiram já para o lugar da prática e estão perto de anuttara-samyak-sambodhi ao sentarem-se sob a árvore do Buddhado. Ajita, onde quer que estes bons homens estejam, sentados, de pé ou circulando em exercício espiritual, aí deveria erigir-se uma torre memorial e todos os seres celestiais e humanos deviam oferecer esmolas da mesma forma que ofereceriam à torre do Buddha.”

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Se após eu entrar em extinção
Alguém puder honrar e eleger este sutra,
as suas bênçãos serão imensuráveis,
tal como acima descrevi.
É como se tivesse oferecido todo o tipo de esmolas,
erigindo uma torre memorial às relíquias do Buddha
adornada com os sete tesouros
e com o centro largo e alto
que se estreita gradualmente á medida que alcança o paraíso Brahma.
Sinos de jóias aos milhares,
dezenas de milhar, milhões,
movem-se no vento, emitindo um som maravilhoso.
E por imensuráveis kalpas
ele oferece esmolas a esta torre,
flores, incenso, vários tipos de colares,
mantos celestiais e instrumentos musicais variados,
queima óleos fragrantes e lâmpadas de óleo de manteiga
que iluminam constantemente as cercanias.
Na era maligna dos Últimos Dias da Lei
se existir alguém capaz de promover este sutra,
será como se tivesse oferecido
todas as esmolas acima descritas.
Se alguém puder promover este sutra,
será como se na presença do Buddha
ele tivesse usado sândalo
para construir como oferta aposentos de monges,
de trinta e dois salões
altos como árvores tala,
ou tivesse fornecido roupas e enxovais,
residências para assembleias de centenas, milhares,
jardins, bosques, tanques e lagos,
pátios de exercício e caves para meditação
tudo com vários tipos de delicados adornos.
Se alguém com uma mente crente e esclarecida
aceitar, promover, ler, recitar e copiar este sutra
ou fazer com que outros o copiem
ou oferecer esmolas aos rolos do sutra,
espalhando flores e incenso
ou queimar constantemente óleo fragrante
extraído de flores de sumana, champaka ou atimuktatka,
se ele oferecer esmolas como estas
ganhará imensuráveis méritos,
ilimitados como o céu aberto,
e assim serão as suas bênçãos.
Quanto mais se ele promover este sutra
e ao mesmo tempo oferecer esmolas,
mantiver os preceitos, for tolerante,
deleitar-se com a meditação
e nunca se entregar a qualquer linguagem malévola ou irada.
Se alguém prestar reverência às torres memoriais,
se comportar humildemente perante os monges,
não der lugar a uma mente arrogante,
ponderar constantemente sobre a sabedoria
e nunca se enfurecer quando questionado com perguntas difíceis
mas responder com uma explicação conforme –
se alguém levar a cabo estas práticas,
os seus méritos estarão além de qualquer medida.

Se virdes um mestre da Lei
que tenha cultivado virtudes como estas,
deveis espalhar sobre ele flores celestiais,
envolver o seu corpo em mantos celestiais,
saudá-lo inclinando a vossa cabeça perante os seus pés
e na vossa mente imaginar que estais a ver um Buddha.
Deveis também pensar desta forma:
“Não tardará que ele prossiga para o lugar da prática
e alcance o estado sem falhas da não-acção,
trazendo largos benefícios para os seres celestiais e humanos!”
No local onde essa pessoa residir,
onde ela caminhar, se sentar ou deitar,
ou recitar ainda que um verso de uma escritura,
aí devereis erigir uma torre adornada
de uma forma apropriada e maravilhosa
e oferecer-lhe variadas esmolas.
Quando um filho de Buddha reside em tais lugares,
o Buddha servir-se-á deles
e neles irá constantemente
caminhar, sentar-se ou reclinar-se.

Capítulo Dezesseis: A Duração da Vida do Tathagata

                

Nessa altura o Buddha disse aos bodhisattvas e à grande assembleia “Bons homens, vocês devem acreditar e compreender as palavras verdadeiras do Tathagata.” E disse ainda à grande assembleia: “Deveis acreditar e compreender as palavras verdadeiras do Tathagata.” E uma vez mais disse à grande assembleia: “Deveis acreditar e compreender as palavras verdadeiras do Tathagata.”

Nessa altura os bodhisattvas e a grande assembleia, com Maitreya como líder, juntaram as palmas das mãos e dirigiram-se ao Buddha, dizendo: “Honrado Pelo Mundo, pedimo-vos que expliqueis. Nós acreditaremos e aceitaremos as palavras do Buddha.”

Nessa altura o Honrado Pelo Mundo, vendo que os bodhisattvas repetiram o seu pedido mais de três vezes, disse-lhes: “Deveis ouvir com atenção o segredo do Tathagata e os seus poderes transcendentais. Em todos os mundos os seres celestiais e humanos e os asuras acreditam que o presente Buddha Shakyamuni, após abandonar o palácio dos Shakyas, sentou-se no lugar da prática não longe da cidade de Gaya e aí alcançou anuttara-samyak-sambodhi. Mas bons homens, foi há imensuráveis, ilimitadas centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de kalpas que eu de facto atingi o Buddhado.

“Suponham que uma pessoa pegava em quinhentos, mil, dez mil, um milhão de nayutas de asamkhyas de mundos e os reduzia a pó. Então, dirigindo-se para Leste, a cada vez que passava por quinhentos, mil, dez mil, um milhão de nayutas de ashankyas de mundos ele largava uma partícula de pó. Ele continuava para Leste desta forma até acabar de largar todas as partículas. Bons homens, qual é a vossa opinião? Pode o número total de todos estes mundos ser imaginado ou calculado?

O bodhisattva Maitreya e todos os outros disseram ao Buddha: “Honrado Pelo Mundo, esses mundos são imensuráveis, ilimitados – o seu número não pode ser calculado nem a mente tem o poder de o abranger. Mesmo todos os ouvintes e pratyekabuddhas com a sua sabedoria livre de impedimentos são incapazes de imaginar ou compreender quão numerosos eles são. Ainda que estivéssemos no estado de avivartika, não poderíamos compreender tal soma. Honrado Pelo Mundo, esses mundos são imensuráveis e ilimitados.”

Nessa altura o Buddha disse à multidão de grandes bodhisattvas: “Bons homens, agora vou afirmar isto claramente. Suponham que esses mundos, quer tivessem ou não recebido uma partícula de pó eram uma vez mais reduzidos a poeira e que cada partícula representa um kalpa. O tempo que passou desde que eu atingi o Buddhado ultrapassa este número em centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de nayutas de asamkhyas de kalpas.

“Sempre desde então eu estive neste mundo Saha, pregando a Lei, ensinando e convertendo, e guiei e beneficiei os seres viventes em centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de nayutas de asamkhyas de terras.

“Bons homens, durante este tempo eu falei através do Buddha Tocha Ardente e outros, e descrevi como eles entraram no nirvana. Tudo isto eu utilizei como um meio expedito para estabelecer distinções.

“Bons homens, se os seres viventes vêem ter comigo, eu emprego a minha visão Búddhica para observar a sua fé e para ver se as suas outras faculdades são apuradas ou não, e então, dependendo de quão receptivos à salvação eles estão eu apareço em diferentes lugares e prego para eles sob diferentes nomes, e durante o período de tempo em que os meus ensinamentos serão mais eficientes. Por vezes, quando faço a minha aparição, digo que estou prestes a entrar no nirvana, e emprego também diferentes meios expeditos para pregar a subtil e maravilhosa Lei, fazendo assim os seres viventes despertarem as suas mentes radiantes.

“Bons homens, o Tathagata observa como entre os seres humanos existem aqueles que se deleitam numa Lei menor, de virtude escassa e pesados de impurezas. A essas pessoas eu descrevo como na minha juventude eu deixei a vida familiar e alcancei annutara-samyak-sambodhi. Mas na verdade, o tempo que passou desde que eu atingi o Buddhado é extremamente longo, tal como te disse. É somente um meio expedito que eu utilizo para ensinar e converter os seres viventes e levá-los a entrar na via do Buddhado. É por isto que eu falo desta forma.

“Bons homens, as escrituras expostas pelo Tathagata têm todas o propósito de salvar e emancipar os seres viventes. Por vezes falo de mim, por vezes de outros; por vezes apresento a mim, por vezes a outros; por vezes mostro as minhas próprias acções, por vezes as dos outros. Tudo quanto eu prego é verdadeiro e não falso.

Porque faço isto? O Tathagata percebe o verdadeiro aspecto do triplo mundo tal qual ele é. Não existem quaisquer marés de vida e morte e não há qualquer existência neste mundo nem posterior extinção. Não é nem substancial nem vazio, nem consistente nem diverso. Nem é aquilo que os que vivem no triplo mundo entendem que é. Todas essas coisas o Tathagata vê claramente e sem erro.

“Porque os seres viventes têm diferentes naturezas, diferentes desejos, diferentes acções e diferentes modos de pensar e fazer distinções, e porque eu quero capacitá-los a plantarem boas raízes, emprego uma variedade de causas e condições, metáforas, parábolas e frases para pregar diferentes doutrinas. Assim, nunca por um momento eu negligenciei o trabalho dos Buddhas.

“Assim, desde que eu atingi o Buddhado, um período de tempo extremamente longo passou. A minha vida tem uma duração de um imensurável número de ashamkyas de kalpas, e durante esse tempo eu residi constantemente aqui sem nunca entrar em extinção. Bons homens, originalmente eu pratiquei a via do Bodhisattva, e a duração de vida que eu adquiri aí está ainda longe de chegar ao fim e durará o dobro do número de anos que já passaram. Agora, no entanto, ainda que eu de facto não entre em extinção, eu anuncio que vou adoptar o curso da extinção. Isto é um meio expedito que o Tathagata usa para ensinar e converter os seres viventes.

“Porque faço isto? Porque se o Buddha permanecer no mundo por um longo período de tempo, aquelas pessoas de vistas estreitas deixarão de plantar boas raízes e, vivendo na pobreza e na solidão, ficarão apegadas aos cinco desejos e acabarão presas na rede dos pensamentos e imaginações ilusórios. Se eles virem que o Tathagata está constantemente no mundo e nunca entra em extinção, eles tornar-se-ão arrogantes e egoístas, ou ficarão desencorajados e negligentes. Eles não perceberão quão difícil é encontrar o Buddha e não se aproximarão com uma mente respeitosa e reverente.

“Por isso, como um meio expedito o Tathagata diz: “Monges, deveis saber que é muito raro viver num tempo em que um Buddha apareça no mundo.” Por que age ele assim? Porque as pessoas de escassa virtude podem passar centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de Kalpas conseguindo alguns deles ver um Buddha e outros nunca vendo nenhum. Por esta razão eu lhes digo: “Monges, o Tathagata é raro de encontrar.” Quando os seres viventes ouvem estas palavras, eles percebem quão difícil é encontrar o Buddha. Nas suas mentes eles abrigarão um anseio e estarão sequiosos de verem o Buddha, e então, eles esforçar-se-ão por plantar boas raízes. Daí que o Tathagata, ainda que na verdade não entre em extinção, fala em passar à extinção.

“Bons homens, os Buddhas e Tathagatas pregam todos uma Lei como esta. Eles actuam por forma a salvar todos os seres viventes, por isso, o que eles fazem é verdadeiro e não falso.

“Suponham, por exemplo, que existia um médico hábil que, sábio e conhecedor, sabia compor remédios para todos os tipos de doenças. Ele tinha muitos filhos, talvez dez, vinte ou mesmo cem. Ele ausentou-se para outra terra muito longe para tratar de qualquer assunto. Após a sua partida, as crianças beberam um tipo de veneno que as fez desesperar de dor e caírem por terra.

“Nessa altura o pai regressou a sua casa e descobriu que as crianças tinham tomado veneno. Algumas estavam completamente fora de si, enquanto outras não. Vendo o seu pai ao longe, elas rejubilaram de alegria e ajoelharam-se e suplicaram-lhe: “Que bom que voltas-te são e salvo. Nós fomos descuidados e por engano tomamos veneno. Rogamo-te que nos cures por forma a que possamos viver!”

“O pai, vendo as suas crianças sofrerem assim, seguiu várias receitas. Juntando boas ervas medicinais que reuniam todos os requisitos de cor, fragrância e sabor, moeu-as, agitou-as e misturou-as. Dando uma dose a cada um dos seus filhos, ele disse-lhes: “Este é um remédio muito eficaz, reunindo todos os requisitos de cor, fragrância e sabor. Tomai-o e rapidamente ficareis aliviados dos vossos sofrimentos e livres de todas as doenças.”

“As crianças que não tinham perdido o seu juízo podiam ver que esta era um bom remédio, excelente em cor e fragrância, de modo que o tomaram imediatamente e ficaram curados de toda a doença. Aqueles que estavam fora de si ficaram igualmente encantados por ver o seu pai regressar e rogaram-lhe que curasse a sua doença, mas quando receberam o remédio recusaram-se a tomá-lo. Porquê? Porque o veneno tinha penetrado profundamente e as suas mentes já não funcionavam como antes. Por isso, ainda que o remédio fosse de cor e fragrância excelentes, eles não perceberam a sua qualidade.

“O pai pensou para si: minhas pobres crianças! Devido ao veneno que tomaram, as suas mentes estão completamente confusas. Apesar de estarem alegres por me verem e me peçam que as cure recusam-se a tomar este excelente remédio. Tenho de recorrer a qualquer meio expedito para os levar a tomar o remédio. Então ele disse-lhes: “Vós deveis saber que eu estou velho e acabado, e a hora da minha morte chegou. Vou deixar este bom remédio aqui. Deveis tomá-lo sem se preocuparem se ele vos vai curar ou não” Tendo dado estas instruções, retirou-se para outra terra de onde mandou um mensageiro aos seus filhos com a notícia da sua morte.

“Nessa altura as crianças, ouvindo dizer que o seu pai as tinha deixado e morrido, ficaram cheias de dor e consternação e pensaram para si: se o nosso pai estivesse vivo ele compadecer-se-ia de nós e estaríamos protegidos. Mas agora ele abandonou-nos e morreu num qualquer país distante. Somos órfãos desprotegidos sem ninguém em quem confiar!

“Constantemente imbuídos destes sentimentos de dor, recuperaram finalmente os sentidos e viram que o remédio era de facto excelente em cor, fragrância e sabor, e assim eles tomaram-no e ficaram curados dos efeitos do veneno. O pai, ouvindo dizer que as suas crianças estavam curadas, regressou de imediato a casa e apareceu-lhes novamente.

“Bons homens, qual é a vossa opinião? Pode alguém dizer que este hábil médico é culpado de mentir?”

“Não, Honrado Pelo Mundo.”

O Buddha disse: “É o mesmo comigo. Passaram imensuráveis, ilimitadas centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de nayutas de ashamkyas de kalpas desde que eu atingi o Buddhado. Mas pelo bem dos seres viventes eu emprego o poder dos meios espeditos e digo que estou em vias de passar à extinção. Em vista das circunstâncias, no entanto, ninguém pode dizer que sou culpado de mentiras ou falsidades.”

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Desde que alcancei o Buddhado
o número de kalpas que passaram
é de imensuráveis centenas, milhares,
dezenas de milhar, milhões,
triliões, ashamkyas.
Preguei constantemente a Lei, ensinando, convertendo
incontáveis milhões de seres viventes,
fazendo-os entrar na via do Buddhado,
tudo isto por kalpas imensuráveis.
De modo a salvar os seres viventes, como um meio expedito
eu aparento entrar no nirvana
mas na verdade não entro em extinção.
Estou sempre aqui pregando a Lei.
Estou sempre aqui,
mas através dos meus poderes transcendentais
faço com que os seres viventes na sua confusão
não me vejam mesmo estando por perto.
Quando a multidão vê que eu passei à extinção,
por toda a parte oferecem esmolas às minhas relíquias.

Todos abrigam sentimentos de ansiedade
e nas suas mentes estão sequiosos por me ver.
Quando os seres viventes se tornaram realmente fieis,
honestos e rectos, de intenção branda,
desejando concentradamente ver o Buddha,
sem hesitarem mesmo que lhes custe a vida,
então eu e a assembleia de monges,
aparecemos no Pico da Águia Sagrada.
Nessa altura eu digo aos seres viventes
que estou sempre aqui,
sem nunca entrar em extinção,
mas devido ao poder dos meios expeditos
umas vezes pareço estar extinto, outras não,
e se noutras terras existirem seres viventes
que sejam reverentes e sinceros no seu desejo de acreditar,
então também entre eles eu prego a Lei insuperável.
Mas vocês não ouviram nada disto,
por isso julgam que eu entrei em extinção.
Quando eu olho para os seres viventes,
vejo-os afogados num mar de sofrimento;
por isso eu não apareço, fazendo-os ansiar por mim.
Então, quando as suas mentes estão cheias de ansiedade,
eu apareço por fim e prego-lhes a Lei.
Assim são os meus poderes transcendentais.
Durante ashamkyas de kalpas,
residi constantemente no Pico da Águia Sagrada
e em vários outros lugares.
Quando os seres viventes presenciam o final de um kalpa
e tudo é consumido num grande fogo,
a minha terra permanece segura e tranquila,
repleta constantemente de seres celestiais e humanos.
Os vestíbulos e pavilhões dos seus jardins e bosques
são adornados com vários tipos de jóias.
Árvores de jóias , abundantes de flores e frutos,
onde os seres viventes se comprazem ávontade.
Os deuses batem os tambores celestiais
produzindo vários tipos de músicas.
Chovem flores de mandarava,
espalhando-se sobre o Buddha e a grande assembleia.
A minha terra pura não é destruída,
no entanto a multidão vê-a consumida pelo fogo,
cheia em toda a parte de ansiedade,
medo e outros tormentos.
Estes seres viventes,
com as suas várias faltas,
através de causas originadas pelas suas más acções,
passam ashamkyas de kalpas sem ouvirem o nome das Três Jóias.
Mas aqueles que praticam acções meritórias,
que são brandos, pacíficos, honestos e rectos,
todos eles me verão aqui em pessoa,
pregando a Lei.
Por vezes, eu descrevo a esta multidão
a duração da vida do Tathagata como imensurável,
e àqueles que apenas vêem o Buddha
após um longo período de tempo
eu explico como é difícil encontrar o Buddha.
Tal é o poder da minha sabedoria
cujos raios sagazes brilham sem medida.
Esta duração de vida de incontáveis kalpas
obtive-a mediante uma longa prática.
Vós que sois dotados de sabedoria,
não deveis manter quaisquer dúvidas sobre este ponto!
Libertai-vos delas, dai-lhes um fim para sempre,
porque as palavras do Buddha são verdadeiras e não falsas.
Ele é como um hábil médico
que usa um meio expedito para curar os seus filhos transtornados.
Apesar de estar vivo, ele faz constar a sua morte,
no entanto ninguém pode dizer que ele falou com falsidade.
Eu sou o pai deste mundo,
salvando aqueles que sofrem e estão aflitos.
Devido à confusão das pessoas comuns,
apesar de estar vivo, eu anuncio que entrei em extinção.
Porque se elas me vissem constantemente,
a arrogância e o egoísmo apareceriam nas suas mentes.
Abandonando a contenção,
entregar-se-iam aos cinco desejos
e cairiam nos caminhos malignos da existência.
Estou constantemente consciente dos seres viventes
que praticam a via e daqueles que o não fazem,
e em resposta às suas necessidades de salvação
prego para eles várias doutrinas.
Em todas as ocasiões penso para mim mesmo:
Como posso fazer os seres viventes entrarem na via insuperável
e obterem rapidamente o corpo de um Buddha?

Capítulo Quinze: Emergindo da Terra

   

Nessa altura, os bodhisattvas e mahasattvas que se tinham reunido vindos das terras das outras direcções, numerosos como as areias de oito rios Ganges, colocaram-se no meio da grande assembleia, uniram as palmas das mãos, inclinaram-se em obediência e disseram ao Buddha: “Honrado Pelo Mundo, se nos permitires, na idade após o Buddha ter entrado em extinção, séria e diligentemente, proteger, ler, recitar copiar e oferecer esmolas a este sutra no mundo Saha, nós pregá-lo-emos largamente nesta terra!”

Nessa altura o Buddha disse aos bodhisattvas e mahasattvas: “Deixai, bons homens! Não há necessidade de vocês protegerem este sutra. Porquê? Porque neste meu mundo Saha existem bodhisattvas e mahasattvas numerosos como as areias de sessenta mil rios Ganges, e cada um destes bodhisattvas tem um séquito igual em número às areias de sessenta mil rios Ganges. Após eu ter entrado em extinção estas pessoas serão capazes de proteger, ler, recitar e largamente pregar este sutra.

Quando o Buddha disse estas palavras, a terra dos miriades países do mundo Saha estremeceu e abriu-se, e do seu seio emergiram no mesmo instante imensuráveis milhares, dezenas de milhares, milhões de bodhisattvas e mahasattvas. Os corpos destes bodhisattvas tinham um brilho de ouro, com os trinta e dois sinais distintivos e um imensurável brilho. Todos eles residiram previamente no mundo do espaço vazio sob mundo Saha. Mas quando estes bodhisattvas ouviram a voz do Buddha Shakyamuni emergiram desde baixo.

Cada um dos bodhisattvas era líder da sua grande assembleia, e trazia consigo um séquito igual às areias de cinquenta mil, quarenta, trinta, vinte ou dez mil rios Ganges. Ou um séquito de pelo menos as areias de um Ganges, meio Ganges ou um quarto de um rio Ganges, ou apenas uma parte em mil, dez mil, um milhão de nayutas de um rio Ganges. Alguns tinham um séquito de apenas mil dezenas de milhares de milhões de nayutas. Ou apenas dez mil milhões. Ou mil dezenas de milhar, cem dezenas de milhar ou apenas dez milhares. Ou apenas um milhar, uma centena ou uma dezena. Outros traziam consigo apenas cinco, quatro, três, dois ou um discípulo. Outros vinham sozinhos, preferindo levar a cabo práticas solitárias. Assim eram eles, imensuráveis, ilimitados, para lá de tudo o que possa ser conhecido através de cálculos, metáforas ou parábolas.

Após estes bodhisattvas terem emergido da terra, prosseguiu cada um até à maravilhosa torre de sete tesouros suspensa no céu onde se encontravam o Tathagata Muitos Tesouros e o Buddha Shakyamuni. Ao chegarem lá, voltaram-se para os dois Honrados Pelo Mundo, inclinaram as suas cabeças e prestaram obediência aos seus pés. Todos eles prestaram também obediência aos Buddhas sentados em tronos de leão sob as árvores de jóias. Então, circularam à sua volta para a direita três vezes, com as palmas das mãos unidas em sinal de respeito, utilizando os vários métodos dos bodhisattvas de prestar louvores, e então tomaram lugar a um lado, fitando alegremente os dois Honrados Pelo Mundo. Enquanto estes bodhisattvas e mahasattvas que tinham emergido da terra empregavam os vários métodos dos bodhisattvas para prestarem louvores, decorreu um intervalo de cinquenta pequenos kalpas.
Nessa altura o Buddha Shakyamuni permaneceu silencioso e os quatro tipos de crentes permaneceram também calados durante cinquenta pequenos kalpas, mas devido aos poderes transcendentais do Buddha, pareceu aos membros da grande assembleia ter decorrido apenas meio dia.

Nessa altura os quatro tipos de crentes, também devido aos poderes sobrenaturais do Buddha, viram estes bodhisattvas encherem o céu sobre imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de terras. Entre estes bodhisattvas havia quatro líderes. O primeiro chamava-se Práticas Superiores(Visishtakâritra), o segundo Práticas ilimitadas(Anantakâritra), o Terceiro Práticas Puras(Visuddhakâritra) e o quarto Práticas Firmemente Estabelecidas(Supratishthitakâritra). Estes quatro bodhisattvas eram os líderes máximos e mestres guias entre todo o grupo. Na presença da grande assembleia, cada um deles uniu as palmas das suas mãos, fitou o Buddha Shakyamuni e perguntou: “Honrado Pelo Mundo, as vossas maleitas são poucas, poucas as vossas preocupações, as vossas práticas prosseguem confortávelmente? Aqueles a quem vos propusestes salvar recebem prontamente a instrução? O esforço não faz com que o Honrado Pelo Mundo fique fatigado ou esgotado?

Nessa altura os quatro grandes bodhisattvas falaram em verso, dizendo:

Está o Honrado Pelo Mundo confortável,
com poucas doenças, poucas preocupações?
Ao pregar e converter os seres viventes,
podeis fazê-lo sem fadiga ou desgaste?
E os seres viventes, recebem a instrução prontamente ou não?
Isso não faz com que o Honrado Pelo Mundo fique fatigado ou esgotado?

Nessa altura, no meio da grande assembleia de bodhisattvas, o Honrado Pelo Mundo disse estas palavras: “Assim é, assim é, bons homens! O Tathagata está bem e satisfeito, com poucas maleitas e poucas preocupações.

Os seres viventes estão já convertidos e salvos e eu não estou fatigado nem esgotado. Porquê? Porque era após era no passado, os seres viventes receberam constantemente a minha instrução. Também ofereceram esmolas e prestaram reverência aos Buddhas do passado e plantaram várias boas raízes. Daí que quando estes seres viventes me vêem pela primeira vez e ouvem a minha pregação, todos a aceitam de imediato, entrando na sabedoria do Tathagata, com a excepção daqueles que anteriormente praticaram o Veículo Menor. E agora eu tornarei possível a estas pessoas ouvirem este sutra e entrarem na sabedoria do Buddha.”

Então os quatro grandes bodhisattvas falaram em verso dizendo:

Excelente, excelente, grande herói, Honrado Pelo Mundo!
Os seres viventes estão já convertidos e salvos.
Eles sabem como questionarem acerca da mais profunda sabedoria do Buddha, e tendo ouvido, acreditam e compreendem.
Estamos por conseguinte radiantes.

Nessa altura o Honrado Pelo Mundo louvou os grandes bodhisattvas que lideravam o grupo, dizendo: “Excelente, excelente, bons homens! Vós sabeis rejubilar em vossos corações pelo Tathagata.”

Nessa altura o bodhisattva Maitreya e a multidão de bodhisattvas iguais em número às areias de oito mil rios Ganges pensaram todos para si: “Nunca no passado nós vimos ou ouvimos qualquer referência acerca de uma multidão de bodhisattvas e mahasattvas tão grande como esta que emergiu da terra e agora se encontra perante o Honrado Pelo Mundo, juntando as palmas das suas mãos, oferecendo esmolas e perguntando como está o Tathagata!”

Nessa altura, o bodhisattva Maitreya, conhecendo os pensamentos que iam na mente dos bodhisattvas numerosos como as areias de oito mil rios Ganges e desejando ao mesmo tempo esclarecer as suas próprias dúvidas, uniu as palmas das suas mãos, voltou-se para o Buddha e colocou a sua pergunta em verso:

Imensuráveis milhares, dezenas de milhar, milhões,
uma grande multidão de bodhisattvas
tal como nunca se viu no passado –
rogo ao mais honrado dos seres humanos
que explique de onde é que eles vieram,
que causas e condições os reuniu!
Com um corpo enorme,
grandes poderes transcendentais,
de sabedoria inconcebível,
firmes de ideias e intenções,
com o poder da grande perseverança,
a visão da sua figura deleita os seres viventes –
de onde é que eles vieram?
Cada um destes bodhisattvas
trás consigo um séquito imensurável em número,
tal como as areias do Ganges.
Alguns destes grandes bodhisattvas
trazem consigo o equivalente às areias
de sessenta rios Ganges.
E esta grande multidão,
com uma só mente, procura a via do Buddhado.
Estes grandes mestres
iguais em número às areias de sessenta rios Ganges,
vieram em conjunto oferecer dádivas ao Buddha
e guardar e sustentar este sutra.
Mais numerosos são aqueles com tantos seguidores
como as areias de quarenta mil,
trinta mil, vinte mil, dez mil,
mil, cem, ou mesmo de um rio Ganges,
meio Ganges, um terço, um quarto,
ou apenas uma parte em dezenas de milhares de milhões,
mil, dez mil nayutas,
dez mil, um milhão de discípulos,
ou meio milhão –
esses são ainda mais numerosos.
Esses com um milhão ou dez mil seguidores,
mil ou cem, cinquenta, dez,
três, dois ou um,
ou esses que vêem sozinhos, sem seguidores,
deleitando-se na solidão,
todos vêem ter com o Buddha –
são ainda mais numerosos do que os acima descritos.
Se alguém tentasse usar um ábaco
para calcular o número desta grande multidão,
ainda que despendesse tantos kalpas quantas as areias do Ganges
nunca conheceria a soma total.
Esta multidão de bodhisattvas
com sua grande dignidade, virtude e diligência –
quem pregou a Lei para eles,
quem os ensinou e converteu e os trouxe até aqui?
Sob os auspícios de quem
conceberam eles pela primeira vez
o pensamento da iluminação,
que Lei Búddhica é que eles louvam e proclamam?
Que sutra é que eles abraçam e seguem,
que via Búddhica é que eles praticam?
Estes bodhisattvas possuem poderes transcendentais
e o poder da grande sabedoria.
A terra nas quatro direcções treme e abre-se
e eles emergiram todos do seu interior.
Honrado Pelo Mundo,
nunca no passado eu vi algo como isto!
Rogo-te que me digas de onde eles vieram,
o nome dessa terra.
Tenho peregrinado constantemente de terra em terra
mas nunca vi tal coisa.
Em toda esta multidão
não existe uma pessoa sequer que eu conheça.
Subitamente surgiram da terra –
rogo-te que expliques a causa.
Os membros desta grande assembleia,
imensuráveis centenas, milhares, milhões de bodhisattvas,
todos querem saber estas coisas.
Olhando as causas que governam
o princípio e o fim desta multidão de bodhisattvas,
possuidores de imensurável virtude,
Honrado Pelo Mundo,
rogamo-te que dissipes as dúvidas da assembleia!

Nessa altura, os Buddhas que eram emanações do Buddha Shakyamuni e tinham chegado de imensuráveis milhares, dezenas de milhar, milhões de terras nas outras direcções, estavam sentados com as pernas cruzadas em posição de lótus sentados em assentos de leão sob árvores de jóias nas oito direcções. Os assistentes destes Buddhas viram a grande multidão de bodhisattvas que tinham emergido da terra nas quatro direcções do universo e estavam suspensos no ar, e cada um disse ao seu respectivo Buddha: “Honrado Pelo Mundo, esta grande multidão de imensuráveis, ilimitados asamkhyas de bodhisattvas – de onde vieram eles?”

Nessa altura cada um dos Buddhas disse aos seus assistentes: “Bons homens, esperai um momento. Existe um bodhisattva e mahasattva de nome Maitreya que recebeu do Buddha Shakyamuni a profecia de que será o próximo a tornar-se um Buddha. Ele já perguntou acerca desta matéria e o Buddha está prestes a responder-lhe. Deveis aproveitar esta oportunidade para ouvir o que ele tem a dizer.”

Nessa altura o Buddha Shakyamuni disse ao bodhisattva Maitreya: “Excelente, excelente, Ajita, que tenhas questionado o Buddha acerca deste importante assunto.

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Sede diligentes e concentrados,
pois eu desejo explicar este assunto.
Não tenham dúvidas nem cuidados –
a sabedoria do Buddha é difícil de conceber.
Agora deveis recorrer ao poder da fé,
atendo-se à paciência e à bondade.

Uma Lei nunca ouvida no passado
ireis agora poder ouvir.
Agora eu vos trarei descanso e consolação –
não dêem guarida a dúvidas ou temores.
O Buddha não tem senão palavras verdadeiras,
a sua sabedoria é imensurável.
Esta suprema Lei por ele ganha
é muito profunda e não é passível de análise.
Ele irá agora expo-la –
devem ouvir com uma só mente.

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, tendo falado estes versos, disse ao bodhisattva Maitreya: “Em relação a esta grande multidão eu vou agora dizer-te. Ajita, estes bodhisattvas e mahasattvas que em imensuráveis e incontáveis asamkhyas emergiram da terra e que tu nunca antes tinhas visto – quando eu atingi anuttara-samyak-sambodhi no mundo Saha, converti e guiei estes bodhisattvas, treinei as suas mentes e fiz com que desenvolvessem um anseio pela via. Estes bodhisattvas residiram todos no mundo do espaço vazio sob o mundo Saha. Eles leram, recitaram, compreenderam as várias escrituras, ponderando-as, fazendo distinções e mantendo-as em mente de forma correcta.

Ajita, estes bons homens não têm qualquer deleite em estarem na assembleia nem em se entregarem a muita conversa. O seu deleite é estarem constantemente num lugar socegado, esforçando-se diligentemente e sem descanso. Nem se demoram entre seres humanos ou celestiais, mas deleitam-se constantemente na profunda sabedoria, livres de todos os impedimentos. Deleitam-se constantemente na Lei dos Buddhas, perseguindo diligentemente e sem distracções a insuperável sabedoria.”

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Ajita, deves compreender isto.
Estes grandes bodhisattvas
durante incomparáveis kalpas
praticaram a sabedoria do Buddha.
Todos foram convertidos por mim;
eu fiz com que colocassem as suas mentes no grande caminho.

Estes são os meus filhos,
residem neste mundo,
levando a cabo constantemente práticas dhuta,
preferindo um lugar tranquilo,
rejeitando o desassossego e confusão da grande assembleia,
sem se deleitarem muita conversa.
Desta forma estes filhos
estudam e praticam a minha via e a minha Lei.
De modo a que, dia e noite,
com diligencia constante,
eles possam procurar a via do Buddhado
neste mundo Saha eles residem
na zona mais profunda do espaço vazio.
Firmes no poder da vontade e da concentração,
procurando a sabedoria com diligência constante,
eles expõem várias doutrinas maravilhosas
e as suas mentes não têem medo.
Quando eu estava na cidade de Gaya,
sentado sob a árvore bodhi,
alcancei a mais alta e correcta iluminação
e fiz girar a roda da Lei insuperável.
Então eu ensinei-os e converti-os,
fazendo-os pela primeira vez
colocar as suas mentes no caminho.
Agora todos eles se encontram no estado de não regressão
e todos a seu tempo conseguirão tornar-se Buddhas.
O que eu digo agora são palavras verdadeiras –
com uma só mente deveis acreditar nelas!
Sempre desde o remoto passado
eu estive ensinando e convertendo esta multidão.

Nessa altura o bodhisattva e mahasattva Maitreya, bem como os outros incontáveis bodhisattvas, sentiram aparecer em suas mentes dúvidas e perplexidades. Estavam confusos com esse facto que nunca tinha ocorrido antes e pensavam para si: Como pôde o Honrado Pelo Mundo, em tão curto espaço de tempo, ter ensinado e convertido este número imensurável, de ilimitadas asamkhyas de bodhisattvas permitindo-lhes alcançarem anuttara-samyak-sambodhi?

Então Maitreya disse ao Buddha: “Honrado Pelo Mundo, quando o Tathagata foi coroado príncipe, deixou o palácio dos Shakyas e sentou-se no lugar da prática, não longe da cidade de Gaya, e aí atingiu anuttara-samyak-sambodhi, apenas passaram quarenta anos desde então. Honrado Pelo Mundo, como em tão curto espaço de tempo pode realizar tanto trabalho enquanto Buddha? Foi através dos poderes do Buddha, ou através das bênçãos do Buddha que foi capaz de ensinar e converter um tal número imensurável de grandes bodhisattvas – uma pessoa podia despender mil, dez mil, um milhão de kalpas contando-os sem nunca ser capaz de chegar ao fim ou de descobrir o limite! Desde o remoto passado, na presença de imensuráveis, ilimitados números de Buddhas, eles devem ter plantado boas raízes, levado a cabo a via do bodhisattva, e se empenhado constantemente em práticas brahma. Honrado Pelo Mundo, é difícil para o mundo acreditar em tal coisa!

Suponha por exemplo que um jovem de vinte e cinco anos, compleição robusta e cabelo ainda preto, apontasse para alguém com cem anos de idade e dissesse, “Este é o meu filho!” ou que o de cem anos apontasse para o jovem e dissesse, “Este é o meu pai que me gerou e criou!” Isto seria difícil de acreditar, e é isto o que o Buddha diz.

“Na verdade, não passou muito tempo desde que alcanças-te a via. Mas esta grande multidão de bodhisattvas já se aplicou diligente e esforçadamente durante imensuráveis milhares, dezenas de milhares, milhões de kalpas em prol do caminho do Buddhado. Eles aprenderam a entrar, emergir e permanecer em imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de samadhis, adquiriram grandes poderes transcendentais, levaram a cabo praticas brahma durante um longo período, e conseguiram passo a passo praticar várias boas doutrinas, tornando-se versados em perguntas e respostas, um tesouro entre as pessoas, algo raramente conhecido em todos os mundos. E hoje, Honrado Pelo Mundo, tu dizes-nos que , no tempo que decorreu desde que atingistes o Buddhado, fizes-te com que estas pessoas aspirassem pela primeira vez à iluminação, as ensinas-te, convertes-te e guiás-te, dirigindo-as até annutara-samyak-sambodhi!

“Honrado Pelo Mundo, não foi há muito que atingiste o Buddhado, e ainda assim foste capaz de levar a cabo este feito tão meritório! Nós temos fé no Buddha, acreditando que ele prega em conformidade com o que é apropriado, que as palavras ditas pelo Buddha nunca são falsas e que a sabedoria do Buddha é, em todos os casos, penetrante e vasta. No entanto, no período após o Buddha ter entrado em extinção, se alguns bodhisattvas que tenham começado a aspirar à iluminação ouvirem estas palavras, irão possivelmente não acreditar nelas e rejeitá-las, sendo assim levados a incorrer no crime de rejeitar a Lei. Assim, Honrado Pelo Mundo, rogamo-te que expliques de modo a podermos dissipar as nossas dúvidas e assim, em eras futuras, quando bons homens ouçam esta matéria, não alimentem quaisquer dúvidas!

Nessa altura, o bodhisattva Maitreya, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

No passado o Buddha
deixou o clã Shakya,
abandonou a sua casa,
e perto de Gaya
sentou-se sob a árvore bodhi.
Pouco tempo passou desde então,
no entanto estes filhos de Buddha
são imensuráveis em número!
Durante muito tempo
eles praticaram já o caminho do Buddhado,
praticando poderes transcendentais
e o poder da sabedoria,
aprendendo habilmente a via do Bodhisattva,
impolutos pelas coisas mundanas
como a flor do lótus sobre a água.
Emergindo da terra,
todos demonstram uma mente reverente e respeitadora
perante o Honrado Pelo Mundo.
Isto é difícil de conceber –
como podemos acreditá-lo?
O Buddha atingiu a via
muito recentemente, ainda assim
aqueles a quem ele ajudou a obter sucesso são tantos!
Pedimo-te que dissipes as dúvidas da assembleia,
que estabeleças distinções
e expliques a verdade sobre esta matéria.
É como se um homem jovem
acabado de fazer vinte e cinco anos
apontasse um velho centenário
de cabelo branco e face enrugada e dissesse,
“Eu gerei-o!”
e o velho dissesse,
“Este é o meu pai!”

O pai jovem, o filho velho –
ninguém no mundo acreditaria nisto!
Honrado Pelo Mundo, o teu caso é similar.
Apenas recentemente alcançaste o Buddhado.
Estes bodhisattvas são de vontade firme.
de forma alguma tímidos ou imaturos.
Por imensuráveis kalpas
têm praticado a via do bodhisattva.
Eles são sagazes nas perguntas e respostas difíceis,
as suas mentes não conhecem o medo.
Eles cultivaram firmemente
uma mente perseverante,
recta em dignidade e virtude.
São louvados pelos Buddhas das dez direcções
Como capazes e peritos na pregação das distinções.
Eles não têm desejo de permanecer entre a multidão
mas constantemente preferem o estado de meditação,
e de modo a procurarem a via do Buddhado
têm residido no espaço sob a terra.
Isto nós ouvimos do Buddha
e não temos dúvidas a esse respeito.
Mas pelo bem das eras futuras
nós pedimos ao Buddha
que explique e torne compreensível.
Se em relação a este sutra
alguém levantar dúvidas e deixar de acreditar,
cairá de imediato nos caminhos malignos.
Assim pedimos-te que expliques.
Estes imensuráveis bodhisattvas –
como em tão pouco tempo os ensinaste
fazendo-os ter uma mente votada à iluminação
e chegarem ao estado de não regressão?

Capítulo Quatorze: Práticas Pacíficas

       

Nessa altura, o príncipe do Dharma, Manjushri, bodhisattva e mahasattva, disse ao Buddha: “Honrado Pelo Mundo, estes bodhisattvas empreenderam algo que é muito difícil. Porque eles reverenciam e honram o Buddha, eles fizeram este grande voto de que nas eras malignas vindouras irão guardar, abrigar, ler, recitar e pregar este Sutra do Lótus. Honrado Pelo Mundo, nas eras malignas vindouras, como devem estes bodhisattvas, mahasattvas pregar este sutra?”

O Buddha disse a Manjushri: “Se estes bodhisattvas e mahasattvas nas eras malignas vindouras desejarem pregar este sutra devem regular-se por quatro regras. Primeiro devem acatar as praticas e associações próprias dos bodhisattvas de modo a que possam expor este sutra em prol dos seres viventes. Manjushri, o que é que quero dizer com as praticas de um bodhisattva ou mahasattva? Se um bodhisattva ou mahasattva é perseverante, gentil e dócil, nunca violento e sem se alarmar; e se em relação aos fenómenos ele não actua mas observa a verdadeira entidade dos fenómenos sem agir nem fazer qualquer distinção, então pode dizer serem estas as práticas de um bodhisattva e mahasattva.

“Quanto às associações próprias para eles, bodhisattvas e mahasattvas não devem relacionar-se proximamente com governantes, príncipes, ministros ou altos secretários. Não devem relacionar-se proximamente com não budistas, Brahmans ou jains, ou com aqueles que compõe literatura secular ou livros elogiando os heréticos, nem devem associar-se de perto com Lokayatas ou anti-Lokayatas4. Eles não devem associar-se de perto a divertimentos arriscados, boxe ou luta, ou com actores ou outros empenhados em vários tipos de entretenimentos ilusórios, ou com chandalas, criadores de porcos, carneiros, galinhas ou cães, ou ainda com praticantes da caça, da pesca ou de outras actividades malévolas. Se tais pessoas de tempos a tempos vierem ter com os bodhisattvas e mahasattvas, estes devem pregar a Lei para eles, mas não devem esperar nada deles. Além disso, não se devem associar com monges, monjas, leigos ou leigos que procurem tornar-se ouvintes, nem devem debater com eles ou visitá-los. Não devem ficar na mesma sala que eles, ou no local onde se pratica ou na sala de leitura. Não devem juntar-se a eles nas suas actividades. Se eles vierem ter com os bodhisattvas e mahasattvas, estes devem pregar a Lei para eles de acordo com o que é apropriado, mas não devem esperar nada deles.

“Manjushri, o bodhisatva ou mahasattva não deve, ao pregar a Lei às mulheres, comportar-se de maneira que possa despertar nelas pensamentos de desejo, nem deve deleitar-se ao vê-las. Se ele entra na casa de outra pessoa, não deve envolver-se em conversas com as raparigas jovens, mulheres solteiras ou viuvas. Nem deve aproximar-se dos cinco tipos de homens não masculinos nem ter qualquer relacionamento próximo com eles5. Ele não deve entrar na casa de outra pessoa sozinho. Se por qualquer razão se impõe que entre sozinho, ele deve concentrar a sua mente exclusivamente em pensamentos sobre o Buddha. Se ele tiver que pregar a Lei para uma mulher, ele não deve mostrar os seus dentes rindo nem deve deixar o seu peito ficar exposto. Ele não deve ter qualquer relacionamento íntimo com ela, mesmo que em prol da Lei, muito menos por qualquer outro propósito.

“Ele não deve deleitar-se na educação dos discípulos menores de idade, shramaneras ou crianças, e não deve deleitar-se em compartilhar o mesmo mestre com eles. Ele deve ter prazer em se sentar constantemente em meditação, ficando em lugares socegados e aprendendo a aquietar a sua mente. Manjushri, estas são o que eu chamo as coisas a que ele, antes de mais, se deve associar.

“Depois, os bodhisattvas ou mahasattvas devem ver todos os fenómenos como vazios, sendo essa a sua verdadeira entidade. Eles não se invertem, não se movem, não regridem nem se revolvem. Eles são como espaço vazio, sem natureza inata, para além do alcance de todas as palavras. Eles não são nascidos, não emergem, não surgem. Eles são sem nome, sem forma, sem verdadeiro ser. Eles são sem volume, sem limites, sem impedimentos, sem barreiras. É apenas devido a causas e condições que eles existem, e vêm a ser virados de cima para baixo, a nascer. Daí que eu digo que devem constantemente ver assim as formas dos fenómenos. Isto é o que eu chamo as segundas coisas a que um bodhisattva ou mahasattva se deve associar.”

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Se existirem bodhisattvas que numa era maligna vindoura
desejarem com corações destemidos
pregar este sutra,
estes são os locais onde eles não devem entrar
e as pessoas com quem não devem ter relacionamentos próximos.
Em nenhum momento devem relacionar-se
com governantes e príncipes de reinos,
ministros ou chefes de gabinete,
com quem estiver envolvido em entretenimentos perigosos
bem como com chandalas,
não-Buddhistas ou Brahmans.
Não devem associar-se com pessoas arrogantes
nem com os que aderem
obstinadamente ao Veículo Menor
e são versadas nos seus três repositórios.
Monges que violam os preceitos,
falsos arhats,
monjas que gostam de brincar e rir,
ou mulheres leigas que são
profundamente apegadas aos cinco desejos
ou que buscam a entrada imediata na extinção –
com todos esses não se devem associar.
Se existirem pessoas
que venham com bons corações ter com o bodhisattva
para ouvirem a via do Buddha,
então o bodhisattva com um coração destemido
mas sem dar lugar a expectativas
deve pregar-lhes a Lei.
Mas viúvas e mulheres solteiras
e os diferentes tipos de homens não masculinos –
com todos estes ele não se deve associar
ou lidar com intimidade.
Também não deve associar-se
a carniceiros ou cortadores,
nem com os que caçam animais ou apanham peixe,
ou matam e ferem por lucro.
Com esses que trabalham na venda de carne
ou que oferecem mulheres e vendem os seus favores –
com pessoas destas não se deve associar.
Com quem esteja envolvido em desportos perigosos,
lutas ou outros tipos de divertimentos,
ou com mulheres de natureza lasciva –
que nunca se associe com nenhuma destas pessoas.
Que nunca vá sozinho a lugares fechados
para pregar a Lei a uma mulher.
Quando pregar a Lei,
que não haja brincadeiras ou risos.
Quando entrar numa povoação para pedir comida,
deve levar outro monge consigo;
se não existir nenhum outro monge por perto,
com uma mente sem distracções
concentre-se no Buddha.
A isto é que eu chamo
as práticas e associações apropriadas.
Sendo cuidadoso em relação a estas duas,
pode-se pregar de forma tranquila.
Não se deve falar em termos de
doutrinas médias ou inferiores,
ou doutrinas do condicionado ou do incondicionado,
do real ou do irreal.
Além disso, não devem ser feitas distinções
dizendo, “Isto é um homem, isto é uma mulher.”
Não tentem apreender os fenómenos,
entendê-los ou vê-los.
A isto é que eu chamo
as práticas do Bodhisattva.
Todos os fenómenos são vazios,
sem ser, sem qualquer constância eterna,
sem aparecimento nem extinção.
Isto é o que eu chamo
a posição adoptada pelo sábio.
Da inversão desta Lei resultam distinções,
de que os fenómenos existem, não existem,
são reais ou irreais,
nascidos ou não nascidos.
Devem procurar locais socegados,
aprender a aquietar a mente,
fazendo-a permanecer tranquila,
imóvel como o monte Sumeru.
Todos os fenómenos devem ser vistos
como sendo desprovidos de existência,
como espaço vazio,
sem firmeza ou consistência,
sem nascimento, sem aparecimento,
sem movimento ou regressão,
mantendo-se constantemente numa forma única –
a isto é que eu chamo o local onde se deve residir.
Se após eu entrar em extinção
existirem monges que levem a cabo
estas práticas e estas associações,
então, quando pregarem este sutra
serão livres de medo ou timidez.
Se um bodhisattva
entrar regularmente num local socegado
e com a correcta atitude mental
vir os fenómenos de acordo com a doutrina,
e então, levantando-se da sua meditação,
pelo bem do governante,
dos príncipes, ministros e demais pessoas,
brahmans e outros,
expuser, propagar,
explicar e pregar este sutra,
então a sua mente será tranquila,
livre de medo ou timidez.
Manjushri,
a isto eu chamo o primeiro conjunto de regras
que o bodhisattva deve manter
por forma a poder, em eras vindouras,
pregar o Sutra do Lótus.

Além disso, Manjushri, após o Tathagata ter passado à extinção, nos Últimos Dias da Lei, se alguém desejar pregar este sutra, deve ater-se a estas práticas pacíficas. Quando ele abrir a boca para expor ou quando ele ler este sutra, não deve deleitar-se em falar das faltas das outras pessoas ou escrituras. Ele não deve mostrar desprezo pelos outros mestres ou falar dos gostos ou imperfeições das outras pessoas. Em relação aos ouvintes ele não deve nomeá-los ou falar das suas faltas, nem nomeá-los e louvar as suas qualidades. Não deve também deixar a sua mente encher-se de ressentimento ou ódio. Porque ele é bom ao cultivar este tipo de mente pacífica, os seus ouvintes não se oporão às suas ideias. Se lhe forem colocadas perguntas difíceis, ele não deve responder em termos de um Veículo Menor. Deve explicar as coisas unicamente em termos do Grande Veículo por forma a que as pessoas possam adquirir a sabedoria que abarca todas as espécies.”

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

O bodhisattva deve deleitar-se constantemente em pregar a Lei de forma tranquila.
Num local puro e limpo ele deve estender a sua esteira, untar o seu corpo com óleo, limpar o pó e as impurezas, vestir um manto novo e limpo e purificar-se exterior e interiormente.
Sentado confortávelmente no assento do Dharma, deve pregar a Lei conforme as perguntas.
Se existirem monges ou monjas, homens ou mulheres leigos, governantes e príncipes, oficiais, cavalheiros e pessoas comuns, com uma expressão serena deve pregar para eles as doutrinas maravilhosas e subtis.
Se houverem questões difíceis deve responder de acordo com as doutrinas, empregando causas e condições, metáforas e parábolas para expor e fazer distinções, e através destes meios expeditos levar todos os que o escutam a aspirarem à iluminação, a aumentarem pouco a pouco os seus méritos e a entrarem na via do Buddhado.
Deve pôr de parte quaisquer ideias indolentes, todos os pensamentos de negligência ou facilidade, subtrair-se a preocupações e cuidados e com uma mente compassiva pregar a Lei.
Dia e noite, constantemente, ele deve expor os ensinamentos da via insuperável, empregando causas e condições, imensuráveis metáforas e parábolas para instruir os seres viventes e fazer com que se alegrem.
Vestuário e dormida, comida, bebida e medicação – em relação a estas coisas ele não deve ter expectativas, deve concentrar a sua mente nas razões para pregar a Lei, desejando completar a via do Buddha e fazer com que outros na assembleia o façam também.
Isso trará grande proveito para eles, constituindo uma oferta de paz.
Após eu ter passado à extinção se existirem monges capazes de expor este Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa as suas mentes serão livres de inveja, raiva e de todas as preocupações e impedimentos.
Ninguém os incomodará, amaldiçoará ou insultará.
Eles não conhecerão o medo, não serão atacados por espadas ou paus, nem serão nunca banidos, porque eles praticam a paciência.
As pessoas sábias serão capazes de cultivarem assim as suas mentes e encontrarão a paz tal como eu expus anteriormente.
As bênçãos dessas pessoas estão para lá de qualquer cálculo , metáfora ou parábola; milhares, dezenas de milhar, milhões de kalpas não seriam suficientes para os descrever.

“Além disso, Manjushri, se um bodhisattva ou mahasattva em idades vindouras, no último período, quando a Lei estiver quase a perecer, aceitar e abraçar, ler e recitar este sutra, ele não deve dar lugar a uma mente marcada pela inveja, a bajulação ou o engano. Ele não deve desprezar ou insultar aqueles que estudam o caminho do Buddha nem procurar os seus defeitos.

“Se existirem monges, monjas, leigos ou leigas que procurem tornar-se ouvintes ou pratyekabuddhas, ou que procurem a via do boddhisattva, não se deve perturbá-los causando-lhes dúvidas ou remorsos, dizendo-lhes, “Estais muito afastados do caminho e no final nunca sereis aptos para alcançar a sabedoria que abarca todas as espécies. Porquê? Porque sois pessoas auto indulgentes que negligenciam o caminho!”

“Também nunca devem envolver-se em debates frívolos sobre as várias doutrinas ou disputar ou discutir por causa delas. Em relação a todos os seres viventes, devem pensar neles com grande compaixão. Em relação ao Tathagata, pensem nele como um pai bondoso; em relação aos bodhisattvas, pensem neles como grandes mestres. Para com os grandes bodhisattvas das dez direcções, mantenham uma mente séria, prestando-lhes a devida obediência e respeito. Pregai a todos os seres viventes a Lei de forma equânime. Porque alguém é muito atento à Lei, isso não quer dizer que devam pregar mais ou menos. Mesmo para aqueles que demonstram um profundo amor pela Lei não se deve por isso pregar mais demoradamente.

Manjushri, se de entre estes bodhisattvas e mahasattvas existirem alguns que, no último período, quando a Lei estiver prestes a perecer, conseguirem levar a cabo este terceiro conjunto de práticas pacíficas, então quando eles pregarem esta Lei, estarão livres de ansiedade e confusão, e encontrarão bons estudantes com quem poderão ler e recitar este sutra. Atrairão uma grande assembleia de pessoas que virão escutar e aceitar. Após terem ouvido, abraçarão, após abraçarem, recitarão; após recitarem, pregarão; após pregarem, copiarão ou farão com que outros copiem, e apresentarão oferendas aos rolos dos sutras, tratando-os com reverência, respeito e louvor.”

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Se desejais pregar este sutra,
deveis por de parte a inveja, o ódio, a arrogância,
a mente bajuladora, enganosa e falsa,
e praticar constantemente uma conduta honesta e recta.
Não olheis os outros com desprezo
nem mantenhais debates frívolos sobre as várias doutrinas.
Não façais com que os outros tenham dúvidas ou remorsos dizendo,
“Tu nunca te tornarás um Buddha!”
Quando um filho de Buddha prega a Lei
ele é em todas as ocasiões gentil e cheio de tolerância,
tendo piedade e compaixão por todos,
nunca dando lugar a uma mente negligente ou indolente.
Os grandes bodhisattvas das dez direcções
cumprem o caminho a partir da compaixão por todos.
Deveis lutar para os respeitar e reverenciar, dizendo,
“Estes são os grandes mestres!”
Em relação aos Buddhas, os Honrados Pelo Mundo,
aprendei a olhá-los como pais extremosos.
Varrei a mente da vaidade e da arrogância
e pregai a Lei sem impedimento.
Este é o terceiro conjunto de regras;
os sábios devem guardá-las e obedecê-las.
Se observardes sem distracções estas práticas pacíficas,
sereis respeitados por imensuráveis multidões.

Manjushri, se de entre estes bodhisattvas e mahasattvas existirem alguns que no último período, quando a Lei estiver prestes a perecer, aceitarem e abraçarem o Sutra do Lótus, devem cultivar para com os crentes que ainda não abandonaram a sua casa, ou aqueles que já abandonaram a sua casa, uma mente de grande compaixão, e devem pensar para si: Estas pessoas cometeram um erro grave. Apesar do Tathagata, recorrendo a um meio expedito, pregar a Lei de acordo com o que é apropriado, eles não ouvem, não sabem, não percebem, não perguntam, não acreditam, não entendem. Mas apesar destas pessoas não perguntarem, não acreditarem e não compreenderem este sutra, quando eu tiver alcançado annutara-samyak-sambhodi, onde quer que eu esteja, empregarei os meus poderes transcendentais e o poder da sabedoria para os atrair a mim e fazer permanecer nesta Lei.

“Manjushri, após o Tathagata ter entrado em extinção, se de entre os bodhisattvas e mahasattvas existirem alguns capazes de levar a cabo este conjunto de regras, então eles não cometerão nenhum erro ao pregarem a Lei. Monges, monjas, leigos e leigas, governantes, príncipes, ministros, pessoas comuns, brahmans e proprietários oferecer-lhes-ão constantemente esmolas e prestar-lhes-ão reverência, respeito e louvor. Os seres celestiais no céu, de modo a ouvirem a Lei, constantemente os seguirão e irão ter com eles. Se eles estiverem numa povoação, cidade, num lugar calmo e deserto ou numa floresta e as pessoas vierem e lhe colocarem questões difíceis, os seres celestiais, dia e noite pelo bem da Lei, guardá-los-ão e sustê-los-ão constantemente, fazendo com que todos os ouvintes rejubilem. Porquê? Porque este sutra está protegido pelos poderes sobrenaturais de todos os Buddhas do passado, do presente e do futuro.

“Manjushri, quanto a este Sutra do Lótus, através de imensuráveis números de terras, é impossível sequer ouvir o seu nome, quanto mais vê-lo, aceitá-lo e abraçá-lo, lê-lo e recitá-lo. Manjushri, supõe por exemplo, que existe um poderoso rei sábio que quer usar a sua força para subjugar outros países, mas os governantes mesquinhos não cumprem as suas ordens. Nessa altura o rei sábio convoca as suas várias tropas e prepara-se para atacar. Se o rei vê algum dos seus soldados que tenha ganho distinções no campo de batalha, ele fica deleitado e imediatamente recompensa a pessoa em questão de acordo com os seus méritos, doando terras, casas, povoados e cidades, ou vestes e adornos de uso pessoal, ou dando talvez objectos preciosos como ouro, prata, madrepérola, ágata, coral ou âmbar, ou elefantes, cavalos, carruagens, servos e servas e gente. Apenas a jóia brilhante que está no topo da sua cabeça ele não oferece. Porquê? Porque esta jóia existe apenas no topo da cabeça do rei, e se ele fosse a oferecê-la, os seus súbditos manifestariam grande consternação e alarme.

“Manjushri, o Tathagata é assim. Ele usa o poder da meditação e da sabedoria para conquistar territórios do Dharma e tornar-se rei do triplo mundo. Mas os reis demónios não querem obedecer e submeter-se. Os lideres militares sábios e meritórios do Tathagata envolvem-se na batalha e quando algum dos soldados do Buddha adquire distinção, o Buddha fica deleitado e entre os quatro tipos de crentes, ele prega vários sutras, alegrando os seus corações. Ele oferece-lhes meditações, emancipações, raízes e poderes livres de falhas, e outros tesouros da Lei. Ele oferece-lhes também a cidade do nirvana, dizendo-lhes que alcançaram a extinção, guiando as suas mentes e fazendo-os rejubilar. Mas ele não lhes prega o Sutra do Lótus.

“Manjushri, quando o rei sábio vê algum dos seus soldados que ganhou realmente uma grande distinção, ele fica tão deleitado que pega na jóia incrivelmente rara que há tanto tempo se encontra no topo da sua cabeça, nunca tendo sido dada, e oferece-a agora a esse homem. O Tathagata faz o mesmo. No triplo mundo ele actua como o grande rei do Dharma. Ele usa a Lei para ensinar e converter todos os seres viventes, atento aos sábios e meritórios exércitos, em luta com os demónios dos cinco componentes, os demónios dos desejos mundanos e o demónio da morte. E quando eles ganharam grandes distinções e méritos, secando os três venenos, vitoriosos sobre o triplo mundo e destruidores das redes dos demónios, o Tathagata enche-se de grande alegria. Este Sutra do Lótus é capaz de fazer com que todos os seres viventes alcancem a sabedoria. Enfrentará muita hostilidade no mundo e será difícil de acreditar. Nunca antes foi praticado mas agora eu prego-o.

“Manjushri, este Sutra do Lótus é o principal de entre todos os que o Tathagata prega. Entre todos os que são pregados é o mais profundo. E é conferido em última instância, tal como esse profundo governante fez quando pegou na jóia brilhante que tinha guardado por tanto tempo e finalmente a deu.

“Manjushri, este Sutra do Lótus é o repositório secreto dos Buddhas, os Tathagatas. Entre os sutras, detém o mais alto lugar. Através da longa noite eu guardei-o e protegi-o e nunca o propaguei imprudentemente. Mas hoje, pela primeira vez eu exponho-o para vosso benefício.”

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Praticai constantemente a perseverança,
tende piedade de todos os seres,
e fazei o vosso melhor para expor e pregar o sutra
louvado pelo Buddha.
Na última era vindoura
aqueles que abraçam este sutra devem,
quer se trate de pessoas que não deixaram as suas casas,
pessoas que já as deixaram ou pessoas que não sejam bodhisattvas,
cultivar a piedade e a compaixão, dizendo,
“Se eles não ouvirem este sutra e não acreditarem nele,
cometerão um grave erro.
Se eu conquistar a via do bodhisattva,
empregarei meios expeditos e pregarei a Lei para eles,
fazendo com que a aceitem.
Suponham que existe um poderoso rei sábio.
Os seus soldados ganharam méritos na batalha
e ele recompensa-os com vários artigos,
elefantes, cavalos, carruagens,
adornos pessoais, campos e casas,
povoados e cidades,
ou oferece-lhes roupas, vários tipos de objectos preciosos,
servos e servas, riquezas e bens,
atribuindo tudo isto alegremente.
Mas se existir alguém corajoso e forte,
que consiga levar a cabo feitos difíceis,
o rei tira a jóia brilhante do seu toucado
e oferece-a a esse homem.
O Tathagata é assim.
Ele procede como rei das doutrinas,
possuindo o grande poder da perseverança
e o precioso repositório da sabedoria,
e com a sua grande piedade e compaixão
converte as eras de acordo com a Lei.
Ele vê todas as pessoas
enquanto padecem de sofrimento e ansiedade,
procurando a emancipação, lutando com os demónios,
e pelo bem dos seres viventes
ele prega as várias doutrinas,
empregando grandes meios expeditos
e pregando estes sutras.
Quando ele sabe que os seres viventes
alcançaram poderes através deles,
então, no último momento, pelo seu bem,
ele prega este Sutra do Lótus,
tal como o rei que desata o seu toucado
e oferece a sua jóia brilhante.
Este sutra deve ser honrado
como o maior de entre os sutras.
Constantemente eu o guardo e protejo,
e não o revelo propositadamente.
Mas agora é a altura certa para eu o pregar para vós.
Após eu ter entrado em extinção,
se alguém procura a via do Buddha
e espera ser capaz de a expor tranquilamente,
então ele deve associar-se intimamente
às quatro regras descritas.
Qualquer um que leia este sutra
estará em todas as ocasiões
livre de preocupações e ansiedade;
igualmente será livre de doenças ou dores,
a sua expressão será fresca e brilhante.
Ele não nascerá na pobreza ou necessidade,
nem em circunstancias humildes ou adversas.
Os seres viventes alegrar-se-ão ao vê-lo
e olhá-lo-ão como a um sábio meritório.
Os jovens filhos dos seres celestiais
irão esperá-lo e servi-lo.
Espadas e paus não o atingirão
e os venenos não terão poder para o atingir.
Se as pessoas o maldisserem e insultarem,
as suas bocas serão fechadas e caladas.
Ele passear-se-á sem medo como o rei leão.
A sua sabedoria será brilhante como o sol;
mesmo nos seus sonhos ele verá apenas coisas maravilhosas.
Ele verá os Tathagatas sentados nos seus tronos de leão,
pregando a Lei, rodeados por multidões de monges.
Ele verá dragões, espíritos, asuras e outros,
numerosos como as areias do Ganges,
com as palmas das mãos unidas reverentemente,
e pregará a Lei para eles.
Verá ainda Buddhas,
os seus corpos imbuídos de um brilho dourado,
emitindo imensuráveis raios
que brilham sobre todas as coisas,
empregando os sons Brahma
para exporem as doutrinas.
Aos quatro tipos de crentes
o Buddha pregará a Lei insuperável,
e ele ver-se-á na sua presença,
unindo as palmas das mãos louvando o Buddha.
Ele ouvirá a Lei com deleite
e oferecerá esmolas.
Obterá dharanis
e conhecerá a sabedoria que é sem regressão.
E quando o Buddha souber
que a sua mente entrou profundamente na via do Buddhado,
dar-lhe-á uma profecia
de que alcançará a mais alta e correcta iluminação.
“Tu, bom homem, numa era vindoura
obterás sabedoria imensurável,
o grande caminho do Buddha.
A tua terra será adornada e pura,
incomparavelmente vasta e grande,
com os quatro tipos de crentes
que com as palmas das mãos unidas ouvirão a Lei.
Ele ver-se-á ainda no meio de montanhas e florestas
praticando a boa Lei,
entendendo a verdadeira natureza de todos os fenómenos,
profundamente imerso em meditação
e vendo os Buddhas das dez direcções.
Os Buddhas, com os seus corpos de um brilho dourado,
adornados com as marcas de uma centena de diferentes bons auspícios,
ouvir a Lei e pregá-la às pessoas –
esses são os bons sonhos que ele tem constantemente.
Ele sonhará ainda que é rei de um país
e abandona os seus palácios e assistentes
e os soberbos e maravilhosos objectos dos cinco desejos,
dirige-se para o lugar da prática
e sob uma árvore bodhi
senta-se num assento de leão, buscando a via,
e após sete dias alcança a sabedoria dos Buddhas.
Tendo sido bem sucedido na via insuperável,
levanta-se e faz girar a roda da Lei,
pregando a Lei aos quatro tipos de crentes,
durante milhares, dezenas de milhar, milhões de kalpas,
pregando a maravilhosa Lei isenta de falhas,
salvando imensuráveis seres viventes.
Depois ele entrará no nirvana
como fumo que se dissipa quando a chama se esgota.
Se na época maligna vindoura
alguém pregar esta suprema Lei,
essa pessoa ganhará grandes benefícios,
bênçãos tais como as acima descritas.

Capítulo Treze: Admoestação Para Abraçar o Sutra

Nessa altura, o bodhisattva e mahasattva Rei da Medicina(Bhaishagyarâga), em conjunto com o bodhisattva e mahasattva Grande Alegria da Pregação(Mahâpratibhâna) e vinte mil discípulos bodhisattvas que os acompanhavam, todos na presença do Buddha fizeram este voto, dizendo: “Rogamos ao Honrado Pelo Mundo que não tenha mais preocupações. Após o Buddha ter entrado em extinção nós não deixaremos de honrar, abraçar, ler, recitar e pregar este sutra. Os seres viventes da era maligna terão boas raízes cada vez menores. Muitos serão supremamente arrogantes e gananciosos por ofertas e outras formas de lucro, aumentando as más raízes e afastando-se mais do que nunca da emancipação. Mas ainda que seja difícil ensiná-los e convertê-los, nós invocaremos o poder da grande paciência e ire-mos ler e recitar este sutra, abraçá-lo, pregá-lo e copiá-lo, oferecendo-lhe muitos tipos de esmolas sem nunca regatearmos os nossos corpos ou as nossas vidas.

Nessa altura na assembleia existiam quinhentos arhats que tinham recebido uma profecia de iluminação. Eles disseram ao Buddha, “Honrado Pelo Mundo, nós também fazemos um voto. Em outras terras que não esta nós pregaremos largamente este sutra.”

Também aí estavam oito mil pessoas, algumas ainda a aprender, outras sem nada mais a aprender, que tinham recebido uma profecia de iluminação. Elas levantaram-se dos seus lugares, juntaram as palmas das mãos e, virado-se para o Buddha, fizeram este voto: “Honrado Pelo Mundo, também nós noutras terras iremos pregar largamente este sutra. Porquê? Porque neste mundo Saha as pessoas são dadas à corrupção e ao mal, acometidas de grande arrogância, pobres em bênçãos, irascíveis, bajuladoras e hipócritas, e os seus corações são insinceros.”

Nessa altura a tia materna de Buddha, a monja Mahaprajapati e as seis mil monjas que a acompanhavam, algumas ainda a aprender, outras sem nada mais a aprender, levantaram-se dos seus lugares, juntaram as palmas das mãos e com uma só mente fitaram a face do Honrado Pelo Mundo, sem desviarem os olhos por um instante sequer.

Nessa altura o Buddha disse a Gautami (3), “Porque é que olhas o Tathagata de forma tão perplexa? Estás preocupada no teu coração por eu não ter mencionado o teu nome entre aqueles que receberam a profecia de obtenção de anuttara-samyak-sambhodi? Mas Gautami, eu tinha feito antes uma declaração geral dizendo que todos os ouvintes tinham recebido tal profecia. Agora, se queres saber a profecia para ti, eu direi que em eras vindouras, sob a Lei de sessenta e oito milhares de milhões de Buddhas, serás um grande mestre da Lei, e as seis mil monjas, algumas ainda a aprender, algumas já suficientemente instruídas, acompanhar-te-ão como mestres da Lei. Deste modo irás pouco a pouco completando a via do bodhisattva até que estarás apta a tornar-te um Buddha com o nome Tathagata Visto Com Alegria Por Todos Os Seres Viventes(Sarvasattvapriyadarsana), digno de ofertas, de conhecimento recto e universal, de perfeita conduta e claridade, bem-aventurado, compreendendo o mundo, inexcedivelmente meritório, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buddha, Honrado Pelo Mundo. Gautami, este Buddha Visto Com Alegria Por Todos Os Seres Viventes conferirá uma profecia aos seis mil bodhisattvas, a ser transmitida de um para outro, de que alcançarão anuttara-samyak-sambodhi.”

Nessa altura a mãe de Rahula, a monja Yasodhara, pensou para si, o Honrado Pelo Mundo, na sua atribuição de profecias não referiu o meu nome!

O Buddha disse a Yasodhara, “Em eras futuras, sob a Lei de centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de Buddhas, tu praticarás os feitos de um bodhisattva, serás um grande mestre da Lei e, gradualmente, irás completando o caminho do Buddhado. Então, numa boa terra, tu tornar-te-ás um Buddha chamado Tathagata Dotado de Milhares de Dezenas de Milhares de Marcas Brilhantes (Rasmisatasahasraparipûrnadhvaga), digno de ofertas, de conhecimento recto e universal, de perfeita conduta e claridade, bem-aventurado, compreendendo o mundo, inexcedivelmente meritório, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buddha, Honrado Pelo Mundo. A duração da vida deste Buddha será de imensuráveis asankyas de kalpas.”

Nessa altura a monja Mahaprajapati, a monja Yashodhara e as suas seguidoras estavam cheias de grande alegria, tendo ganho o que nunca antes haviam possuído. De imediato, na presença do Buddha elas falaram em verso, dizendo:

Honrado Pelo Mundo, líder e mestre,
tu trazes tranquilidade aos seres celestiais e humanos.
Nós ouvimos estas profecias
e as nossas mentes estão pacificadas e satisfeitas.

As monjas, tendo recitado estes versos, disseram ao Buddha, “Honrado Pelo Mundo, também nós estamos prontas para ir para outras terras e propagar largamente este sutra.

Nessa altura o Honrado Pelo Mundo olhou os oitocentos mil milhões de nayutas de bodhisattvas e mahasattvas. Estes bodhisattvas haviam todos chegado ao estado de avivartika, girado a irreversível roda da Lei e ganho dharanis. Eles levantaram-se dos seus lugares, avançaram perante o Buddha e, juntando as palmas das mãos com uma só mente, pensaram para si mesmos, se o Honrado Pelo Mundo nos mandar abraçar e pregar este sutra, nós cumpriremos as instruções do Buddha e pregaremos largamente esta Lei. E então pensaram, mas o Buddha agora está silencioso e não nos dá essa ordem. Que devemos fazer?

Nessa altura, os bodhisattvas, acatando respeitosamente a vontade do Buddha e ao mesmo tempo, desejando cumprir os seus votos originais, prosseguiram até à presença do Buddha para rugir o rugido do leão e fazer um voto, dizendo: “Honrado Pelo Mundo, após o Tathagata ter entrado em extinção, nós viajaremos por aqui e por ali, para trás e para a frente através de mundos pelas dez direcções para permitir aos seres copiarem este sutra, o receberem, abraçarem, lerem e recitarem, entendendo e pregando os seus princípios, praticando-o de acordo com a Lei, e mantendo-o apropriadamente nos seus pensamentos. Tudo isto será feito mediante o poder e a autoridade do Buddha. Rogamos ao Honrado Pelo Mundo, ainda que noutra região, que olhe por nós, nos guarde e proteja.

Nessa altura os bodhisattvas juntaram as suas vozes e falaram em verso, dizendo:

Rogamo-te que não te preocupes.
Após o Buddha ter passado à extinção,
numa era de medo e maldade
nós pregaremos largamente por toda a parte.
Existirão então muitas pessoas ignorantes
que nos amaldiçoarão e caluniarão,
que nos atacarão com espadas e paus,
mas nós suportaremos todas essas coisas.
Nessa era maligna existirão monges
de sabedoria perversa e corações bajuladores e enganosos,
que suporão ter alcançado o que não alcançaram,
sendo orgulhosos e gabarolas nos seus corações.
Ou existirão monges residentes na floresta,
usando roupas de remendos e vivendo em reclusão,
que pretenderão estarem a praticar a verdadeira via,
desprezando e olhando com superioridade a humanidade.
Gananciosos por lucro e apoio,
pregarão a lei do leigo de roupa branca
e serão respeitados e reverenciados pelo mundo
como se fossem arhats
possuidores dos seis poderes transcendentais.
Estes homens com o mal nos seus corações,
pensarão constantemente em assuntos mundanos,
usurparão o nome dos monges residentes na floresta
e terão prazer em proclamar as nossas faltas,
dizendo coisas como esta:
“Estes monges são gananciosos por lucro e apoio
e por isso pregam doutrinas não budistas
e fabricam as suas próprias escrituras
para iludir as pessoas do mundo.
Por esperarem ganhar fama e renome
eles fazem distinções ao pregar este sutra.”
Porque no meio da assembleia
eles tentarão constantemente difamar-nos,
dirigir-se-ão aos governantes, ministros,
Brahmans e proprietários,
bem como aos outros monges,
caluniando-nos e difamando-nos, dizendo,
“Estes homens de visões perversas
pregam doutrinas não budistas!
Mas porque nós veneramos o Buddha
suportaremos todos estes males.
Mesmo que eles nos tratem com desprezo, dizendo,
“Vocês são sem dúvida Buddhas!”
todas essas palavras de arrogância e desprezo
nós iremos suportar e aceitar.
Num kalpa enlameado, numa era malévola
existirão muitas coisas temíveis.
Demónios malignos tomarão possessão de outros
e através deles irão amaldiçoar-nos, insultar-nos
e tentar envergonhar-nos.
Mas nós, confiando reverentemente no Buddha,
envergaremos a armadura da perseverança.
De modo a pregar este sutra
nós suportaremos estas dificuldades.
Não nos preocupamos com os nossos corpos ou vidas
mas estamos ansiosos apenas pela via insuperável.
Em idades vindouras
nós sustentaremos e protegeremos
o que o Buddha nos confiou.
Os monges malignos dessa era enlameada,
falhando o entendimento dos meios expeditos do Buddha,
como ele prega a Lei de acordo com o que é apropriado,
confrontar-nos-ão com linguagem obscena e expressões iradas;
seremos banidos consecutivamente
para lugares afastados das torres e templos.
Todos esses diversos males,
por mantermos em mente as ordens de Buddha,
nós iremos suportar.
Às povoações e cidades daqueles que buscam a Lei,
nós iremos onde quer que eles estejam
e pregaremos a Lei confiada pelo Buddha.
Seremos os enviados do Honrado Pelo Mundo,
enfrentando sem medo a assembleia.
Pregaremos a Lei com habilidade,
pois desejamos que o Buddha descanse tranquilo.
Na presença do Honrado Pelo Mundo
e de Buddhas reunidos desde as dez direcções,
proclamamos este voto.
O Buddha deve saber o que vai nos nossos corações.

Capítulo Doze: Devadatta

Nessa altura o Buddha dirigiu-se aos bodhisattvas, aos seres celestiais e humanos e aos quatro tipos de crentes, dizendo: “Há imensuráveis kalpas no passado, eu procurei o Sutra do Lótus sem nunca esmorecer. Durante esses muitos kalpas, eu apareci constantemente como o governante de um reino que fizera o voto de buscar a bodhi insuperável. A sua mente nunca vacilava ou desistia, e no seu desejo de completar os seis paramitas ele diligentemente distribuía esmolas, nunca regateando em seu coração, quer a dádiva fosse elefantes ou cavalos, os sete artigos raros, países, cidades, mulher, filhos, servos, ou a sua própria cabeça, olhos, medula, cérebro, a sua própria pele ou membros. Ele não regateava sequer a sua própria vida. Nessa altura a vida humana era imensuravelmente longa. Mas em prol da Lei este rei abandonou o seu reino e trono, delegando o governo no seu príncipe herdeiro, fazendo soar tambores e enviando proclamações, procurando a Lei nas quatro direcções e dizendo, “Quem pode expor para mim o Grande Veículo? Até ao fim dos meus dias eu seria o seu provedor e servo!”

“Nessa altura existia um vidente que foi ter com o rei e disse, “Eu tenho um texto do Grande Veículo chamado Sutra da Lei Maravilhosa. Se nunca me desobedeceres, eu expô-lo-ei para ti.” Quando o rei ouviu estas palavras do vidente dançou de alegria. De imediato ele acompanhou o vidente, providenciando tudo o que ele desejasse, apanhando fruta, buscando água, tratando do fogo, preparando as refeições, oferecendo mesmo o seu corpo como colchão ou assento, nunca se poupando em corpo ou mente. Ele serviu o vidente desta forma durante quinhentos anos, tudo em prol da Lei, trabalhando diligentemente como assistente do vidente e velando para que nada lhe faltasse.”

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Recordo esses idos kalpas do passado
quando por forma a procurar a grande Lei,
apesar de eu ser o governante de um reino,
não estava ávido de satisfazer os cinco desejos
mas antes tocava o sino, anunciando pelas quatro direcções,
“Quem possui a grande Lei?
Se alguém a explicar e pregar para mim
eu serei o seu escravo e servo!”
Nessa altura existia um vidente chamado Asita
que veio e anunciou a este grande Rei,
“Eu tenho uma Lei subtil e maravilhosa,
raramente conhecida neste mundo.
Se levares a cabo práticas religiosas
eu poderei expô-la para ti.”
Quando o rei ouviu as palavras do vidente
o seu coração estava cheio de grande alegria.
Imediatamente ele acompanhou o vidente,
fornecendo-lhe tudo o que ele precisasse,
recolhendo lenha, frutas, arroz selvagem,
apresentando-lhe tudo nas ocasiões apropriadas
com respeito e reverência.
Porque os seus pensamentos estavam na Lei Maravilhosa
ele nunca esmorecia de corpo ou mente.
Pelo bem de todos os seres viventes
ele diligentemente procurava a grande Lei,
sem prestar atenção a si próprio
ou à gratificação dos cinco desejos.
Assim o governante de um grande reino
através de busca diligente
foi capaz de adquirir esta Lei
e eventualmente de atingir o Buddhado,
tal como eu agora exporei para vocês.

O Buddha disse aos seus monges: “O rei, nessa altura, era eu, e este vidente era o homem que é agora Devadatta. Apenas porque Devadatta foi um bom amigo para mim, eu fui capaz de me dotar com os seis paramitas, piedade, compaixão, alegria e equanimidade, com os trinta e dois sinais distintivos, as oitenta características, a cor púrpura dourada, os dez poderes, os quatro tipos de destemores, os quatro métodos de conquistar as pessoas, as dezoito propriedades exclusivas, os poderes transcendentais e o poder da via. O facto de eu ter alcançado a iluminação correcta e imparcial e poder salvar seres viventes em larga escala é devido a Devadatta, que foi para mim um bom amigo.”

Então o Buddha disse aos quatro tipos de crentes: “Devadatta, depois de terem passado imensuráveis kalpas, atingirá o Buddhado. Ele será chamado Tathagata Rei Celestial(Devarâga), digno de ofertas, de conhecimento recto e universal, de perfeita conduta e claridade, bem-aventurado, compreendendo o mundo, inexcedivelmente meritório, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buddha, Honrado Pelo Mundo. O seu mundo será chamado via celestial, e o Buddha Rei Celestial residirá no mundo durante vinte kalpas médios, pregando largamente a Lei Maravilhosa pelo bem dos seres viventes. Seres viventes numerosos como as areias do Ganges alcançarão o fruto do estado de arhat. Imensuráveis números de seres viventes conceberão o desejo de se tornarem pratyekabuddhas, seres viventes numerosos como as areias do Ganges conceberão o desejo pela via insuperável, ganharão o fruto de não mais renascerem, e por isso não retornarão. Após o Buddha Rei Celestial entrar no parinirvana, a sua Lei Correcta perdurará no mundo durante vinte kalpas médios. As relíquias do seu corpo serão guardadas numa torre construída com os sete tesouros, com sessenta yojanas de altura e sessenta yojanas de comprimento e largura. Todos os seres celestiais e humanos escolherão flores variadas, incenso em pó ou em pasta, roupas, colares, estandartes e bandeiras, palanquins de jóias, músicas e canções de louvor para oferecerem como sinal de reverência à torre de sete tesouros. Imensuráveis números de seres viventes alcançarão os frutos do estado de arhat, numerosos seres viventes alcançarão a iluminação como pratyekabuddhas e um inimaginável número de seres viventes conceberão o desejo por bodhi e atingirão o nível de não retorno.”

O Buddha disse aos seus monges: “Em eras futuras, se existirem bons homens e boas mulheres que, ao ouvirem o capítulo Devadatta do Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa, acreditarem nele e o reverenciarem com corações puros, sem darem lugar a dúvidas ou perplexidades, eles nunca cairão no inferno ou no reino dos espíritos esfomeados ou das bestas, mas nascerão na presença de Buddhas das dez direcções, e no lugar em que nascerem ouvirão constantemente este sutra. Se eles nascerem entre seres humanos ou celestiais, gozarão maravilhosos e inexcedíveis deleites, e se nascerem na presença do Buddha, nascerão de transformação a partir de flores de lótus.”

Nessa altura existia um bodhisattva que estava entre os seguidores do Honrado Pelo Mundo Muitos Tesouros da região inferior e cujo nome era Sabedoria Acumulada(Pragñâkûta). Ele disse ao Buddha Muitos tesouros, ”Devemos voltar agora para a nossa terra natal?”

O Buddha Shakyamuni disse a Sabedoria Acumulada, “Bom homem, espera um pouco mais. Existe aqui um Bodhisattva chamado Manjushri que devias ver. Debate e discute a Lei maravilhosa com ele, e depois podes retornar à tua terra natal.”

Nessa altura Manjushri estava sentado numa flor de lótus de mil pétalas, grande como uma roda de carruagem, e os bodhisattvas que tinham vindo com ele também estavam sentados em lótus de jóias. Manjushri tinha emergido de forma natural do palácio do rei dragão Sagara no grande oceano e estava suspenso no ar. Prosseguindo para o Pico Sagrado da Águia, ele desceu da flor de lótus e, tendo chegado à presença dos Buddhas, inclinou a sua cabeça e prestou obediência aos pés dos dois Honrados Pelo Mundo. Quando ele concluiu esses gestos de respeito, dirigiu-se para onde estava Sabedoria Acumulada e trocou com ele cumprimentos, após o que se retirou, sentando-se a um lado.

O Bodhisattva Sabedoria Acumulada questionou Manjushri, dizendo, “Quando foste ao palácio do rei Dragão , quantos seres viventes convertes-te?”

Manjushri respondeu, “O número é imensurável, impossível de calcular. A boca não o consegue exprimir, a mente não consegue imaginar. Espera um momento e aparecerá a prova.”

Antes que ele acabasse de falar, incontáveis bodhisattvas sentados em flores de lótus de jóias, emergiram do oceano e prosseguiram para o Pico Sagrado da Águia, onde permaneceram suspensos no ar. Estes bodhisattvas tinham sido todos convertidos por Manjushri. Tinham levado a cabo todas as práticas do bodhisattva e discutido e exposto os seis paramitas entre si. Aqueles que originalmente tinham sido ouvintes expunham as práticas do ouvinte enquanto estavam no ar, mas agora todos estavam a praticar o princípio da vacuidade pertencente ao Grande Veículo.

Manjushri disse a Sabedoria Acumulada, “O trabalho de ensino e conversão levado a cabo no oceano foi tal como podes ver.”

Nessa altura Sabedoria Acumulada recitou estes versos de louvor:

De grande virtude e sabedoria, bravo e forte, tu convertes-te e salvas-te imensuráveis seres.
Agora todos nesta grande assembleia, assim como eu próprio, vimos esses seres.
Tu expões o princípio da verdadeira entidade, abres a Lei do veículo único, guiando largamente os muitos seres, fazendo-os atingir bodhi rapidamente.

Manjushri disse, “Quando eu estava no oceano expunha constantemente apenas o Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa.”

Sabedoria Acumulada questionou Manjushri, dizendo, “Este sutra é profundo, subtil e maravilhoso, um tesouro entre os sutras, uma raridade no mundo. Existe porventura algum ser vivente que, praticando este sutra esforçada e diligentemente, tenha sido capaz de atingir rapidamente o Buddhado?”

Manjushri respondeu, “Existe a filha do rei dragão Sagara, que acabara de fazer oito anos. A sua sabedoria tinha raízes apuradas e ela era boa na compreensão das actividades e dos seres viventes. Ela alcançou a mestria nos dharanis e foi capaz de aceitar e abraçar todo o repositório dos profundos segredos pregados pelos Buddhas, entrou profundamente na meditação, compreendendo cabalmente as doutrinas, e no espaço de um instante concebeu o desejo por bodhi e atingiu o estado de não regressão. A sua eloquência não conhece impedimentos e ela pensa nos seres viventes com compaixão como se fossem seus filhos. Ela está completamente dotada de bênçãos, e quando se trata de conceber mentalmente e expor oralmente ela é subtil, maravilhosa, abrangente e grande. Suave, compassiva, benevolente, frutuosa, ela é gentil e refinada na intenção, capaz de alcançar bodhi.”

O Bodhisattva Sabedoria Acumulada disse, “Quando vejo o Tathagata Shakyamuni Buddha, constato que durante inumeráveis kalpas ele levou a cabo práticas duras e difíceis, acumulando mérito, erigindo a virtude, procurando a via do bodhisattva sem nunca descansar. Observo que através do vasto universo não existe um único ponto, mesmo que pequeno como uma semente de mostarda, onde este bodhisattva não tenha sacrificado o corpo e a vida em prol dos seres viventes. Apenas depois de tudo isto foi ele capaz de completar a via de bodhi. Não consigo acreditar que essa rapariga, no espaço de um instante, possa realmente atingir a correcta iluminação.”

Antes que as suas palavras chegassem ao fim, a filha do rei dragão apareceu subitamente perante o Buddha, inclinou sua cabeça em obediência e então retirou-se para um lado recitando estes versos de louvor:

Ele compreende profundamente os sinais da culpa e da boa fortuna
e ilumina todos os lugares pelas dez direcções.
O seu subtil e maravilhoso corpo do Dharma
é dotado dos trinta e dois sinais distintivos;
as oito características adornam o seu corpo do Dharma.
Seres celestiais e humanos fitam-no em adoração,
dragões e espíritos, todos lhe prestam honras e respeito;
entre todos os seres viventes, nenhum deixa de lhe guardar reverência.
Tendo ouvido os seus ensinamentos atingi bodhi –
apenas o Buddha pode dar testemunho disto.
Eu exponho as doutrinas do Grande Veículo
para resgatar os seres viventes do sofrimento.

Nessa altura, Shariputra disse à rapariga dragão, “Tu supões que neste curto espaço de tempo foste capaz de alcançar a via insuperável. Mas isso é difícil de acreditar. Porquê? Porque um corpo de mulher é sujo e impuro, não é um vaso apropriado para a via. Como podes ter alcançado a insuperável bodhi? O caminho para o Buddhado é longo. Apenas depois de durante imensuráveis kalpas ter passado austeridades, acumulado méritos, praticado todos os tipos de paramitas, pode alguém alcançar finalmente o sucesso. Além do mais, a mulher está sujeita aos cinco obstáculos. Primeiro, ela não pode tornar-se um rei celestial Brahma. Segundo, não pode tornar-se um rei Shakra. Terceiro, ela não pode tornar-se um rei demónio. Quarto, ela não pode tornar-se um rei Sábio. Quinto, ela não pode tornar-se um Buddha. Como é então possível que uma mulher como tu tenha sido capaz de alcançar o Buddhado tão depressa?”

Nessa altura a rapariga dragão tinha uma jóia preciosa, no valor de todo um universo, que ela ofertou ao Buddha. O Buddha aceitou-a prontamente. A rapariga dragão disse ao bodhisattva Sabedoria Acumulada e ao venerável Shariputra, “Eu apresentei a preciosa jóia e o Honrado Pelo Mundo aceitou-a – isso não foi feito depressa?”

Eles responderam, “Sim, muito depressa!”

A rapariga disse então, “empreguem os vossos poderes sobrenaturais e vejam-me atingir o Buddhado. Será ainda mais rápido do que isso!”

Então, todos os membros da assembleia viram a rapariga dragão no espaço de um instante, transformar-se num homem e levar a cabo todas as práticas de um bodhisattva, prosseguir de imediato para o Mundo Impoluto(Vimala) do Sul, sentar-se num lótus de jóias e atingir a iluminação imparcial e correcta. Com as trinta e duas marcas e as dezoito características, ele expôs a maravilhosa Lei para todos os seres viventes nas dez direcções.

Nessa altura, no mundo Sacha, os bodhisattvas, ouvintes, deuses, dragões e outros dos oito tipos de guardiões, seres humanos e não humanos, viram todos à distância a rapariga dragão tornar-se um Buddha e pregar a Lei a todos os seres celestiais e humanos na assembleia. Os seus corações encheram-se de grande alegria e todos ao longe prestaram-lhe obediência reverênte. Imensuráveis seres viventes, ouvindo a Lei, compreenderam-na e foram capazes de alcançar o estado de não regressão. O Mundo Impoluto estremeceu e tremeu de seis maneiras diferentes. Três milhares de seres viventes do mundo Saha permaneceram no estado de não regressão. Três milhares de seres viventes conceberam o desejo por bodhi e receberam profecias de iluminação. O Bodhisattva Sabedoria Acumulada, Shariputra e todos os outros membros da assembleia acreditaram silenciosamente e aceitaram estas coisas.

Capítulo Onze: O Aparecimento da Torre do Tesouro

Nessa altura, estava na presença do Buddha uma torre adornada com os sete tesouros, com quinhentas yojanas de altura e cinquenta yojanas de lado, que se erguera da terra e ficara suspensa no ar. Vários tipos de objectos preciosos a adornavam. Tinha cinco mil grades, mil, dez mil divisões e estava decorada com inúmeros estandartes e bandeiras. Grinaldas de jóias pendiam e dez mil milhões de sinos de jóias estavam suspensos delas. Todos os seus quatro lados emitiam uma fragrância de tamalapatra e sândalo que perfumava todo o mundo. Os seus estandartes e pálios eram feitos dos sete tesouros, nomeadamente, ouro, prata, lápiz-lázuli, madrepérola, ágata, pérola e coral, e eram tão altos que chegavam às regiões celestiais dos Quatro Reis Celestiais. Os deuses do paraíso Trayatrimsha fizeram chover flores celestiais de mandarava como oferta à torre do tesouro e os outros seres celestiais e os dragões, yakshas, gandharvas, asuras, garudas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos, numa assembleia de milhares, dezenas de milhar, milhões, ofereceram todos os tipos de flores, incenso, colares, estandartes, palanquins e música como dádivas à torre do tesouro, prestando-lhe reverência, honra e louvor.

Nessa ocasião, o som de uma potente voz saiu da torre do tesouro, dizendo palavras de louvor: “Excelente, excelente, Shakyamuni, Honrado Pelo Mundo, que possuas uma grande e equânime sabedoria, uma Lei para instruir os bodhisattvas, guardada e mantida em mente pelos Buddhas, o Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa, e o pregues para o bem da grande assembleia! É tal como dizes, tal como dizes. Shakyamuni, Honrado Pelo Mundo, tudo o que expuseste é a verdade!”

Nessa altura os quatro tipos de crentes viram a grande torre suspensa no ar, e ouviram a voz que saia da torre. Todos experimentaram a alegria da Lei, maravilhando-se perante estes fenómenos que nunca antes tinham presenciado. Levantaram-se dos seus lugares, juntaram as palmas das mãos em reverência e retiraram-se para um lado.

Nessa altura, havia um bodhisattva chamado Grande Alegria da Pregação(Mahâpratibhâna) que entendia as dúvidas que iam nas mentes dos seres celestiais e humanos, asuras e outros seres do mundo. Ele disse a Buddha: “Honrado Pelo Mundo, por que razão surgiu da terra esta torre do tesouro? E porque é que esta voz se ouve do seu interior?”

Nessa altura o Buddha disse: ”Bodhisattva Grande Alegria da Pregação, na torre do tesouro está o corpo completo de um Tathagata. Há muito tempo atrás, para lá de imensuráveis milhares de dezenas de milhares de milhões de asamkhyas de mundos para o Leste, numa terra chamada Pureza do Tesouro(Ratnavisuddha), existia um Buddha chamado Muitos Tesouros(Prabhûtaratna). Quando esse Buddha estava originalmente a levar a cabo a via do bodhisattva, ele fez um grande voto, dizendo, “Se após eu ter entrado em extinção, nas terras das dez direcções existir um lugar onde o Sutra do Lótus seja pregado, então a minha torre funerária, por forma a que eu possa ouvir o sutra, aparecerá nesse local para prestar testemunho do Sutra e louvar a sua excelência.”

“Quando esse Buddha completou a via do Buddhado e estava prestes a entrar em extinção, no meio da grande comunidade de seres celestiais e humanos ele disse aos monges, “Após eu ter entrado em extinção, se alguém quiser oferecer esmolas ao meu corpo completo, deve erigir uma grande torre.” Esse Buddha, através dos seus poderes transcendentais e do poder do seu voto, assegura que, nos mundos através das dez direcções, não importa em que lugar, se existir alguém que pregue o Sutra do Lótus, esta torre do tesouro aparecerá na sua presença e o seu corpo completo estará nessa torre, falando palavras de louvor e dizendo, Excelente, excelente!”

“Grande Alegria da Pregação, agora esta torre do Tathagata Muitos Tesouros, porque ele ouviu a pregação do Sutra do Lótus, apareceu do chão e fala palavras de louvor, dizendo, Excelente, excelente!”

Nesta altura, o Bodhisattva Grande Alegria da Pregação, conhecendo os poderes transcendentais do Tathagata, falou ao Buddha, dizendo: “Honrado Pelo Mundo, nós desejamos ver o corpo desse Buddha.”

O Buddha disse ao bodhisattva e mahasattva Grande Alegria da Pregação, “Este Buddha Muitos Tesouros tomou um profundo voto, dizendo, “Quando a minha torre, de modo a que eu ouça o Sutra do Lótus, aparecer na presença de um dos Buddhas, se existir alguém que deseje mostrar o meu corpo aos quatro tipos de crentes, então que os vários Buddhas que são emanações desse Buddha e que estão a pregar a Lei em mundos pelas dez direcções retornem todos e se reunam em torno desse Buddha num único local. Apenas quando isso estiver feito é que o meu corpo se tornará visível.” Grande Alegria da Pregação, eu reunirei agora os vários Buddhas que são emanações do meu corpo e que estão a pregar a Lei nas terras das dez direcções.”

Grande Alegria da Pregação disse ao Buddha, “Honrado Pelo Mundo, nós desejamos também ver esses Buddha que são emanações do Honrado Pelo Mundo, e de lhes prestar obediência e oferecer esmolas.”

Nessa altura o Buddha emitiu um raio de luz do tufo de pêlo brando [entre as suas sobrancelhas] tornando imediatamente visíveis os Buddhas da região Leste em terras numerosas como quinhentas dezenas de milhares de milhões de nayutas de grãos de areia do Ganges. Nessas terras o solo era feito de cristal e estavam adornadas com árvores e mantos de jóias. Estava repleta de incontáveis milhares, dezenas de milhar, milhões de bodhisattvas e em toda a parte estavam penduradas cortinas de jóias, com redes de jóias cobrindo-as. Os Buddhas nessas terras pregavam as várias doutrinas da Lei com vozes potentes e maravilhosas e podiam ver-se imensuráveis milhares, dezenas de milhar, milhões de bodhisattvas enchendo essas terras e pregando a Lei para a assembleia. Igualmente nas regiões Sul, Oeste e Norte e nas quatro regiões intermédias e encima e embaixo, onde quer que o raio de luz do tufo de pelo branco, um sinal característico dos Buddhas, iluminasse, o mesmo era visível.

Nessa altura os Buddhas das dez direcções falaram cada um à multidão de bodhisattvas, dizendo, “Bons homens, agora devo ir ao mundo Saha, ao lugar onde o Buddha Shakyamuni está, e também oferecer esmolas à torre do tesouro do Tathagata Muitos Tesouros.”

O mundo Saha tornou-se imediatamente num lugar limpo e puro. O chão era de lápiz-lázuli, estava adornado com árvores de jóias e cordões de ouro marcavam os oito caminhos. Não existiam aldeias, vilas ou cidades, grandes mares ou rios, montanhas, cursos de água ou florestas; grandes jóias de incenso ardiam e flores de mandarava cobriam o chão por toda a parte. Redes e cortinas de jóias estavam penduradas com sinos de jóias, e só os membros da assembleia ai estavam reunidos, tendo todos os outros seres celestiais e humanos sido removidos para outra região.

Nessa altura os Buddhas, cada um com um grande bodhisattva como seu assistente, chegaram ao mundo Saha e prosseguiram para uma posição por baixo de uma das árvores de jóias. Cada uma dessas árvores de jóias media quinhentas yojanas de altura e estava adornada com ramos, folhas, flores e frutos de proporções adequadas. Sob todas as árvores de jóias estavam tronos de leão com cinco yojanas de altura, e também estes estavam decorados com grandes jóias. Então, cada um dos Buddhas tomou um desses lugares, sentando-se com as pernas cruzadas. Desta forma os assentos foram ocupados através do mundo, mas ainda assim não tinham fim as emanações do Buddha Shakyamuni que chegavam de uma só direcção.

Nessa altura o Buddha Shakyamuni, desejando providenciar espaço para todos os Buddhas que eram emanações do seu corpo, transformou ainda duzentas dezenas de milhares de milhões de nayutas de terras em cada uma das oito direcções, tornando-as limpas e puras e sem infernos, espíritos esfomeados, bestas ou asuras. Também deslocou todos os seus seres celestiais e humanos para outra região. O chão nessas terras por ele transformadas era de lápiz-lázuli, estava adornado com árvores de jóias, medindo cada uma dessas árvores quinhentas yojanas de altura, adornadas com ramos, folhas, flores e frutos de proporções adequadas. Existiam tronos de leão sob todas essas árvores de jóias, com cinco yojanas de altura, decorados com vários tipos de tesouros. Também estas terras eram sem grandes rios ou montanhas, ou quaisquer cordilheiras reais, tais como os Montes Muchilinda, os Montes Mahamuchilinda, os Montes Grande Círculo de Ferro ou o Monte Sumeru. A área total correspondia a uma única terra Búddhica, toda a região era nivelada e suave. Cortinas cruzadas por galões de jóias estavam espalhadas por toda a parte, estandartes e palanquins pendiam, grandes jóias de incenso ardiam e flores celestiais de jóias cobriam o chão por toda a parte.

Nessa altura, as emanações do Buddha Shakyamuni da direcção Leste, Buddhas de terras iguais em número a centenas, milhares, dezenas de milhares de milhões de nayutas de areias do Ganges, cada um pregando a lei, se tinham reunido aí. E pouco a pouco os Buddhas das dez direcções foram chegando e reuniram-se desta forma sendo acomodados nas oito direcções. Nesta altura cada uma das direcções estava repleta de Buddhas, Tathagatas, e quatrocentas dezenas de milhares de milhões de nayutas de terras.

Nessa altura os Buddhas, cada um sentado sob uma das árvores de jóias, instruíram os seus assistentes no sentido de irem saudar o Buddha Shakyamuni. Cada Buddha entregou ao seu assistente um braçado de flores de jóias e disse, “Bom homem, deves ir ao Monte Gridhrakuta ao lugar onde está o Buddha Shakyamuni e falar-lhe segundo as minhas instruções. Diz, “As tuas maleitas são poucas, e poucas as tuas preocupações? De espírito e vigor, estás bem e satisfeito? Estão os bodhisattvas e ouvintes todos bem e em paz?” Então pega nestas flores de jóias e espalha-as sobre o Buddha como uma oferta, e diz, “O Buddha … deseja participar na abertura desta torre do tesouro.”

Todos os Buddhas instruíram os seus assistentes para falarem desta forma. Nessa altura o Buddha Shakyamuni viu os Buddhas que eram suas emanações todos reunidos, cada um sentado num trono de leão, e ouviu todos esses Buddhas dizerem que desejavam participar na abertura da torre do tesouro. Levantou-se de imediato do seu assento e suspendeu-se em pleno ar. Todos os quatro tipos de crentes se levantaram e, juntando as suas mãos de palmas unidas, fitaram o Buddha com uma só mente.

O Buddha Shakyamuni com os dedos da sua mão direita abriu então a porta da torre dos sete tesouros. Um forte som saiu dela, como o som dos fechos e trancas do portão de uma grande cidade a serem removidos, e de imediato todos os membros da assembleia puderam ver o Buddha Muitos Tesouros sentado num trono de leão dentro da torre de tesouros, o seu corpo inteiro e incorrupto, sentado como se que ocupado em meditação. E ouviram-no dizer, “Excelente, excelente, Buddha Shakyamuni! Falaste este Sutra do Lótus de forma inspirada. Eu vim até aqui por forma a poder ouvir este sutra.”

Então, os quatro tipos de crentes, vendo este Buddha que tinha entrado em extinção há imensuráveis milhares de dezenas de milhares de milhões de kalpas falar desta maneira, maravilharam-se perante o que nunca tinham conhecido antes e pegaram nos montes de flores celestiais e espalharam-nas sobre o Buddha Muitos Tesouros e sobre o Buddha Shakyamuni.

Nessa altura o Buddha Muitos Tesouros ofereceu metade do seu lugar na torre de tesouros ao Buddha Shakyamuni, dizendo, “Buddha Shakyamuni, senta-te aqui!” O Buddha Shakyamuni entrou de imediato na torre e ocupou metade do lugar, sentando-se de pernas cruzadas em posição de lótus.

Nessa altura, os membros da grande assembleia, vendo os dois Tathagatas sentados de pernas cruzadas no trono de leão da torre dos sete tesouros, pensaram, estes Buddhas estão sentados lá longe nas alturas! Se ao menos os Tathagatas empregassem os seus poderes transcendentais para nos permitir juntarmo-nos a eles no ar!

De imediato, o Buddha Shakyamuni usou os seus poderes transcendentais para elevar no ar os membros da grande assembleia. E, com uma potente voz, dirigiu-se aos quatro tipos de crentes, dizendo, “Quem é capaz de pregar cabalmente o Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa neste mundo Saha? Agora é o momento de o fazer, porque antes do Tathagata entrar no nirvana, o Buddha quer confiar este Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa a alguém de modo a que possa ser preservado.”

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Este senhor sagrado,
este Honrado Pelo Mundo,
apesar de ter entrado em extinção há muito tempo atrás,
senta-se ainda na torre do tesouro,
vindo até aqui em prol da Lei.
Porque é que então vocês
não lutam igualmente pelo bem da Lei?
Este Buddha passou à extinção
há um interminável número de kalpas atrás,
mas em muitos lugares
ele vai ouvir a Lei
porque essas oportunidades são raras de encontrar.
O Buddha, originalmente, fez um voto, dizendo,
“Após eu ter entrado em extinção,
onde quer que eu vá, em qualquer lugar,
o meu intuito constante será ouvir a Lei!”
Além disso, estas emanações do meu corpo,
Buddhas imensuráveis em número
como as areias do Ganges,
vieram até aqui, desejando ouvir a Lei,
e poderem assim ver o Tathagata Muitos Tesouros
que passou à extinção.

Cada um abandonou as suas terras maravilhosas,
bem como as suas multidões de discípulos,
os seres celestiais e humanos, dragões e espíritos
e as ofertas que tinha recebido,
e veio para este lugar com o propósito
de garantir que a Lei perdurará por muito tempo.
De modo a sentar estes Buddhas
eu empreguei poderes transcendentais,
deslocando imensuráveis multidões,
tornando as terras limpas e puras,
conduzindo cada um destes Buddhas
até à base de uma árvore de jóias,
adornada como as flores de lótus
adornam um lago claro e fresco.
Sob estas árvores de jóias estão tronos de leão,
e os Buddhas sentam-se neles,
adornando-os com o seu brilho
como uma grande tocha ardente
na escuridão da noite.
Os seus corpos exalam um maravilhoso incenso,
que penetra nas terras das dez direcções.
Os seres viventes são capturados pelo aroma,
incapazes de refrear a sua alegria,
como se um grande vento agitasse
os ramos de pequenas árvores.
Através destes meios expeditos
eles garantem que a lei perdurará por muito tempo.
Assim, eu digo à assembleia:
Após eu ter passado à extinção,
quem poderá receber e guardar,
ler e recitar este sutra?
Agora na presença do Buddha,
deixai-o aproximar-se e dizer o seu voto!
Este Buddha Muitos Tesouros,
ainda que se tenha extinguido há muito tempo atrás,
devido ao seu grande voto, ruge o rugido do leão.

Buddha Muitos Tesouros, eu próprio,
e estas Buddhas emanações que aqui se reuniram,
sabemos que este é o nosso objectivo.
Ó filhos de Buddha,
quem poderá guardar a Lei?

Deixai-o fazer um grande voto
para garantir que ela perdurará por muito tempo!
Aquele que for capaz de guardar a Lei deste sutra
terá desse modo oferecido esmolas
a mim e ao Buddha Muitos Tesouros.
Este Buddha Muitos tesouros
viaja constantemente através das dez direcções
pelo bem deste sutra.
Aquele que guardar este sutra
terá também oferecido esmolas
às emanações Búddhicas que vieram até aqui
adornando e tornando brilhantes todos os vários mundos.
Se alguém pregar este sutra,
será capaz de me ver,
de ver o Buddha Muitos Tesouros
e de ver estas emanações Búddhicas.
Todos vós, bons homens,
deveis considerar cuidadosamente!
Este é um assunto difícil –
é apropriado que façais um grande voto.
Os outros sutras
são numerosos como as areias do Ganges,
mas ainda que expusésseis todos esses sutras,
isso não seria comparável em dificuldade.
Se fosseis a medir o Monte Sumeru
e a arremessá-lo para longe,
para as imensuráveis terras Búddhicas,
isso também não seria difícil.
Se usásseis o dedo do vosso pé
para mover um universo,
chutando-o para terras longínquas,
isso também não seria difícil.
Se permanecêsseis no paraíso Cume do Ser
e pelo bem da assembleia,
pregásseis incontáveis outros sutras,
isso também não seria difícil.
Mas se após o Buddha se ter extinguido,
no tempo do mal,
puderes pregar este sutra,
isso será realmente difícil!
Se existisse uma pessoa
que pegasse no céu com a sua mão
e andasse às voltas com ele,
isso não seria difícil.
Mas se após eu me ter extinguido
alguém conseguir copiar e abraçar este sutra,
isso será difícil realmente!
Se alguém pegar na grande terra,
a colocar na unha do seu dedo
e ascender com ela ao paraíso Brahma,
isso não será difícil.
Mas se após o Buddha se ter extinguido,
no tempo do mal,
alguém, ainda que por um instante, ler este sutra,
isso será realmente difícil!
Se, quando vier o fogo no final do kalpa, alguém carregar erva seca às costas, e entrar no fogo sem se queimar, isso não será difícil.
Mas se após eu me ter extinguido,
se alguém puder abraçar este sutra
e pregá-lo mesmo que para apenas uma pessoa,
isso será realmente difícil!
Se alguém viesse a abraçar
este repositório de oitenta e quatro mil doutrinas,
de doze divisões de sutras,
e o expusesse a outros,
fazendo os ouvintes adquirir os seis poderes transcendentais –
ainda que alguém pudesse fazer isso,
isso não seria difícil.
Mas se após eu me ter extinguido,
alguém puder aceitar este sutra
e perguntar pelo seu significado,
isso será realmente difícil!
Se alguém expõe a Lei,
possibilitando a milhares, dezenas de milhares, milhões,
um imensurável número de seres viventes,
igual ao das areias do Ganges,
tornar-se arhats dotados dos seis poderes transcendentais –
ainda que alguém possa conferir tais benefícios,
isso não será difícil.
Mas após eu me ter extinguido,
se alguém puder honrar e promover
um sutra como este,
isso será realmente difícil!
Em prol do caminho do Buddhado
em imensuráveis números de terras
desde o princípio até agora,
eu preguei largamente muitos sutras,
e de entre eles, este sutra é o principal.
Se alguém consegue sustentá-lo,
estará sustentando o corpo de Buddha.
De todos vocês, bons homens,
depois de eu me ter extinguido,
quem pode aceitar e promover este sutra?
Agora na presença do Buddha,
deixai-o aproximar-se e fazer o seu voto!
Este sutra é difícil de sustentar;
se alguém o fizer
mesmo que durante um curto período
eu seguramente rejubilarei
assim como os outros Buddhas.
Uma pessoa capaz disto
ganha a admiração dos Buddhas.
É a isto que eu chamo valor,
é a isto que eu chamo diligência.
É a isto que eu chamo observar os preceitos
e praticar dhuta.
Desta forma pode ser alcançada rapidamente
a via do Buddhado.
E se em existências futuras
alguém puder ler e sustentar este sutra,
será um verdadeiro filho do Buddha,
residindo numa terra imaculada e boa.
Se após o Buddha ter passado à extinção
alguém compreender o sentido deste sutra,
ele será os olhos do mundo
para os seres celestiais e humanos.
Se nessa era temível
alguém puder pregar este sutra
ainda que por apenas um momento,
ele merecerá receber esmolas
de todos os seres celestiais e humanos.

Capítulo Dez: O Mestre da Lei

Nessa altura o Honrado Pelo mundo dirigiu-se ao Bodhisattva Rei da Medicina (Bhaishagyarâga) e, através dele, aos oitocentos grandes homens, dizendo: “Rei da Medicina, vês esta grande assembleia de imensuráveis números de seres celestiais, reis dragões, yakshas, gandharvas, asuras, garudas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos, bem como monges, monjas, leigos e leigas, esses que procuram tornar-se ouvintes, os que procuram tornar-se pratyekabuddhas ou os que procuram a via do Buddhado? Sobre estes vários tipos de seres que na presença do Buddha ouvem um verso ou uma frase do Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa e por um momento pensam nele com alegria eu outorgarei a todos eles uma profecia de que alcançarão anuttara-samyak-sambodhi.

O Buddha disse a Rei da Medicina: “Além disso, se após o Tathagata ter entrado em extinção existir alguém que ouça o Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa, ainda que uma frase ou um verso, e por um momento pense nele com alegria, eu outorgo-lhe igualmente uma profecia de que alcançará anuttara-samyak-sambodhi. Ainda, se existirem pessoas que abracem, leiam, recitem, exponham e copiem o Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa, ainda que apenas um verso, e encarem este sutra com a mesma reverência com que encarariam o Buddha, apresentando-lhe várias ofertas de flores, colares, incenso em pó, em pasta ou para queimar, palanquins de seda, estandartes e bandeiras, vestes e música, juntando as mãos reverentemente de palmas unidas, então, Rei da Medicina, deves compreender que essas pessoas já ofereceram dádivas a cem mil milhões de Buddhas e no lugar dos Buddhas cumpriram o seu grande voto, e porque se compadecem dos seres viventes essas pessoas nascem neste mundo humano.

“Rei da Medicina, se alguém perguntar que seres viventes serão capazes de atingir o Buddhado numa existência futura, deves então indicar-lhes todos esses que, no futuro, atingirão certamente o Buddhado. Porquê? Porque se bons homens e boas mulheres abraçarem, lerem, recitarem, expuserem e copiarem o Sutra do Lótus, ainda que uma frase dele, ofereceram vários tipos de dádivas ao sutra, flores, colares, incenso em pó, em pasta ou para queimar, palanquins de seda, estandartes e bandeiras, vestes e música, juntando as mãos reverentemente de palmas unidas, então essas pessoas serão olhadas com admiração e honradas por todo o mundo. Esmolas ser-lhes-ão oferecidas como seriam ao Tathagata. Deves entender que essas pessoas são grandes bodhisattvas que conseguiram alcançar anuttara-samyak-sambodhi. Compadecendo-se dos seres viventes, fizeram votos de nascer entre eles onde pudessem expor largamente e fazer distinções em relação ao Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa. Quanto mais não será isto verdade, então, quanto àqueles que abraçaram o sutra na íntegra e lhe ofereceram vários tipos de dádivas!

“Rei da Medicina, deves entender que essas pessoas renunciaram voluntariamente às recompensas devidas pelos seus puros actos e, num tempo posterior à minha extinção, por se compadecerem dos seres viventes, nascerão neste mundo maligno para que possam expor largamente este sutra. Se um desses bons homens e boas mulheres, num tempo posterior à minha extinção, for capaz de secretamente expor o Sutra do Lótus a uma pessoa, mesmo que apenas uma frase dele, então deves saber que ele é o enviado do Tathagata. Ele foi enviado pelo Tathagata e leva a cabo o trabalho do Tathagata. Quanto mais assim não será no caso daqueles que no meio da grande assembleia expuserem largamente este sutra para outros!

“Rei da Medicina, se existisse uma pessoa má que, com a mente desprovida de bondade, aparecesse durante um kalpa na presença do Buddha e constantemente o amaldiçoasse e insultasse, a ofensa dessa pessoa seria ainda bastante ligeira, se comparada com a de alguém que proferisse ainda que apenas uma palavra má para amaldiçoar ou difamar os leigos, leigas, monges ou monjas que leiam e recitem este sutra. Esta sim, seria uma ofensa muito grave.

“Rei da Medicina, quanto a estas pessoas que lêem e recitam o Sutra do Lótus, deves entender que elas se adornam com os adornos dos Buddhas e nascem sobre os ombros do Tathagata. Aonde quer que elas vão, devem ser acolhidas com vénias, com as palmas das mãos unidas, a uma só mente, com dádivas e reverência, com respeito e louvor, flores, colares, incenso em pó, em pasta ou para queimar, palanquins de seda, estandartes e bandeiras, vestes, iguarias e música. As melhores dádivas que podem ser oferecidas a alguém devem ser-lhes oferecidas. Tesouros celestiais devem ser espalhados sobre eles, oferecidos como prendas. Porque digo isto? Porque estas pessoas deleitam-se a expor a Lei. E se alguém os ouve ainda que por um momento, atingirá imediatamente o derradeiro anuttara-samyak-sambodhi.

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Se pretendes seguir a via do Budhado
e ser bem sucedido na obtenção da sabedoria que vem por si mesma,
deves ser constantemente diligente a oferecer esmolas
àqueles que abraçaram o Sutra do Lótus.
Se tens o desejo de obter rapidamente
a sabedoria respeitante a todos os tipos de coisas,
deves abraçar este sutra
e ao mesmo tempo oferecer esmolas àqueles que o fazem.
Se alguém for capaz de abraçar
o Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa,
saiba-se que tal pessoa é um enviado do Buddha
que pensa com piedade em todos os seres viventes.
Aqueles que são capazes de abraçar
o Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa
renunciam ao seu direito à terra pura
e por compaixão para com os seres viventes nascem aqui.
Saibam que pessoas como estas
escolhem livremente onde hão-de nascer,
e escolhem nascer neste mundo malévolo
de modo a que possam expor largamente a Lei insuperável.
Vós deveis oferecer flores celestiais e incenso,
vestes decoradas com tesouros celestiais
e as maravilhosas provisões de tesouros do paraíso
como dádivas àqueles que pregam a Lei.
No mundo malévolo, a seguir à minha extinção,
se houver quem abrace este sutra,
deveis juntar as palmas das mãos em reverência
e oferecer-lhes esmolas como ofereceríeis ao
Honrado Pelo Mundo.
As iguarias mais escolhidas, tudo o que é refinado e saboroso,
junto com vestes de vários tipos,
deveis oferecer como esmolas a estes filhos de Buddha
na esperança de poderem escutar um momento da sua pregação.
Se existirem aqueles que, em eras futuras,
aceitem e abracem este sutra,
eles serão meus enviados até junto das pessoas
para levarem a cabo o trabalho do Tathagata.
Se pelo espaço de um kalpa
alguém mantiver uma mente desprovida de bondade
e com olhares furiosos insultar o Buddha,
estará cometendo uma ofensa de imensurável gravidade.
Mas se àqueles que lêem, recitam e abraçam
este Sutra do Lótus
alguém por um momento que seja dirigir más palavras,
a sua ofensa será ainda maior.
Se existir alguém que procure a via do Buddhado e durante um kalpa, unir as palmas das mãos na minha presença e recitar inúmeros versos de louvor, devido a estes louvores ao Buddha ele ganhará imensuráveis bênçãos.
Se alguém louvar e elogiar aqueles que sustentam este sutra, a sua boa fortuna será ainda maior.
Pelo espaço de oitenta milhões de kalpas, com os mais maravilhosos sons e formas, com o que é agradável ao olfacto, paladar e tacto, ofereçam dádivas aos promotores deste sutra!
Se oferecerdes dádivas deste modo e ouvirem os ensinamentos ainda que por um momento, então experimentareis alegria e boa fortuna, dizendo, “Ganhei grande benefício!”
Rei da Medicina, agora eu te direi, Preguei vários sutras, e entre esses sutras o Lótus é o principal!

Nessa altura o Buddha falou uma vez mais ao bodhisattva Rei da Medicina, dizendo: “Os sutras que eu preguei são em número de imensuráveis milhares, dezenas de milhares de milhões, entre os sutras que eu preguei, que possa pregar agora ou venha a pregar no futuro, este Sutra do Lótus é o mais difícil de acreditar e o mais difícil de compreender. Rei da Medicina, este sutra é o repositório da crux secreta dos Buddhas, não deve ser distribuído e transmitido descuidadamente para outros. Foi guardado pelos Buddhas, os Honrados Pelo Mundo, e desde os tempos passados até agora nunca foi abertamente exposto, e uma vez que o ódio e a inveja em relação a este sutra abundam mesmo quando o Tathagata está no mundo, quanto mais não será isto verdade após a sua extinção?

“Rei da Medicina, deves saber que após a extinção do Tathagata, se existir alguém que copie, suporte, leia e recite este sutra, lhe ofereça esmolas e o exponha para outros, o Tathagata cobri-lo-á com o seu manto, e ele será protegido e mantido em mente pelos Buddhas que agora estão presentes em outras regiões. Tal pessoa possui o poder da grande fé, o poder da aspiração, o poder das boas raízes, deves saber que essa pessoa se aloja no mesmo local que o Tathagata e que o Tathagata lhe afaga a cabeça com a sua mão.

“Rei da Medicina, em qualquer lugar em que este sutra seja pregado, lido, recitado, copiado ou onde um dos seus rolos exista, em todos esses lugares deveriam ser erigidas torres feitas com os sete tesouros e deveriam ser muito altas e bem adornadas. Não há necessidade de guardar aí as relíquias do Buddha. Porquê? Porque nessas torres a totalidade do corpo do Tathagata já está presente. Todos os tipos de flores, incenso, colares, palanquins de seda, estandartes e bandeiras, músicas e hinos deveriam ser oferecidos como dádivas a essas torres. E deveria ser-lhes dispensados louvores, reverências e honras. Se quando as pessoas vissem essas torres se curvassem em obediência e oferecessem esmolas, deverias então saber que essas pessoas tinham todas chegado próximo de anuttara-samyak-sambodhi.

“Rei da Medicina, supõe que existe um homem que está sequioso, procurando água. Num terreno elevado ele começa a escavar um buraco em busca de água mas vê que o solo está seco e sabe que a água ainda está longe. Porém, ele não cessa os seus esforços, e pouco a pouco nota que solo se torna mais húmido, até que gradualmente ele chega a uma parte de lama. Agora ele está determinado a prosseguir, porque sabe que tem de estar próximo de água.

“A via do bodhisattva é igual. Enquanto uma pessoa não ouviu, não entendeu e não praticou este Sutra do Lótus, deveis saber que ela se encontra ainda afastada de anuttara-samyak-sambhodi. Porquê? Porque todos os bodhisattvas que alcançam anuttara-samyak-sambhodi fazem-no, em todos os casos, mediante este sutra. Este sutra abre o portal dos meios expeditos e mostra a forma da verdadeira realidade. Este repositório do Sutra do Lótus está profundamente oculto e distante, onde ninguém o pode alcançar. Mas o Buddha, ensinando, convertendo e guiando os bodhisattvas até ao sucesso, abre-o para eles.

“Rei da Medicina, se existirem bodhisattvas que, ouvindo este Sutra do Lótus, respondam com surpresa, dúvida ou medo, então deves saber que se trata de bodhisattvas recentemente chegados ao caminho. E se existirem ouvintes que, ouvindo este sutra, respondam com surpresa, dúvida ou medo, então deves saber que se trata de pessoas de extrema arrogância.

“Rei da Medicina, se existirem bons homens e boas mulheres que, após a extinção do Tathagata, desejem expor este Sutra do Lótus aos quatro tipos de crentes, como devem eles expô-lo? Estes bons homens e boas mulheres devem entrar no quarto do Tathagata, vestir a roupa do Tathagata, ocupar o assento do Tathagata e pelo bem dos quatro tipos de crentes, expor largamente este sutra.

“O “quarto do Tathagata” é o estado mental que demonstra grande piedade e compaixão por todos os seres viventes. A “roupa do Tathagata” é a mente que é gentil e tolerante. O “assento do Tathagata” é a vacuidade de todos os fenómenos. Devemos sentar-nos aí confortávelmente e depois, com uma mente nunca indolente ou negligente, devemos, pelo bem dos bodhisattvas e dos quatro tipos de crentes expor largamente este Sutra do Lótus.

“Rei da Medicina, eu enviarei pessoas criadas por magia até outras terras para reunir assembleias para ouvir a Lei, e enviarei também monges, monjas, leigos e leigas criados por magia para ouvirem a pregação da Lei, acreditá-la e aceitá-la e nela se fixarem sem desvio. Se os pregadores da Lei estiverem num local vazio e silencioso, eu enviarei grande número de seres celestiais, dragões, espíritos, gandharvas, asuras e outros para ouvirem a sua pregação da Lei. Ainda que eu esteja noutra terra, de tempos a tempos eu tornarei possível aos pregadores da Lei verem o meu corpo. Se eles esquecerem uma frase deste sutra, eu aparecerei e apresentá-la-ei de modo a que sejam capazes de recitar o texto correctamente e na íntegra.

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Se desejais pôr de parte toda a indolência e negligência,
deveis ouvir este sutra.
É difícil encontrar uma oportunidade de ouvir este sutra,
e acreditar nele e aceitá-lo também é difícil.
Se uma pessoa está sequiosa e quer água
ela pode escavar um buraco no solo,
mas enquanto vê a terra seca,
ela sabe que a água ainda está longe.
Mas se pouco a pouco ela vê a terra ficar húmida e lamacenta
sabe com certeza que está próxima da água.
Rei da Medicina,
deves compreender que essas pessoas são como esta –
se elas não ouvem o Sutra do Lótus,
ficarão muito afastadas da sabedoria Búddhica,
mas se elas ouvirem este sutra profundo
que define a Lei do ouvinte,
se elas ouvirem este rei dos sutras
e depois o ponderarem cuidadosamente,
então deveis saber que essas pessoas
estão perto da sabedoria do Buddha.
Se uma pessoa expõe este sutra,
deve entrar no quarto do Tathagata,
vestir a roupa do Tathagata,
ocupar o assento do Tathagata,
encarar a assembleia sem medo
e expô-lo largamente, fazendo distinções.
Grande piedade e compaixão são o quarto.
Gentileza e paciência são a roupa.
A vacuidade de todos os fenómenos é o assento,
e aí posicionada é que deve expor a Lei para eles.
Se quando uma pessoa expõe este sutra
existir alguém que a insulte ou calunie
ou a ataque com espadas e paus, cacos e pedras,
ela deve pensar no Buddha
e por essa razão ser paciente.
Em milhares, dezenas de milhares, milhões de terras
eu manifestarei o meu corpo puro e duradouro
e durante imensuráveis milhões de kalpas
eu exporei a Lei para os seres viventes.
Se após a minha extinção
existir alguém capaz de expor este sutra,
eu enviarei os quatro tipos de crentes,
formados magicamente,
monges e monjas e homens e mulheres de pura fé,
para oferecerem esmolas e fazerem ouvir a Lei;
eles liderarão e guiarão os seres viventes,
reunindo-os e fazendo-os ouvir a Lei.
Se alguém pensar em fazer mal aos pregadores
com espadas e paus ou cacos e pedras,
eu enviarei pessoas criadas por magia
que as irão guardar e proteger.
Se aqueles que expõe a Lei estiverem sozinhos
num local vazio e silencioso,
e se nessa quietude onde não soa a voz humana
eles lerem e recitarem este sutra,
nessa altura eu manifestarei o meu corpo puro e radiante para eles.
Se eles se esquecerem de uma passagem ou frase
eu fornecê-la-ei de modo a que sejam cabais e eficazes.
Se pessoas dotadas destas virtudes
expuserem aos quatro tipos de crentes
e lerem e recitarem este sutra num local vazio,
eu permitirei que vejam o meu corpo.
E se os pregadores estiverem num local vazio e silencioso
eu enviarei seres celestiais, reis dragões,
yakshas, espíritos e outros
para formarem uma assembleia e escutarem a Lei.
Pessoas como estas deleitam-se na exposição da Lei,
fazendo distinções sem encontrarem qualquer impedimento.
Porque o Buddha os guarda e mantém em mente,
eles serão capazes de trazer alegria à grande assembleia.
Se alguém se mantiver próximo dos pregadores da Lei
rapidamente ganhará a via do bodhisattva.
Seguindo estes mestres e aprendendo com eles
ele verá Buddhas numerosos como as areias do Ganges.

Capítulo Nove: Profecias Conferidas aos Aprendizes e Adeptos

Nessa altura, Ananda e Rahula pensaram para si mesmos: “Quando pensamos nisso, reconhecemos o quão maravilhoso seria se recebesse-mos uma profecia de iluminação!” Levantaram-se de imediato dos seus lugares, avançaram para um lugar defronte do Buddha, tocaram com as cabeças no chão prostrando-se aos pés do Buddha. Em conjunto falaram ao Buddha, dizendo:

“Honrado Pelo Mundo, também nós devemos tomar parte nisto! Nós entregamos toda a nossa confiança ao Tathagata, e somos bem conhecidos dos seres celestiais e humanos e dos asuras deste mundo. Ananda atende constantemente o Buddha e guarda e apoia o repositório do Dharma, e Rahula é o filho do Buddha. Se o Buddha nos outorgasse uma profecia de que alcançaríamos anuttara-samyak-sambodhi, tanto os nossos desejos como os anseios da multidão seriam satisfeitos.”

Nessa ocasião os duzentos discípulos ouvintes, aprendizes ou adeptos sem nada mais a aprender, levantaram-se todos dos seus lugares e, descobrindo o ombro direito avançaram para uma posição defronte do Buddha, juntaram as palmas das mãos e, fitando em reverência o Honrado Pelo Mundo, repetiram o desejo expresso por Ananda e Rahula após o que se afastaram para um lado.

Então o Buddha disse a Ananda: “Numa futura existência tu tornar-te-ás um Buddha com o nome de Tathagata Rei do Poder Absoluto da Montanha do Mar de Sabedoria (Sâgaravaradharabuddhivikrîditâbhigña), merecedor de ofertas, do recto e universal conhecimento, perfeita clarividência e conduta, bem sucedido, compreendendo o mundo, inexcedivelmente meritório, instrutor de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buddha, Honrado Pelo Mundo. Tu oferecerás dádivas a sessenta e dois milhões de Buddhas e preservarás e guardarás os seus repositórios do Dharma, após o que alcançarás anuttara-samyak-sambodhi. Ensinarás e converterás bodhisattvas numerosos como as areias de vinte centenas de dezenas de milhares de milhões de rios Ganges e farás com que alcancem anuttara-samyak-sambodhi. A tua terra será chamada Eterna Bandeira da Vitória (Anavanâmita-vaig-ayanta), o seu solo será limpo e puro e feito de lápiz-lazuli. O teu kalpa terá o nome de Maravilhoso Som Omnipresente (Manogñasabdâbhigargita). A duração da vida desse Buddha será de imensuráveis milhares, dezenas de milhares de milhões de asamkhyas de kalpas – ainda que os homens calculassem durante milhares, dezenas de milhares, milhões de imensuráveis asamkhyas de kalpas, eles não poderiam nunca determinar a duração da vida desse Buddha e a sua Lei Adulterada perdurará no mundo pelo dobro do tempo da sua Correcta Lei. Ananda, este Buddha Rei do Poder Absoluto da Montanha do Mar de Sabedoria, será louvado igualmente pelos Tathagatas das dez direcções que são iguais em número às areias de imensuráveis milhares, dezenas de milhares de milhões de rios Ganges, e eles louvarão as suas bênçãos.”

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Digo agora aos monges que

Ananda, suporte da lei,

oferecerá esmolas aos Buddhas

após o que atingirá a correcta iluminação.

O seu nome será Buddha Rei do Poder Absoluto

da Montanha do Mar de Sabedoria.

A sua terra será limpa e pura, chamada Bandeira Eterna da Vitória.

Ele ensinará e converterá bodhisattvas numerosos como as areias do Ganges.

Este Buddha possuirá grande dignidade e virtude, e o seu renome encherá as dez direcções.

A duração da sua vida será imensurável devido à sua compaixão por todos os seres viventes.

A sua Correcta Lei durará o dobro e o dobro disto durará a sua Lei Adulterada.

Numerosos como as areias do Ganges serão os incontáveis seres viventes que no seio da Lei Búddhica plantarão as condições conducentes à via do Buddhado.

Nessa altura na assembleia, oitocentos Bodhisattvas que tinham recentemente concebido a determinação de atingir a iluminação pensaram , Nós nunca ouvimos sequer um grande bodhisattva receber uma profecia como esta. Porque razão hão-de estes ouvintes receber uma tal profecia?

Então o Honrado Pelo Mundo, sabendo o pensamento que ia na mente desses bodhisattvas, disse-lhes: “Bons homens, quando Ananda e eu estávamos no lugar do Buddha Rei da Vacuidade, ambos concebemos simultaneamente a determinação de alcançar anuttara-samyak-sambodhi. Ananda deleitava-se constantemente no conhecimento vasto da Lei, eu desenvolvi constantemente esforço diligente. Daí que eu tenha já conseguido alcançar anuttara-samyak-sambodhi, enquanto Ananda guarda e sustenta a minha Lei. E, da mesma forma, ele guardará sempre os repositórios do Dharma dos Buddhas de existências futuras e ensinará, converterá e trará ao sucesso às multidões de bodhisattvas. Esse foi o seu voto original e daí que ele tenha recebido esta profecia.”

Quando Ananda, na presença do Buddha, ouviu esta profecia a si dirigida e ouviu acerca da terra e dos adornos que haveria de receber, tudo o que se votara alcançar estava realizado e a sua mente estava cheia de grande alegria, pois ele tinha ganho o que nunca antes possuíra. Imediatamente ele recordou os repositórios do Dharma de imensuráveis milhares, dezenas de milhares, milhões de Buddhas do passado e ele pôde compreendê-los sem impedimento, como se tivesse acabado de os ouvir. Ele recordou também o seu voto original.

Então, Ananda falou em verso, dizendo:

O Honrado Pelo Mundo, raro de encontrar, fez-me recordar o passado, a Lei de imensuráveis Buddhas, tal como se a ouvisse hoje.

Agora não tenho mais dúvidas mas resido seguramente na via do Buddhado.

Como um meio expedito eu actuo como assistente, guardando e suportando a Lei dos Buddhas.

Nessa altura o Buddha disse para Rahula: “Numa futura existência tu tornar-te-ás um Buddha com o nome de Tathagata Caminhando Sobre Flores de Sete Tesouros (Saptaratnapadmavikrântagâmin), merecedor de ofertas, do recto e universal conhecimento, perfeita clarividência e conduta, bem sucedido, compreendendo o mundo, inexcedivelmente meritório, instrutor de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buddha, Honrado Pelo Mundo. Tu oferecerás dádivas a Buddhas e Tathagatas numerosos como a poeira das partículas de dez mundos. Em todos os casos tu serás o primogénito desses Buddhas, tal como és agora o meu filho. Os adornos da terra desse Buddha Caminhando Sobre Flores de Sete Tesouros, o número de kalpas de duração da sua vida, os discípulos que ele converterá, a sua Lei Correcta e Adulterada não diferirão dos do Tathagata Rei do Poder Absoluto da Montanha do Mar de Sabedoria. Serás o filho mais velho desse Buddha, após o que alcançarás anuttara-samyak-sambodhi.”

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Quando eu era o príncipe herdeiro, Rahula era o meu filho mais velho.

Agora que atingi o Buddhado ele recebe o Dharma e é o meu filho no Dharma.

Em existências futuras ele verá imensuráveis milhões de Buddhas.

Como filho mais velho de todos eles, com uma só mente ele procurará a via do Buddhado.

As acções de Rahula só eu sou capaz de conhecer.

Ele manifesta-se como meu primogénito, mostrando-se aos seres viventes.

Com inumeráveis milhões, milhares, dezenas de milhares de incontáveis bênçãos, ele está seguramente ancorado na Lei Búddhica e procurando a via insuperável.

Então o Honrado Pelo Mundo, observou os duzentos aprendizes e adeptos, suaves e brandos de vontade, serenamente puros e limpos, fitando o Buddha com uma mente concentrada. O Buddha disse a Ananda, “Vês estes duzentos aprendizes e adeptos?”

“Sim, vejo-os.”

“Ananda, estas pessoas oferecerão dádivas a Buddhas e Tathagatas iguais em número às partículas de poeira de cinquenta mundos, prestando-lhes honras e reverência, guardando e sustentando os seus repositórios do Dharma. Nas suas existências finais eles conseguirão simultaneamente tornar-se Buddhas em terras das dez direcções. Todos terão designação idêntica, sendo chamados Tathagatas Sinal de Jóias (Ratnaketurâgas), merecedores de ofertas, de recto e universal conhecimento, perfeita clarividência e conduta, bem sucedidos, compreendendo o mundo, inexcedivelmente meritórios, instrutores de pessoas, mestres de seres celestiais e humanos, Buddhas, Honrados Pelo Mundo. A duração das suas vidas será de um kalpa, e o adorno das suas terras, os seus ouvintes e bodhisattvas, Leis Correcta e Adulterada serão em todos os casos iguais.”

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Aos duzentos ouvintes que agora estão na minha presença – a todos eles eu outorgo a profecia de que numa existência futura eles se tornarão Buddhas.

Os Buddhas a quem eles oferecerão esmolas serão numerosos como as partículas de pó acima descritas.

Eles guardarão e suportarão os repositórios do Dharma após o que ganharão a correcta iluminação.

Cada um terá uma terra numa das dez direcções e todos partilharão do mesmo nome e designação.

Todos serão chamados Sinal de Jóias e as suas terras e discípulos, as suas Leis Correcta e Adulterada serão idênticas e sem qualquer diferença.

Todos empregarão poderes transcendentais para salvar os seres viventes nas dez direcções.

O seu renome correrá por toda a parte e a seu tempo entrarão no nirvana.

Nessa altura, quando os duzentos aprendizes e adeptos ouviram o Buddha outorgar-lhes esta profecia, dançaram de alegria e falaram em verso, dizendo:

Honrado Pelo Mundo, lâmpada brilhante da sabedoria, ouvimos a tua voz outorgando esta profecia e os nossos corações estão cheios de alegria como se nos banhasse-mos em doce orvalho!

Capítulo Oito: A Profecia de Iluminação Para Quinhentos Discípulos

Nessa altura Purna Maitrayaniputra, ouvindo do Buddha esta Lei tal como foi exposta através da sabedoria e dos meios expeditos, e de acordo com o que era apropriado, e ouvindo também a profecia de que os discípulos maiores atingiriam anuttara-samyak-sambodhi, ouvindo os factores relativos às causas e condições de existências passadas, e ouvindo como o Buddha possuía grande liberdade e poderes transcendentais, obteve o que nunca antes possuíra e a sua mente foi purificada e sentiu-se dançar. Imediatamente ele levantou-se do seu lugar, avançou para uma posição em frente do Buddha, tocou com a cabeça no chão fazendo uma vénia aos pés do Buddha. Então deslocou-se para um lado, fitou reverentemente a face do Honrado Pelo Mundo, os seus olhos sem se desviarem sequer por um instante, e pensou para si próprio: “O Honrado Pelo Mundo é realmente extraordinário, muito especial e as suas acções são raras de presenciar! Adaptando-se às várias naturezas das pessoas deste mundo e empregando meios expeditos e perspicácia, ele prega-lhes a Lei, retirando os seres viventes da sua ganância e apegos vários. As bênçãos do Buddha são tais que não as podemos traduzir por palavras. Apenas o Buddha, o Honrado Pelo Mundo, é capaz de conhecer os anseios que nós temos desde o início no mais fundo dos nossos corações.”

Nessa altura o Buddha disse para os monges: “Estão a ver Purna Maitrayaniputra? Eu sempre o louvei como sendo o primeiro entre os que pregam a Lei. E sempre elogiei as suas várias bênçãos, a sua diligência em proteger, promover, ajudar e proclamar a Lei, a sua habilidade para ensinar, beneficiar e deleitar os quatro tipos de crentes, o seu entendimento cabal da correcta Lei do Buddha, o alto grau a que ele eleva aqueles que levam a cabo as suas práticas brahma. Com a excepção do Honrado Pelo Mundo, não existe nenhum outro que possa exemplificar tão completamente a eloquência das suas teorias.

“Vós não deveis supor que Purna é capaz de proteger, promover, ajudar e proclamar apenas a minha Lei. Na presença de noventa milhões de Buddhas no passado ele protegeu, promoveu, ajudou e proclamou a correcta Lei Búddhica. Entre todos aqueles que nesse tempo pregaram a Lei, ele foi igualmente o primeiro.

“Além disso, no que respeita à Lei da vacuidade pregada pelos Buddhas ele teve um entendimento claro e cabal, ele ganhou os quatro tipos ilimitados de conhecimento e é capaz em qualquer altura de pregar a Lei de uma forma lúcida e pura, livre de dúvidas e perplexidade. Ele é completamente dotado dos poderes transcendentais de um bodhisattva. Através do curso da sua vida ele leva constantemente a cabo práticas Brahma, de modo a que as outras pessoas que vivam nessa era Búddhica pensem, “Aqui está um verdadeiro discípulo!”

“E Purna, empregando este meio expedito, beneficiou imensuráveis centenas de milhares de seres viventes e converteu imensuráveis asamkhyas de pessoas, fazendo-as voltar-se para anuttara-samyak-sambodhi. De modo a purificar as terras Búddhicas ele devota-se constantemente aos trabalhos Búddhicos, ensinando e convertendo seres viventes.

“Monges, Purna é o primeiro entre aqueles que pregam a Lei no tempo dos sete Buddhas, o primeiro dos quais é Vipasyin e o sétimo eu próprio. Ele é o primeiro entre os que pregam a Lei agora na minha presença. E ele será o primeiro entre aqueles que pregarão a Lei no tempo dos Buddhas futuros que aparecerão no presente Kalpa Sábio (Bhadra-kalpa), em todos os casos protegendo, promovendo, ajudando e proclamando a Lei do Buddha. Também no futuro ele protegerá, promoverá, ajudará e proclamará a Lei de imensuráveis, ilimitados Buddhas, ensinando, convertendo e enriquecendo imensuráveis seres viventes e levando-os a virar-se para anuttara-samyak-sambodhi. De modo a purificar as terras Búddhicas ele aplica-se constantemente, diligentemente, ensinando e convertendo seres viventes.

Pouco a pouco ele tornar-se-á totalmente dotado da via do Bodhisattva, e quando tiverem passado imensuráveis asamkhyas de kalpas, aqui na terra onde ele se encontra virá a alcançar anuttara-samyak-sambodhi. Ele será chamado Tathagata Brilho da Lei (Dharmaprabhâsa), merecedor de ofertas, do recto e universal conhecimento, perfeita clarividência e conduta, bem sucedido, compreendendo o mundo, inexcedivelmente meritório, instrutor de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buddha, Honrado Pelo Mundo.

“Este Buddha terá como sua terra Búddhica mil miríades de milhões de mundos, iguais em número às areias do Ganges. O chão será feito com os sete tesouros e plano como a palma de uma mão, sem colinas ou cumes, ravinas ou barrancos. A terra será repleta de terraços e torres feitos com os sete tesouros, e os palácios celestiais estarão situados bem perto da terra, de modo que os seres celestiais e humanos possam comunicar entre si e estar à vista uns dos outros. Aí não existirão maus caminhos de existência, nem existirão mulheres. Todos os seres viventes nascerão de transformação e serão isentos de desejos libidinosos. Eles ganharão grandes poderes transcendentais, os seus corpos emitirão um brilho radioso e serão capazes de voar conforme queiram. Eles serão firmes de intenção e pensamento, diligentes e sábios e serão todos adornados com uma cor dourada e com os trinta e dois sinais. Todos os seres viventes nesse mundo tomarão regularmente dois tipos de alimento, um será o alimento da alegria do Dharma o outro será o alimento do deleite da meditação. Existirão imensuráveis asamkhyas, miríades de milhares de milhões de nayutas de bodhisattvas que ganharão grandes poderes transcendentais e os quatro tipos ilimitados de conhecimento, e serão hábeis e capazes a ensinar e converter os diferentes tipos de seres viventes. O número de ouvintes estará para além do poder de cálculo ou conjectura. Todos serão imbuídos dos seis poderes transcendentais, dos três conhecimentos e das três emancipações.

“Esta terra Búddhica possuirá imensuráveis bênçãos deste tipo que a adornarão e preencherão. O seu kalpa será chamado Brilho do Tesouro (Ratnâvabhâsa) e a sua terra será chamada Boa e Pura (Suvisuddha). A duração da sua vida será de imensuráveis asamkhyas de kalpas, a sua Lei perdurará por muito tempo e após a extinção desse Buddha, torres adornadas com os sete tesouros serão erigidas para ele ao longo de toda a terra.”

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Vós Monges, ouçam com atenção!
O caminho seguido pelos filhos de Buddha,
por eles serem bem instruídos nos meios expeditos,
é maravilhoso para lá da concepção.
Eles sabem como muitos seres
se deleitam numa pequena Lei
e são temerosos em relação à grande sabedoria.
Daí que os bodhisattvas
surjam como ouvintes ou pratyekabuddhas,
empregando incontáveis meios expeditos
para converter os diferentes tipos de seres viventes.
Eles apresentam-se como ouvintes
e dizem-se muito afastados do caminho do Buddhado
e assim levam a emancipação a imensuráveis multidões,
permitindo-lhes alcançar o sucesso.
Limitadas em aspirações,
preguiçosas e indolentes como são as multidões de seres,
pouco a pouco elas são conduzidas à obtenção do Buddhado.
Interiormente e em segredo,
eles actuam como bodhisattvas,
mas exteriormente mostram-se como ouvintes.
Eles parecem atenuar os desejos
a partir da aversão pelo nascimento e a morte,
mas na verdade estão a purificar as terras Búddhicas.
Perante a multidão,
parecem possuídos pelos três venenos
ou manifestam os sinais das teorias heréticas.
Desta maneira, os meus discípulos usam meios expeditos
para salvar os seres viventes.
Se eu fosse a descrever todas as diferentes formas,
as muitas manifestações que eles exibem
para a conversão de outros,
os seres viventes que me ouvissem
ficariam perplexos e cheios de dúvidas.
Purna, no passado,
praticou diligentemente a via
sob os auspícios de milhões de Buddhas,
proclamando e guardando a Lei desses Buddhas.
De modo a procurar a sabedoria inexcedível
ele foi para onde estavam os Buddhas,
tornando-se um líder entre os seus discípulos,
de grande conhecimento e sabedoria.
Não mostrava medo naquilo que expunha
e sabia deleitar a assembleia.
Nunca se deixou abater ou desanimar
na assistência ao trabalho dos Buddhas.
Já tinha superado os grandes poderes transcendentais
e possuía os quatro tipos ilimitados de conhecimento.
Ele sabia se as capacidades da multidão
eram pobres ou apuradas
e pregava a pura Lei constantemente.
Ele expunha princípios como estes,
ensinando multidões de milhares de milhões de seres,
fazendo-os residir na Lei do Grande Veículo
e ele próprio purificando as terras Búddhicas.
Também no futuro ele oferecerá dádivas
a imensuráveis, incontáveis Buddhas,
protegendo, ajudando e proclamando a Lei,
sem medo, salvando multidões para lá de qualquer cálculo,
fazendo-os consumar a sabedoria.
Ele oferecerá dádivas aos Tathagatas,
guardando e sustentando o repositório do tesouro da Lei.

Mais tarde tornarse-á um Buddha
conhecido pelo nome de Brilho da Lei.
A sua terra será chamada Boa e Pura
e será composta pelos sete tesouros.
O seu kalpa será chamado Brilho do Tesouro.
A multitude de bodhisattvas será muito numerosa,
chegando a imensuráveis milhões,
todos avançados em poderes transcendentais,
dotados de dignidade, virtude e força,
enchendo toda a terra.
Os ouvintes serão inumeráveis,
com as três compreensões e as oito emancipações,
tendo alcançado os quatro tipos ilimitados de conhecimento –
assim serão os monges da Ordem.
Os seres viventes nessa terra
serão todos isentos de desejos libidinosos.
Eles nascerão de uma forma pura
pelo processo de transformação,
com todas as características adornando os seus corpos.
Alimentando-se da alegria do Dharma e do deleite da meditação,
eles não pensarão noutro alimento.
Ai não existirão mulheres
nem nenhum dos maus reinos de existência.
O monge Purna ganhou inteiramente estas bênçãos
e assim será a terra pura que obterá,
com uma grande multidão de sábios e de seres meritórios.
Dos incontáveis aspectos relacionados com ela
eu falei agora apenas resumidamente.

Nessa altura os doze mil arhats, estando de mente livre, pensaram para si, Nós rejubilamos ao ganhar o que nunca antes obtivemos. Como seria se o Honrado Pelo Mundo nos conferisse uma profecia de iluminação igual à que conferiu aos outros discípulos maiores?

O Buddha, sabendo que este pensamento estava em suas mentes, disse a Mahakashyapa: a estes doze mil arhats agora aqui presentes eu irei um a um outorgar a profecia de que atingirão anuttara-samyak-sambhodi. Entre esta assembleia está um dos meus discípulos maiores, o monge Kaundinya. Ele oferecerá dádivas a sessenta e dois milhares de milhões de Buddhas, e após isso tornarse-á um Buddha. Ele será designado Brilho Universal (Samantaprabhâsa), merecedor de ofertas, de recto e universal conhecimento, perfeita clarividência e conduta, bem sucedido, compreendendo o mundo, inexcedivelmente meritório, instrutor de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buddha, Honrado Pelo Mundo. Quinhentos arhats, incluindo Uruvilvakashyapa, Gayakashyapa, Nadikashyapa, Kalodayin, Anirudda, Revata, Kapphina, Bakkula, Chunda, Svagata, e outros, alcançarão anuttara-samyak-sambhodi. Todos terão a mesma designação, sendo chamados Brilho Universal.”

O Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das sua palavras, falou em verso, dizendo:

O monge Kaundinya
verá inumeráveis Buddhas
e após terem passado asamkhyas de kalpas
irá por fim alcançar a correcta e imparcial iluminação.
Ele emitirá constantemente
uma grande e brilhante luz,
será dotado de poderes transcendentais
e o seu nome será conhecido nas dez direcções
e respeitado por todos.
Ele pregará constantemente a via insuperável;
por isso será chamado Brilho Universal.
O seu reino será puro e limpo,
os seus bodhisattvas corajosos e enérgicos.
Todos ascenderão às mais altas torres,
viajarão pelas terras das dez direcções,
de modo a oferecer artigos inigualáveis
como dádivas aos vários Buddhas.
Após terem oferecido estas dádivas
as suas mentes encher-se-ão de alegria
e rapidamente regressarão às suas terras de origem –
tais serão os seus poderes sobrenaturais.
A duração da vida deste Buddha
será de dezasseis mil kalpas,
a sua correcta Lei perdurará pelo dobro desse tempo,
a sua Lei Adulterada também o dobro desse tempo,
e quando a sua Lei se extinguir,
os seres celestiais e humanos sofrerão.
Os quinhentos monges, um após outro, virão a tornar-se Buddhas,
todos com o mesmo nome, Brilho Universal.
Cada um conferirá
uma profecia ao seu sucessor, dizendo,
“Após eu ter entrado em extinção,
tu tornarte-ás um Buddha.
O mundo em que levarás a cabo as conversões
será igual ao meu.”
O adorno e pureza das suas terras,
os seus vários poderes transcendentais,
os seus bodhisattvas e ouvintes,
a sua Lei correcta e Adulterada,
o número de kalpas de duração da sua vida –
todos serão como eu acima descrevi.
Kashyapa, agora conheceis o futuro
destes quinhentos de mentes livres.
A restante multidão de ouvintes
será também como estes.
Quanto aos que não se encontram aqui reunidos,
deveis expor e pregar isto para eles.

Nessa altura os quinhentos arhats em presença do Buddha, tendo recebido a profecia de iluminação, sentiram-se dançar de alegria. Levantaram-se imediatamente dos seus lugares, avançaram para uma posição em frente ao Buddha, tocaram com a cabeça no chão e fizeram vénias aos pés do Buddha. Eles lamentaram-se do seu erro, reprovando a si próprios e dizendo, “Honrado Pelo Mundo, nós sempre pensamos que tínhamos alcançado a derradeira extinção. Mas agora sabemos que era-mos como pessoas destituídas de sabedoria. Porquê? Porque apesar de sermos capazes de alcançar a sabedoria do Tathagata, estava-mos dispostos a contentar-nos com uma sabedoria insignificante.

“Honrado Pelo mundo, é como o caso de um homem que foi até à casa de um amigo íntimo e, tendo-se embriagado com vinho, caiu num sono pesado. Nessa altura o amigo teve que se ausentar. Pegou numa jóia preciosa, coseu-a no forro da roupa do amigo adormecido, e depois foi-se embora. O homem dormia embriagado e não se apercebeu de nada. Quando acordou, iniciou uma viagem por outros países. Para conseguir obter alimento e vestuário teve de procurar diligentemente com toda a sua energia, enfrentando grandes dificuldades e tendo de se contentar com o pouco que encontrava.

“Mais tarde, o seu amigo encontrou-o por acaso. O amigo disse-lhe, “Que absurdo, companheiro! Porque tens de fazer tudo isto por comida e roupa? No passado eu quis garantir que serias capaz de viver com desafogo e satisfazer os cinco desejos, e naquele dia em que estivemos juntos cosi uma jóia preciosa no forro da tua roupa. Ainda deve lá estar. Mas tu nada sabias sobre isso e preocupaste-te a ganhar a vida. Que absurdo! Agora deves pegar na jóia e trocá-la por aquilo de que necessites. Assim podes ter sempre tudo o que quiseres sem nunca teres de passar necessidades.”

“O Buddha é como este amigo. Quando ele era ainda um bodhisattva, ensinou-nos e converteu-nos, inspirando em nós a determinação de buscar a sabedoria. Mas com o tempo esquecemos tudo isso e tornamo-nos inconscientes e ignorantes. Tendo alcançado a via do arhat, julga-mos ter ganho a extinção. Encontrando dificuldades em prover as nossas necessidades, tive-mos de nos arranjar com o que quer que conseguíssemos. No entanto, não perdemos ainda o desejo de alcançar a sabedoria. Agora, o Honrado Pelo Mundo desperta-nos e faz-nos conscientes, dizendo estas palavras: “Monges, o que vocês alcançaram não é a derradeira extinção. Por muito tempo eu vos levei a cultivarem as boas raízes do Buddhado, e como um meio expedito mostrei-vos os sinais exteriores do nirvana, mas vocês julgaram ter alcançado realmente o nirvana.”

“Honrado Pelo Mundo, agora nós entendemos. Na verdade nós somos bodhisattvas e recebemos uma profecia de que alcançaremos anuttara-samyak-sambodhi. Por esta razão estamos cheios de alegria, tendo ganho o que nunca antes possuíramos.”

Nessa altura Ajnata kaundinya e os outros, desejando expor uma vez mais o sentido das sua palavras, falaram em verso, dizendo:

Ouvimos o som desta profecia
assegurando-nos bem estar e tranquilidade insuperáveis;
rejubilamos ao ganhar o que nunca antes possuíramos
e apresentamos obediência ao Buddha
de sabedoria imensurável.
Agora, na presença do Honrado Pelo Mundo
nós arrependemo-nos dos nossos erros e faltas.
Do tesouro imensurável do Buddha
nós ganhamos apenas uma pequena parte do nirvana,
e como pessoas ignorantes e néscias
julgamos ser isso suficiente.
Somos como o homem pobre
que foi até à casa de um amigo íntimo.
A casa era abastada e o amigo
serviu muitos tabuleiros de iguarias.
O amigo pegou numa jóia de incalculável valor
e coseu-a no forro da roupa do pobre homem,
deu-a sem uma palavra e foi-se embora,
e o homem, estando adormecido, não se apercebeu de nada.
Após o homem ter acordado,
partiu em viagem por outros países,
procurando comida e roupa,
achando difícil ganhar o seu sustento.
Ele arranjou-se conforme pode,
sem ter esperança de algo melhor,
inconsciente da jóia valiosa que transportava na roupa.
Mais tarde, o amigo que lhe tinha dado a jóia,
calhou de o encontrar, e depois de o repreender,
mostrou-lhe a jóia escondida.
Quando o pobre homem viu a jóia
o seu coração encheu-se de alegria,
pois era rico, possuidor de bens e de fortuna
suficientes para satisfazer os cinco desejos.
Nós somos como esse homem.
Através da longa noite o Honrado Pelo Mundo
constantemente se compadece de nós e nos ensina e converte,
fazendo-nos plantar as raízes de uma aspiração insuperável.
Mas devido à nossa falta de sabedoria,
nós somos inconscientes disso.
Tendo ganho uma pequena porção do nirvana,
estamos satisfeitos e não procuramos mais nada.
Mas agora o Buddha despertou-nos, dizendo
“Isto não é a verdadeira extinção,
quando tiverem ganho a insuperável sabedoria do Buddha,
isso sim, sim será a verdadeira extinção!”
Agora ouvimos do Buddha
estas profecias e descrições de adornos,
e de como cada um outorgará uma profecia ao seu sucessor,
e em corpo e mente estamos cheios de alegria.

Capítulo Sete: A Parábola da Cidade Fantasma

         

O Buddha fez este anúncio aos monges: Algures num passado remoto, há imensuráveis, ilimitados, incontáveis kalpas atrás, existiu um Buddha chamado Excelência da Grande e Universal Sabedoria (Mahâbhigñâgñanâbhibhû), Tathagata, merecedor de ofertas, de conhecimento correcto e universal, conduta perfeita e clara, bem aventurado, conhecedor do mundo, inexcedivelmente meritório, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buddha, Honrado Pelo Mundo. A sua terra era chamada Bem Constituída e o seu kalpa Grande Forma.

“Então monges, desde a extinção desse Buddha, um grande, longo tempo passou. Suponham, por exemplo, que alguém pega em todas as partículas de terra deste universo e as reduz a pó, e à medida que passa por mil terras na direcção Este, larga um minúsculo grão de pó. Novamente, ao passar por outras mil terras, ele solta outro grão de pó. Suponham que ele prossegue nesta direcção até acabar de deitar todos os grãos de pó feitos com as partículas de terra. Qual é a vossa opinião? Pensais que, em relação a estas terras, os mestres de cálculo ou os seus discípulos seriam capazes de determinar o número de terras visitadas desta forma, ou não?

“Isso seria impossível, Honrado Pelo Mundo.”

“Agora monges, suponham que alguém pegava nas terras através das quais esse homem tinha passado, quer tivesse largado uma partícula de terra ou não, e as moía em pó E suponham que cada uma dessas partículas de pó representava um kalpa. Os kalpas passados desde a extinção desse Buddha excederiam o número de partículas de pó em imensuráveis, ilimitadas centenas, milhares, dezenas de milhar de milhões de kalpas. Mas porque eu emprego o poder de conhecimento e visão do Tathagata, quando olho para esse longínquo passado, é como se fosse hoje.”

Nessa altura o Honrado Pelo Mundo, desejando expor novamente o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Quando penso no passado,
imensuráveis, ilimitados kalpas atrás,
vejo que existiu um Buddha,
mais honrado dos seres humanos,
chamado Excelência da Grande e Universal Sabedoria.
Se uma pessoa usasse a sua força
para esmagar toda a terra do universo,
reduzindo-a a poeira,
e se passa-se por mil mundos
e larga-se uma partícula de pó,
e se ela continuasse desta forma
até ter esgotado todas as partículas,
e se então pegasse em todos os solos
dos mundos por onde havia passado,
quer tivesse ou não largado um grão de poeira,
e uma vez mais reduzisse essa terra a pó,
e posto isto cada grão de poeira representasse um kalpa –
o número de finíssimos grãos
seria menor do que a soma de kalpas
que passaram desde que esse Buddha viveu.
Desde a extinção desse Buddha,
um imensurável número de kalpas
tal como este já passou.
O Tathagata, através da sua visão desimpedida,
conhece o tempo em que esse Buddha se extinguiu
e os seus ouvintes e bodhisattvas
como se estivesse a presenciar essa extinção exactamente agora.
Monges, deveis entender
que a sabedoria do Buddha é pura, subtil, maravilhosa,
sem falhas, sem impedimentos,
penetrando e alcançando imensuráveis kalpas.

O Buddha anunciou aos monges: ”O Buddha Excelência da Grande e Universal Sabedoria teve uma de vida de quinhentos e quarenta dezenas de milhares de milhões de nayutas de kalpas. Este Buddha primeiramente sentou-se no lugar da iluminação e, tendo subjugado as armadas do demónio, estava a ponto de alcançar anuttara-samyak-sambodhi mas as doutrinas dos Buddhas não apareceram diante dele. Esta situação continuou durante dez pequenos kalpas, o Buddha sentado de pernas cruzadas, corpo e mente imóveis, mas as doutrinas dos Buddhas ainda assim não apareceram diante dele.

“Nessa altura os seres celestiais do paraíso Trayastrimsha tinham estendido para o Buddha um trono de leão com uma yogana de altura sob uma árvore Boddhi, pretendendo que ele se sentaria ali após alcançar anuttara-samyak-sambodhi. Logo que o Buddha ocupou ali o seu lugar, os reis Brahma fizeram chover imensas flores celestiais, cobrindo o chão numa extensão de cem yoganas em redor. De tempos a tempos uma brisa fragrante vinha limpar as flores secas, e novas flores caiam do céu. Isto continuou sem interrupção pelo espaço de dez pequenos kalpas como uma oferta ao Buddha. Até à altura em que ele se extinguiu, essa chuva de flores prosseguiu ininterruptamente. Os quatro Reis Celestiais, como oferta ao Buddha, tocaram constantemente os tambores celestiais, enquanto outros seres celestiais tocaram instrumentos musicais celestes, todos durante dez pequenos kalpas. Até o Buddha entrar em extinção esse era o estado de coisas.

“Então, monges, o Buddha Excelência da Grande e Universal Sabedoria passou dez pequenos kalpas sem conseguir alcançar anuttara-samyak-sambodhi. Antes do Buddha deixar a vida familiar, tinha dezasseis filhos, o primeiro dos quais se chamava Sabedoria Acumulada. Cada um destes filhos tinha brinquedos e objectos raros de vários tipos, mas quando ouviram que o seu pai tinha alcançado anuttara-samyak-sambodhi, todos abandonaram esses objectos raros e foram ter com o Buddha. As suas mães seguiram chorosas atrás deles.

“O seu avô, que era um rei sábio, em conjunto com cem ministros e centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de súbditos, juntou-se aos filhos do Buddha que seguiam para o lugar da prática, todos ansiosos por chegar perto do Tathagata Excelência da Grande e Universal Sabedoria, oferecer-lhe dádivas, prestar-lhe honras, venerá-lo e louvá-lo. Quando chegaram, tocaram com a cabeça no chão fazendo vénias a seus pés. Quando terminaram de circundar o Buddha, uniram as palmas das mãos e com uma única mente, fitaram reverentemente o Honrado Pelo Mundo e recitaram estes versos de louvor, dizendo:

O Honrado Pelo Mundo,
de grande autoridade e virtude,
por forma a salvar os seres viventes
passou imensuráveis milhões de anos
até que por fim conseguiu tornar-se um Buddha.
Todos os seus votos foram cumpridos –
nenhuma fortuna poderia ser maior!
O Honrado Pelo Mundo
é raro de encontrar;
após ter tomado o seu lugar
passaram-se dez kalpas,
o seu corpo e as suas mãos e pés,
repousam tranquilos e imóveis,
a sua mente está constantemente calma e plácida,
nunca em agitação ou desordem.
No final ele alcança
eterna tranquilidade e extinção,
repousando na Lei sem falhas.
Agora, conforme observamos o Honrado Pelo Mundo
em tranquilidade, tendo completado a via do Buddhado,
ganhamos excelentes benefícios
e louvamo-lo e congratulamo-lo com grande alegria.
Os seres viventes suportam constantemente sofrimento e angustia,
ignorantes, sem mestre ou guia,
não se apercebendo da existência de uma via para pôr termo ao sofrimento,
não sabendo como procurar a emancipação.
Através da longa noite
vão-se embrenhando cada vez mais nos maus caminhos,
diminuindo a multidão de seres celestiais;
das trevas eles entram nas trevas,
sem nunca ouvirem o nome Buddha.
Mas agora o Buddha atingiu a inexcedível
tranquilidade da Lei sem falhas.
Nós e os seres celestiais e humanos
por este facto obtemos o maior beneficio.
Por esta razão curvamos as nossas cabeças
e dedicamos as nossas vidas àquele de honra inexcedível.

Nessa altura os dezasseis príncipes, tendo louvado o Buddha nestes versos, incitaram o Honrado Pelo Mundo a fazer girar a roda da Lei, dizendo todos a uma só voz estas palavras: “Honrado Pelo Mundo, expõe a Lei. Assim fazendo trarás tranquilidade aos seres celestiais e humanos, confortando-os e beneficiando-os em larga medida.” Repetiram este pedido em verso, dizendo:

Herói sem par no mundo,
tu que te adornas com mil bênçãos
e atingiste a sabedoria insuperável –
rogamo-te que pregues para bem do mundo.
Salva-nos e liberta-nos
e às outras espécies de seres viventes.
Traça distinções, esclarece-nos
e permite que alcancemos a sabedoria.
Se nós podemos conquistar o Buddhado,
então todos os seres viventes o podem também fazer.
Honrado Pelo Mundo, tu conheces os pensamentos
que os seres viventes guardam no mais íntimo das suas mentes.
Conheces os caminhos que trilham
e a força da sua sabedoria,
os seus prazeres, as bênçãos que cultivaram,
as acções que levaram a cabo em existências passadas.
Honrado Pelo Mundo, tudo isto tu já sabes –
agora deves fazer girar a roda insuperável!

O Buddha anunciou aos monges: “Quando o Buddha Excelência da Grande e Universal Sabedoria alcançou anuttara-samyak-sambodhi, quinhentas dezenas de milhares de milhões de terras Búddhicas nas dez direcções tremeram e se abalaram de seis modos diferentes. Os lugares escuros e ermos nessas terras, onde a luz do sol e da lua nunca chega a penetrar, ficaram visíveis, os seus habitantes foram capazes de se verem uns aos outros, e exclamaram, ”Como é possível que tenham de repente aparecido seres viventes neste local?”

“Também os palácios dos vários seres celestiais nessas terras e os palácios de Brahma tremeram e se abalaram em seis direcções diferentes e uma grande luz brilhou em toda a parte, enchendo completamente os mundos e superando a majestade da luz celestial. Nessa ocasião, em quinhentas dezenas de milhares de milhões de terras na direcção Este os palácios de Brahma refulgiram com uma luz de um brilho cintilante e cada um dos reis Brahma pensou: “Agora o brilho do palácio é mais forte que nunca. O que poderá ter provocado este fenómeno?”

“Então os reis Brahma visitaram-se uns aos outros para discutir o assunto. Entre eles existia um grande rei Brahma chamado Salvador de Todos os Seres (Sarvasattvatrâtri), que perante a multidão de reis Brahma falou em verso, dizendo:

Os nossos palácios têm um brilho nunca antes conhecido.
Qual pode ser a causa disto?
Cada um de nós procura uma resposta.
Será devido ao nascimento de qualquer ser celestial de grande virtude, ou porque um Buddha apareceu no mundo, que esta grande luz brilha em toda a parte pelas dez direcções?

“Nessa ocasião os reis Brahma das quinhentas dezenas de milhares de milhões de terras, acompanhados dos seus palácios, cada rei despindo o seu manto exterior e enchendo-o de flores celestiais, viajaram em conjunto para a direcção Oeste para observarem aí os sinais. Eles viram o Tathagata Excelência da Grande e Universal Sabedoria no lugar da prática, sentado num trono de leão sob uma árvore bodhi, com os seres celestiais, reis dragões, gandharvas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos rodeando-o e prestando-lhe reverência. E viram também os dezasseis príncipes pedindo ao Buddha para girar a roda da Lei.

“De imediato os reis Brahma tocaram com as cabeças no chão prostrando-se aos pés de Buddha, circularam à sua volta cem mil vezes espalhando sobre ele as flores celestiais. As flores fizeram uma pilha da altura do monte Sumeru. Essas flores eram também oferta para a árvore bodhi, com dez yoganas de altura. Quando eles terminaram estas ofertas de flores, cada um tomou o seu lugar e ofereceu o seu palácio ao Buddha, dizendo estas palavras: “Esperamos que nos concedas conforto e benefícios. Rogamos-te que aceites e ocupes estes palácios que aqui apresentamos.”

“Nessa altura os reis Brahma, na presença do Buddha, com uma só mente juntaram as suas vozes na recitação destes versos de louvor:

Ó Honrado Pelo Mundo, difícil de encontrar,
dotado de imensuráveis bênçãos,
capaz de salvar a todos,
grande mestre de seres celestiais e humanos,
tu conferes ao mundo compaixão e bem estar.
Os seres viventes das dez direcções
em toda a parte recebem benefícios.
Nas quinhentas dezenas de milhares de milhões de terras
de onde viemos,
pusemos de lado a alegria da profunda meditação
de modo a trazermos oferendas ao Buddha.
Devido à nossa boa fortuna em prévias existências
os nossos palácios estão ricamente adornados.
Queremos agora apresentá-los ao Honrado Pelo Mundo,
rogando-lhe que tenha a amabilidade de os aceitar.

“Seguidamente, quando os reis Brahma acabaram de louvar o Buddha em verso, falou cada um estas palavras:” Rogamos ao Honrado Pelo Mundo que faça girar a roda da Lei, que salve os seres viventes e abra as portas do nirvana!”

“Então os reis Brahma com uma só mente juntaram as suas vozes e falaram em verso, dizendo:

Herói do mundo,
mais honrado entre os homens,
rogamos-te que exponhas a Lei.
Através do poder da tua grande misericórdia e compaixão,
salva os seres viventes no seu sofrimento e angustia!

“Nessa altura o Tathagata Excelência da Grande e Universal Sabedoria anuiu silenciosamente ao pedido.

Então monges, nas quinhentas dezenas de milhar de milhões de terras no Sudeste, os reis Brahma observaram que os seus palácios brilhavam com uma luz cintilante nunca antes vista. Dançando de alegria, entrando num modo mental raramente experimentado, foram visitar-se uns aos outros para discutir este assunto em conjunto.

“Havia no meio da assembleia um grande rei Brahma chamado Grande Compaixão (Adhimâtrakârunika) que perante a multidão de reis Brahma, falou em verso, dizendo:

Que causa está a operar
por forma a que este sinal seja manifesto?
Os nossos palácios irradiam um brilho
nunca antes conhecido.
Será devido ao nascimento de algum ser celestial de grande virtude,
ou porque um Buddha apareceu no mundo?
Nunca vimos tais sinais
e com uma só mente buscamos a razão.
Ainda que tenhamos que viajar por centenas, dezenas de milhares de milhões de terras,
juntos procuraremos a causa desta luz.
Certamente é devida ao aparecimento de um Buddha no mundo
para salvar os seres viventes do sofrimento.

“Nessa ocasião os reis Brahma das quinhentas dezenas de milhares de milhões de terras, acompanhados dos seus palácios, cada rei despindo o seu manto exterior e enchendo-o de flores celestiais, viajaram em conjunto para a direcção Noroeste para observarem aí os sinais. Eles viram o Tathagata Excelência da Grande e Universal Sabedoria no lugar da prática, sentado num trono de leão sob uma árvore bodhi, com seres celestiais, reis dragões, gandharvas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos rodeando-o e prestando-lhe reverência. E viram também os dezasseis príncipes pedindo ao Buddha para girar a roda da Lei.

“De imediato os reis Brahma inclinaram suas cabeças até ao chão prostrando-se aos pés de Buddha, circularam à sua volta cem mil vezes espalhando sobre ele as flores celestiais. As flores fizeram uma pilha da altura do monte Sumeru. Essas flores eram também oferta para a árvore bodhi, com dez yoganas de altura. Quando eles terminaram estas ofertas de flores, cada um tomou o seu lugar e ofereceu o seu palácio ao Buddha, dizendo estas palavras: “Esperamos que nos concedas conforto e benefícios. Rogamo-te que aceites e ocupes estes palácios que aqui apresentamos.”

“Então os reis Brahma com uma só mente juntaram as suas vozes e falaram em verso, dizendo:

Sábio senhor, ser celestial entre seres celestiais,
cuja voz é igual à da ave kalavinka,
tu que te compadeces dos seres viventes e os confortas,
nós agora prestamo-te honra e reverência.
O Honrado Pelo Mundo é raro de encontrar,
aparecendo apenas uma vez em muitas e longas eras.
Cento e oitenta kalpas passaram em vão sem um Buddha,
quando os três maus caminhos estavam em toda a parte
e a multidão de seres celestiais era reduzida em número.
Agora o Buddha apareceu no mundo
para ser um olho para os seres viventes.
O mundo apressar-se-á até ele
e ele salvará e guardará todos sem excepção.
Ele será um pai para os seres viventes,
confortando-os e beneficiando-os.
Devido à nossa boa fortuna em prévias existências,
somos agora capazes de encontrar o Honrado Pelo Mundo!

“Seguidamente, quando os reis Brahma acabaram de louvar o Buddha em verso, falou cada um estas palavras:” Rogamos ao Honrado Pelo Mundo que se compadeça e conforte a todos e faça girar a roda da Lei!

“Então os reis Brahma com uma só mente juntaram as suas vozes e falaram em verso, dizendo:

Grande sábio, faz girar a roda da Lei,
revela as características dos ensinamentos,
salva os seres viventes do seu sofrimento e angustia,
permite-lhes que atinjam a grande alegria.
Quando os seres viventes ouvirem esta Lei
encontrarão o caminho ou renascerão no céu;
os dos reinos inferiores serão reduzidos em número
e aumentarão os de bondade paciente.

“Nessa altura o Tathagata Excelência da Grande e Universal Sabedoria anuiu silenciosamente ao pedido.

Então monges, nas quinhentas dezenas de milhar de milhões de terras no Sul, os reis Brahma observaram que os seus palácios brilhavam com uma luz cintilante nunca antes vista. Dançando de alegria, entrando num modo mental raramente experimentado, foram visitar-se uns aos outros para discutir este assunto em conjunto, dizendo, “Qual é a razão dos nossos palácios emitirem esta luz brilhante?”
“Havia no meio da assembleia um grande rei Brahma chamado Lei Maravilhosa (Sudharma) que perante a multidão de reis Brahma, falou em verso, dizendo:

Os nossos palácios cintilam com um brilho inexcedível.
Isto tem de ter uma razão – devíamos investigar.
Nos cem mil kalpas passados
nunca vimos tais sinais
Será devido ao nascimento de algum ser celestial de grande virtude,
ou porque um Buddha apareceu no mundo?

“Nessa ocasião os reis Brahma das quinhentas dezenas de milhares de milhões de terras, acompanhados dos seus palácios, cada rei despindo o seu manto exterior e enchendo-o de flores celestiais, viajaram em conjunto para a direcção Nordeste para observarem aí os sinais. Eles viram o Tathagata Excelência da Grande e Universal Sabedoria no lugar da prática, sentado num trono de leão sob uma árvore bodhi, com seres celestiais, reis dragões, gandharvas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos rodeando-o e prestando-lhe reverência. E viram também os dezasseis príncipes pedindo ao Buddha para girar a roda da Lei.

“De imediato os reis Brahma tocaram com as cabeças no chão prostrando-se aos pés de Buddha, circularam à sua volta cem mil vezes espalhando sobre ele as flores celestiais. As flores fizeram uma pilha da altura do monte Sumeru. Essas flores eram também oferta para a árvore bodhi, com dez yoganas de altura. Quando eles terminaram estas ofertas de flores, cada um tomou o seu lugar e ofereceu o seu palácio ao Buddha, dizendo estas palavras: “Esperamos que nos concedas conforto e benefícios. Rogamo-te que aceites e ocupes estes palácios que aqui apresentamos.”

“Então os reis Brahma com uma só mente juntaram as suas vozes e disseram estes versos de louvor:

Honrado Pelo Mundo, o mais difícil de encontrar,
destruidor dos desejos mundanos,
cento e trinta kalpas passaram
e agora finalmente podemos ver-te.
Os seres viventes na sua fome e sede
são saciados com a chuva do Dharma.
Alguém como nunca antes visto,
de sabedoria imensurável,
raro como a flor da udumbara,
hoje por fim apareceu perante nós.
Por terem recebido a tua luz,
os nossos palácios estão maravilhosamente adornados.
Honrado Pelo Mundo, de grande misericórdia e compaixão,
rogamo-te que os aceites.

“Seguidamente, quando os reis Brahma acabaram de louvar o Buddha em verso, falou cada um estas palavras: ”Rogamos ao Honrado Pelo Mundo que faça girar a roda da Lei, que leve os seres celestiais, demónios, reis Brahma, shramanas e Brahmans por todo o mundo a obter paz e tranquilidade e a alcançar a salvação.”

“Então os reis Brahma com uma só mente juntaram as suas vozes recitando versos de louvor, dizendo:

Rogamos ao mais honrado dos seres celestiais e humanos
que faça girar a roda da Lei insuperável.
Que bata o grande tambor do Dharma,
sopre a grande concha do Dharma,
faça cair a grande chuva do Dharma por toda a parte
para salvar imensuráveis seres viventes!
Nós dirigimos para ti toda a nossa fé e as nossas súplicas –
deixa soar a tua voz profunda e de longo alcance!

“Nessa altura o Tathagata Excelência da Grande e Universal Sabedoria anuiu silenciosamente ao pedido. Na região sudoeste e nas restantes regiões até ao nadir, ocorreu uma sucessão similar de eventos.

“Então, na região do Nadir, os reis Brahma das quinhentas dezenas de milhar de milhões de terras no Sudoeste, observaram que os seus palácios brilhavam com uma luz cintilante nunca antes conhecida. Dançando de alegria, entrando num modo mental raramente experimentado, foram visitar-se uns aos outros para discutir este assunto em conjunto, dizendo, “Qual é a razão dos nossos palácios emitirem esta luz brilhante?”

“Havia no meio da assembleia um grande rei Brahma chamado Lei Maravilhosa (Sudharma) que perante a multidão de reis Brahma, falou em verso, dizendo:

Qual é a razão para que os nossos palácios
cintilem com tal autoridade e virtude,
adornados como nunca?
Um sinal maravilhoso deste tipo
nunca foi visto ou ouvido no passado.
Será devido ao nascimento de algum ser celestial de grande virtude,
ou porque um Buddha apareceu no mundo?

“Nessa ocasião os reis Brahma das quinhentas dezenas de milhares de milhões de terras, acompanhados dos seus palácios, cada rei despindo o seu manto exterior e enchendo-o de flores celestiais, viajaram em conjunto para a direcção Nordeste para observarem aí os sinais. Eles viram o Tathagata Excelência da Grande e Universal Sabedoria no lugar da prática, sentado num trono de leão sob uma árvore bodhi, com seres celestiais, reis dragões, gandharvas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos rodeando-o e prestando-lhe reverência. E viram também os dezasseis príncipes pedindo ao Buddha para girar a roda da Lei.

“De imediato os reis Brahma tocaram com as cabeças no chão prostrando-se aos pés de Buddha, circularam à sua volta cem mil vezes espalhando sobre ele as flores celestiais. As flores fizeram uma pilha da altura do monte Sumeru. Essas flores eram também oferta para a árvore bodhi, com dez yoganas de altura. Quando eles terminaram estas ofertas de flores, cada um tomou o seu lugar e ofereceu o seu palácio ao Buddha, dizendo estas palavras: “Esperamos que nos concedas conforto e benefícios. Rogamo-te que aceites e ocupes estes palácios que aqui apresentamos.”

“Então os reis Brahma com uma só mente juntaram as suas vozes e disseram estes versos de louvor:

Que bom, que possamos ver os Buddhas,
sábios e veneráveis que salvam o mundo,
capazes de resgatar e libertar os seres viventes
do inferno do triplo mundo!
Venerável entre os seres celestiais e humanos,
de sabedoria universal,
tu compadeces-te e tens misericórdia pela multidão de criaturas,
és capaz de abrir os portões do doce orvalho
e trazer a todos a salvação.
Anteriormente, imensuráveis kalpas passaram em vão
sem que um Buddha estivesse presente.
O tempo não tinha ainda chegado
para que o Honrado pelo Mundo aparecesse,
e tudo nas dez direcções estava em constante escuridão.
Os habitantes dos três reinos inferiores
aumentavam em número
e o reino dos asuras crescia;
a multidão dos seres celestiais diminuía,
e muitos deles ao morrer caíam nos reinos malignos.
Uma vez que ninguém podia procurar o Buddha e escutar a Lei,
as pessoas incorriam em condutas improprias
e a sua força física e sabedoria
diminuía e esmorecia.
Devido aos actos nefastos por eles praticados,
perderam todo o deleite e até a ideia do deleite.
Apegaram-se a doutrinas heréticas
e não tinham conhecimento dos bons costumes e regras.
Impedidos de serem instruídos pelo Buddha,
caíam constantemente nos reinos malignos.
Mas agora tu, o Buddha, que serás o olho do mundo,
Após este longo tempo chegas-te finalmente.
Por forma a trazer piedade e conforto aos seres viventes
apareceste no mundo.
Transcendeste o mundo
para ganhar a correcta iluminação;
estamos cheios de deleite e admiração.
Nós e todos os outros na assembleia rejubilamos,
deleitando-nos no que nunca conhecemos antes.
Os nossos palácios, por terem recebido a tua luz,
estão maravilhosamente adornados.
Agora apresentamo-los ao Honrado Pelo Mundo,
na esperança de que ele se compadeça e os aceite.
Rogamo-te que o mérito obtido através desta dádiva
seja largamente repartido por todos,
de modo a que nós e outros seres viventes
possamos todos juntos atingir o Buddhado.

“Seguidamente, depois de as quinhentas dezenas de milhares de milhões de reis Brahma terem acabado de recitar estes verso em louvor do Buddha, falou cada um estas palavras:” Rogamos ao Honrado Pelo Mundo que faça girar a roda da Lei, trazendo paz e tranquilidade a muitos, trazendo a muitos a salvação.Então os reis Brahma falaram em verso, dizendo:
Honrado Pelo Mundo,
faz girar a roda da Lei,
bate o tambor do Dharma de doce orvalho,
salva os seres viventes do seu sofrimento e angustia,
abre e revela-nos o caminho do nirvana!
Rogamo-te que aceites as nossas súplicas
e que, com um grande, subtil e maravilhoso som,
tragas piedade e conforto
expondo a Lei que praticas-te por imensuráveis kalpas.

“Nessa altura o Tathagata Excelência da Grande e Universal Sabedoria, tendo recebido súplicas dos dezasseis príncipes e dos reis Brahma das dez direcções, deu de imediato três voltas da roda de doze raios da Lei. Nem shramana, Brahman, ser celestial, demónio, Brahma, nem qualquer outro ser vivente no mundo era capaz de uma tal rotação. Ele disse, “Aqui está o sofrimento, aqui está a origem do sofrimento, aqui está a aniquilação do sofrimento, aqui está o caminho para a aniquilação do sofrimento.”

“Então ele expôs largamente a Lei dos doze elos interligados de causalidade : a ignorância causa a acção, a acção causa a consciência, a consciência causa o nome e a forma, o nome e a forma causam os seis órgãos dos sentidos, os seis órgãos dos sentidos causam o contacto, o contacto causa a sensação, a sensação causa o desejo, o desejo causa o apego, o apego causa a existência, a existência causa o nascimento, o nascimento causa a velhice e a morte, a preocupação e a dor, o sofrimento e a angustia. Se a ignorância for removida, então a acção será removida, se a acção for removida , então a consciência será removida, se a consciência for removida, então o nome e a forma serão removidos, se o nome e a forma forem removidos, então os seis órgãos dos sentidos serão removidos, se os seis órgãos dos sentidos forem removidos, então o contacto será removido, se o contacto for removida, então a sensação será removida, se a sensação for removida, então o desejo será removido, se o desejo for removido, então o apego será removido, se o apego for removido, então a existência será removida, se a existência for removida, então o nascimento será removido, se o nascimento for removido, então a velhice e a morte, a preocupação e a dor, o sofrimento e a angustia serão removidos.

“Quando o Buddha no meio da grande assembleia de seres celestiais e humanos expôs esta Lei, seiscentas dezenas de milhares de milhões de nayutas de pessoas, porque deixaram de aceitar qualquer das coisas do mundo fenomenal e porque as suas mentes estavam capazes de se libertarem de imperfeições, todos alcançaram uma profunda e maravilhosa prática meditativa, adquiriram as três compreensões e os seis poderes transcendentais e foram agraciados com as oito emancipações. E quando ele fez uma segunda, terceira e quarta exposição da Lei, seres viventes iguais em número aos grãos de areia de mil dezenas de milhares de milhões de nayutas de rios Ganges, por terem igualmente deixado de aceitar qualquer das coisas do mundo fenomenal, foram capazes de se libertarem das imperfeições da mente. Daí em diante, a multidão de ouvintes tornou-se imensurável, sem limite, incapaz de ser contada.

“Nessa altura os dezasseis príncipes deixaram as suas famílias enquanto ainda jovens e tornaram-se shramaneras. As suas faculdades eram apuradas e penetrantes, a sua sabedoria brilhante e compreensiva. Já no passado eles tinham oferecido esmolas a centenas de milhares, dezenas de milhares de Buddhas, e levado a cabo práticas Brahma de forma perfeita, e lutado para atingir anuttara-samyak-sambhodi. Dirigiram-se ao Buddha em conjunto, dizendo: Honrado Pelo Mundo, estes inumeráveis milhares, dezenas de milhares, milhões de ouvintes de grande virtude, já foram bem sucedidos. Honrado Pelo Mundo, nós estamos determinados a alcançar a perspicácia do Tathagata. No mais íntimo dos nossos corações temos este pensamento, tal como o Buddha deve saber.”

“Nessa ocasião o Buddha, respondendo às súplicas dos shramaneras, passou um período de vinte mil kalpas e por fim, no meio dos quatro tipos de crentes, pregou o sutra do Grande Veículo intitulado Lótus da Lei Maravilhosa, uma Lei para instruir os boddhisatvas, uma Lei que é guardada e mantida em mente pelos Buddhas. Após ter pregado este sutra, os dezasseis shramaneras, em prol de anuttara-samyak-sambhodi, aceitaram-no e abraçaram-no, recitando e entoando-o, penetrando e entendendo o seu sentido.

“Quando o Buddha pregou este sutra, todos os dezasseis bodhisattvas shramaneras tiveram fé nele e o aceitaram, e entre a multidão de ouvintes alguns ouve que o aceitaram e compreenderam. Mas os outros milhares de dezenas de milhares de milhões de seres viventes deram lugar à dúvida e à perplexidade.

“O Buddha pregou este sutra por um período de oitocentos Kalpas, nunca parando para descansar. Após ter pregado este sutra, entrou numa sala socegada e ficou em meditação por oitenta e quatro milhares de kalpas.

“Nesta altura os dezasseis bodhisattvas shramaneras, sabendo isso, ascenderam a um trono do Dharma e de igual modo, por um período de oitenta e quatro milhares de kalpas, pregaram largamente as distinções estabelecidas no Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa, em prol dos quatro tipos de crentes. Desta forma cada um deles salvou seres viventes iguais em número aos grãos de areia de seiscentas dezenas de milhares de milhões de nayutas de rios Ganges, instruindo-os, trazendo-lhes benefícios e alegria e fazendo-os fixar as suas mentes em anuttara-samyak-sambhodi.

“O Buddha Excelência da Grande e Universal Sabedoria, após terem passado oitenta e quatro mil kalpas, despertou do seu samadhi e aproximou-se do lugar do Dharma. Sentando-se calmamente, dirigiu-se à grande assembleia, dizendo: estes dezasseis bodhisattvas shramaneras são de um tipo muito raro de encontrar, as suas faculdades são apuradas e penetrantes, a sua sabedoria brilhante e na companhia desses Buddhas eles levaram constantemente a cabo práticas brahma, recebendo e abraçando a sabedoria Búddhica, e expondo-a aos seres viventes. Todos vocês devem assiduamente associar-se a eles e oferecer-lhes dádivas. Porquê? Porque se qualquer um de vocês, ouvintes, pratyekabuddhas ou bodhisattvas, for capaz de ter fé nos ensinamentos dos sutras pregados por estes dezasseis bodhisattvas, e os aceitar e acolher sem nunca os depreciar, será capaz de alcançar anuttara-samyak-sambhodi, a sabedoria do Tathagata.”

O Buddha, dirigindo-se aos monges, disse: “Estes dezasseis bodhisattvas desejaram constantemente expor este Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa. Os seres viventes convertidos por cada um destes bodhisattvas são iguais em número aos grãos de areia de seiscentas dezenas de milhares de milhões de nayutas de rios Ganges. Existência após existência, estes seres viventes renascem na companhia desses bodhisattvas, ouvem deles a Lei, e todos a crêem e compreendem. Por esta razão eles foram capazes de encontrar quarenta mil milhões de Buddhas, Honrados Pelo Mundo, e nunca até ao presente deixaram de o fazer.

“Monges, eu vos direi isto: estes discípulos do Buddha, estes dezasseis shramaneras, atingiram agora anuttara-samyak-sambhodi. Nas terras das dez direcções, eles estão presentemente pregando a Lei, com séquito de imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de bodhisattvas e ouvintes. Dois destes shramaneras tornaram-se Buddhas na região Leste. Um chama-se Akshobhya e vive na Terra da Alegria. O outro é chamado Monte Sumeru (Merukûta). Dois são Buddhas na região sudeste, um chamado Voz de Leão, o outro Aparência de Leão. Dois são Buddhas na região sul, um chamado Habitante do Vazio, o outro Sem Extinção). Dois são Buddhas na região Sudoeste, um chamado Aparência Imperial, o outro Aparência de Brahma. Dois são Buddhas na região Oeste, um chamado Amitayus, o outro Salvador de Todos dos sofrimentos Mundanos. Dois são Buddhas na região Noroeste, um chamado Poder Transcendental da Fragrância de Sândalo de Talamapatra, o outro Aparência de Sumeru. Dois são Buddhas na região Norte, um chamado Nuvem de Liberdade, o outro Rei da Nuvem de Liberdade. Dos Buddhas da região Nordeste, um é chamado Destruidor dos Medos Mundanos, o décimo sexto sou eu, Buddha Shakyamuni, que neste mundo Saha alcancei anuttara-samyak-sambodhi.

“Monges, quando eu e esses outros era-mos shramaneras, ensinamos e convertemos cada um seres viventes iguais em número aos grãos de areia de imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de rios Ganges. Eles ouviram a Lei e alcançaram anuttara-samyak-sambodhi. Alguns desses seres viventes estão agora na condição de ouvintes. Mas nós instruimo-los constantemente em anuttara-samyak-sambodhi, e essas pessoas devem ser capazes, através desta Lei, de entrar no Caminho do Buddhado, ainda que gradualmente. Porque digo isto? Porque a sabedoria do Tathagata é difícil de acreditar e difícil de compreender. Esses seres viventes iguais em número às areias de imensuráveis rios Ganges convertidos nessa altura sois vós, agora monges, e serão esses que, depois de me ter extinguido, em épocas vindouras serão discípulos ouvintes.

“Após a minha extinção, haverão outros discípulos que não ouvirão este sutra e não terão noção das práticas levadas a cabo pelos bidhisattvas nem as compreenderão, mas que, através das bênçãos que tenham sido capazes de obter, conceberão uma ideia de extinção e entrarão naquilo que acreditarão ser o nirvana. Nessa altura eu serei um Buddha noutra terra e serei conhecido por um outro nome. Esses discípulos, ainda que tenham concebido a ideia de extinção e entrado no que julgaram ser o nirvana, irão nessa outra terra procurar a sabedoria Búddhica e serão capazes de ouvir este sutra. Porque é apenas mediante o veículo Búddhico que é possível alcançar a extinção. Não existe nenhum outro veículo, se exceptuarmos as várias doutrinas pregadas pelo Tathagata como meios expeditos.

“Monges, se um Tathagata sabe que é chegado o tempo de entrar no nirvana, e sabe que os membros da assembleia são puros e limpos, firmes em fé e entendimento, cabais na sua compreensão da Lei da vacuidade e avançados profundamente na sua prática meditativa, então ele reúne a assembleia de bodhisattvas e ouvintes e prega-lhes este sutra. Não existem no mundo dois veículos pelos quais se pode alcançar a extinção. Existe apenas um e um só veículo Búddhico para alcançar a extinção.

“Monges, deveis entender isto. O Tathagata no exercício dos meios expeditos penetra profundamente na natureza dos seres viventes. Ele sabe como os seus monges se deleitam em doutrinas insignificantes e quão profundamente estão apegados aos cinco desejos. E por eles serem assim, quando ele expõe o nirvana, fá-lo de modo a que essas pessoas, ouvindo-o, possam prontamente acreditá-lo e aceitá-lo.

“Suponhamos que existe um troço de estrada mau com quinhentas yoganas de extensão, íngreme e difícil, selvagem e deserto, desabitado, verdadeiramente temível. E suponhamos que existe um certo número de pessoas que quer passar por essa estrada para alcançar um lugar onde existem tesouros raros. Eles têm um líder, de grande sabedoria e entendimento apurado, que está perfeitamente familiarizado com esta estrada íngreme, conhece a disposição das suas passagens e obstáculos, e que está preparado para guiar este grupo de pessoas acompanhando-as neste terreno difícil.

“O grupo liderado por ele, após ter percorrido parte do caminho, fica desencorajado e diz ao líder, “Estamos completamente exaustos e assustados. Não podemos ir mais longe. Uma vez que ainda existe uma distância tão longa por percorrer, gostaríamos de voltar agora para trás.”

“O líder, um homem de muitos expedientes, pensa para si, “Que pena eles abandonarem os muitos tesouros raros que procuravam e quererem regressar! Tendo tido este pensamento, ele recorre ao poder dos meios expeditos e, tendo eles percorrido trezentas yoganas ao longo da estrada íngreme, conjura uma cidade. Ele diz ao grupo, “Não tenham medo! Não devem voltar atrás, porque existe agora uma grande cidade onde podem parar, descansar e fazer o que vos apetecer. Se entrarem nesta cidade estarão completamente à vontade e tranquilos. Então depois, se sentirem que conseguem ir até ao local onde está o tesouro, podem deixar a cidade.”

“Nessa altura os membros do grupo, completamente exaustos, rejubilaram, exclamando perante evento tão inesperado, “Agora podemos escapar desta estrada medonha e encontrar socego e tranquilidade!” As pessoas do grupo apressaram-se a entrar na cidade onde, sentindo-se salvos das suas dificuldades, tiveram uma sensação de completo socego e tranquilidade.

“Nessa altura o líder, sabendo que as pessoas estavam já descansadas e já não tinham temor ou preocupação, desvanece a cidade fantasma e diz para o grupo, “Agora devem continuar. O lugar onde se encontra o tesouro fica perto. Essa grande cidade de há pouco era um mero fantasma que eu conjurei para que pudessem descansar.”

“Monges, o Tathagata está numa posição similar. Ele está agora a actuar como um grande líder para vós. Ele sabe que a estrada do nascimento, da morte e dos desejos mundanos é íngreme, difícil e extensa, mas tem que ser percorrida, tem de ser ultrapassada. Se os seres viventes ouvirem falar apenas do veículo Búddhico, eles não quererão ver o Buddha, não quererão chegar perto dele, mas pensarão de imediato, “O caminho do Buddhado é longo e é necessário trabalhar diligentemente e suportar dificuldades durante um longo período antes de poder alguma vez ser bem sucedido!”

“O Buddha sabe que as mentes dos seres viventes são tímidas, fracas e pobres, e assim, usando o poder dos meios expeditos, ele prega dois nirvanas por forma a providenciar um lugar de repouso ao longo do caminho. Se os seres viventes escolhem permanecer nestes dois lugares, então o Tathagata diz-lhes: “Vocês ainda não entenderam o que tem de ser feito. Este estado em que vocês escolheram permanecer está próximo da sabedoria Búddhica. Mas deveis observar e ponderar melhor. Este nirvana que alcançásteis não é o verdadeiro nirvana. O que sucedeu foi simplesmente que o Tathagata, usando o poder dos meios expeditos, tomou o único veículo Búddhico e estabelecendo distinções, pregou-o como se fosse triplo.”

“O Buddha é como o líder que, de modo a providenciar um lugar de repouso, conjura uma grande cidade e então, quando sabe que os viajantes já estão descansados, diz-lhes, “O lugar onde se encontra o tesouro está próximo. Esta cidade não é real. É meramente algo conjurado por mim.”

Nessa altura o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

O Buddha Excelência da Grande e Universal Sabedoria
sentou-se no lugar da prática por dez kalpas,
mas a Lei Búddhica não surgia diante dele
e ele não conseguia alcançar a via do Buddhado.
A assembleia de deuses celestiais, reis dragões, asuras e outros
fizeram constantemente chover sobre ele flores celestiais
como dádivas oferecidas a esse Buddha.
Os seres celestiais bateram os seus tambores
e fizeram vários tipos de música.
Um vento fragrante varria as flores murchas,
para de imediato choverem outras frescas e belas.
Quando por fim tinham passado dez pequenos kalpas,
ele foi então capaz de alcançar o Buddhado.
Os seres celestiais e as pessoas do mundo,
sentiram-se dançar em seus corações.
Os dezasseis filhos do Buddha,
na companhia dos seus seguidores,
mil dezenas de milhares de milhões,
juntaram-se e vieram ao lugar do Buddha,
tocando com as cabeças no chão,
fazendo vénias aos pés do Buddha
e pedindo-lhe que fizesse girar a roda da Lei, dizendo,
“Santo Leão, deixa que a chuva do Dharma caia sobre nós
e sobre todos os outros!”
O Honrado Pelo Mundo é difícil de encontrar,
apenas uma vez em muito tempo ele aparece.
De modo a trazer a iluminação a muitos seres
ele faz tremer e mover as regiões circundantes.
Nos mundos das dez direcções,
em quinhentas dezenas de milhares de milhões de terras,
os palácios dos reis Brahma
brilharam com uma luz nunca antes conhecida.
Quando os reis Brahma viram estes sinais
vieram à procura do lugar do Buddha
para espalharem flores como forma de oferenda,
apresentando ao mesmo tempo os seus palácios,
pedindo ao Buddha que fizesse girar a roda da Lei
e louvando-o em versos.
O Buddha sabia não ter chegado ainda o tempo,
e apesar dos pedidos, sentou-se em silêncio.
Nas outras dez direcções, nas quatro direcções intermédias,
na região superior e na região inferior,
o mesmo ocorreu,
os reis Brahma espalhando flores
apresentaram os seus palácios,
pedindo ao Buddha que girasse a roda da Lei,
dizendo, “O Honrado Pelo Mundo é difícil de encontrar.
Rogamo-te que na tua grande misericórdia e compaixão
abras os portões do doce orvalho
e faças girar a roda da Lei insuperável.”
O Honrado Pelo Mundo,
imensurável em sabedoria,
aceitou os pedidos da assembleia
e proclamou várias doutrinas,
as quatro nobres verdades,
os doze elos interligados de causalidade,
descrevendo como, desde a ignorância até à velhice e à morte,
todos os males advêm do nascimento, dizendo,
“Em relação a estas muitas faltas e penas
deveis entender que a morte
é o quinhão da humanidade.”
Quando ele expôs esta Lei,
seiscentas dezenas de milhares de milhões de triliões de seres
foram capazes de esgotar os limites dos sofrimentos,
atingindo todos o estado de arhat.
Da segunda vez que ele pregou a Lei
uma multidão igual aos grãos de areia de mil rios Ganges,
deixou de aceitar o mundo fenomenal
e foram também capazes de se tornarem arahts.
Daí que os que alcançaram o caminho
fossem imensuráveis em número –
podia ser calculado durante dez mil milhões de kalpas
sem nunca conseguir determinar o seu montante.
Nessa altura os dezasseis príncipes
deixaram as suas famílias e tornaram-se shramaneras.
Em conjunto pediram ao Buddha
que expuse-se a Lei do Grande Veículo, dizendo,
“Nós e os teus acólitos estamos
certos de alcançar a via do Buddhado.
Desejamos o olho da sabedoria de pureza incomparável
igual ao que o Honrado Pelo Mundo possui.”
O Buddha compreendeu as suas mentes imaturas
e as acções que tinham levado a cabo em existências passadas,
e empregando imensuráveis causas e condições
e várias metáforas e parábolas,
pregou-lhes os seis paramitas
e os assuntos relacionados com os poderes transcendentais,
distinguindo a verdadeira Lei,
a via praticada pelos bodhisattvas,
pregando este Sutra do Lótus
em versos tão numerosos quanto as areias do Ganges.
Quando o Buddha acabou de pregar o sutra
entrou em meditação numa sala socegada,
permanecendo no mesmo lugar
durante oitenta e quatro mil kalpas.
Os shramaneras sabiam que o Buddha
não iria emergir tão cedo da meditação
e por isso pregaram para a assembleia a sabedoria do Buddha,
cada um sentado num lugar do Dharma,
pregando este sutra do Grande Veículo.
E depois de o Buddha ter entrado em pacífica tranquilidade,
eles continuaram a proclamar,
esperando converter outros à Lei.
Os seres viventes salvos por cada um destes shramaneras
foi igual em número aos grãos de areia
de seiscentas dezenas de milhares de milhões de rios Ganges.
Após a extinção do Buddha,
essas pessoas que ouviram a Lei
moraram aqui e ali em várias terras Búddhicas,
renascendo constantemente na companhia dos seus mestres.
E estes dezasseis shramaneras,
tendo completado o caminho do Buddhado,
encontram-se no presente pelas dez direcções,
onde cada um atingiu a correcta iluminação.
As pessoas que ouviram a Lei nessa altura
estão todas em lugares onde se encontra um desses Buddhas,
e aqueles que permanecem no estado de ouvintes
estão a ser gradualmente instruídos na via do Buddhado.
Eu próprio era um dos dezasseis
e preguei no passado para vós.
Por essa razão eu empregarei um meio expedito
para vos colocar na demanda da sabedoria Búddhica;
devido a estas causas e condições
eu prego agora o Sutra do Lótus.
Eu farei com que entrem na via do Buddhado –
estai atentos e não tenhais medo!
Suponham que existe um troço de estrada íngreme e penosa,
numa região desolada e remota
com muitas feras ameaçadoras,
um lugar ermo sem água ou verdura,
temido pelas pessoas.
Um grupo de incontáveis milhares
queria passar por essa estrada íngreme,
mas a estrada era muito longa,
com quinhentas yoganas de extensão.
Havia então um líder bem informado,
dotado de sabedoria, de entendimento claro e mente determinada,
capaz de salvar pessoas de muitos perigos e dificuldades.
Os membros do grupo estavam esgotados e sem ânimo
e disseram ao seu líder,
“Estamos esgotados de fadiga
e queremos desistir e voltar para trás.”
O líder pensou então,
estas pessoas são realmente merecedoras de pena!
Porque querem voltar para trás
e perder os muitos tesouros que existem adiante?
Nessa ocasião ele pensou num meio expedito,
decidido a recorrer aos seus poderes transcendentais.
Ele conjurou uma grande cidade fortificada
e adornada de mansões,
rodeando-a de jardins e bosques,
canais de águas correntes, lagos e fontes,
com portões, altas torres e pavilhões,
todos repletos de homens e mulheres.
Logo que ele criou esta ilusão,
reconfortou o grupo, dizendo,
“Não tenhais medo – podeis entrar na cidade
e divertir-se cada um como quiser.”
Quando as pessoas entraram na cidade,
ficaram felizes, bem dispostas e tranquilas,
dizendo para si próprias que tinham sido salvas.
Quando o líder percebeu que já tinham descansado,
reuniu-os a todos e anunciou,
“Agora deveis continuar o vosso esforço –
isto não é mais que uma cidade fantasma.
Eu vi que estavam todos cansados e desanimados
e que queriam desistir a meio da viagem.
Por isso usei o poder dos meios expeditos
para conjurar esta cidade para a ocasião.
Agora deveis prosseguir diligentemente
de modo a que em conjunto possais chegar ao local do tesouro.”
Eu também faço o mesmo,
actuando como um pai para todos os seres.
Eu vejo os que buscam o caminho
ficarem desanimados a meio da viagem,
incapazes de passar além da estrada íngreme
do nascimento e da morte e dos desejos mundanos,
então, uso o poder dos meios expeditos e prego o nirvana
para lhes providenciar um local de descanso, dizendo,
“O vosso sofrimento está extinto,
vocês levaram a cabo tudo o que havia para fazer.”
Quando sei que alcançaram o nirvana
e chegaram todos ao estado de arhat,
eu reuno então a grande assembleia
e prego-lhes a verdadeira Lei.
Os Buddhas, através dos meios expeditos,
fazem distinções e pregam os três veículos,
mas existe apenas o único veículo Búddhico –
os outros dois nirvanas são pregados
para permitir um descanso ao longo do caminho.
Agora exporei a verdade para vós –
aquilo que alcançásteis não é a extinção.
Em prol da sabedoria Búddhica
deveis empregar grande esforço e diligência.
Se ganhardes a iluminação na Lei do Buddha
com a sua sabedoria e os seus dez poderes
sereis investidos dos trinta e dois sinais,
isto então sim, será a verdadeira extinção.
Os Buddhas na sua capacidade como lideres,
pregam o nirvana para prover um repouso,
mas quando sabem que já estais descansados,
eles guiam-vos até à sabedoria Búddhica.

                  

Capítulo Seis: Atribuição de Profecias

           

Nessa ocasião o Buddha, tendo acabado de recitar estes versos, fez um anúncio à grande assembleia, falando do seguinte modo: ”Este meu discípulo Mahakashyapa em futuras existências será capaz de chegar à presença de três mil biliões de Buddhas, Honrados Pelo Mundo, de lhes oferecer dádivas, de prestar-lhes reverência, honrá-los e louvá-los, proclamando largamente as inumeráveis grandes doutrinas dos Buddhas. Na sua encarnação final será capaz de se tornar um Buddha chamado Luz Radiosa (Rasmiprabhâsa), Tathagata, merecedor de ofertas, de conhecimento correcto e universal, conduta perfeita e clara, bem aventurado, conhecedor do mundo, inexcedivelmente meritório, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buddha, Honrado Pelo Mundo.

“A sua terra será chamada Virtude Luminosa (Avabhâsa) e o seu kalpa será chamado Grande Adorno (Mahâvyûha). A duração da vida desse Buddha será de doze pequenos kalpas. A sua Correcta Lei perdurará no mundo por vinte pequenos kalpas e a sua Lei Adulterada por vinte pequenos Kalpas.

“O seu reino será adornado majestosamente, livre do mal e das impurezas, de cacos e entulho, de silvas e espinhos, ou do imundo lixo das latrinas. A terra será plana e suave, sem cumes nem barrancos, fossos ou colinas. O chão será de lápis lazúli, com renques de árvores de jóias e cordões de ouro a marcar os limites dos caminhos. Flores de jóias estarão espalhadas por toda a parte e tudo estará puro e limpo. Os bodhisattvas desse reino serão em número de incontáveis milhares de milhões e a multidão de ouvintes será igualmente inumerável. Não existirão trabalhos demoníacos e os acólitos do demónio estarão lá a proteger a Lei do Buddha.”

Nessa altura o Honrado Pelo Mundo, desejando expor novamente o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Eu anuncio a estes monges:
quando eu emprego o olho Búddhico
para observar Kashyapa,
eu vejo que numa futura existência,
após inumeráveis Kalpas terem passado,
ele será capaz de atingir o Buddhado.
Em existências futuras
ele oferecerá esmolas e estará em presença
de três mil biliões de Buddhas,
Honrados Pelo Mundo.
Em prol da sabedoria Búddhica
ele levará a cabo práticas brahma meticulosamente
e oferecerá esmolas aos inexcedíveis,
mais honrados dos seres humanos.
Depois de ter feito isso e ter praticado
todos os insuperáveis tipos de sabedoria,
na sua encarnação final
será capaz de se tornar um Buddha.
A sua terra será pura e limpa,
o chão de lápis-lazúli.
Muitas árvores de jóias
estarão alinhadas junto aos caminhos,
cordões de ouro marcarão as bermas
e quem os vir rejubilará.
Emitirá constantemente uma agradável fragrância,
com pilhas de flores raras
e muitos tipos de coisas estranhas e maravilhosas
para seu adorno.
A terra será plana e suave,
sem montes nem depressões.
A multidão de bodhisattvas
estará para além de qualquer cálculo,
com suas mentes controladas e dóceis,
tendo alcançado grandes poderes transcendentais,
e eles irão apoiar e abraçar
as escrituras Búddhicas do Grande Veículo.
A multidão de ouvintes
será livre de falhas, na sua última encarnação,
filhos do Rei do Dharma,
e o seu número estará para além de qualquer cálculo –
mesmo quando vistos com o olho celestial
será impossível determinar o seu número.
A duração da vida deste Buddha
será de doze pequenos kalpas.
O Honrado Pelo Mundo Luz Radiosa
será como aqui está descrito.

Nessa ocasião o grande Maudgalyayana, Subhuti e Mahakatyayana, todos eles tremendo de agitação, juntaram as palmas das mãos e com uma só mente fitaram o Honrado Pelo Mundo, os seus olhos sem se desviarem sequer por um instante. Juntando as suas vozes num único som, falaram em verso, dizendo:

Grande e poderoso herói, Honrado Pelo Mundo,
Rei do Dharma, Leão dos Shakyas,
por te compadeceres de nós,
favorece-nos com as palavras do Buddha!
Por compreenderes a nossa mente mais íntima,
seria como um banho de doce orvalho,
lavando a nossa febre,
se nos predissesses o nosso destino.
Supõe que alguém, vindo de uma terra de fome,
encontra subitamente o festim de um rei.
Com o seu coração ainda cheio de dúvida e temor,
ele não se atreveria a comer de imediato,
sem para isso ter sido instruído pelo rei.
Somos agora como essa pessoa,
pois apesar de recordarmos os erros do Veículo Menor,
não sabemos o que fazer
para ganhar a insuperável sabedoria do Buddha.
Ainda que ouçamos a voz de Buddha
dizendo-nos que atingiremos o Buddhado,
ainda albergamos no coração ansiedade e medo,
tal qual a pessoa que não se atreve a comer.
Mas se agora o Buddha nos outorgasse uma profecia,
então a alegria e a paz de espírito seriam nossas.
Grande e poderoso herói, Honrado Pelo Mundo,
rogamo-te que nos outorgues uma profecia,
assim como instruirias uma pessoa esfomeada a comer.

Então o Honrado Pelo mundo, compreendendo os pensamentos dos seus discípulos maiores, fez este anúncio aos monges: “Em futuras existências, Subhuti estará na presença de trinta centenas de milhares de milhões de Buddhas, oferecendo-lhes esmolas, honrando-os e louvando-os. Ele levará a cabo constantemente práticas brahma e cumprirá inteiramente a via do bodhisattva, e na sua encarnação final conseguirá atingir o Buddhado. O seu título será Tathagata Forma Rara (Sasiketu), merecedor de ofertas, de conhecimento correcto e universal, conduta perfeita e clara, bem aventurado, conhecedor do mundo, inexcedivelmente meritório, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buddha, Honrado Pelo Mundo.

“O seu kalpa será chamado Possessão de Jóias (Ratnasambhava) e a sua terra será chamada Nascido de Jóias (Ratnaprabhâsa). A terra será plana e suave, o chão feito de cristal, será adornada com árvores de jóias e livre de colinas e fossos, cumes e barrancos e da imundície das latrinas. Flores de jóias cobrirão o terreno e tudo será puro e limpo. As pessoas deste reino habitarão todas em terraços de jóias, em raros e maravilhosos pavilhões e torres. Os seus discípulos ouvintes serão incontáveis, ilimitados, para lá da capacidade de cálculo ou concepção. A multidão de bodhisattvas perfazerá um número de incontáveis milhares, dezenas de milhares, milhões de nayutas. A duração da vida desse Buddha será de doze pequenos kalpas. A sua Correcta Lei perdurará no mundo por vinte pequenos kalpas e a sua Lei Adulterada por vinte pequenos Kalpas. Este Buddha estará constantemente levitando no firmamento, pregando a Lei para a assembleia e salvando inumeráveis multidões de bodhisattvas e de ouvintes”.

Nessa ocasião, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Multidão de monges,
eu agora anuncio isto para vós.
Todos vós deveis ouvir o que eu digo
sem qualquer distracção,
o meu discípulo maior, Subhuti,
está destinado a tornar-se um Buddha
com o título Forma Rara.
Ele oferecerá esmolas a incontáveis dezenas
de milhares de milhões de Buddhas.
Seguindo a prática dos Buddhas,
ele gradualmente cumprirá a grande via,
e na sua encarnação final
adquirirá as trinta e duas marcas.
Ele será imponente, excepcional, maravilhoso,
como uma montanha de jóias.
A sua Terra Búddhica
será supremamente adornada e pura;
nenhum ser vivente que a veja
deixará de a amar e de se deleitar nela.
Aí esse Buddha
salvará incalculáveis multidões.
Nessa Terra Búddhica
existirão muitos bodhisattvas,
todos eles de apuradas capacidades,
girando a roda da não-regressão.
Essa terra será constantemente
adornada com bodhisattvas.
A multidão de ouvintes
estará para além de qualquer cálculo,
todos ganhando os três entendimentos
e exercitando os seis poderes transcendentais.
Eles residirão nas oito emancipações
e possuirão grande autoridade e virtude.
A Lei pregada por esse Buddha
manifestará imensuráveis
poderes transcendentais e transformações
de natureza maravilhosa.
Seres celestiais e humanos,
numerosos como as areias do Ganges,
com as palmas das mãos unidas,
escutarão e receberão em conjunto as palavras de Buddha.
Esse Buddha terá uma duração de vida
de doze pequenos kalpas,
a sua Correcta Lei durará no mundo
vinte pequenos kalpas
e a sua Lei Counterfeit
durará vinte pequenos kalpas.

Nessa altura o Honrado Pelo Mundo, falou uma vez mais à multidão de monges: “Agora digo-vos isto. O Grande Katyayana, em futuras existências, apresentará variados artigos como oferendas e servirá oito centenas de milhões de Buddhas, prestando-lhes honras e louvores. Após a extinção destes Buddhas, ele construirá para cada um uma torre memorial medindo cem yojanas de altura e quinhentas yojanas quer de largura quer de comprimento. Serão feitas de ouro, prata, lápis-lazúli, madrepérola, ágata, pérolas e coral, todas estas sete preciosas substâncias combinadas. Numerosas flores, colares, incenso, grinaldas, óleos, pálios de seda, fitas e estandartes serão apresentadas como oferendas às torres memoriais. E após tudo isto ser feito, ele fará uma vez mais ofertas a vinte mil milhões de Buddhas e repetirá todo o processo.

“Quando ele tiver acabado de oferecer esmolas aos Buddhas, ele cumprirá inteiramente a via do bodhisattva e tornar-se-á um Buddha com o título Tathagata Brilho Dourado de Jambunada (Jambunada Prabhâsa), merecedor de ofertas, de conhecimento correcto e universal, conduta perfeita e clara, bem aventurado, conhecedor do mundo, inexcedivelmente meritório, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buddha, Honrado Pelo Mundo.

“A sua terra Búddhica será plana e suave, o chão feito de cristal, será adornada de árvores de jóias com cordões de ouro a marcar os limites dos caminhos. Flores maravilhosas cobrirão o terreno, toda ela será pura e limpa e quem a vir rejubilará. Os quatro modos malignos de existência, o inferno e os reinos de espíritos esfomeados, bestas e asuras, não existirão aí. Existirão muitos seres celestiais e humanos e multidões de bodhisattvas em inumeráveis dezenas de milhares de milhões adornarão essa terra. A duração da vida desse Buddha será de vinte pequenos kalpas, a sua Correcta Lei perdurará no mundo por vinte pequenos kalpas e a sua Lei Adulterada por vinte pequenos Kalpas.”

Nessa ocasião, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Multidão de monges,
ouçam todos sem qualquer distracção,
pois naquilo que eu digo,
em nada se afasta da verdade.
O Grande Katyayana
oferecerá aos Buddhas
vários tipos de maravilhosos artigos,
e após a extinção desses Buddhas
levantará torres memoriais
feitas com os sete tesouros
e apresentará flores e incenso
como oferendas às relíquias.
Na sua encarnação final
ele ganhará a sabedoria Búddhica
e alcançará a iluminação correcta e imparcial.
A sua terra será pura e limpa
e ele salvará inumeráveis dezenas
de milhares de milhões de seres viventes,
e receberá oferendas
de todas as dez direcções.
O brilho deste Buddha
ninguém conseguirá igualar.
O seu título Búddhico será
Brilho Dourado de Jambunada.
Bodhisattvas e ouvintes,
cortando com todas as formas de existência,
incontáveis e imensuráveis em número,
adornarão a sua terra.

Nessa altura o Honrado Pelo Mundo, falou uma vez mais à multidão de monges: “Agora digo-vos isto. O Grande Maudgalyayana apresentará variados artigos como oferendas a oito mil Buddhas, prestando-lhes honras e louvores. Após a extinção destes Buddhas, ele construirá para cada um uma torre memorial medindo cem yojanas de altura e quinhentas yojanas quer de largura quer de comprimento. Serão feitas de ouro, prata, lápis-lazúli, madrepérola, ágata, pérolas e coral, todas estas sete preciosas substâncias combinadas. Numerosas flores, colares, incenso, grinaldas, óleos, pálios de seda, fitas e estandartes serão apresentadas como oferenda. Após tudo isto, uma vez mais ele fará ofertas a duzentas dezenas de milhares de milhões de Buddhas, repetindo todo o processo.

“Então ele será capaz de se tornar um Buddha com o título Tathagata Fragrância de Sândalo de Tamalapatra (Tamâlapatrakandanagandha), merecedor de ofertas, de conhecimento correcto e universal, conduta perfeita e clara, bem aventurado, conhecedor do mundo, inexcedivelmente meritório, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buddha, Honrado Pelo Mundo. O seu kalpa será chamado Pleno de Alegria (Manobhirâma) e a sua terra Deleite da Mente (Ratipratipûrna). A terra será plana e suave, o chão feito de cristal, flores e pérolas estarão espalhadas por toda a parte, tudo será puro e limpo e quem a vir rejubilará. Existirão muitos seres celestiais e humanos e os bodhisattvas e ouvintes serão imensuráveis em número. A duração da vida desse Buddha será de vinte e quatro pequenos kalpas, a sua Correcta Lei perdurará no mundo por quarenta pequenos kalpas e a sua Lei Adulterada por quarenta pequenos Kalpas.”

Então, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Este meu discípulo,
o Grande Maudgalyayana,
quando despir o seu presente corpo,
será capaz de ver oito centenas,
duzentas dezenas de milhares de milhões de Buddhas,
Honrados Pelo Mundo,
e em prol da via do Buddhado
oferecer-lhes-á esmolas,
prestar-lhes-á honra e reverência.
Onde estes Buddhas estiverem
ele constantemente
levará a cabo práticas brahma
e por inumeráveis kalpas
abraçará e sustentará a Lei Búddhica..

Quando estes Buddhas se tiverem extinguido,
ele levantará torres, feitas com os sete tesouros,
decoradas com flores, incenso e música.
Passo a passo ele cumprirá
todos os deveres da via do bodhisattva
e na terra chamada Deleite da Mente
será capaz de se tornar um Buddha
chamado Fragrância de Sândalo de Talamapatra.
A duração da sua vida
será de quarenta kalpas.
Em prol dos seres celestiais e humanos
ele exporá constantemente a via do Buddhado.
Ouvintes inumeráveis
como as areias do Ganges,
com os três entendimentos e os seis poderes transcendentais,
manifestarão grande autoridade e virtude.
Incontáveis bodhisattvas
serão de vontade firme, esforçados e diligentes,
e em relação à sabedoria Búddhica
nunca retrocederão.
Após este Buddha se ter extinguido,
a sua Correcta Lei perdurará
por quarenta pequenos kalpas
e a sua Lei Adulterada
terá igual duração.
Os meus vários discípulos,
plenamente imbuídos de dignidade e virtude,
em número de quinhentos,
receberão todos igual profecia.
Numa futura existência
todos serão capazes de alcançar o Buddhado.
Em relação às causa e condições das existências passadas,
no que respeitam a mim e a vós,
eu irei agora pregar.
Deveis ouvir cuidadosamente.

Capítulo Cinco: A Parábola das Ervas Medicinais

Nessa altura o Honrado Pelo Mundo disse a Mahakashyapa e aos outros discípulos maiores: “Excelente, excelente, Kashyapa. Deste uma excelente descrição das bênçãos do Tathagata. É tal como disseste. O Tathagata possui na verdade imensuráveis, ilimitadas, asamkhyas de bênçãos, e mesmo que tu e os outros despendessem imensuráveis milhões de kalpas nunca conseguiriam acabar de as descrever.

“Kashyapa, deves entender isto: o Tathagata é o rei das doutrinas. No que ele prega nada é em vão. Em relação às várias doutrinas, ele emprega a sabedoria como um meio expedito na sua exposição. Daí que todas as doutrinas por ele expostas se expandem até onde houver sabedoria e entendimento. O Tathagata observa e compreende o fim para que tende cada doutrina. Ele também entende o funcionamento mais íntimo da mente de cada ser vivente, penetrando nela completamente e sem impedimentos. Em relação às doutrinas ele é completamente iluminado e revela aos seres viventes a totalidade da sabedoria.

“Kashyapa, é como as plantas e árvores, arbustos e bosques e as ervas medicinais, extremamente variadas, cada uma com o seu nome e matiz, que crescem nas colinas e riachos, nos vales e diferentes solos do multivariado mundo. Nuvens densas espalham-se sobre ele, cobrindo a totalidade desse mundo diversificado e num momento saturando-o completamente. A humidade penetra todas as plantas, árvores, arbustos, bosques e ervas medicinais igualmente, até às suas grandes raízes, grandes caules e grandes folhas. Cada uma das árvores, grande ou pequena, dependendo do facto de ser de natureza superior, média ou inferior, recebe a sua porção. A chuva que cai de cada grupo de nuvens está de acordo com cada natureza e espécie particular, fazendo-a despontar e amadurecer, vindo a dar flores e frutos. Ainda que estas plantas e árvores estejam na mesma terra e sejam regadas pela mesma chuva, cada uma tem as suas diferenças e particularidades.

“Kashyapa, deves compreender que o Tathagata é assim. Ele aparece no mundo como uma grande nuvem. Com alta voz alcança todos os seres humanos ou celestiais e todos os asuras do mundo inteiro, como uma grande nuvem espalhando-se ao longo do multivariado mundo. No meio da grande assembleia, ele profere estas palavras: “Eu sou o Tathagata, digno de ofertas, de conhecimento recto e universal, de perfeita conduta e claridade, bem-aventurado, compreendendo o mundo, inexcedivelmente meritório, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buddha, Honrado Pelo Mundo. Aqueles que ainda não fizeram a travessia, eu os farei atravessar, aqueles que ainda não se libertaram, eu libertarei, aqueles que ainda não se apaziguaram, eu apaziguarei, aqueles que ainda não estão no nirvana, eu conduzirei ao nirvana. Da presente e das futuras existências eu compreendo as verdadeiras circunstâncias. Eu sou alguém que tudo entende, tudo vê, compreende o caminho, desimpede o caminho, prega o caminho. Vós, seres celestiais e humanos, asuras e outros, deveis vir aqui para que possa deixar-vos ouvir o Darhma!”

“Nessa altura os seres viventes de incontáveis milhares, dezenas de milhar, milhões de espécies vêem ao local onde se encontrava o Buddha para ouvirem o Dharma. O Tathagata então observa se eles são diligentes nos seus esforços ou indolentes. De acordo com o que cada um é capaz de ouvir, ele prega a Lei para eles numa imensurável variedade de modos por forma a que todos eles se deleitem e sejam capazes de benefícios excelentes desde aí.

“Uma vez que estes seres viventes tenham ouvido a Lei, gozarão de paz e segurança na presente existência e de boas circunstâncias em existências futuras, onde por intermédio da via se tornarão alegres e poderão novamente ouvir a Lei. Tendo ouvido a Lei, escaparão dos obstáculos e dificuldades, e em relação às várias doutrinas serão capazes de exercitar totalmente os seus poderes, de modo a que gradualmente possam ir entrando na via. É como a chuva caindo da grande nuvem sobre as plantas e árvores, arbustos, bosques e plantas medicinais. Cada uma, dependendo da sua espécie e natureza, recebe a sua porção de humidade e é capaz de despontar e crescer.

“A Lei pregada pelo Tathagata é de uma só forma, um só sabor, nomeadamente, a forma da emancipação, a forma da separação, a forma da extinção, que no final resulta numa sabedoria abarcando todas as espécies. Quando os seres viventes ouvem a Lei do Tathagata, ainda que a abracem, a leiam e recitem, praticando de acordo com os seus ditames, eles próprios não vêem nem compreendem as bênçãos que dessa forma estão a ganhar. Porquê? Porque apenas o Tathagata compreende as espécies, a forma, a substancia, a natureza destes seres viventes, ele sabe a que coisas eles se apegam, que coisas ponderam, que coisas praticam. Ele sabe a que Lei se apegam, que Lei ponderam, que Lei praticam, através de que Lei alcançam outras Leis, e quais.

“Os seres viventes existem numa variedade de ambientes, mas apenas o Tathagata vê as verdadeiras circunstâncias e as entende inteiramente. É como essas plantas e árvores, arbustos, bosques e ervas medicinais que não sabem se são de natureza superior, média ou inferior. Mas o Tathagata sabe que esta é a Lei de uma forma e um sabor, nomeadamente, a forma da emancipação, a forma da separação, a forma da extinção, a forma do nirvana absoluto, da tranquilidade e vacuidade constantes. O Buddha compreende tudo isto. Mas porque ele pode ver os desejos que estão na mente dos seres viventes, ele guia-os e protege-os e por esta razão ele não lhes prega de imediato a sabedoria que abarca todas as espécies.

“Tu e os outros, Kashyapa, fizeram uma coisa rara, pois conseguiram compreender como o Tathagata prega a Lei em conformidade com o que é apropriado, ter fé nele e aceitá-lo. Porque digo isto? Porque o facto dos Buddhas, os Honrados Pelo Mundo, pregarem a lei em conformidade com o que é apropriado é difícil de acreditar e difícil de compreender.”

Nessa altura o Honrado Pelo Mundo, desejando expor novamente o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

O Rei do Dharma, destruidor do ser,
quando aparece no mundo
procede de acordo com os desejos dos seres viventes,
pregando a Lei de várias maneiras.
O Tathagata, merecedor de ofertas e de reverência,
é profundo e de longo alcance na sabedoria.
Por muito tempo ele mantém o silêncio quanto ao essencial,
sem pressa de falar tudo de uma vez.
Se aqueles que são sábios o ouvem
conseguem acreditar nele e compreendê-lo,
mas os que não têm sabedoria terão dúvidas e hesitações
e por todo o tempo permanecerão no erro.
Por esta razão, Kashyapa,
ele adapta-se à pessoa para permitir uma visão correcta.
Kashyapa, deves entender
que é como uma grande nuvem
que se levanta no mundo e o cobre inteiramente.
Esta nuvem benéfica
está cheia de humidade,
de relâmpagos e clarões,
e o som da tempestade ecoa ao longe
fazendo rejubilar as multidões.
Os raios do sol ficam velados e escondidos,
e uma nítida frescura vem cobrir a terra;
massas de escuridão, quase tangíveis,
descem e espalham-se.
A chuva cai em toda a parte,
descendo nas quatro direcções,
e a sua intensidade é imensurável,
alcançando todas as áreas da terra,
até às ravinas e vales das montanhas e dos rios,
até aos lugares remotos e isolados
onde crescem plantas, arbustos,
ervas medicinais, árvores grandes e pequenas,
grãos, arrozais,
canas de açúcar, vinhas.
A chuva rega-os a todos,
nenhum deixa de receber a sua parte,
o chão ressequido fica molhado,
ervas e árvores crescem viçosas.
O que cai das nuvens é de um único sabor,
mas as plantas e árvores,
arbustos e bosques,
aceitam cada um a porção de humidade que lhes convém.
Todas as várias árvores,
quer sejam superiores, médias ou inferiores,
tomam o que é ajustado à sua condição
e cada uma é assim capaz de despontar e crescer.
Raízes, caule, folhas,
brilhos e matizes das flores e frutos –
uma só chuva chega até elas
e todas ficam frescas e brilhantes,
quer a sua combinação de substância, forma e natureza
seja grande ou pequena,
a humidade que recebem é uma,
mas cada uma delas cresce e floresce à sua maneira.
O Buddha é assim
quando aparece no mundo,
é comparável a uma grande nuvem
que cobre tudo em toda a parte.
Tendo aparecido no mundo
pelo bem dos seres viventes
ele estabelece distinções
ao expor a verdade dos fenómenos.
O grande sábio, o Honrado Pelo Mundo,
aos seres celestiais e humanos,
no meio de todos os seres,
pronuncia estas palavras:
Eu sou o Tathagata,
o mais honrado dos seres humanos.
Apareço neste mundo
como uma grande nuvem
que asperge humidade
sobre os seres viventes secos e mirrados,
para que eles consigam escapar ao sofrimento,
ganhem a alegria da paz e da segurança,
as alegrias deste mundo
e a alegria do nirvana.
Todos vós, seres celestiais e humanos nesta assembleia,
ouçam com cuidado e sem distracções!
Todos vocês devem reunir-se aqui à volta
e escutar aquele que é inexcedivelmente honroso.
Eu sou o Honrado Pelo Mundo
e não tenho rival.
Por forma a trazer paz e segurança aos seres viventes
eu apareci no mundo
e pelo bem desta assembleia
prego o doce orvalho da pura Lei.
Esta Lei é de um único sabor,
o da emancipação, do nirvana.
Com um único, maravilhoso som
exponho e manifesto o seu sentido;
constantemente em prol do Grande Veículo
crio causas e condições.
Olho para as coisas
como sendo universalmente iguais,
não tenho mente para favorecer este ou aquele,
para gostar de um e detestar outro.
Eu sou sem ganância nem apegos
e não tenho limitação ou impedimento.
Em todas as ocasiões, para todas as coisas,
prego a Lei igualmente;
assim como faria para uma única pessoa,
da mesma forma faço para numerosas pessoas,
constantemente eu exponho e prego a Lei,
nunca eu fiz qualquer outra coisa,
vindo, indo, sentado ou de pé,
nunca até ao fim com fadiga ou desânimo.
Eu trago plenitude e satisfação para o mundo,
como a chuva que espalha humidade em toda a parte.
Eminentes ou medíocres,
superiores ou inferiores,
cumpridores dos preceitos, violadores dos preceitos,
inteiramente dotados de conduta apropriada
ou não inteiramente dotados,
com pontos de vista correctos ou incorrectos,
de capacidades apuradas ou de fracas capacidades –
eu faço a chuva do Dharma cair sobre eles igualmente,
sem lassidão ou negligência.
Quando os vários seres viventes ouvem a minha Lei,
recebem-na de acordo com as suas capacidades,
nos seus diferentes ambientes.
Alguns habitam no reino dos humanos e dos seres celestiais,
dos reis sábios,
Shakra, Brahma e os outros reis –
estes são as ervas medicinais inferiores.
Alguns entendem a Lei que é sem falhas,
estão aptos a atingir o nirvana,
a adquirir os seis poderes transcendentais,
e a ganhar em particular os três entendimentos,
ou então vivem sozinhos nas florestas montanhosas,
praticando constantemente a meditação
e alcançando a iluminação dos pratyekabuddhas –
estes são as ervas medicinais médias.
Outros ainda procuram o lugar do Honrado Pelo Mundo,
convencidos de que se podem tornar Buddhas,
esforçando-se diligentemente e praticando a meditação –
estes são as ervas medicinais superiores.
Existem ainda filhos do Buddha
que devotam a sua mente unicamente à via do Buddhado,
constantemente praticando a misericórdia e a compaixão,
sabedores de que eles próprios atingirão o Buddhado,
certos disso e sem nunca duvidarem,
a esses eu chamo pequenas árvores.
Esses que habitam em paz nos seus poderes transcendentais,
girando a roda da não-regressão,
salvando inumeráveis milhões
de centenas de milhares de seres viventes –
a bodhisattvas como esses eu chamo grandes árvores.
A igualdade das pregações do Buddha
é como uma chuva de um único sabor,
mas dependendo da natureza de cada ser vivente,
o modo como é recebida não é uniforme,
tal como as várias plantas e árvores
recebem cada uma a humidade de maneira diferente.
O Buddha emprega esta parábola
como um meio excelente
para abrir e revelar este assunto
usando vários tipos de palavras e frases
e expondo uma única Lei,
mas em relação à sabedoria do Buddha
isto não é mais do que uma gota do oceano.
Eu faço cair a chuva do Dharma,
enchendo o mundo todo,
e este Dharma de um único sabor,
é praticado por cada um de acordo com o seu poder individual.
É como esses arbustos e bosques,
ervas medicinais e árvores
que, conforme sejam grandes ou pequenas,
pouco a pouco crescem viçosas e belas.
A Lei dos Buddhas é constantemente de um só sabor,
levando os muitos mundos a atingir a plena satisfação em toda a parte;
através da prática gradual e passo a passo,
todos os seres podem ganhar os frutos da via.
Os ouvintes e os pratyekabuddhas
habitando nas florestas montanhosas,
vivendo a sua última existência,
ouvindo a Lei e ganhando os seus frutos –
podemos chamar-lhes ervas medicinais
que crescem e amadurecem à sua maneira.
Se existirem Bodhisattvas
constantes e firmes na sabedoria,
que compreendam o triplo mundo
e busquem o supremo veículo,
a estes chamamos pequenas árvores
que crescem e amadurecem.
Quanto àqueles que permanecem em meditação,
tendo ganho a força dos poderes transcendentais,
ouvido acerca da vacuidade de todos os fenómenos,
rejubilado em suas mentes,
emitindo incontáveis raios de luz para salvar seres viventes –
a esses chamamos grandes árvores
que ganharam crescimento e maturidade.
Desta forma, Kashyapa,
a Lei pregada pelo Buddha
é comparável a uma grande nuvem
que, com chuva de um único sabor,
rega as flores humanas
de modo a que cada uma possa frutificar.
Kashyapa, deves compreender
que através de várias causas e condições,
vários tipos de metáforas e parábolas,
eu abro e revelo a via do Buddha.
Este é um meio expedito que eu emprego
e o mesmo é verdadeiro quanto aos outros Buddhas.
Agora, para ti e para os outros
eu prego a mais derradeira verdade:
nenhum de entre a multidão de ouvintes
entrou na fase de extinção.
O que estais a praticar
é a via do bodhisattva,
e à medida que avançais em prática e aprendizagem
estais certos de alcançar o Buddhado.

Capítulo Quatro: Fé e Compreensão

Nessa ocasião, quando os homens de longeva sabedoria, Subhuti, Mahakatyayana, Mahakashyapa e Mahamaugdalyayana ouviram do Buddha a Lei nunca antes conhecida, e ouviram o Honrado Pelo Mundo profetizar que Shariputra atingiria anuttara-samyak-sambhodi, as suas mentes comoveram-se como nunca e dançaram de alegria. De imediato levantaram-se dos seus assentos, compuseram as suas vestes, descobriram o ombro direito e ajoelharam-se sobre o joelho direito. Juntando as palmas das mãos reverentemente, e com uma só mente, curvaram-se em sinal de respeito, fitando reverentemente a face do Honrado Pelo Mundo, disseram a Buddha: “Nós encabeçamos o conjunto dos monges e estamos todos velhos e decrépitos. Acreditamos que tínhamos já atingido o nirvana e que era-mos incapazes de fazer mais, por isso nunca pensamos em atingir anuttara-samyak-sambhodi.

“Passou-se muito tempo desde que o Honrado Pelo Mundo começou pela primeira vez a expor a Lei. Durante esse tempo nós sentamo-nos nos nossos lugares, os nossos corpos cansados e inertes, meditando unicamente nos conceitos de vacuidade, não-forma e não-acção. Mas quanto aos prazeres e poderes transcendentais da Lei do bodhisattva e quanto à purificação das terras Búddhicas e à salvação dos seres viventes, nisso as nossas mentes não tomaram parte. Porquê? Porque o Honrado Pelo Mundo tornou possível para nós transcender o triplo mundo e atingir a iluminação do nirvana.

“Além disso, nós somos velhos e decrépitos. Quando ouvíamos acerca de anuttara-samyak-sambhodi, que o Buddha emprega para ensinar e converter os bodhisattvas, as nossas mentes não ficavam cheias de qualquer pensamento de alegria ou aprovação. Mas agora, na presença do Buddha, nós recebemos a profecia de este ouvinte atingiria anuttara-samyak-sambhodi e as nossas mentes ficaram plenas de deleite. Ganhamos o que nunca antes tivemos. Subitamente, nós conseguimos ouvir uma Lei que é rara de encontrar, algo que nunca até aqui esperáramos, e temo-nos na conta de muito afortunados. Nós ganhamos grande bondade e beneficio, uma jóia rara e imensurável, algo inesperado que surgiu por si mesmo.

“Honrado pelo Mundo, nós gostaríamos agora de empregar uma parábola para tornar claro o que queremos dizer. Suponhamos que existia um homem, ainda novo, que tendo abandonado o seu pai, fugiu e viveu por muito tempo noutra terra, talvez por dez anos, vinte, ou mesmo cinquenta anos. Conforme envelheceu, ficou cada vez mais pobre e necessitado. Ele procurou em todas as direcções por comida e vestuário, errando cada vez mais longe até que o acaso o levou na direcção da sua terra natal.

“O pai entretanto tinha procurado o filho sem sucesso e fixou a sua residência numa certa cidade. A sua casa era muito abastada, com inúmeras riquezas e tesouros. Ouro, prata, lápis-lazuli, coral, âmbar e cristal abundavam nos seus armazéns. Tinha muitos criados, secretários, empregados, elefantes, cavalos, carruagens, bois e veados sem conta. Estava envolvido em empreendimentos lucrativos quer na sua casa quer nas redondezas, e tinha também muitos negócios com comerciantes e caixeiros viajantes.

“Nessa altura o filho pobre vagabundeava de terra em terra, passando por muitas cidades e vilas, até que por fim chegou à cidade onde o seu pai residia. O pai pensava constantemente no seu filho, mas apesar de terem decorrido mais de cinquenta anos desde a sua partida nunca falara desse assunto a ninguém. Ele apenas ponderava para si o seu coração cheio de mágoa e saudade. Ele achava-se velho e decrépito. Tinha grandes posses e fortuna, ouro, prata e tesouros raros que enchiam a transbordar os seus armazéns, mas não tinha nenhum filho, de modo que quando morresse as suas posses seriam desbaratadas e perdidas, pois não havia ninguém a quem confiá-las.

“Por esta razão ele pensava tão seriamente no seu filho. E tinha também este pensamento: se eu conseguisse encontrar o meu filho e lhe pudesse confiar confiar as minhas posses, poderia então sentir-me contente e em paz, sem mais preocupações.

“Honrado Pelo Mundo, nessa altura o filho pobre passava de um emprego para outro até que por acaso foi ter a casa do seu pai. Ele parou perante os portões, olhando de longe para o seu pai que estava num trono de leão, as suas pernas apoiadas numa banqueta de jóias, enquanto Brahmans, nobres e proprietários o rodeavam com deferência. Grinaldas de pérolas no valor de milhares adornavam o seu corpo, e servos e empregados segurando grandes leques brancos ladeavam-no perfilados ao seu serviço. Um dossel de jóias cobria-o, com bandeiras floridas penduradas, água perfumada aspergida pelo chão, pilhas de flores raras espalhadas, e objectos preciosos estavam constantemente a passar e a ser levados ou trocados. Estes eram os muitos e variados adornos, os sinais e marcas de distinção

“Quando o filho pobre viu a grandeza do poder e autoridade do seu pai, ficou cheio de medo e arrependido por ter ido àquele local. Pensou secretamente para si: deve ser algum rei, ou alguém semelhante a um rei. Este não é o tipo de lugar onde eu possa arranjar trabalho e ganhar a vida. Seria melhor ir para uma vila pobre onde, se eu trabalhar arduamente, consiga encontrar um lugar para viver e ganhar o meu alimento e comida. Se eu ficar aqui por mais tempo, posso ainda ser preso! Tendo pensado assim foi-se embora daquele local.

“Nessa altura, o homem rico, sentado no seu trono, viu o seu filho e reconheceu-o de imediato. O seu coração encheu-se de alegria e pensou: Agora tenho alguém a quem confiar os meus armazéns de riquezas! Os meus pensamentos estiveram sempre com este meu filho mas eu não tinha maneira de o ver. Agora ele apareceu subitamente, correspondendo ao que eu tinha desejado. Apesar de eu ser velho e decrépito, ainda me preocupo com o destino dos meus pertences.

“Então ele mandou um empregado ir atrás do filho o mais depressa possível e traze-lo de volta. O mensageiro correu rapidamente e alcançou-o. O filho pobre, assustado e alarmado, gritou desesperado, “Não fiz nada de mal! Porque me querem prender?” mas o mensageiro segurou-o firmemente e trouxe-o de volta

“Nessa altura o filho pensou, “Não cometi nenhum crime e ainda assim sou levado prisioneiro. Ainda vão acabar por me matar!” Estava mais assustado do que nunca e caiu no chão, desmaiando de desespero.

“O pai, vendo isto à distância, disse ao mensageiro, “Não preciso deste homem. Não o forcem a vir aqui. Espalhem água pela sua cara para que recobre os sentidos e depois não lhe digam mais nada!”

“Porque é que ele fez isso? Porque sabia que o seu filho era de modestas ambições e dificilmente aceitaria o seu poder e condição eminentes. Ele sabia muito bem que esse era o seu filho mas como meio expedito não o disse a ninguém.

“O mensageiro disse então ao filho pobre, “Vou-te libertar. És livre de ir para onde quiseres.” O filho ficou radiante, ganhando o que nunca tivera antes. Levantou-se do chão e dirigiu-se para a cidade de modo a procurar comida e roupa.

“Nessa altura o homem rico, desejando atrair o seu filho de volta, decidiu empregar um meio expedito e enviar dois homens disfarçados, homens de aspecto magro e macilento sem nenhum indício ameaçador. ”Ide procurar esse pobre homem e aproximem-se dele de forma casual. Digam-lhe que conhecem um lugar onde pode ganhar o dobro do salário habitual. Se ele concordar com a proposta, trazei-o para aqui e ponham-no a trabalhar. Se ele perguntar que tipo de trabalho lhe será destinado, digam-lhe que terá de limpar excremento e que vocês trabalharão com ele.”

“Os dois mensageiros foram de imediato procurar o herdeiro, e quando o encontraram, falaram-lhe de acordo com as instruções recebidas. Então o filho pediu um adiantamento do seu salário e foi depois com eles para ajudar na limpeza do excremento.

Quando o pai viu o seu filho, compadeceu-se e preocupou-se com ele. Dias depois, quando olhava da janela, viu o filho à distância, o seu corpo magro e macilento, sujo de excremento, imundice e impureza. O pai de imediato tirou os seus colares, as suas vestes finas e os outros adornos e vestiu roupas velhas e sujas. Espalhou sujidade no corpo, pegou num utensílio para remover excremento e adoptando modos rudes, falou para os empregados dizendo, “Continuem o vosso trabalho! Não sejam preguiçosos!” Através deste meio expedito ele foi capaz de se aproximar do seu filho.

“Mais tarde, ele falou novamente ao seu filho, dizendo, “Deves continuar neste trabalho sem nunca me deixares. Eu aumentarei o teu salário e quanto àquilo de que precisares, quer sejam utensílios, arroz, farinha, sal, vinagre e outros bens, não te deves preocupar. Eu tenho um velho criado que te pode ajudar quando precisares. Podes estar à vontade. Eu serei como um pai para ti. Porque digo isto? Porque já sou entrado em anos, mas tu és novo e robusto. Quando estás a trabalhar nunca és enganador ou preguiçoso nem dizes palavras rancorosas ou ressentidas. Não pareces ter nenhuma dessas faltas que os meus outros trabalhadores têm. De agora em diante, tu serás como meu próprio filho”. E o homem rico tratou de escolher um nome para o homem como se ele fosse seu filho.

“Nessa altura o filho pobre, apesar de se sentir encantado com este tratamento, ainda se via a si próprio como uma pessoa de condição humilde que estava ao serviço de outrem. Entretanto o homem rico manteve-o a limpar excremento nos vinte anos seguintes. Ao fim desse tempo, o filho sentia que confiavam nele e movimentava-se à sua vontade, mas continuava a viver no mesmo lugar de sempre.

“Honrado Pelo mundo, nessa altura o homem rico adoeceu e soube que não tardaria a morrer. Falou então com o seu filho dizendo, “Tenho grandes quantidades de ouro, prata e tesouros raros que enchem os meus armazéns. Deves assumir agora o controle das somas que tenho e das despesas e receitas. Porquê? Porque de agora em diante tu e eu não nos comportaremos como duas pessoas independentes. Por isso deves manter o teu bom senso e garantir que não hajam perdas ou erros.”

“Então o filho pobre, tendo recebido estas instruções, tomou a seu cargo a vigilância de todos os bens, o ouro, a prata, os tesouros raros e os vários armazéns, mas nunca pensou em apropriar-se da mais pequena soma. Continuou a viver no mesmo local de sempre, vendo-se a si mesmo como pessoa humilde e de baixa condição.

“Após ter passado algum tempo, o pai percebeu que o seu filho, pouco a pouco, ia-se tornando mais auto confiante e disposto a concretizar tarefas importantes, apesar da opinião depreciativa que tinha de si mesmo anteriormente. Verificando que o seu fim estava próximo, ordenou ao seu filho que marcasse uma reunião com o rei do país, os ministros, os nobres e os proprietários. Quando estavam todos juntos, fez o seguinte anuncio: “Senhores, deveis saber que este é meu filho de nascimento. Em tal cidade ele deixou-me e fugiu e por cinquenta anos acarretou sofrimentos e dificuldades. Tal é o seu nome original e tal é o meu nome. No passado, quando ainda vivia na minha cidade de nascimento, preocupava-me com ele e saí a procurá-lo. Algum tempo depois, subitamente, calhei de o encontrar. Este é verdadeiramente o meu filho e eu sou o seu pai. Agora, tudo o que me pertence, todos as minhas posses e fortuna devem por direito pertencer a este meu filho. Todos os assuntos de receitas e despesas ocorridos no passado são já do seu conhecimento.”

“Honrado Pelo Mundo, quando o filho pobre ouviu estas palavras do seu pai, foi invadido por uma grande alegria, tendo ganho o que nunca possuíra, e pensou para si: “Originalmente nunca tive qualquer ideia de cobiça por essas coisas. No entanto estes armazéns de tesouros vieram por si mesmos ter comigo!

“Honrado Pelo Mundo, este homem velho com as suas riquezas não é senão o Tathagata e nós somos como filhos de Buddha. O Tathagata diz-nos constantemente que somos seus filhos. Mas por causa dos três sofrimentos, Honrado Pelo Mundo, no meio do nascimento e da morte nós sofremos ansiedades ardentes, ilusões e ignorância, deleitando-nos e apegando-nos às doutrinas menores.

Mas hoje o Honrado Pelo Mundo fez-nos ponderar cuidadosamente, pôr de lado essas doutrinas, os debates impuros e frívolos.

“Fomos diligentes e esforçados nestas matérias até alcançar-mos o nirvana, o que é como o salário de um dia. Assim que o atingimos, os nossos corações encheram-se de alegria e consideramos que isso era suficiente. De imediato dissemos para nós mesmos, “Por termos sido diligentes e esforçados em relação à Lei Buddhista, ganhamos esta abertura e riqueza de entendimento.”

“Mas o Honrado Pelo Mundo, sabendo como, desde o passado, as nossas mentes estavam apegadas a desejos demeritórios e se deleitavam com doutrinas menores, perdoou-nos e tolerou-nos assim, sem tentar explicar-nos dizendo, “Vocês virão a possuir a perspicácia do Tathagata, a vossa porção do repositório de tesouros!” Em vez disso o Honrado Pelo Mundo empregou o poder dos meios expeditos, pregando para nós a sabedoria do Tathagata, de tal forma que nós pudemos escutar o Buddha e alcançar o nirvana, o que é apenas o salário de um dia. E por termos considerado isto um grande ganho, não tínhamos desejo de seguir o Grande Veículo.

“Além disso, apesar de expormos e propagarmos a sabedoria Búddhica em prol dos bodhisattvas, não aspirávamos alcançá-la. Porque digo isto? Porque o Buddha, sabendo que as nossas mentes se deleitavam nas doutrinas menores, empregou o poder dos meios expeditos para pregar de uma forma adequada para nós. Por isso nós não sabíamos que era-mos na verdade filhos de Buddha. Agora sabêmo-lo finalmente.

“Em relação à sabedoria Búddhica, o Honrado Pelo Mundo é sempre generoso. Porque digo isto? Desde tempos passados nós fomos verdadeiramente filhos de Buddha, mas deleitavamo-nos apenas nas doutrinas menores. Se tivéssemos o tipo de mente que se deleita nas doutrinas maiores, então o Buddha teria pregado a Lei do grande Veículo para nós.

“Agora neste sutra o Buddha expõe apenas o veículo único. E no passado, quando em presença dos bodhisattvas ele depreciava os ouvintes como sendo os que se compraziam na doutrina menor, o Buddha estava afinal a empregar o grande Veículo para nos ensinar e converter. Por isso dizemos que, apesar de originalmente não termos uma mente que cobiçasse tal coisa, agora o grande tesouro do Rei do Dharma chegou por si mesmo até nós. É algo que os filhos de Buddha têm o direito de adquirir, e agora eles alcançaram-no inteiramente.”

Nessa altura Mahakashyapa, desejando expor o sentido das suas palavras uma vez mais, falou em verso, dizendo:

Hoje ouvimos
a voz do ensinamento do Buddha
e dançamos de alegria,
tendo ganho o que nunca possuímos.
O Buddha declara que os ouvintes
serão capazes de atingir o Buddhado.
Este cacho de jóias insuperáveis,
veio até nós de forma imprevista.
É como o caso de um rapaz
que, ainda jovem e sem entendimento,
abandonasse o seu pai e fugisse,
indo para uma terra longínqua,
andando de um pais para outro
por mais de cinquenta anos.
O seu pai, preocupado,
procurou-o em todas as direcções
até que, cansado de procurar,
se fixou numa certa cidade.
Aí construiu uma residência
onde pudesse dar largas aos cinco desejos.
A sua casa era grande e luxuosa,
com grandes quantidades de ouro, prata,
madrepérola, ágata, pérolas, lápiz-lázuli,
elefantes, cavalos, touros,
palanquins, carruagens,
campos de cultivo, empregados
e outras pessoas em grande número.
Ele envolveu-se em negócios lucrativos
em sua casa e nas terras das redondezas,
e tinha comerciantes e vendedores ambulantes
espalhados por toda a parte.
Milhares, dezenas de milhar, milhões
rodeavam-no e prestavam-lhe reverência;
ele gozava constantemente dos favores
e considerações dos governantes.
Os oficiais e famílias poderosas
todos se juntavam prestando-lhe honrarias,
e os que por uma ou outra razão
se juntavam à sua volta eram muitos.
Essa era a sua vasta fortuna,
o seu grande poder e influência.
Mas ele estava velho e decrépito
e recordava o seu filho com mais ansiedade do que nunca,
dia e noite sem pensar em mais nada:
“Agora aproxima-se a hora da minha morte.
Mais de cinquenta anos passaram
desde que aquele rapaz tolo me abandonou.
Os meus armazéns repletos de mercadoria –
o que será feito deles?”
Nessa altura o filho pobre
andava à procura de roupa e comida,
indo de terra em terra, de país para país,
por vezes encontrando algo,
por vezes não encontrando nada,
faminto e macilento,
o seu corpo coberto de feridas e infecções.
Conforme se deslocava de lugar em lugar,
chegou à cidade onde o seu pai vivia,
mudando de um emprego para outro
até chegar à casa do seu pai.
Nessa altura, o homem rico
tinha estendido um grande dossel de jóias
dentro dos seus portões
e estava sentado no seu trono de leão,
rodeado pelos seus dependentes
e vários empregados e guardas.
Alguns estavam a contar ouro, prata
e objectos preciosos,
ou registando em livros
as entradas e saídas de dinheiro.
O filho pobre,
observando quão eminente e distinto era o seu pai,
pensou tratar-se do rei de algum país
ou alguém da mesma condição.
Alarmado e cheio de admiração,
perguntou a si mesmo porque tinha ido até ali.
Secretamente pensou para si,
se eu ficar aqui muito mais tempo
ainda acabo por ser preso
ou condenado a trabalhos forçados!
Logo que este pensamento lhe ocorreu,
fugiu daquele local,
perguntando onde haveria uma vila modesta
onde pudesse arranjar emprego.
O homem rico nessa ocasião,
sentado no seu trono de leão,
viu o seu filho à distância
e reconheceu-o sem nada dizer.
Imediatamente instruiu um mensageiro
para correr atrás dele
e o trazer de volta.
O filho pobre, gritando de terror,
caiu de aflição.
“Este homem mandou-me prender
e de certeza que me vai mandar matar!
Pensar que a minha busca por comida e vestuário
havia de me trazer a isto!”
O homem rico sabia que o seu filho
era ignorante e humilde.
“Ele nunca acreditará nas minhas palavras,
nunca acreditará que eu sou o seu pai.”
Então empregou um meio expedito,
mandando outros homens ter com o seu filho,
um só com um olho, outro débil e grosseiro,
completamente destituídos de qualquer aparência imponente,
dizendo-lhes, “Falem com ele
e digam-lhe que eu lhe darei emprego
para remover excremento e sujidade,
pagar-lhe-ei o dobro do salário habitual.”
Quando o filho pobre ouviu isto ficou satisfeito, foi com os mensageiros e trabalhou a remover excremento e sujidade e a limpar as dependências da casa.
Da sua janela o homem rico podia observar constantemente o seu filho, pensando como ele era ignorante e humilde, deleitando-se nesse trabalho menor.
Nessas alturas o homem rico punha uma roupa suja e esfarrapada, pegava num utensílio para remover excremento e ia até junto do seu filho, usando este meio expedito para se aproximar dele, encorajando-o a trabalhar diligentemente.
“Eu aumentei os teus proventos e dei-te óleo para espalhares nos pés.
Eu verei se tens comida e bebida suficiente, cama e roupa espessa e quente.”
Outras vezes falava-lhe com severidade:
“Deves trabalhar arduamente!”
ou então dizia-lhe com uma voz gentil,
”És como um filho para mim.”
O homem rico, sendo sábio,
gradualmente foi permitindo ao seu filho
entrar e sair da casa.
Após terem passado vinte anos,
ele pô-lo na gestão dos assuntos domésticos,
mostrando-lhe o seu ouro, prata,
pérolas, cristal, e as outras coisas
que eram recebidas e trocadas,
de modo a que ele ficasse ao corrente de tudo.
Apesar do filho continuar a morar fora dos portões,
dormindo num monte de palha,
vendo-se a si mesmo como sendo pobre,
pensando, ”Nada disto é meu”,
o pai sabia que as suas perspectivas se iam alargando
e tornando mais magnânimes.
Desejando doar ao filho as suas riquezas e bens,
o pai juntou os seus dependentes,
o rei do país e os ministros,
os nobres e os proprietários.
Na presença desta grande assembleia declarou,
“Este é o meu filho
que me abandonou e vagueou pelo mundo
durante cinquenta anos.
Desde que o encontrei,
passaram-se vinte anos.
Há muito tempo, em tal e tal cidade,
quando perdi o meu filho,
viajei por toda a parte à sua procura
até ter vindo aqui parar.
Tudo o que possuo,
as minhas propriedades e empregados,
eu entrego inteiramente a ele
para que faça o que entender.”
O filho pensou então que no passado ele tinha sido pobre,
humilde e ignorante,
mas agora recebera do seu pai
este enorme legado de tesouros raros,
em conjunto com as casas do seu pai
e todos os seus bens e fortuna.
Ficou cheio de grande alegria,
tendo ganho o que nunca antes possuíra.
Assim é o Buddha.
Ele sabe as nossas preferências mesquinhas,
e por isso nunca nos disse,
“Podeis atingir o Buddhado.”
Em vez disso explicou-nos
como poderíamos livrar-nos de falhas,
empreender o pequeno veículo
e sermos Discípulos Menores,
discípulos ouvintes.
Então o Buddha mandou-nos
pregar a suprema via
e explicar que aqueles que a praticam
serão aptos a atingir o Buddhado.
Nós recebemos os ensinamentos de Buddha
e em prol dos grandes bodhisattvas
utilizamos causas e condições,
várias metáforas e parábolas,
uma variedade de palavras e frases,
para pregar a via insuperável.
Quando os filhos de Buddha
recebiam de nós a Lei,
ponderavam dia e noite,
praticando-a diligentemente e com esforço.
Nessa altura o Buddha
outorgava-lhes profecias, dizendo,
“Numa existência futura
tu conseguirás atingir o Buddhado.”
Os vários Buddhas
na sua Lei do repositório secreto
estabeleceram os verdadeiros factos
unicamente em prol dos bodhisattvas;
não é para nós
que eles expõem as verdadeiras essências.
É como o caso do filho empobrecido
que foi capaz de se aproximar do seu pai.
Apesar de conhecer as posses do seu pai,
no seu coração ele não tinha qualquer intenção de se apoderar delas.
Assim, apesar de pregarmos
o tesouro do repositório da Lei do Buddha,
não procurávamos atingi-la,
e desta forma o nosso caso é semelhante.
Nós procurávamos apenas limpar o que existia em nós,
acreditando ser isso suficiente.
Nós compreendíamos apenas isto
e nada sabíamos das outras matérias.
Ainda que ouvíssemos falar
da purificação de terras Búddhicas,
de ensinar e converter os seres viventes,
não nos deleitávamos nessas coisas.
Porquê?
Porque todos os fenómenos
são uniformemente vazios, tranquilos,
sem nascimento ou extinção,
sem grandeza ou pequenez,
sem perdas, sem acção.
E quando se pondera desta forma
não se pode sentir deleite ou alegria.
Através da longa noite,
em relação à sabedoria de Buddha
nós éramos sem avidez, sem apego,
sem qualquer desejo de a possuir.
Nós acreditávamos
que em relação à Lei
nós possuíamos a derradeira.
Através da longa noite
praticávamos a Lei da vacuidade
libertando-nos do triplo mundo
e da sua carga de sofrimento e cuidado.
Nós estávamos na nossa existência final,
próximos do nirvana.
Através do ensinamento e da conversão do Buddha
ganhamos uma via que não era vã,
e assim fazendo
expiamos a nossa dívida
para com a bondade de Buddha.
Apesar de, em prol dos filhos de Buddha,
pregarmos a Lei do Bodhisattva,
incitando-os a procurar a via do Buddha,
nós nunca aspiramos a essa Lei.
Estávamos então abandonados
pelo nosso guia e mestre
porque ele observou o que ia nas nossas mentes.
Desde o princípio
ele nunca nos encorajou
ou nos falou do verdadeiro benefício.
Era como o homem rico
que sabia que as ambições do seu filho eram fracas
e que usou o poder dos meios expeditos
para suavizar e moldar a sua mente,
de forma a, mais tarde,
lhe confiar todos os seus tesouros e fortuna.
O Buddha é assim,
recorrendo a subtis linhas de acção.
Conhecendo as preferências mesquinhas de alguns,
ele usa o poder dos meios expeditos
para moldar e temperar as suas mentes,
e só então lhes ensina a grande sabedoria.
Hoje ganhamos
o que nunca possuíramos antes;
o que nunca tínhamos previamente esperado
veio até nós por si mesmo.
Nós somos como o filho pobre
que ganhou um tesouro imensurável.
Honrado Pelo Mundo,
agora ganhamos a via e o seu fruto;
através da Lei sem falhas
nós ganhamos a pura visão.
Através da longa noite
nós observamos os puros preceitos do Buddha
e hoje pela primeira vez
ganhamos o fruto, a recompensa.
Por muito tempo, na Lei do Rei do Dharma,
nós levamos a cabo práticas brahma;
agora obtivemos o estado sem falhas,
o grande e insuperável fruto.
Agora tornámo-nos verdadeiros ouvintes,
porque nós daremos voz à via do Buddha
e fá-la-emos ouvir por todos.
Agora tornámo-nos verdadeiros arhats,
porque em toda a parte
entre os seres celestiais e humanos,
demónios e Brahmas dos vários mundos,
nós merecemos receber oferendas.
O Honrado Pelo Mundo na sua grande misericórdia
faz uso de uma coisa rara,
ensinando e convertendo com piedade e compaixão,
trazendo-nos benefícios.
Em inumeráveis milhões de kalpas
quem poderá alguma vez recompensá-lo?
Ainda que lhe ofereça-mos as nossas mãos e pés,
curvando as nossas cabeças em respeitosa obediência
e apresentemos todos os tipos de ofertas,
nenhum de nós lhe poderá alguma vez pagar.
Ainda que o transportássemos no alto das nossas cabeças,
o levássemos nos nossos ombros
por kalpas numerosos como as areias do Ganges,
prestando-lhe reverência de todo o coração;
ainda que lhe levássemos comidas delicadas,
com incontáveis mantos debruados a jóias,
enxovais, vários tipos de poções e remédios;
ainda que fizéssemos tudo isto como oferenda
por kalpas numerosos como as areias do Ganges,
ainda assim não lhe poderíamos pagar.
Os Buddhas possuem
imensuráveis, ilimitados,
inimaginavelmente grandes, raramente vistos
poderes transcendentais.
Livres de falhas, livres de acção,
estes reis das doutrinas, em prol dos fracos e humildes
exercem a paciência nestas matérias;
aos comuns mortais apegados às aparências
pregam de acordo com o que é apropriado.
Em relação à Lei, os Buddhas
são capazes de exercer uma total liberdade.
Eles compreendem os vários desejos e alegrias
dos seres viventes, bem como os seus diferentes anseios e habilidades,
e podem ajustar às suas capacidades,
empregando inumeráveis metáforas
para lhes expor a Lei.
Utilizando as boas raízes
plantadas pelos seres viventes em prévias existências,
distinguindo entre aqueles cujas raízes estão maduras
e aqueles cujas raízes ainda não amadureceram,
executam vários cálculos,
discriminações e percepções,
e então tomam a via do veículo único
e de acordo com o que é apropriado,
pregam-na como se fosse tripla.

Capítulo Três: Metáforas e Parábolas

    

Nessa altura a mente de Shariputra dançou de alegria. Levantou-se então de imediato, juntou as palmas das mãos, fitou reverentemente o rosto do Mais Honrado e disse a Buddha, “Agora mesmo, quando ouvi o Honrado Pelo Mundo, esta voz da Lei, a minha mente pareceu dançar e eu ganhei o que nunca antes possuí. Porque digo isto? Porque no passado, quando ouvia do Buddha uma Lei deste tipo e via como os boddhisattvas recebiam as profecias de que a seu tempo atingiriam o Buddhado, eu e os outros sentíamos que éramos alheios a esse assunto. Ficávamos profundamente magoados por pensar que nunca ganharíamos a imensurável perspicácia do Tathagata.

“Honrado Pelo Mundo, eu vivi constantemente na floresta montanhosa ou sozinho dentro de árvores, umas vezes sentado, outras caminhando, e sempre pensei para comigo que se eu e os outros entramos igualmente na natureza da Lei, porque razão o Tathagata utiliza o Veículo Menor para nos trazer a salvação?

“Mas a falha é nossa, não do Honrado Pelo Mundo. Porque digo isto? Se ele tivesse podido esperar que o verdadeiro sentido de anuttara-samyak-sambodhi fosse pregado, teríamos seguramente obtido alívio mediante o Grande Veículo. Mas nós não entendemos que o Buddha empregava meios expeditos e pregava o que estava de acordo com as circunstâncias. Portanto, quando primeiro ouvimos a Lei do Buddha, imediatamente acreditamos nela e a aceitamos, supondo ter ganho o esclarecimento.
Honrado Pelo Mundo, por um longo tempo, de dia e de noite, eu me penalizei repetidamente com este pensamento, mas agora ouvi do Buddha o que nunca tinha ouvido, uma Lei nunca antes conhecida, que pôs fim a todas as minhas dúvidas e lamentações. O meu corpo e a minha mente estão descontraídas e eu obtive uma maravilhosa sensação de paz e segurança. Hoje compreendi finalmente que sou um filho de Buddha, nascido da sua boca, nascido através da conversão à Lei, ganhando a minha parcela da Lei de Buddha!”

Então Shariputra, desejando expor o seu sentido das suas palavras uma vez mais, falou em verso, dizendo:

Quando ouvi o som desta Lei,
ganhei o que nunca antes possuí.
A minha mente ficou cheia de alegria,
fui aliviado dos laços da rede da dúvida.
Desde o passado recebi os ensinamentos do Buddha
e nunca foi renegado o Grande Veículo.
O som de Buddha é muito raro de escutar,
mas consegue libertar os seres viventes da aflição.
Já tinha posto um fim a todas as falhas,
e ouvindo isto, estou livre de aflições e cuidados.
Vivi nos vales das montanhas
ou sob as árvores da floresta,
por vezes sentado, por vezes andando,
e constantemente pensei neste assunto-
quão severamente me penalizei!

“Porque fui iludido?” eu dizia.
“Eu e os outros somos também filhos de Buddha,
entramos da mesma forma na Lei que é sem falhas,
porém nos tempos vindouros nunca seremos capazes de expor a via insuperável.
O corpo dourado, as trinta e duas características,
os dez poderes, as várias emancipações-
ainda que partilhemos uma mesma Lei,
isso nunca haveremos de obter!
Os dezoito tipos de maravilhosas características,
as dezoito propriedades exclusivas-
méritos como esses
estão todos perdidos para nós!”
Quando deambulava sozinho,
via o Buddha entre a grande assembleia,
a sua fama enchendo as dez direcções,
levando bem longe os benefícios aos seres viventes,
e eu pensava para mim mesmo,
estou privado desses benefícios!
Quão grandemente eu fui iludido!
Constantemente, de dia ou de noite,
quando ponderava sobre isto,
eu queria perguntar ao Honrado Pelo Mundo
se eu de facto tinha sido ou não privado.
Constantemente eu via o Honrado Pelo Mundo
louvando os boddhisattvas,
então, de dia e de noite
eu matutava neste assunto.
Mas agora eu ouvi a voz de Buddha
e vi-o pregar a Lei de acordo com o que é apropriado,
utilizando esta doutrina sem falhas, difícil de conceber,
para levar as pessoas ao lugar da iluminação.
Anteriormente eu estava apegado a noções erróneas,
agindo como mestre para os Brahmans.
Mas o Honrado Pelo Mundo,
sabendo o que ia em minha mente,
desenraizou todos os meus erros
e pregou-me o nirvana.
Eu fui liberto dos meus erros
e ganhei a compreensão da Lei da vacuidade.

Nessa altura a minha mente disse-me
que atingira o estado de extinção,
mas agora eu reconheço
que essa não era a verdadeira extinção.
Se o tempo vier em que eu me tornarei um Buddha,
então possuirei as trinta e duas características
e os seres celestiais e humanos, os muitos yakshas,
dragões, espíritos e outros prestar-me-ão reverência.
Quando esse tempo chegar,
então poderei dizer
que por fim tudo foi removido sem deixar resíduo.
No meio da grande assembleia, o Buddha
declarou que eu me tornaria um Buddha.
Quando ouvi o som desta Lei,
as minhas dúvidas e remorsos foram removidos.
A princípio, quando ouvi a pregação do Buddha,
fiquei atónito e em dúvida.
“Não será este um demónio fazendo-se passar pelo Buddha,
tentando perturbar e confundir a minha mente?”- pensei.
Mas o Buddha empregou várias causas,
metáforas e parábolas, expondo eloquentemente.
A sua mente era pacífica como o mar,
e conforme ia ouvindo, ia sendo libertado das redes da dúvida.
O Buddha disse que em eras passadas
os incontáveis Buddhas que se extinguiram,
recorreram aos meios expeditos e fixaram-se neles,
e todos da mesma forma pregaram a Lei.
Os Buddhas do presente e do futuro,
cujos números estão para lá de qualquer cálculo,
irão também utilizar meios expeditos,
e pregar igualmente esta Lei.
Assim o presente Honrado Pelo Mundo,
tendo nascido e mais tarde deixado a sua família,
alcançado a iluminação e feito girar a roda da Lei,
igualmente emprega meios expeditos na sua pregação.
O Honrado Pelo Mundo prega a verdadeira via.
Papiyas não procederiam da mesma forma.
Daí que eu sei com certeza
que este não é um demónio a fingir ser o Buddha.
Mas por eu ter caído nas redes da dúvida
eu pensei ser isto um trabalho do demónio.
Agora eu ouço o suave e gentil som do Buddha,
profundo e de longo alcance, extremamente subtil e maravilhoso,
discursando e expondo a pura Lei,
e a minha mente está plena de alegria.
As minhas dúvidas e remorsos estão para sempre acabados,
eu repousarei e permanecerei na verdadeira sabedoria.
Estou certo de que me tornarei um Buddha,
a ser reverenciado por seres celestiais e humanos,
girando a roda da Lei insuperável
e ensinando e convertendo os boddhisattvas.

Nessa ocasião o Buddha disse para Shariputra, ”Agora, no meio desta grande assembleia de seres celestiais e humanos, shramanas, Brahmans e outros, eu digo: no passado, sob os auspícios de vinte mil milhões de Buddhas, pelo bem da Lei insuperável, eu constantemente te converti e ensinei; e tu, através da longa noite seguiste-me e aceitas-te a minha instrução. Agora, porque eu quero que lembres a via que inicialmente fizeste o voto de seguir, pelo bem dos ouvintes estou a pregar este sutra do Grande Veículo chamado Lótus da Lei Maravilhosa, uma Lei para instruir os Boddhisattvas, uma Lei que é guardada em mente pelos Buddhas.

“Shariputra, em épocas vindouras, após incontáveis, inconcebíveis números de kalpas terem passado, tu terás feito oferendas a alguns milhares, dezenas de milhares de milhões de Buddhas, e honrado e sustentado a correcta Lei. Tu cumprirás cada aspecto da via dos boddhisattvas e estarás apto a tornar-te um Buddha com o nome de Brilho da Flor [Padmaprabha], Tathagata, merecedor de oferendas, de recta e universal sabedoria, clareza e conduta perfeitas, bem aventurado, compreendendo o mundo, de inexcedível mérito, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buddha, Honrado Pelo Mundo.

“O teu mundo será chamado Livre de Impureza [Viraga], a terra será plana e suave, pura e adornada com beleza, pacífica, generosa e feliz. Seres celestiais e humanos irão ai desenvolver-se. O chão será de lapiz-lazuli, as estradas cruzá-la-ão em oito direcções e cordões de ouro marcarão as suas bermas. Junto a cada estrada crescerão renques de árvores formadas pelos sete tesouros, que constantemente darão flores e frutos. Este Tathagata Brilho da Flor empregará os três veículos para ensinar e converter os seres viventes.

“Shariputra, quando este Buddha aparecer, ainda que não se trate de uma era malévola, devido ao seu voto original ele pregará segundo os três veículos. O seu kalpa será chamado Adornado Com o Grande Tesouro [Mahâratnapratimandita].Porque será assim chamado, Adornado Com o Grande Tesouro? Porque nessa terra os boddhisattvas serão olhados como um grande tesouro. Esses boddhisattvas serão incontáveis, ilimitados, em número inconcebível, para lá do alcance de qualquer cálculo ou de qualquer metáfora ou parábola. Onde quer que estes boddhisattvas desejem ir, flores de jóias sustentarão os seus pés.

“Estes boddhisattvas não terão apenas concebido o desejo de atingir a iluminação, mas todos terão despendido um longo tempo a plantar as raízes da virtude. Sob os auspícios de incontáveis centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de Buddhas eles terão levado a cabo sem qualquer falha práticas Brahma, e serão perpetuamente louvados pelos Buddhas. Terão constantemente cultivado a sabedoria Búddhica, adquirindo grandes poderes transcendentais e entendendo cabalmente os acessos a todas as doutrinas. Eles serão rectos de carácter, sem duplicidade, firmes de mente e intenção. Boddhisattvas como estes abundarão nessa terra.

“Shariputra, a duração da vida do Buddha Brilho da Flor será de doze pequenos kalpas, sem contar os tempos em que ele será ainda príncipe e antes de se tornar um Buddha. As pessoas dessa terra viverão por oito pequenos kalpas. Quando o Tathagata Brilho da Flor tiver vívido por doze pequenos kalpas, ele profetizará que o boddhisattva Pleno de Firmeza [Dhritiparipûrnan] alcançará annutara-samyak-sambodhi. Ele anunciará aos monges, “Este boddhisattva Pleno de Firmeza será o próximo a tornar-se um Buddha. Ele será chamado Pé de Flor de Andar Seguro [Padmavrishabhavikrâmin], Tathagata, arhat, samiak-sambuddha. A sua terra Búddhica será como a minha”.

“Shariputra, após o Buddha Brilho da Flor se ter extinguido, a era da sua Correcta Lei terá a duração de trinta e dois pequenos kalpas e a era da sua Lei Adulterada durará por outros trinta e dois pequenos kalpas.”

Então o Honrado pelo Mundo, desejando afirmar uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

“Shariputra, numa época vindoura
tu tornar-te-ás um Buddha,
de sabedoria universal, venerável,
portador do nome Brilho da Flor,
e salvarás incontáveis multidões.
Farás ofertas a inumeráveis Buddhas,
e serás dotado com as práticas do boddhisattva,
os dez poderes e outras bênçãos,
e realizarás a via insuperável.
Após incontáveis kalpas terem passado,
o teu kalpa será chamado Adornado Com o Grande Tesouro.
O teu mundo chamar-se-á Livre de Impureza,
puro, sem falha ou mácula.
A terra desse mundo será feita de lápiz-lázuli,
as suas estradas demarcadas com cordões de ouro,
e árvores feitas dos sete tesouros
numa mistura de cores
darão constantemente flores e frutos.
Os boddhisattvas desse reino
serão sempre firmes de pensamento e intenção.
Poderes transcendentais e paramitas-
cada um será dotado com todos eles,
e sob os auspícios de inumeráveis Buddhas
eles diligentemente estudarão a via do boddhisattva.
Então esses grandes homens
serão convertidos pelo Buddha Brilho da Flor.
Quando o Buddha era ainda um príncipe,
ele abandonou o seu país, abandonou a glória mundana,
e na sua encarnação final
deixou a sua família
e alcançou a via do Buddhado.
O Buddha Brilho da Flor continuará no mundo
por um tempo de vida de doze pequenos kalpas.
As numerosas pessoas desta terra
terão uma esperança de vida de oito pequenos kalpas.
Após esse Buddha se ter extinguido,
a Correcta Lei perdurará no mundo
durante trinta e dois pequenos kalpas,
salvando seres viventes em toda a parte.
Quando a Correcta Lei tiver passado,
a Lei Adulterada perdurará por trinta e dois pequenos kalpas.
As relíquias do Buddha circularão largamente;
seres celestiais e humanos em toda a parte lhes farão oferendas.
As acções do Buddha Brilho da Flor serão todas como eu disse.
O mais santo e venerável dos seres humanos será excelente e sem igual.
Deves rejubilar e sentires-te afortunado pois tu serás esse Buddha!

Nessa altura, quando os quatro tipos de crentes, nomeadamente, monges, monjas, irmãos e irmãs leigos, bem como os seres celestiais, dragões, gandharvas, asuras, garudas, kimnaras, mahoragas e outros na grande assembleia viram Shariputra receber esta profecia do Buddha de que ele alcançaria anuttara-samyak-sambodhi, os seus corações encheram-se de alegria e não pararam de dançar. Cada um despiu o manto exterior que estavam a usar e apresentou-o como oferenda ao Buddha. O indra Shakra Devanam, o Rei Brahma e os incontáveis filhos de deuses, fazendo cair flores celestiais de mandarava e de grande mandarava, despiram da mesma forma os seus maravilhosos mantos celestiais e ofereceram-nos ao Buddha. Os mantos celestiais por eles espalhados ficaram suspensos, girando no ar. Os seres celestiais compuseram música, com uma centena, um milhar, dezenas de milhares de variedades de instrumentos musicais celestes, tocando no ar ao mesmo tempo, e fazendo chover uma profusão de flores celestiais proferiram estas palavras: “no passado, em Varanasi, o Buddha fez pela primeira vez girar a roda da Lei. Agora ele novamente faz girar a roda da Lei insuperável, da mais suprema Lei!”

Então os filhos de deuses, desejando afirmar uma vez mais o sentido das suas palavras, falaram em verso dizendo:

No passado em Varanasi
Tu fizeste girar a roda da Lei
das quatro nobres verdades,
fazendo distinções, pregando que todas as coisas
nascem e extinguem-se,
sendo compostas pelos cinco agregados.
Agora tu fazes girar a roda da mais maravilhosa,
da insuperável grande Lei.
Esta Lei é muito profunda e obscura;
poucos são os que nela podem acreditar.
Desde tempos passados nós ouvimos
o Honrado Pelo Mundo pregar,
mas nunca ouvimos esta profunda,
maravilhosa e suprema Lei.
Desde que o Honrado Pelo Mundo prega esta lei,
todos a acolhemos com alegria.
Shariputra com a sua grande sabedoria
recebeu agora esta venerável profecia.
Também nós , da mesma forma,
iremos seguramente ser capazes de alcançar o Buddhado,
que em todos os mundos
é o mais venerável e supremo objectivo.
A via do Buddha é difícil de conceber,
mas tu pregarás com meios expeditos,
de acordo com o que é apropriado.
Que também nós, mercê dos actos meritórios que fizemos
nesta ou em passadas existências,
e as bênçãos ganhas ao assistir os Buddhas,
possamos alcançar o Buddhado.

Nessa altura Shariputra disse para Buddha: “Honrado Pelo mundo, agora não tenho mais dúvidas ou remorsos. Recebi pessoalmente do Buddha esta profecia de que atingirei annutara-samyak-sambhodi. Estas doze mil pessoas aqui presentes, cujas mentes são livres no passado permaneceram no nível de aprendizado e o Buddha constantemente as ensinou e converteu, dizendo, “A minha Lei pode libertar-vos do nascimento, da velhice e da morte e possibilitar-vos atingir por fim o nirvana.” Estas pessoas, algumas das quais estão ainda a aprender e outras já completaram o seu aprendizado, cada uma acreditou que, uma vez que abandonaram as noções de “ego” bem como as noções de “existência” e de “não existência”, tinham já atingido o nirvana. Mas agora, do Honrado Pelo Mundo eles ouvem o que nunca ouviram antes, caindo todos em dúvida e perplexidade.

“Pois bem, Honrado Pelo Mundo. Eu rogo-te que pelo bem dos quatro tipos de crentes expliques as causas e condições tornando possível que eles dissipem as suas dúvidas e remorsos.”

Então o Buddha disse para Shariputra, “Não te disse eu antes que quando os Buddhas, os Honrados Pelo Mundo citam várias causas e condições e usam metáforas, parábolas e outras expressões, empregando meios expeditos para pregar a lei, o fazem sempre em nome de anuttara-samyak-sambhodi? Tudo o que é pregado é sempre com vista à conversão dos boddhisattvas.

Ainda assim, Shariputra, também agora eu farei uso de uma parábola para melhor clarificar esta doutrina. Através de metáforas e parábolas os que são sagazes podem atingir a compreensão.

“Shariputra, supõe que numa certa cidade de um certo país havia um homem muito rico. Ele estava já entrado em anos e a sua riqueza não tinha medida. Ele possuía muitos terrenos, casas e servos. A sua casa era grande e complexa, mas tinha só uma porta. Muita gente morava na casa – cem, duzentas ou mesmo quinhentas pessoas. Os salões e quartos eram velhos e decrépitos, as paredes estavam a derrocar, os pilares ruindo pela base e as vigas e traves retorcidas e descaídas.

“Então, subitamente, ateou-se um fogo que atingiu toda a casa, galgando as suas paredes. Os filhos desse homem rico, dez, vinte, talvez trinta, estavam no interior da casa. Quando o homem viu as enormes chamas saindo pelos lados da casa, ficou extremamente alarmado e apavorado pensando para si mesmo, “Eu consigo escapar com segurança por entre a porta em chamas, mas os meus filhos estão lá dentro entretidos com os seus jogos, alheados de tudo, sem alarme ou medo. O fogo está a cercá-los, ameaçados pela dor e pelo sofrimento, porém as suas mentes não têm noção do perigo e não pensam em tentar escapar!

“Shariputra, este homem rico pensou para si próprio, ”Eu tenho força no meu corpo e membros. Podia embrulhá-los num cobertor e carregando-os no colo, traze-los para fora da casa. Mas então teve um outro pensamento, ”A casa tem apenas uma porta que ademais é estreita e pequena.
Os meus filhos são muito novos, eles não têm entendimento, e gostam dos seus jogos, estando tão absortos neles que correm o risco de morrerem queimados. Tenho de lhes explicar porque estou tão alarmado. A casa já está em chamas e eu tenho que tirá-los dali depressa e salvá-los do fogo!

“Tendo pensado isto, começou a chamar pelos filhos desta forma, “Venham cá para fora depressa!” Mas apesar dos chamamentos do pai, cheio de preocupação, os filhos estavam tão absorvidos nos seus jogos que nem lhe deram ouvidos. Além disso, não perceberam os riscos da sua situação, com o fogo e a decrepitude da casa. Correram neste e naquele sentido sem atenderem aos apelos do seu pai.

“Então, o homem teve este pensamento: a casa já está em chamas com este grande incêndio. Se os meus filhos não saírem de imediato, decerto ficarão queimados. Devo por isso inventar um meio expedito que torne possível às crianças escapar ilesas.

“O pai compreendia os seus filhos e conhecia os vários brinquedos e objectos curiosos de que eles gostavam e que poderiam deleitá-los. Então ele disse-lhes, “O tipo de brinquedos de que vocês gostam são raros e difíceis de encontrar. Se não aproveitarem as oportunidades para os conseguirem decerto virão a arrepender-se. Por exemplo, coisas como carros, puxados por cabras, por veados ou por búfalos. Eles estão agora no exterior da casa onde podeis brincar com eles. Por isso têm de sair desta casa incendiada de imediato. Então, qualquer brinquedo que queirais eu o oferecerei!

“Então, quando os filhos ouviram o seu pai falar-lhes acerca desses raros brinquedos, porque essas eram justamente o que eles queriam, cada um ficou entusiasmado e empurrando-se uns aos outros, saíram precipitadamente da casa em chamas.

“Então, o rico homem, vendo que os seus filhos tinham saído sãos e salvos e estavam todos sentados no exterior, livres de perigo, ficou grandemente aliviado e a sua mente dançou de alegria. Nessa altura cada um dos filhos disse ao pai, “os brinquedos que nos prometeste, os carros de cabras, veados e búfalos, por favor entrega-os agora!”

“Shariputra, nessa ocasião o homem rico deu a cada um dos seus filhos uma grande carruagem de igual tamanho e qualidade. As carruagens eram altas e espaçosas, ricamente adornadas. Um gradeamento a toda a volta tinha campainhas. Um dossel estava armado no topo, decorado com um sortido de preciosas jóias. Cordões de jóias e grinaldas de flores pendiam à volta e o interior era acolchoado e com almofadas púrpuras. Cada carruagem era puxada por um búfalo branco, de pele pura e limpa, formoso e forte, capaz de puxar a carruagem suave e firmemente, num andamento rápido como o vento. Além disso, muitos cocheiros e criados se perfilavam para servir e para guardar a carruagem.

“Qual a razão de tudo isto? A fortuna desse homem rico era ilimitada e ele tinha imensos armazéns a abarrotar de mercadoria. Ele pensou para si mesmo, “As minhas posses não têm fim. Não estaria certo se eu desse aos meus filhos carruagens de qualidade inferior. Estes pequenos são todos meus filhos e eu amo-os sem parcialidade. Eu tenho incontáveis números de grandes carruagens adornadas com os sete tesouros. Devo ser equânime e dar uma a cada um dos meus filhos, sem fazer qualquer discriminação. Porquê? Porque mesmo distribuindo estes bens por cada uma das pessoas do meu reino eu não esgotaria as minhas posses, muito menos dando-as aos meus filhos.

“Nessa altura, cada um dos filhos subiu para a sua carruagem, ganhando o que nunca antes possuíra, algo que excedia quaisquer das suas expectativas. Shariputra, o que pensas disto? Quando este homem rico deu com imparcialidade estas grandes carruagens aos seus filhos, adornadas com raras jóias, foi culpado de falsidade ou não?”

Shariputra disse, “Não honrado Pelo Mundo. Esse homem rico apenas tornou possível aos seus filhos escapar do perigo do fogo e preservar as suas vidas. Ele não incorreu em falsidade. Porque digo isto? Porque ao salvarem as suas vidas eles receberam já uma oferta excelente, principalmente quando, através de um meio expedito, conseguiram escapar da casa em chamas! Honrado Pelo mundo, ainda que o homem rico não lhes tivesse dado qualquer carruagem, ele mesmo assim não seria culpado de falsidade. Porquê? Porque originalmente, a sua intenção foi empregar um meio expedito para fazer os seus filhos escapar. Usar um artificio deste género não é falsidade. Muito menos quando ele sabia que a sua fortuna era ilimitada e tencionava enriquecer e beneficiar os seus filhos dando a cada um deles uma grande carruagem.”

O Buddha disse para Shariputra, “Muito bem, muito bem. É tal como disseste. Shariputra, assim é o Honrado pelo Mundo. Ele é um pai para o mundo. Os seus medos, preocupações e ansiedades, ignorância e incompreensão chegaram há muito ao fim, sem que tivessem deixado resíduo. Ele foi completamente bem sucedido na aquisição de imensurável sagacidade, poder e liberdade perante o medo, tendo ganho poderes sobrenaturais e o poder da sabedoria. Ele está investido com os meios expeditos e com o paramita da sabedoria, a sua misericórdia e grande compaixão são constantes e sem esmorecimento; em todas as ocasiões ele procura o que é bom para beneficio de todos.

“Ele nasce no triplo mundo, numa casa em chamas, velha e decrépita, por forma a salvar os seres viventes das fogueiras do nascimento, da velhice, da doença e da morte, da preocupação e do sofrimento, da estupidez, da incompreensão e dos três venenos; para ensiná-los e convertê-los permitindo-lhes alcançar anuttara-samyak-sambhodi.

“Ele vê os seres viventes atormentados e consumidos pela velhice, doença e morte, preocupação e sofrimento, vê-os incorrer em muitas formas de dor devido às suas ganâncias e apegos e lutar assoberbados por numerosas penas na sua presente existência, e Vê-os incorrerem depois na pena de nascerem no inferno ou como animais ou espíritos esfomeados. Mesmo que nasçam no reino dos seres celestiais ou no reino dos humanos, eles padecem a dor da pobreza e da necessidade, a dor da separação dos entes queridos, a dor do encontro com aqueles que detestam – todas estas diferentes formas de dor.

“Apesar de afundados no meio de tudo isto, os seres viventes divertem-se e deleitam-se, inconscientes, alheados, sem alarme ou medo. Eles não têm qualquer sentido de vontade e não fazem qualquer tentativa para escaparem. Nesta casa em chamas que é o triplo mundo, eles correm para Este e Oeste, e apesar de encontrarem grandes dores, não ficam aflitos por se libertarem.

“Shariputra, quando o Buddha vê isto, pensa para si mesmo, eu sou o pai dos seres viventes e devo resgatá-los dos seus sofrimentos e dar-lhes a alegria da imensurável e ilimitada sabedoria Búddhica de modo a que eles possam regozijar-se disso.

“Shariputra, o Tathagata tem também este pensamento: se eu meramente empregasse poderes sobrenaturais e o poder da sabedoria; se eu puser de lado os meios expeditos e, pelo bem dos seres viventes, louvar apenas o Tathagata na sua sagacidade, poder e liberdade perante o medo, então os seres viventes não seriam capazes de conquistar a salvação. Porquê? Porque os seres viventes ainda não escaparam do nascimento, velhice, doença, morte, preocupação e sofrimento, mas estão consumidos pelas chamas da casa a arder que é o triplo mundo. Como podem eles ser capazes de entender a sabedoria do Buddha?

“Shariputra, esse homem rico, ainda que dotado da força dos seus braços, não a usou. Ele meramente utilizou um meio expedito cuidadosamente planeado e foi assim capaz de resgatar os seus filhos do perigo da casa em chamas, e depois, deu a cada um deles uma grande carruagem adornada com jóias raras. O Tathagata procede da mesma forma. Apesar de possuir poder e liberdade perante o medo, ele não os usa. Ele meramente emprega a sabedoria e os meios expeditos para resgatar os seres viventes da casa em chamas que é o triplo mundo, expondo-lhes os três veículos, o veículo do ouvinte, o do pratyekabuddha e o veículo do Buddha.

“Ele diz-lhes, “Não devem contentar-se em ficar nesta casa em chamas do triplo mundo! Não sejam ávidos pelas suas grosseiras e ordinárias formas, sons, odores, sabores e sensações! Se ficarem apegados a elas e aprenderem a gostar delas, acabarão queimados! Devem sair deste triplo mundo de imediato de modo a adquirirem os três veículos, o veículo do ouvinte, o do pratyekabuddha e o veículo do Buddha. Eu prometo-vos que os conseguirão obter, e essa promessa nunca se mostrou falsa. Têm apenas que se aplicar com esforço diligente!”

“O Tathagata emprega este meio expedito para atrair os seres viventes à acção. E ele diz-lhes, “Vocês devem compreender que estas doutrinas dos três veículos foram louvadas pelos sábios. Eles são livres, sem peias, não havendo mais nada que procurem ou de que dependam. Subam para estes três veículos, ganhem raízes sem falhas, poderes, consciência, meditação, emancipação, samadhis, a via, e depois alegrem-se. Vocês ganharão o deleite da paz e segurança imensuráveis”.

“Shariputra, se existirem seres viventes que sejam, de sua natureza intimamente sábios, que atendam o Buddha, o Honrado Pelo Mundo, ouçam a Lei, acreditem nela e a aceitem, e esforçando-se diligentemente, desejem escapar rapidamente do triplo mundo e procurem atingir o nirvana, eles devem ser chamados [condutores do] veículo do ouvinte. Eles são como aqueles filhos que saem da casa em chamas na esperança de encontrar o carro puxado por cabras.

“Se existirem seres viventes que atendam o Buddha, o Honrado Pelo Mundo, ouçam a Lei, acreditem nela e a aceitem, e esforçando-se diligentemente, procurem a sabedoria por si mesmos, deleitando-se solitariamente na bondade e na tranquilidade, entendendo profundamente as causas e condições de todos os fenómenos, eles devem ser chamados [condutores do] veículo do pratyekabuddha. Eles são como aqueles filhos que saem da casa em chamas na esperança de encontrar o carro puxado por veados.

“Se existirem seres viventes que atendam o Buddha, o Honrado Pelo Mundo, ouçam a Lei, acreditem nela e a aceitem, e esforçando-se diligentemente, procurem a sabedoria e a perspicácia do Tathagata, os poderes e a liberdade perante o medo, condoendo-se de inumeráveis seres viventes, confortando-os, trazendo benefícios a seres celestiais e humanos, salvando-os a todos, eles devem ser chamados [condutores do] Grande Veículo. Por os bodhisattvas procurarem este veículo são chamados mahasattvas. Eles são como aqueles filhos que saem da casa em chamas na esperança de encontrar o carro puxado por búfalos.

“Shariputra, esse homem rico, vendo que todos os seus filhos tinham saído da casa em chamas, não correndo já qualquer perigo, recordou que a sua fortuna era imensurável e presenteou cada um deles com uma grande carruagem. O Tathagata procede da mesma forma. Ele é o pai de todos os seres viventes. Quando ele vê que incontáveis milhares de milhões de seres viventes, através do portal dos ensinamentos do Buddha, conseguem escapar às dores do triplo mundo, o caminho medonho e perigoso, e atingem os deleites do nirvana, então o Tathagata tem este pensamento: eu possuo sabedoria ilimitada e imensurável, o repositório da Lei dos Buddhas. Estes seres viventes são todos meus filhos. Eu darei a todos eles sem distinção o Grande Veículo. Não haverá um nirvana particular para cada um, mas sim o nirvana absoluto do Tathagata.

“A todos os seres viventes que escaparam do triplo mundo, ele então confere os deliciosos dons da meditação, emancipação e concentração dos Buddhas. Todos estes dons são uniformes nas suas características e tipo, louvados pelos sábios, capazes de produzir o mais puro, maravilhoso, supremo deleite.

“Shariputra, esse homem usou primeiro os três tipos de carruagens para atrair os seus filhos, mas depois deu a cada um apenas a grande carruagem adornada com jóias, a mais segura e confortável de todas. Apesar disto, esse homem não é culpado de falsidade. O Tathagata faz o mesmo, e ele é isento de falsidade. Primeiro ele prega os três veículos para atrair e guiar os seres viventes, mas depois emprega apenas o Grande Veículo para os salvar. Porquê? O Tathagata possui imensuráveis sabedoria, poder e liberdade perante o medo e possui o repositório da Lei. Ele é capaz de dar a todos os seres viventes a Lei do Grande Veículo. Mas nem todos são capazes de a receber.

“Shariputra, por esta razão deves entender que os Buddhas empregam o poder dos meios expeditos. E porque eles o fazem, estabelecem distinções no veículo único dos Buddhas e pregam-no como sendo triplo.”

O Buddha, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Supõe que existe um Homem rico
que possui uma grande casa.
Esta casa é muito velha,
e arruinada e degradada também.
As paredes altas estão em condições perigosas,
as vigas e traves retorcidas e descaídas,
os alicerces e escadarias ruindo.
As paredes estão rachadas e com fendas e o reboco caiu.
O tecto de colmo está estragado ou caído, as goteiras dos beirais arrancadas.
As cercas que a rodeavam abateram e pilhas de lixo amontoam-se por toda a parte.
Umas quinhentas pessoas vivem na casa.
Papagaios, corujas, falcões, águias,
corvos, pegas, pombas,
lagartos, cobras, víboras, escorpiões,
centopeias, sapos, baratas,
doninhas, ratos, ratazanas,
hordas de criaturas malévolas
escapulindo-se por toda a parte.
Há lugares que fedem com excremento
inundados por regos de imundice,
onde as baratas e outros animais se juntam.
Raposas, lobos e chacais
roem e pisoteiam na imundice
ou desmembram cadáveres,
separando a carne dos ossos.
Devido a isto, matilhas de cães
correm para o local, raivosos e famintos,
procurando comida em toda a parte,
lutando e agarrando-se,
rangendo os dentes, rosnando e uivando.
Essa casa é medonha, assustadora,
tão alterado está o seu aspecto.
Em toda ela existem goblins e trolls,
yakshas e espíritos malignos,
que se alimentam de carne humana
ou de criaturas venenosas.
As várias aves malignas e bestas
procriam, chocando e alimentando as suas crias,
escondendo-as e protegendo-as,
mas as yakshas competem entre si
para as descobrir e devorar.
E depois de terem comido até à saciedade,
os seus corações malignos redobram de ferocidade;
o som das suas disputas e lutas
é deveras assustador.
Demónios kumbhanda
agacham-se em maciços de terra
ou saltam até meio metro de altura,
errando ociosamente aqui e ali,
divertindo-se conforme as suas inclinações.
Por vezes eles agarram um cão
por duas das suas pernas
e batem-lhe até ele perder a voz,
ou cravam o pé no seu pescoço,
deleitando-se a aterrorizá-lo.
Existem ainda demónios
com corpos altos e largos,
nus, emaciados e escuros,
vivendo lá constantemente,
que gritam com vozes horrendas,
berrando e exigindo comida.
Há outros demónios
cujas gargantas são como agulhas,
ou outros ainda
com cabeças iguais à de um búfalo,
alguns alimentando-se de carne humana,
outros devorando cães.
Com os cabelos como ervas daninhas emaranhadas,
cruéis, iracundos, ferozes,
dominados pela fome e pela sede,
eles correm guinchando e uivando.
Os yakshas e espíritos esfomeados
e as várias aves malignas e bestas
empurram-se esfomeadas em todas as direcções,
espreitando pelas janelas.
Esses são os perigos desta casa,
ameaças e terrores sem medida.
Esta casa, velha e decrépita,
pertence a um certo homem
e esse homem ausentou-se
e não se encontrava longe
quando um incêndio
deflagrou subitamente pela casa.
De repente nos quatro lados da casa
as chamas propagaram-se.
Vigas e traves do tecto, pilares,
explodiram com estrondo, estremecendo, rachando,
partindo-se e ruindo
com o colapso das paredes e divisórias.

Os vários demónios e espíritos
juntaram as suas vozes num grande gemido,
os falcões, águias e outras aves,
os demónios kumbhanda,
estavam cheios de terror e pânico,
não sabendo como escapar.
As bestas malévolas e as criaturas venenosas
escondidas nos seus buracos e covis
e os demónios pishacha,
que também viviam ai,
por terem praticado tão pouco o bem,
estavam angustiados com as chamas
e atacavam-se uns aos outros,
bebendo sangue e comendo carne de goblin.
Os chacais e afins
já estavam mortos por esta altura
e a maioria das bestas maléficas
lutavam para devorá-las.
O fumo infecto rodopiava e subia,
enchendo a casa por toda a parte.
As centopeias,
cobras venenosas e afins,
chamuscadas pelo fogo,
escapuliam-se dos seus buracos,
enquanto os demónios kumbhanda
atiravam-se a elas e comiam-nas.
Além disso os espíritos famintos,
com as chamas a incendiar as suas cabeças,
esfomeados, sedentos, atormentados pelo calor,
corriam em todas as direcções
aterrorizados e confusos.
Este era o estado dessa casa,
realmente assustadora e terrível;
afligida por inúmeros tormentos
e pelo desastre do fogo.
Nessa altura o dono da casa
estava no exterior quando ouviu alguém dizer
“Há algum tempo os teus vários filhos
foram brincar para o interior da casa.
Eles são muito novos e falhos de compreensão
e estarão absortos nas suas diversões.”
Quando o homem rico ouviu isto,
correu alarmado para a casa em chamas,
determinado a resgatar os seus filhos
salvando-os de serem queimados pelo fogo.
Ele incitou os seus filhos
a ouvi-lo explicar os muitos perigos e ameaças,
os espíritos maléficos e as criaturas venenosas,
as chamas espalhando-se por toda a parte,
a multitude de sofrimentos que se sucederiam interminavelmente,
as cobras venenosas, lagartos e víboras,
bem como os muitos yakshas
e demónios kumbhanda,
os chacais, raposas e cães,
falcões, águias, papagaios, corujas,
insectos rastejantes e criaturas similares,
conduzidas e atormentadas pela fome e pela sede,
coisas realmente temíveis.
As enormes chamas do grande fogo
estão ateadas em todos os lados,
e apesar disto
os meus filhos ainda se agarram aos seus jogos.
Mas agora eu salvei-os,
fazendo-os escapar do perigo.

Essa é a razão, boa gente,
porque eu estou alegre.”
Nessa ocasião os filhos,
vendo o seu pai confortavelmente sentado,
foram junto dele e disseram-lhe:
“Dá-nos por favor
os três tipos de carruagens de jóias
que nos prometeste.
Disseste que se saísse-mos da casa
nos darias três tipos de carruagens
e que cada um de nós escolheria aquela que mais gostasse.
Agora é a altura de no-las entregares!”
O homem rico era muito abastado
e tinha muitos armazéns.
Com ouro, prata, lápis lazuli,
madrepérola, ágata e outros materiais preciosos
ele construiu grandes carruagens
maravilhosamente adornadas e decoradas,
com uma balaustrada a toda a volta
e sinos pendentes dos vários lados.
Cordões de ouro entrançados,
redes de pérolas
ajustadas sobre o topo,
e franjas de flores douradas
penduradas por toda a parte.
Decorações multicolores
rodeando e envolvendo as carruagens,
sedas finas e gazes
servindo de almofadas,
cobertas com feltros de magnifica feitura
avaliados em milhares de milhões,
reluzindo brancos e puros.
Aí estavam grandes búfalos brancos,
lustrosos e robustos, de grande força,
de formas bonitas,
para puxar as carruagens de jóias,
e numerosos cocheiros e servos
para as acompanhar e guardar.
Estas maravilhosas carruagens,
o homem apresentou de igual modo
a cada um dos seus filhos.
Os filhos então dançaram de júbilo,
subindo para as carruagens de jóias,
conduzindo-as em todas as direcções,
deleitando-se e divertindo-se
livremente e sem estorvos.
Digo-te isto, Shariputra –
eu sou como esse homem rico.
Eu, o mais venerável dos sábios,
sou o pai deste mundo
e todos os seres viventes são meus filhos.
Mas eles estão profundamente apegados aos prazeres mundanos
e são falhos da mente da sabedoria.
Não há segurança no triplo mundo;
é como uma casa em chamas,
repleta com uma multitude de sofrimentos,
realmente temíveis,
constantemente assolada pelas amarguras e dores
do nascimento, da velhice, da doença e da morte,
que são como fogos,
propagando-se violentamente e sem cessar.
O Tathagata já deixou
esta casa em chamas do triplo mundo
e repousa em tranquila quietude
na segurança da floresta e da planície.
Mas agora este triplo mundo
é todo o meu domínio,
e os seres viventes nele
são as minhas crianças.
Agora este lugar é assolado
por muitas dores e provações.

Eu sou a única pessoa
que pode salvar e proteger os outros,
mas apesar de os ensinar e instruir
eles não acreditam nem aceitam os meus ensinamentos,
porque, contaminados pelos desejos,
estão profundamente imersos
na ganância e no apego.
Assim, eu emprego um meio expedito,
descrevendo-lhes os três veículos,
fazendo todos os seres viventes
entenderem as dores do triplo mundo
e então apresento e exponho
a via pela qual eles podem escapar do mundo.
Se estas minhas crianças
simplesmente se decidirem nas suas mentes a fazê-lo
elas podem adquirir as três compreensões
e os seis poderes transcendentais,
podem tornar-se pratyekabuddhas
ou bodhisattvas que nunca retornam.
Eu digo-te, Shariputra,
pelo bem dos seres viventes
emprego estas metáforas e parábolas
para pregar o único veículo Búddhico.
Se tu e os outros forem capazes
de acreditar e aceitar as minhas palavras,
então estarão todos certos
de atingirem a via do Buddhado.
Este veículo é subtil, maravilhoso,
primeiro em pureza;
através dos mundos
permanece insuperável.
O Buddha deleita-se nele e aprova-o,
e todos os seres viventes devem louvá-lo,
oferecer-lhe esmolas e prestar-lhe obediência.
Existem imensuráveis milhares de milhões
de poderes, emancipações, sabedorias
e outros atributos do Buddha,
mas se a criança puder obter este veículo
ele permitir-lhe-á, dia e noite por inumeráveis kalpas,
encontrar agrado constante,
juntar-se aos bodhisattvas
e à multitude de ouvintes
montando este veículo de jóias
e prosseguir directamente para o lugar da iluminação.
Por estas razões,
ainda que alguém busque diligentemente nas dez direcções,
não encontrará quaisquer outros veículos
a não ser quando o Buddha os prega como meios expeditos.
Digo-te, Shariputra,
tu e os outros são todos meus filhos,
e eu sou um pai para vós.
Durante kalpas consecutivos
vocês arderam nas chamas dos múltiplos sofrimentos,
mas eu salvar-vos-ei a todos
e farei com que escapem do triplo mundo.
Apesar de antes vos ter dito
que havíeis alcançado a extinção,
isso era apenas o fim do nascimento e da morte,
não era a verdadeira extinção.
Agora o que é necessário
é simplesmente que adquiram a sabedoria Búddhica.
Se existirem bodhisattvas
aqui nesta assembleia,
deixai-os com uma única mente
ouvir a verdadeira Lei dos Buddhas.
Se bem que os Buddhas,
os Honrados Pelo Mundo,
empreguem meios expeditos,
os seres viventes por eles convertidos
são todos bodhisattvas.
Se existirem pessoas de pequena sabedoria,
profundamente apegadas ao amor e ao desejo –
por serem assim,
o Buddha prega para eles a lei do sofrimento.
Então os seres viventes extasiados,
tendo ganham o que nunca antes possuíram.
A lei do sofrimento pregada pelos Buddhas
é verdadeira e imutável.
Se houverem seres viventes
que não compreendam a raiz do sofrimento,
que estejam profundamente apegados às causas do sofrimento
e não consigam nem por um momento pô-las de parte –
por eles serem assim,
o Buddha usa meios expedientes para pregar a via.
Quanto à causa de todo o sofrimento,
ela tem a sua raiz na cobiça e no desejo.
Se a cobiça e o desejo forem removidos
ele não terá onde residir.
Remover o sofrimento –
a isto se chama a terceira lei.
Pelo bem desta lei, a lei da extinção,
pratica-se a via.
E quando se escapa das amarras do sofrimento,
a isto se chama alcançar a emancipação.
Por quais meios pode alguém alcançar a emancipação?
Separar-se da falsidade e da ilusão –
apenas a isto se pode chamar emancipação.
Mas se uma pessoa não foi verdadeiramente capaz
de se emancipar de tudo,
então o Buddha dirá que ele não atingiu a verdadeira extinção,
porque essa pessoa não atingiu ainda a via insuperável.
O meu propósito não é tentar
fazer com que alcancem a extinção.
Eu sou o Rei do Dharma,
livre de proceder como quiser com a Lei.
Para trazer paz e segurança aos seres viventes –
esta é a razão do meu aparecimento no mundo.
Digo-te, Shariputra,
eu prego este meu selo do Dharma
porque desejo trazer benefícios ao mundo.
Não deves transmiti-lo imprudentemente
onde quer que te encontres.
Se houver alguém que o ouça,
responda com alegria e o aceite com gratidão,
deves saber que essa pessoa
é um avivartika.
Se houver alguém que acredite e aceite
a Lei deste sutra,
essa pessoa já viu previamente os Buddhas do passado,
ofereceu-lhes esmolas respeitosamente
e escutou esta Lei.
Se houver alguém capaz
de acreditar no que tu pregares,
essa pessoa já me viu a mim,
a ti, aos outros monges
e aos bodhisattvas.
Este Sutra do Lótus
é pregado por aqueles de profunda sabedoria.
Se pessoas de compreensão limitada o ouvirem,
ficarão perplexas e não o compreenderão.
Também em relação aos ouvintes
e pratyekabuddhas,
neste sutra há coisas
que estão para lá dos seus poderes.
Até tu, Shariputra,
no caso deste sutra
apenas és capaz de aceder a ele através da fé.
Quanto mais então os outros ouvintes.
É por esses outros ouvintes
terem fé nas palavras do Buddha
que eles podem agir em conformidade com este sutra
e não devido a qualquer sabedoria pessoal.
Da mesma forma, Shariputra,
às pessoas que são arrogantes ou preguiçosas
ou tomadas pelo ego,
não pegues este sutra.
Esses com a compreensão limitada das pessoas comuns,
que são profundamente apegados aos cinco desejos,
não podem compreendê-lo quando o ouvem.
Não lhes pregues este sutra.
Se uma pessoa não tiver fé
mas em vez disso caluniar este sutra
de imediato ele destruirá todas as sementes
para se tornar um Buddha neste mundo.
Ou talvez ele franza as sobrancelhas
em sinal de dúvida ou perplexidade;
ouve que eu te direi
a pena que essa pessoa terá de pagar.
Quer o Buddha esteja no mundo
ou se tenha já extinguido,
se ela caluniar um sutra como este,
ou vendo alguém lê-lo,
recitá-lo, copiá-lo e promovê-lo,
despreze, odeie, inveje
ou proceda contra essa pessoa,
a pena que ela deve pagar será esta:
Quando a sua vida tiver chegado ao fim
ela entrará no inferno de Avichi,
estará lá confinada durante todo um kalpa,
e quando esse kalpa acabar,
nascerá de novo lá.
Ele repetirá esse ciclo
por um incontável número de kalpas.
Ainda que ele consiga emergir do inferno,
cairá no reino das bestas,
tornando-se um cão ou um chacal,
a sua forma magra e desleixada,
escura, descorada,
com crostas e feridas,
exposto à chacota dos homens.
Ou ainda ele será
odiado e desprezado pelos homens,
constantemente assolado pela sede e pela fome,
os seus ossos e carne secos,
padecendo na vida tormentos e dificuldades,
na morte enterrado entre as pedra.
Por ter cortado as sementes do Buddhado
ele sofrerá esta penalidade.
Se ele se tornar um camelo
ou nascer sob a forma de um burro,
o seu corpo suportará constantemente pesadas cargas
e terá o pau ou o chicote sempre sobre ele.
Ele pensará apenas em água e erva
e não compreenderá nada mais.
Porque ele caluniou este sutra,
esta será a punição em que incorrerá.
Ou nascerá como um chacal
que irá ter à povoação,
o corpo cheio de chagas,
tendo apenas um olho,
batido pelos rapazes,
sofrendo dores e penas,
por vezes a ponto de morrer.
E depois de ele morrer,
renascerá sob a forma de serpente,
longa e grande no tamanho,
medindo quinhentas yojanas,
surda, sem entendimento, sem pés,
arrastando-se sobre a barriga,
com pequenas criaturas mordendo-a e alimentando-se dela,
dia e noite sofrendo dificuldades,
sem nunca ter descanso.
Por ter caluniado este sutra,
esta é a punição em que incorrerá.
Se ele vier a tornar-se um ser humano,
as suas faculdades serão fracas e embotadas,
ele será débil, vil, desonesto, aleijado,
cego, surdo, corcunda.
As coisas que disser ninguém acreditará,
o hálito da sua boca será sempre infecto,
ele será possuído por demónios, pobre e humilde,
sujeito às ordens de outros,
afligido por muitas doenças,
magro e macilento,
sem ninguém a quem recorrer.
Ainda que se ligue a outras pessoas,
elas nunca se lembrarão dele,
ainda que venha a ganhar algo,
isso será logo perdido ou esquecido.
Ainda que pratique a arte da medicina
e pelos seus métodos cure a doença de alguém,
essa pessoa adoecerá de qualquer outra causa
e talvez acabe até por morrer.
Se ele mesmo tiver uma doença,
ninguém o ajudará ou tratará,
e ainda que tome bons remédios
isso só piorará a sua condição.
Se outros se virarem contra ele,
ver-se-á despojado e roubado.
Os seus pecados serão tais
que lhe trarão inesperados desastres.
Uma pessoa pecadora deste tipo
nunca verá o Buddha,
o rei de todos os sábios,
pregando a Lei,
ensinando e convertendo.
Uma pessoa pecadora deste tipo
nascerá constantemente entre dificuldades,
louco, surdo, confuso em sua mente,
e nunca ouvirá a Lei.
Por incontáveis kalpas,
numerosos como as areias do Ganges,
ele ao nascer ficará surdo e idiota,
com as suas faculdades diminuídas,
residirá constantemente no inferno,
errando por ele como se fosse um jardim,
e aos outros maus caminhos da existência
ele verá como sendo a sua casa.
Camelo, burro, porco, cão –
estas serão as formas que ele tomará.
Por ter caluniado este sutra,
esta é a punição em que incorrerá.
Se ele se tornar um ser humano,
ele será surdo, cego, idiota.
Pobreza, necessidade,
todas as formas de decadência
serão o seu adorno;
abcessos, diabetes,
cicatrizes, crostas, úlceras,
doenças como estas serão os seus trajes.
O seu corpo cheirará sempre mal,
infecto e impuro.
Profundamente apegado à noção de um eu,
ele incorrerá em raiva e ódio;
ardendo em desejos licenciosos,
ele não recusará sequer aves ou bestas.
Por ter caluniado este sutra,
este será o castigo em que incorrerá.
Digo-te, Shariputra,
se eu fosse a descrever os castigos que impendem
sobre as pessoas que caluniam este sutra,
poderia esgotar um kalpa sem nunca chegar ao fim.
Por esta razão
eu te digo expressamente,
não pregues este sutra
a pessoas sem sabedoria.
Mas se existirem alguns de faculdades apuradas,
sábios e compreensivos,
de muita instrução e grande memória,
que busquem a via do Buddhado,
então a pessoas como estes
é permitido pregares este sutra.
Se existirem pessoas que tenham visto
centenas de milhares de milhões de Buddhas,
que tenham plantado boas raízes
e sejam firmes e profundamente empenhadas,
então a estas pessoas
é permitido pregares este sutra.
Se existirem pessoas diligentes,
cultivando constantemente uma mente compassiva
não poupando o corpo ou a vida,
então é permitido pregares este sutra.
Se existirem pessoas
que sejam respeitosas e reverentes,
com as suas mentes concentradas,
separadas da loucura comum,
vivendo isoladas nas montanhas e rios,
a pessoas como estas
é permitido pregares este sutra.
Ainda, Shariputra,
se vires alguém que se afaste das amizades nefastas
e se associe com bons companheiros,
a pessoas como esta
é permitido pregares este sutra.
Se vires um filho de Buddha,
cumprindo os preceitos,
limpo e sem mácula
como uma jóia pura e brilhante,
buscando o Sutra do Grande Veículo,
a pessoas como esta
é permitido pregares este sutra.
Se uma pessoa for isenta de raiva,
recta e gentil por natureza,
compadecendo-se constantemente dos seres viventes,
respeitador e reverente para com os Buddhas,
a pessoas como esta
é permitido pregares este sutra.
Ainda, se um filho de Buddha
no meio de uma grande assembleia,
empregar com uma mente pura
várias causas e condições, metáforas, parábolas
e outras expressões
para pregar a Lei de forma clara,
a pessoas como esta
é permitido pregares este sutra.
Se existirem monges
que pelo bem da clara sabedoria,
procurarem a Lei em todas as direcções,
juntando as palmas das mãos reverentemente,
com gratidão, desejando apenas aceitar
com gratidão o sutra do grande Veículo
e não aceitando um único verso dos outros sutras,
a pessoas como esta
é permitido pregares este sutra.
Se alguém, com seriedade,
procura este sutra
como se buscasse as relíquias de Buddha,
e tendo-o obtido e aceite com gratidão,
sem mostrar intenções de procurar outros sutras
e sem dar nunca mais atenção
aos escritos das doutrinas não budistas,
a pessoas como esta
é permitido pregares este sutra.
Digo-te, Shariputra,
se eu descrevesse as características
daqueles que procuram a via do Buddhado,
poderia esgotar um kalpa
sem completar essa tarefa.
Pessoas deste tipo
são capazes de acreditar e compreender.
Por isso deves pregar-lhes
o Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa.

Capítulo Segundo: Meios Expeditos

      

Nessa altura o Honrado Pelo Mundo despertou calmamente do seu samadhi e dirigiu-se a Shariputra, dizendo: “A sabedoria do Buddha é infinitamente profunda e imensurável. O acesso a esta sabedoria é difícil de compreender e difícil de transpor”.

Nem um dos ouvintes ou dos pratyekabuddhas foi capaz de compreender o que havia sido dito.

“Porque razão isto é assim? O Buddha atendeu e venerou uma centena, um milhar, dez milhares, um milhão, um incontável número de Buddhas, tendo completado um imensurável número de práticas religiosas. Ele esforçou-se com bravura e vigor, e o seu nome é universalmente conhecido. Ele realizou a Lei que é profunda e antes desconhecida, e prega de acordo com o que é apropriado. A sua intenção, porém, é difícil de compreender.

“Shariputra, desde que atingi o Estado Búddhico tenho ensinado várias causas e várias metáforas expondo largamente os meus ensinamentos e utilizei incontáveis meios expeditos para guiar os seres viventes e fazê-los renunciar aos apegos. Porque isto é assim? Porque o Tathagata aperfeiçoou os meios expeditos e o paramita da sabedoria.

“ Shariputra, a sabedoria do Tathagata é profunda e de grande alcance. Ele possui misericórdia imensurável, eloquência ilimitada, poder, coragem, concentração, emancipação e samadhis, ele penetrou profundamente o ilimitado e despertou para a Lei nunca antes obtida.

“Shariputra, o Tathagata sabe como fazer vários tipos de distinções e como expor habilmente os ensinamentos. As suas palavras, suaves e agradáveis, deliciam os corações da Assembléia”.

“Shariputra, direi em resumo: o Buddha realizou inteiramente a Lei ilimitada, nunca antes alcançada”.

“Mas pára, Shariputra, eu não direi mais. Porquê? Porque o que o Buddha conseguiu é a Lei mais rara e mais difícil de entender. A verdadeira natureza dos fenómenos só pode ser compreendida e partilhada entre Buddhas. Esta realidade consiste na aparência, natureza, ser, poder, influência, causa inerente, relação, efeito latente, efeito manifesto e a sua consistência do princípio ao fim.”

Então, o Honrado Pelo Mundo, querendo expor uma vez o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

O herói do mundo é incompreensível.
Entre seres celestiais ou entre as pessoas do mundo,
entre todos os seres viventes,
nenhum pode compreender o Buddha.
O seu poder, coragem,
emancipação e samadhis
e todos os outros atributos de um Buddha,
ninguém consegue calcular ou abarcar.
Previamente, sob a orientação de incontáveis Buddhas, praticou e adquiriu inteiramente várias vias,
doutrinas profundas, subtis e maravilhosas,
difíceis de encontrar e difíceis de entender.
Durante imensuráveis milhões de kalpas
ele praticou deste modo
até que no lugar da iluminação atingiu o objectivo.
Eu já testemunhei e conheço inteiramente
esta grande meta e recompensa,
o sentido destas várias naturezas e características.
Eu e os outros Buddhas das dez direcções
podemos agora entender estas coisas.
Esta Lei não pode ser descrita
e as palavras esgotam-se perante ela.
Entre os outros tipos de seres viventes
nenhum existe que a possa compreender,
excepto aqueles muitos bodhisattvas
que são firmes no poder da fé.
Os muitos discípulos dos Buddhas
deram no passado oferendas aos Buddhas,
cessaram já as suas falhas
e encontram-se agora na sua última encarnação.
Mesmo o poder destas pessoas
está aquém do necessário.
Mesmo que todo o mundo
fosse repleto de homens como Shariputra,
ainda que eles esgotassem todos os seus pensamentos
e unissem as suas capacidades,
não poderiam conceber a sabedoria de Buddha.
Mesmo que as dez direcções estivessem cheias de homens como Shariputra
ou como outros discípulos,
apesar de esgotarem os seus pensamentos e unirem as suas capacidades,
ainda assim não poderiam compreender.
Se pratiekabuddhas, de apuradas faculdades,
sem falhas, na sua última encarnação,
enchessem os mundos nas dez direcções
numerosos como bambus no Ganges,
mesmo que se juntassem com uma só mente
por um milhão ou por incontáveis kalpas,
esperando conceber a verdadeira sabedoria dos Buddhas,
eles não poderiam conceber a mais pequena parte dela.
Se bodhisattvas recentemente embarcados no seu curso
dessem oferendas a inumeráveis Buddhas,
dominassem completamente o intento de várias doutrinas
sendo também capazes de pregar a Lei efectivamente,
numerosos como plantas de arroz ou cânhamo, bambus ou juncos,
enchendo as terras nas dez direcções,
se com uma única mente, com todo o seu maravilhoso conhecimento,
por kalpas numerosos como as areias do Ganges
juntassem os seus pensamentos e capacidades,
não poderiam entender a sabedoria do Buddha.
Se bodhisattvas que não mais retornarão,
em número igual ao das areias do Ganges,
com uma única mente ponderarem e buscarem em conjunto,
também eles não poderão compreender.
Também te anuncio, Shariputra,
que esta Lei, profunda, subtil e maravilhosa
sem falhas, inescrutável,
eu a abarquei na sua totalidade.
Apenas eu entendo as suas características,
tal como a entendem também os Buddhas das dez direcções.
Shariputra, deves saber que os mundos dos vários Buddhas nunca diferem.
Para com a Lei pregada pelos Buddhas
deves cultivar uma grande e poderosa fé.
O Honrado Pelo Mundo expôs longamente a sua doutrina
e agora deve revelar a verdade.
Anuncio a esta Assembléia de ouvintes
e a todos os que seguem o veículo de pratiekabuddha:
Eu tornei possível às pessoas escaparem às cadeias do sofrimento
e atingirem o nirvana.
O Buddha, através do poder dos meios expeditos,
mostrou-lhes os ensinamentos dos três veículos,
conduzindo os seres viventes que estejam perdidos em quaisquer apegos e
permitindo-lhes obter alívio.

Nessa ocasião estavam na grande Assembléia muitos ouvintes, Arhats cujas falhas tinham chegado ao fim, Ajnata Kuandinya seguido por duzentas pessoas. E havia monges e monjas, irmãos e irmãs leigos, que conceberam o desejo de se tornarem ouvintes ou pratyekabuddhas. Cada um destes tinha este pensamento: Porque razão o Honrado Pelo Mundo louva tão veementemente os meios expeditos e afirma que a Lei alcançada pelo Buddha é profunda e difícil de compreender, que nem um dos ouvintes ou dos pratyekabuddhas consegue entendê-la?
Se o Buddha prega apenas uma doutrina de emancipação, então também nós deveríamos abarcar esta Lei e alcançar o estado de nirvana. Não conseguimos seguir o fio do seu discurso.

Então Shariputra entendeu as dúvidas que perpassavam pelas mentes dos quatro tipos de crentes e ele próprio não conseguiu compreender. Daí que se dirigiu ao Buddha, dizendo, “Honrado Pelo Mundo, que causas e condições te levam a louvar tão veementemente os meios expeditos, os superiores instrumentos dos Buddhas, a profunda, subtil e maravilhosa Lei que é difícil de compreender? Nunca no passado eu ouvi este tipo de discurso pregado pelo Buddha. Agora os quatro tipos de crentes têm dúvidas”.
“Rogamos que o Honrado Pelo Mundo explique o sentido destes louvores à Lei que é profunda, subtil, maravilhosa e tão difícil de compreender.”

Então Shariputra, querendo expor uma vez o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Filho da sabedoria, grande e venerável sábio,
Extensamente pregaste esta Lei.
Tu próprio declaraste ter alcançado
poder, coragem, samadhis,
concentração, emancipação e outros atributos,
e a Lei que está além da compreensão –
essa Lei, alcançada no lugar da iluminação,
sobre a qual ninguém te pode questionar.
‘A minha intenção é difícil de conceber,
e ninguém pode questionar-me.’
Ninguém pergunta, ainda assim tu mesmo pregas,
louvando o teu caminho.
A tua sabedoria é subtil e maravilhosa,
é a sabedoria obtida pelos Buddhas.
Os arhats, livres de falhas
e todos os que buscam o nirvana
caíram nas malhas da dúvida,
perguntando-se qual a razão desta pregação de Buddha.
Os que aspiram a pratyekabuddhas,
monges e monjas,
seres celestiais, dragões e espíritos,
bem como os gandarvas e outros,
olham uns para os outros, cheios de perplexidade,
fitando o mais honrado dos bípedes.
Qual é o sentido de tudo isto?
rogo ao Buddha que nos explique.
Entre a Assembléia de ouvintes
o Buddha disse ser eu o mais dotado,
ainda assim sou falho de sabedoria
para resolver estas dúvidas e perplexidades.
Terei eu de facto atingido a suprema Lei,
ou estarei ainda no caminho da prática?
Os filhos nascidos da palavra de Buddha
juntam as mãos, de palmas unidas e esperam fitando-te.
Rogamo-te que soltes subtis e maravilhosos sons
e que agora nos explique as coisas tais como são.
Os seres celestiais, dragões, espíritos e os outros,
em número igual ao das areias do Ganges,
os bodhisattvas aspirando a tornar-se Buddhas
numa grande mole de dezoito mil,
bem como os reis sábios
vindos de milhares de milhões de terras,
todos reverentemente juntam as palmas das mãos
desejando ouvir o ensinamento de perfeitos atributos.

Nessa altura o Buddha dirigiu-se a Shariputra, dizendo, “Parem, parem! Não há utilidade em expor esta matéria. Se eu falar mais, os seres celestiais e humanos através dos mundos ficarão estupefactos e incrédulos.”

Shariputra falou a Buddha uma vez mais dizendo, “Honrado Entre os Homens, rogamo-te que pregues! Porquê? Porque esta Assembléia de incontáveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de asamkias de seres viventes viram os Buddhas no passado; as suas faculdades são vigorosas e apuradas e a sua sabedoria é brilhante. Se eles ouvirem o Buddha pregar, serão capazes de acreditar reverentemente.”

Então Shariputra, querendo expor uma vez o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Rei do Dharma, honrado como ninguém,
falai, nós te rogamos, sem reservas.
Nesta Assembléia de inumeráveis seres
alguns há capazes de reverente fé.

O Buddha repetiu, “Pára, Shariputra! Se eu falar deste assunto, os seres celestiais, humanos e asuras através dos mundos ficarão atónitos e incrédulos. Os monges de arrogância intolerante cairão num grande fosso.”
Então o Honrado Pelo Mundo repetiu em verso o antes tinha dito:

Pára, pára, não é preciso falar!
a minha Lei é maravilhosa e difícil de ponderar.
Aqueles que são de suprema arrogância
quando a ouvirem nunca mostrarão reverente fé.

 

Nessa altura, Shariputra falou uma vez mais a Buddha, dizendo, “Honrado Pelo Mundo, rogamo-te que pregues! Nesta Assembléia as pessoas como eu contam-se às centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões. Era após era atendemos os Buddhas e recebemos instrução. Pessoas deste tipo são certamente capazes de fé reverente. Através da longa noite eles ganharão paz e tranquilidade e usufruirão de muitos benefícios.”

Então Shariputra, desejando explicar-se uma vez mais, falou em verso, dizendo:

Supremamente honrado entre os seres de duas pernas,
rogamo-te que pregues esta suprema Lei.
Eu que sou visto como o mais velho dos filhos de Buddha
peço-te que nos favoreças pregando distinções.
Os incontáveis membros desta Assembléia
são capazes de prestar fé reverente a esta Lei.
Os Buddhas já em eras sucessivas
ensinaram e converteram desta forma.
Todos com uma só mente e com as palmas das mãos unidas
desejamos ouvir e receber as palavras de Buddha.
Eu e os outros doze mil do nosso grupo,
bem como os outros que aspiram a tornar-se Buddhas,
rogamo-te que em prol desta Assembléia
nos favoreças pregando distinções.
Quando ouvirmos esta Lei
ficaremos plenos de alegria.

 

Então o Honrado Pelo Mundo disse a Shariputra, “três vezes declaraste o teu veemente pedido. Que posso eu fazer senão pregar? Agora deves ouvir com atenção e ponderar cautelosamente. Por ti eu irei agora analisar e explicar o assunto.”

Quando ele acabou de dizer estas palavras, houve uns quinhentos monges, monjas, irmãos e irmãs leigos que de imediato se levantaram dos seus lugares, fizeram uma vénia para o Buddha e se retiraram. Qual a razão disto? Estas pessoas tinham raízes de culpa numerosas e profundas, e eram ainda soberbas e arrogantes. O que não atingiram, presumiam ter atingido e supunham compreender o que não tinham compreendido. E por terem esta falha, eles não ficaram nos seus lugares.

O Honrado Pelo Mundo ficou silencioso e não tentou demovê-los.

Nessa altura o Buddha disse a Shariputra, “Agora esta minha Assembléia está livre de ramos e folhas, constituída apenas pelo que é firme e seguro. Shariputra, é bom que estas pessoas de arrogância intolerante tenham saído. Agora ouve com cuidado que eu vou pregar para ti.”

Shariputra disse, “Assim seja. Estamos desejosos de ouvir!”

O Buddha disse a Shariputra, “Uma Lei maravilhosa como esta é pregada pelos Buddhas, os Tathagatas, em certas ocasiões. Mas tal como o florir da udunbara, esses momentos são muito raros. Shariputra, tu e os outros deveis acreditar em mim. As palavras que o Buddha prega não são ocas ou falsas.”

“Shariputra, os Buddhas pregam a Lei de acordo com o que é apropriado, mas o seu significado é difícil de compreender. Porque é assim? Porque nós empregamos incontáveis meios expeditos, discutindo causas e condições e usando metáforas e parábolas para expor os ensinamentos. Esta Lei não é susceptível de ser entendida pela ponderação e análise. Apenas Buddhas podem entendê-la. Porquê? Porque os Buddhas, os Honrados Pelo Mundo, aparecem no mundo por uma só grande razão. Shariputra, o que significa dizer que os Buddhas, os Honrados Pelo Mundo, aparecem no mundo por uma só grande razão?”.

“Os Buddhas, os Honrados Pelo Mundo, desejam abrir a porta da sabedoria Búddhica a todos os seres viventes, para lhes permitir que alcancem a pureza. É por isso que eles aparecem no mundo. Eles desejam acordar os seres viventes para a sabedoria Búddhica, e daí eles aparecerem no mundo. Eles desejam induzir os seres viventes a entrar no caminho da sabedoria Búddhica, daí eles aparecerem no mundo. Shariputra, esta é a grande e única razão pela qual os Buddhas aparecem no mundo.”

O Buddha disse a Shariputra, “Os Buddhas, os Tathagatas, simplesmente ensinam e convertem os Bodhisattvas. Tudo o que fazem é em todas as ocasiões motivado por este propósito. Eles querem simplesmente mostrar a sabedoria Búddhica aos seres viventes e despertá-los para ela.

“Shariputra, os Tathagatas têm apenas um veículo Búddhico que empregam de modo a pregar a Lei aos seres viventes. Eles não têm qualquer outro veículo, nenhum segundo ou terceiro. Shariputra, a Lei pregada pelos Buddhas das dez direcções é igual a esta.

“Shariputra, os Buddhas do passado usaram incontáveis números de meios expeditos, várias causas e condições, metáforas e parábolas, de modo a exporem as doutrinas para bem dos seres viventes. Estas doutrinas são todas pregadas por meio do único veículo Búddhico. Estes seres viventes, ouvindo as doutrinas dos Buddhas, estão todos eventualmente aptos a alcançar a sabedoria que abarca todas as espécies.

“Shariputra, quando os Buddhas do futuro fizerem a sua aparição no mundo, também eles usarão incontáveis números de meios expeditos, várias causas e condições, metáforas e parábolas de modo a exporem as doutrinas em prol dos seres viventes. Estas doutrinas serão todas pregadas por meio do único veículo Búddhico. Estes seres viventes, ouvindo as doutrinas dos Buddhas, estarão todos eventualmente aptos a alcançar a sabedoria que abarca todas as espécies.

“Shariputra, os Buddhas, os Honrados Pelo Mundo, que existem no presente nas incontáveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de terras Búddhicas, nas dez direcções, beneficiam e trazem paz e felicidade aos seres viventes em larga medida. Também estes Buddhas usam incontáveis números de meios expeditos, várias causas e condições, metáforas e parábolas, de modo a exporem as doutrinas em prol dos seres viventes. Estas doutrinas são todas pregadas por meio do único veículo Búddhico. Estes seres viventes, ouvindo as doutrinas dos Buddhas, estão todos eventualmente aptos a alcançar a sabedoria que abarca todas as espécies.

“Shariputra, estes Buddhas simplesmente ensinam e convertem os Bodhisattvas. Eles fazem-no pois querem mostrar a sabedoria Búddhica aos seres viventes. Eles fazem-no pois desejam usar a sabedoria Búddhica para iluminar os seres viventes. Eles fazem-no porque desejam levar os seres viventes a entrar no caminho da sabedoria Búddhica.

“Shariputra, também eu irei agora fazer o mesmo. Eu sei que os seres viventes têm variados desejos e apegos que estão profundamente implantados nas suas mentes. Tendo noção desta sua natureza básica, eu irei portanto usar várias causas e condições, metáforas e parábolas e o poder dos meios expeditos e expor a Lei para eles. Shariputra, eu faço isto de modo a que todos eles possam alcançar o único veículo Búddhico e a sabedoria que abarca todas as espécies.

“Shariputra, quando a era é impura, os tempos são caóticos e as impurezas dos seres viventes são graves, eles são gananciosos e invejosos lançando raízes malsãs. Devido a isto, os Buddhas, utilizam o poder dos meios expeditos, aplicam distinções ao único veículo Búddhico e pregam como se existissem três.

“Shariputra, se algum dos meus discípulos presumir que é um arhat ou um pratyekabuddha e ainda assim não tiver noção nem compreender que os Buddhas, os Tathagatas, simplesmente ensinam e convertem os Bodhisattvas, então ele não é meu discípulo, nem arhat nem pratyekabuddha.

“E ainda, Shariputra, se houver monges ou monjas que presumam terem já alcançado o estado de arhat, estarem na sua última encarnação, terem atingido o nirvana final e que portanto não tenham intenção de procurar anuttara-samyak-sambodhi, então deves saber que pessoas como essas são de suprema arrogância. Porque digo isto? Porque se eles forem monges que verdadeiramente tenham alcançado o estado de arhat, então é impensável que eles não acreditem nesta Lei. A única excepção seria num tempo em que o Buddha se tivesse já extinguido, quando não houvesse qualquer Buddha presente no mundo. Porquê? Porque depois de o Buddha se ter extinguido será muito difícil de encontrar alguém capaz de abraçar, recitar e compreender o sentido de sutras como este. Mas se nessa altura as pessoas encontrarem outro Buddha, então obterão um entendimento decisivo no que respeita a esta Lei.

“Shariputra, tu e os outros devem com uma única mente acreditar e aceitar as palavras dos Buddhas. As palavras dos Buddhas, os Tathagatas, não são ocas nem falsas. Não existe outro veículo, há um só veículo Búddhico.

“Então, o Honrado Pelo Mundo, desejando declarar uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:

Existem monges e monjas
que se comportam com suprema arrogância,
leigos cheios de auto-estima,
leigas falhas de fé.
Entre os quatro tipos de crentes, os iguais a estes
são cinco mil.
Eles não vêm os seus erros,
são descuidados e negligentes no que respeita aos preceitos,
apegados aos seus defeitos e sem vontade de mudar.
Mas estas pessoas de diminuta sabedoria já se foram embora;
a paródia, nesta Assembléia
retirou-se perante a autoridade do Buddha.
Estas pessoas eram pobres de mérito e virtude,
incapazes de receber esta Lei.
Esta Assembléia está agora livre de ramos e folhas,
composta apenas pelo que é firme e seguro.
Shariputra, ouve cuidadosamente
como esta Lei foi obtida pelos Buddhas
e como eles a pregam em prol dos seres viventes
com o poder de incontáveis meios expeditos.
Os pensamentos que estão na mente dos seres viventes,
os diferentes caminhos por eles seguidos,
seus variados desejos e naturezas,
as boas e más acções por eles praticadas nas suas prévias existências –
de tudo isto o Buddha toma conhecimento
e então emprega causalidades, metáforas e parábolas,
palavras que incorporam o poder dos meios expeditos,
por forma a agradar e alegrar a todos.
Por vezes ele prega sutras,
versos, histórias de vidas pretéritas de discípulos,
histórias de vidas pretéritas do Buddha, de coisas sem precedentes.
Noutras alturas ele prega atendendo a causas e condições,
usa metáforas e parábolas, passagens de poesia
ou discursos.
Para aqueles de escassas capacidades que se deleitam na pequena Lei,
que avidamente se apegam ao nascimento e à morte,
e apesar dos inumeráveis Buddhas,
não praticam a profunda e maravilhosa Lei
mas estão perplexos e confusos por uma miriade de problemas –
para esses eu prego o nirvana.
Eu diviso estes meios expeditos
e assim faço-os entrar na sabedoria Búddhica.
Até agora eu nunca vos disse
que vós certamente atingireis a via do Estado Búddhico.
A razão de eu nunca ter pregado dessa forma
foi não ter ainda chegado o momento para isso.
Mas agora é o tempo preciso
em que eu devo pregar decisivamente o Grande Veículo,
e por isso é que eu prego este sutra.
Estes são filhos de Buddha cuja mentes são puras,
que são serenas e de apuradas capacidades,
que sob os auspícios de inumeráveis Buddhas
praticaram a profunda e maravilhosa via.
Para estes filhos de Buddha eu prego este sutra do Grande Veículo.
E eu predigo que estas pessoas
numa futura existência atingirão a via do Estado Búddhico.
Porque no íntimo de suas mentes eles pensam no Buddha
e praticam e mantêm os preceitos,
eles estão certos de alcançar o Estado Búddhico
e ouvindo isto, os seus corpos são inundados de grande alegria.
O Buddha conhece as suas mentes e práticas
e por isso lhes prega o Grande Veículo.
Quando os ouvintes e os bodhisattvas
ouvem esta Lei que eu prego,
assim que ouvem um só verso
todos sem qualquer dúvida serão certos de atingir o Estado Búddhico.
Nas terras Búddhicas das dez direcções
só há uma Lei e um só veículo,
não há dois, não há três,
excepto quando o Buddha assim prega como meios expeditos,
meramente empregando nomes e termos provisórios
por forma a conduzir e guiar os seres viventes
e pregar-lhes a sabedoria Búddhica.
Os Buddhas aparecem no mundo
apenas por esta razão, que é verdadeira;
as outras duas não o são.
Nunca ele usa um veículo inferior
para salvar os seres viventes levando-os na travessia.
O próprio Buddha reside neste Grande Veículo
e adornado com o poder da meditação e da sabedoria
que acompanha a Lei por ele obtida,
ele usa-o para salvar os seres viventes.
Ele próprio testifica a via insuperável,
o Grande Veículo, a Lei na qual todas as coisas são iguais.
Se eu usasse um veículo inferior
para converter ainda que fosse uma só pessoa,
eu seria culpado de agressão e ganância,
mas tal coisa seria impossível.
Se uma pessoa acreditar e tomar refúgio no Buddha,
o Tathagata nunca a engana,
nem alguma vez ele mostrará ganância ou ciúme.
Porque ele desenraizou o mal de entre os fenómenos.
Por isso através das dez direcções
apenas o Buddha é desprovido de medo.
Eu adorno o meu corpo com características especiais
e faço brilhar a minha luz sobre o mundo.
Eu sou honrado por inumeráveis multidões
e para elas eu prego a insígnia da realidade das coisas.
Shariputra, deves saber
que no início eu fiz um voto,
esperando tornar todas as pessoas
iguais a mim, sem qualquer distinção entre nós,
e o que eu há muito esperava
foi agora consumado.
Eu converti todos os seres viventes
e fi-los entrar na via do Estado Búddhico,
esses sem sabedoria ficaram baralhados
e na sua confusão serão incapazes de aceitar os meus ensinamentos.
Eu sei que esses seres viventes nunca no passado cultivaram boas raízes
mas antes se apegaram obstinadamente aos cinco desejos,
e a sua loucura e ânsia deram origem à aflição.
Os seus desejos são a causa pela qual eles caem nos três maus caminhos, atormentados no ciclo dos seis reinos de existência
e padecendo toda a sorte de sofrimentos e dores.
Existência após existência eles crescem
do ventre ao cemitério.
Pessoas de escassa virtude e pequeno mérito,
eles são perturbados e assolados por inúmeros sofrimentos.
Eles extraviam-se pela densa floresta das visões erróneas,
abraçando todas essas sessenta e duas visões.
Estão constantemente comprometidos com falsas e vãs doutrinas,
agarrados firmemente a elas, incapazes de as pôr de lado.
Arrogantes e ufanos de auto-estima,
aduladores e invejosos, de mente insincera,
durante mil, dez mil, um milhão de kalpas
eles não ouvirão o nome de Buddha,
nem ouvirão a correcta Lei –
essas pessoas são difíceis de salvar.
Por estas razões, Shariputra,
eu estabeleci, pelo seu bem, meios expeditos,
ensinando a via que põe um fim a todo o sofrimento
e mostrando-lhes o nirvana.
Mas, embora eu lhes pregue o nirvana,
essa não é a verdadeira extinção.
Todos os fenómenos, desde o mais remoto começo,
trazem sempre consigo as marcas
da extinção tranquila.
Uma vez consumadas as práticas dos filhos de Buddha,
numa futura existência eles estarão aptos a tornar-se Buddhas.
Eu empreguei o poder dos meios expeditos
para expor e demonstrar os três veículos,
mas os Honrados Pelo Mundo
sempre pregam a via do único veículo.
Agora, perante esta grande Assembléia,
eu devo esclarecer todas as dúvidas e perplexidade.
Não existe discrepância nas palavras dos Buddhas,
há apenas um veículo, não dois.
Por inumeráveis kalpas no passado,
incontáveis Buddhas que agora estão extintos,
cem, mil, dez mil, milhões em número incalculável –
esses Honrados Pelo Mundo,
usando diferentes tipos de causas, metáforas e parábolas
e o poder de incontáveis meios expeditos,
expuseram as características dos ensinamentos.
Todos estes Honrados Pelo Mundo
pregaram a doutrina do único veículo,
Convertendo incontáveis seres viventes
e fazendo-os entrar na via do Estado Búddhico.
Todos estes grandes Senhores da Sabedoria,
sabendo o que é desejado no íntimo das mentes
dos seres celestiais e humanos e dos outros seres viventes
através de todos os mundos,
empregaram ainda outros meios expeditos
para ajudar a iluminar a suprema verdade.
Se existem seres viventes
que encontraram estes Buddhas do passado,
e se eles escutaram a sua Lei, ofereceram esmolas,
mantiveram os preceitos, mostrando tolerância,
sendo assíduos, praticando meditação e sabedoria, e nesse sentido,
cultivaram vários tipos de mérito e virtude,
pessoas como estas
atingiram todas a via do Estado Búddhico.
Após estes Buddhas se terem extinto,
se existirem pessoas de mente boa e serena,
então esse tipo de seres viventes
atingiram todos a via do Estado Búddhico.
Depois dos Buddhas se terem extinguido,
se fizerem oferendas às relíquias,
erigindo dez mil ou um milhão de variedades de torres votivas,
usando ouro, prata, cristal,
madrepérola e ágata,
coral, lápis-lazuli, pérolas,
para as purificar e adornar extensamente,
ou se construírem templos mortuários de pedra,
ou de sândalo ou aloés,
hovénia ou outros tipos de madeira,
ou de tijolo, terracota ou argila,
se no meio dos vastos campos
amontoarem terra para fazer um templo mortuário para os Buddhas,
ou mesmo se crianças a brincar
juntarem areia para fazer uma torre votiva,
então, pessoas como estas
atingiram todas a via do Estado Búddhico.
Se existirem pessoas que em prol dos Buddhas
criem e construam imagens,
esculpindo-as com os trinta e dois sinais distintivos,
então todos terão atingido a via do Estado Búddhico.
Ou se fizerem as imagens com os sete tesouros,
ou com cobre, estanho, chumbo, bronze,
madeira, barro ou resina,
para representar e adornar imagens de Buddha,
pessoas como essas alcançaram todas a via do Estado Búddhico.
Se eles empregarem pigmentos para pintar imagens de Buddha,
Conferindo-lhes os cem sinais sagrados,
feitas por si ou encomendadas a outros,
então terão todos alcançado a via do Estado Búddhico.
Mesmo se crianças brincando
usarem folhagem ou galhos,
ou mesmo com a unha
riscarem imagens de Buddha,
pessoas como essas
pouco a pouco irão acumulando mérito
e tornar-se-ão completamente dotadas de uma mente compassiva;
todos eles alcançaram a via do Estado Búddhico.
Simplesmente pela conversão dos bodhisattvas
elas trazem a salvação e o alívio a inumeráveis multidões.
E se alguém, na presença dessas torres votivas,
essas imagens de jóias ou figuras pintadas,
com uma mente reverente fizer ofertas
de flores, incenso, faixas ou dosséis,
ou se contratarem músicos para tocar,
batendo tambores, soprando trompas ou conchas,
tocando flautas, alaúdes ou harpas,
tangendo guitarras, címbalos e gongos,
e se essas variadas e maravilhosas notas
forem entendidas como oferendas;
ou se alguém com uma mente radiante
cantar uma canção em louvor à virtude Búddhica,
mesmo que apenas uma curta nota,
todos os que assim procedem alcançaram a via do Estado Búddhico.
Se alguém com uma mente confusa e distraída,
pegar ainda que apenas numa flor
e a oferecer a uma imagem,
um dia acabará por ver inumeráveis Buddhas.
Ou se uma pessoa fizer uma vénia
ou se prestar obediência,
ou simplesmente juntar as palmas das mãos,
ou apenas levantar uma só mão,
ou conceder não mais do que um ligeiro aceno de cabeça,
e se isto for oferecido a uma imagem,
então a seu tempo ele chegará a ver incontáveis Buddhas.
E se ele mesmo alcançar a via insuperável
e espalhar a salvação por incontáveis multidões,
ele entrará no nirvana não residual
tal como um fogo se extingue quando se esgota o combustível.
Se pessoas com mentes confusas e distraídas
entrarem em torres votivas
e uma vez exclamarem, “Homenagem aos Buddhas!”
então terão alcançado a via do Estado Búddhico.
Se dos Buddhas passados,
quando ainda estavam no mundo ou uma vez extintos,
eles ouvirem ainda que apenas o nome da Lei,
então todos terão alcançado a via do Estado Búddhico.
Os Honrados Pelo Mundo do futuro,
cujo número será incalculável,
esses Tathagatas
também empregarão meios expeditos para pregar a Lei,
e todos estes Tathagatas,
através de incontáveis meios expeditos
salvarão e trarão alívio aos seres viventes,
de modo a que estes entrem na sabedoria Búddhica
que é livre de imperfeições.
Se existirem esses que ouçam a Lei,
então nem um deixará de atingir o Estado Búddhico.
O voto original dos Buddhas
foi de que a via do Estado Búddhico, por eles mesmos praticada,
seja partilhada universalmente entre os seres viventes
de modo a que também eles possam alcançá-la da mesma forma.
Os Buddhas de eras futuras,
ainda que preguem centenas, milhares, milhões,
incontáveis doutrinas,
na verdade fazem-no em prol do veículo único.
Os Buddhas, mais honrados de entre os humanos,
sabem que os fenómenos não têm natureza constante e permanente,
que a semente do Estado Búddhico brota da causalidade,
e por essa razão eles pregam o veículo único.
Mas que estes fenómenos são parte de uma Lei perpétua
e as características do mundo são sempre manifestas –
isto eles ficaram a conhecer no lugar da iluminação
e como líderes e mestres eles pregam meios expeditos.
Os Buddhas actualmente existentes nas dez direcções,
a quem os seres celestiais e humanos fazem oferendas,
que em número são como as areias do Ganges,
apareceram no mundo
de modo a trazer a paz e o conforto aos seres viventes,
e também eles pregam a Lei desta forma.
Eles entendem as acções dos seres viventes,
os pensamentos que jazem no fundo das suas mentes,
as acções cometidas no passado,
os seus desejos, natureza, o poder dos seus esforços,
se as suas capacidades são apuradas ou fracas,
e assim eles empregam várias causas e condições,
metáforas, parábolas e outras palavras e frases,
adoptando quaisquer meios expeditos que sejam adequados à sua pregação.
Agora também eu sou assim;
por forma a trazer paz e conforto aos seres viventes
emprego várias doutrinas diferentes
para disseminar a via do Estado Búddhico.
Através do poder da minha sabedoria
eu sei a natureza e os desejos dos seres viventes
e com meios expeditos prego estas doutrinas,
fazendo com que todos os seres viventes alcancem contentamento e alegria.
Shariputra, deves compreender
que eu vejo as coisas através do olho Búddhico,
eu vejo os seres viventes nos seis reinos,
quão pobres e angustiados eles são, sem mérito ou sabedoria,
como eles entram na perigosa estrada do nascimento e da morte,
os seus sofrimentos continuando sem cessar,
quão profundamente eles estão apegados aos cinco desejos,
como um yake enamorado da sua cauda,
cegando-se com a ganância e a presunção,
a sua visão deteriorada até nada conseguirem ver.
Eles não procuram o Buddha, com o seu grande poder,
ou a Lei que pode pôr fim aos seus sofrimentos,
mas embrenham-se nas suas noções erróneas,
esperando libertar-se do sofrimento com mais sofrimento.
Pelo bem destes seres viventes eu gero uma mente de grande compaixão.
Quando no início ocupei o lugar da iluminação,
pelo espaço de três vezes sete dias eu ponderei este assunto,
fitando a árvore ai existente e andando à sua volta.
A sabedoria que eu obtive, pensei,
é subtil, maravilhosa e suprema,
mas os seres viventes estão embotados pela ignorância,
dependentes do prazer e cegos pela estupidez.
Com pessoas como estas,
que posso dizer, como posso eu salvá-las?
Nessa ocasião os reis Brahma,
em conjunto com o rei celestial Shakra,
os Quatro Reis Celestiais que guardam o mundo
e o rei celestial Grande Liberdade,
na companhia de outros seres celestiais
e das suas centenas de seguidores,
reverentemente juntaram as palmas das suas mãos e fizeram uma vénia,
rogando-me que fizesse girar a roda da Lei.
De imediato pensei para comigo
que se eu meramente louvasse o veículo Búddhico,
os seres viventes, atolados no seu sofrimento,
seriam incapazes de acreditar nesta Lei.
Assim, por rejeitarem a Lei e não crerem nela,
eles cairiam nos três maus caminhos
Seria melhor que eu não pregasse a Lei
mas antes entrasse rapidamente no nirvana.
Então os meus pensamentos viraram-se para os Buddhas do passado
e para o poder dos meios expeditos por eles empregues,
e pensei que a via que eu tinha então alcançado
devia igualmente ser pregada como três veículos.
Quando assim pensei,
todos os Buddhas das dez direcções me apareceram
e com sons Brahma confortaram-me e instruíram-me.
“Muito bem, Shakyamuni!” disseram eles.
“Supremo líder e mestre,
tu alcançaste a Lei insuperável.
Mas seguindo o exemplo de todos os outros Buddhas,
empregarás o poder dos meios expeditos.
Nós também obtivemos a mais maravilhosa, a suprema Lei,
mas em prol dos seres viventes
fazemos distinções e pregamos os três veículos.
Pessoas de pequena sabedoria deleitam-se numa pequena Lei,
incapazes de acreditar que eles mesmos se podem tornar Buddhas.
Por isso nós pregamos meios expeditos,
fazendo distinções e pregando vários objectivos,
Mas ainda que preguemos os três veículos,
fazemo-lo por forma a instruir os bodhisattvas.”
Shariputra, deves entender isto,
quando eu ouvi estes santos leões
e a sua profunda, pura, subtil, maravilhosa voz,
eu rejubilei e chorando disse “ Homenagem aos Buddhas!”
Então pensei para comigo,
eu vim a este impuro e malévolo mundo
e de acordo com o que estes Buddhas pregaram,
eu devo agir segundo o seu exemplo.
Após ter tido estes pensamentos
segui de imediato para Varanasi (Benares).
As marcas da extinção tranquila de todos os fenómenos
não podem ser expressas por palavras,
por isso eu usei o poder dos meios expeditos
para pregar aos cinco ascetas.
A isto eu chamei “girar a roda da Lei”,
também utilizei os sons “nirvana”,
“arhat”, “Dharma” e “Sanga” –
vários termos para indicar distinções.
“Desde há infinitos kalpas no passado
eu tenho elogiado e ensinado a Lei do nirvana,
pondo fim ao longo sofrimento do nascimento e da morte.”
Assim eu costumo pregar.
Shariputra, deves saber isto,
quando olhei para os filhos de Buddha,
vi incalculáveis milhares, dezenas de milhar, milhões
que decidiram seguir a via do Estado Búddhico,
todos com uma mente respeitosa e reverente,
todos vindo ao encontro do lugar do Buddha,
pessoas que no passado ouviram outros Buddhas
e ouviram a Lei pregada segundo meios expeditos.
De imediato eu pensei
que a razão do aparecimento do Tathagata
é ele poder pregar a sabedoria Búddhica.
Agora é precisamente o momento para isso.
Shariputra, deves compreender
que pessoas de fracas capacidades e pequena sabedoria,
apegadas às aparências, orgulhosas e arrogantes,
são incapazes de acreditar nesta Lei.
Agora eu, alegre e destemido,
ponho de lado francamente os meios expeditos,
e prego unicamente a Via insuperável.
Quando os bodhisattvas ouvirem esta Lei,
serão libertados de todas os emaranhados da dúvida.
As doze centenas de Arhats,
também eles atingirão o Estado Búddhico.
Seguindo o modelo que os Buddhas
dos três períodos de tempo
empregam para pregar a Lei,
eu farei agora da mesma forma,
pregando a Lei que é isenta de distinções.
Os tempos em que os Buddhas aparecem no mundo são muito espaçados entre si
e difíceis de encontrar.
Mesmo quando aparecem no mundo
é-lhes difícil pregar a Lei.
Através de incalculáveis, inumeráveis kalpas
é raro esta Lei ser ouvida
e alguém capaz de a ouvir é igualmente raro.
É como a flor da udumbara
que deleita o mundo, adorada por todos,
olhada como rara por seres celestiais e humanos,
e que aparece apenas uma vez em muitas eras.
Se uma pessoa ouve esta Lei,
se deleita com ela e a louva,
mesmo que profira apenas uma palavra,
faz com isso oferendas a todos os Buddhas dos três períodos de tempo.
Mas uma pessoa assim é rara de encontrar,
mais do que a flor da udumbara.
Não deves ter dúvidas,
sendo eu o rei das doutrinas,
faço esta proclamação a toda a grande Assembléia.
Eu emprego apenas a via do veículo único
para converter e instruir os bodhisattvas,
não tenho discípulos ouvintes.
Tu, Shariputra,
e todos os ouvintes e bodhisattvas,
devem compreender que esta maravilhosa Lei
é o segredo essencial dos Buddhas.
Neste mundo maligno das cinco impurezas
esses que apenas se apegam aos desejos
deleitando-se com eles,
seres viventes como esses,
no final nunca procurarão a via do Estado Búddhico.
Quando pessoas malévolas de eras futuras
ouvirem o Buddha pregar o veículo único,
ficarão confusas, sem o acreditar ou aceitar,
rejeitarão a Lei e cairão nos maus caminhos.
Mas quando existirem pessoas modestas e puras,
determinadas a procurar a via do Estado Búddhico,
então, pelo seu bem,
eu devo louvar a via do veículo único.
Shariputra, deves entender isto,
assim é a Lei dos Buddhas.
Empregando dez mil, um milhão de meios expeditos,
eles pregam a Lei de acordo com o que é apropriado.
Os que não são versados neste assunto
não podem compreender inteiramente.
Mas tu e os outros já sabem
como os Buddhas, os mestres do mundo, empregam meios expeditos
de acordo com o que é apropriado.
Não tereis mais dúvidas ou perplexidades
mas, com as vossas mentes plenas de alegria,
sabereis que voz mesmos haveis de atingir o Estado Búddhico.

                                         

O SUTRA DO LÓTUS

                                               

Traduzido a partir da versão inglesa de Burton Watson
Tradução ao Português de João Rodrigues.

Capítulo I: Introdução

Assim eu ouvi:

Certa época estava Buddha em Rajagriha, no monte Gridhrakuta. A acompanhá-lo estava uma multidão de monges em número de doze mil. Todos eram Arhats cujas falhas tinham chegado ao fim, sem mais desejos mundanos, que haviam alcançado o que era de sua vantagem, pondo fim às cadeias da existência, e cujas mentes haviam obtido um estado de liberdade.

Os seus nomes eram Ajanota Kaudinya, Mahakashiapa, Uruvilvakashiapa, Gaiakashiapa, Nadikashiapa, Shariputra, Grande Maudgalyayana, Mahakatyayana, Anirudda, Kapphina, Gavampati, Revata, Pilindavatsa, Bakkula, Mahakaushtila, Nanda, Sundarananda, Purna Maitrayaniputra, Subhuti, Ananda e Rahula. Todos eram como estes, grandes Arhats bem conhecidos .

Ali estavam também duas mil pessoas, algumas das quais ainda estavam a aprender e outras tinham completado o seu aprendizado.

Ali estava a monja Mahaprajapati com seis mil seguidoras. Aí estava também a mãe de Rahula, a monja Yashodhara, com suas seguidoras.

Ali estavam bodhisattvas e mahasattvas, dezoito mil, todos sem regressão na sua busca por anuttara-samyak-sambodhi. Todos tinham ganhado dharanis e eram eloquentes, tendo-se deleitado na pregação, fazendo girar a irreversível Roda da Lei. Tinham feito ofertas a centenas de milhares de Buddhas, na presença de vários Buddhas tinham plantado numerosas raízes de virtude, tendo sido constantemente louvados pelos Buddhas, treinaram-se na compaixão, sendo valorosos a entrar na sabedoria Búddhica, penetraram completamente a grande sabedoria atingindo assim a outra margem. A sua fama espalhou-se através de mundos incomensuráveis e foram capazes de salvar incontáveis centenas de milhares de seres viventes.

Os seus nomes eram Bodhisattva Manjushri, Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo [Avalokitesvara], Bodhisattva Investido da Grande Autoridade, Bodhisattva Esforço Constante, Bodhisattva Sem Descanso, Bodhisattva Palmeira de Jóias, Bodhisattva Rei da Medicina, Bodhisattva Dador Intrépido, Bodhisattva Lua de Jóias, Bodhisattva Luar, Bodhisattva Plenilúnio, Bodhisattva Grande Força, Bodhisattva Força Imensurável, Bodhisattva Transcendência do Triplo Mundo, Bodhisattva Bhradrapala, Bodhisattva Maitreya, Bodhisattva Tesouro de Jóias e Bodhisattva Grande Líder. Bodhisattvas e mahasattvas como estes em número de dezoito mil tinham acorrido.

Nessa altura, o Indra Shakra Devanam com os seus seguidores, vinte mil filhos de deuses, também acorreram. Aí estavam também os filhos dos deuses Lua Rara, Fragrância Penetrante, Brilho de Jóias, e os quatro Grandes Reis Celestiais, com os seus seguidores, dez mil filhos de deuses.

Estavam presentes os filhos dos deuses Liberdade e Grande Liberdade com seus seguidores, trinta mil filhos de deuses. Estavam presentes o Rei Brahma, Senhor do mundo Saha, o grande Brahma Shikhin e o grande Brahma Brilho Luminoso, todos com os seus seguidores, doze mil filhos de deuses.

Aí estavam oito Reis dragões, o Rei dragão Nanda, o Rei dragão Upananda, o Rei dragão Sagara, o Rei dragão Vasuki, o Rei dragão Takshaka, o Rei dragão Anavatapta, o Rei dragão Manasvin, o Rei dragão Uptalaka, cada um com várias centenas de milhares de seguidores.

Aí estavam quatro reis kimnara, o Rei kimnara Grande Lei e o Rei kimnara Sustentando a Lei, cada um com várias centenas de milhares de seguidores.

Aí estavam quatro reis asura, o Rei asura Balin, o Rei asura Kharaskandha, o Rei asura Vemachitrin e o Rei asura Rahu, cada um com várias centenas de milhares de seguidores.

Aí estavam também quatro reis garuda, o Rei garuda Grande Magestade, o Rei garuda Grande Corpo, o Rei garuda Grande Plenitude e o Rei garuda Satisfação dos Desejos, cada um com várias centenas de milhares de seguidores.

Cada um destes, depois de se prostrar em reverência aos pés de Buddha, recuou e tomou assento a um lado.

Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, rodeado pelos quatro tipos de crentes, recebeu oferendas e sinais de respeito e foi honrado e louvado. Em prol dos bodhisattvas, pregou o sutra do Grande Veículo intitulado Incomensuráveis Significados, uma Lei para instruir os bodhisattvas, uma Lei que é guardada e mantida em mente pelos Buddhas.

Quando Buddha acabou de pregar este sutra, sentou-se em posição de lótus e entrou no samadhi do Lugar de Incomensuráveis Significados, seu corpo e mente imóveis. Nesse momento, caiu do céu uma chuva de flores de mandarava, de grandes flores de mandarava, de flores de manjushaka e de grandes flores de manjushaka, espalhando-se sobre Buddha e sobre a grande assembleia e todo o mundo Búddhico estremeceu em seis direcções diferentes.

Nessa altura os monges, monjas, irmãos e irmãs leigos, seres celestiais, dragões, yakshas, gandarvas, asuras, garudas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos bem como os reis piedosos e os reis sábios, todos na grande assembleia, tendo ganhado o que nunca antes possuiram, encheram-se de alegria e juntando as palmas das mãos, fitaram Buddha com uma só mente.

Nessa altura, Buddha emitiu um raio de luz do tufo de pêlo branco entre as suas sobrancelhas, um dos seus sinais distintivos, iluminando dezoito mil mundos na direcção de Oeste. Não houve lugar algum onde a luz não penetrasse, alcançando desde baixo o inferno de Avishi até ao alto, o céu de Akanishtha.

Ficaram então visíveis os seres vivos nos seis reinos de existência em todos esses outros mundos. Da mesma forma, podiam ser vistos os Buddhas presentes nesse momento nessas outras terras e eram audíveis os sutras que esses Buddhas estavam a expor. Ao mesmo tempo, podiam ser vistos os monges, monjas, irmãos e irmãs leigos que desenvolviam práticas religiosas tendo encontrado o caminho. Podiam ser vistos os bodhisattvas e mahasattvas que, mediante várias causas e condições, vários tipos de fé e compreensão e diferentes formas e aspectos, estavam cultivando a via do bodhisattva. Podiam também ser vistos os Buddhas que tinham entrado no parinirvana e torres adornadas com os sete tesouros sendo erigidas para as suas relíquias.

Nesse momento, o Bodhisattva Maitreya teve este pensamento: O Honrado Pelo Mundo manifestou estes miraculosos sinais. Qual a causa destes auspiciosos indícios? Agora o Buddha, o Honrado Pelo Mundo, entrou em samadhi. Um evento tão incompreensível como este é muito raro de presenciar. A quem poderei questionar acerca disto? Quem poderá responder-me?

E então, teve ainda este pensamento: Este Manjushri, filho de um Rei do Dharma, já pessoalmente assistiu e deu oferendas a um incomensurável número de Buddhas no passado. Decerto presenciou já estes raros sinais. Irei questioná-lo.

Nessa ocasião, monges, monjas, irmãos e irmãs leigos, bem como os seres celestiais, dragões, espíritos e outros todos tiveram este pensamento: “Este raio de luz vindo de Buddha, estes sinais de poderes transcendentais – a quem poderemos questionar acerca deles?”

Nessa altura o Bodhisattva Maitreya quis esclarecer as suas dúvidas quanto a essa questão. Além disso, podia ver o que ia na mente dos quatro tipos de crentes, os monges, monjas, irmãos e irmãs leigos, bem como os seres celestiais, dragões, espíritos e os outros que constituíam a assembleia. Então questionou Manjushri, dizendo, “Qual é a causa destes auspiciosos sinais, estes indícios de poderes transcendentais, esta emissão de um raio brilhante que ilumina os dezoito mil mundos na região Oeste de tal forma que podemos ver todos os adornos das Terras Búddhicas aí existentes?”

Então, o Bodhisattva Maitreya, desejando explicar-se novamente, fez a pergunta em verso:

Manjushri,
Porque é que a partir do tufo branco entre as sobrancelhas
do nosso líder e instrutor,
brilha esta grande luz?
Porque do céu
chovem flores de mandarava e manjushaca
e brisas perfumadas de sândalo
deliciam os corações da assembleia?
Devido a isto,
em toda a parte a terra está adornada e purificada
e este mundo
estremece em seis diferentes direcções.
Com isto, os quatro tipos de praticantes
encheram-se de alegria e deleite,
rejubilando no corpo e na mente,
tendo ganho o que nunca antes haviam conseguido.
O raio luminoso de entre as sobrancelhas
ilumina a direcção Oeste
e dezoito mil terras
são da cor do ouro.
Desde o inferno de Avichi
até ao Cume do Ser,
através dos vários mundos
os seres vivos nos seis caminhos,
o plano para onde tendem os seus nascimentos e mortes,
as suas boas e más acções,
as agradáveis ou adversas recompensas que recebem –
tudo isto pode ser visto daqui.
Podemos também ver os Buddhas,
esses senhores da sabedoria, leões,
expondo e pregando sutras subtis,
maravilhosos e supremos.
As suas vozes são claras e puras,
Emitindo sons suaves e calmos,
enquanto ensinam inumeráveis milhões de bodhisattvas.
Os seus sons Brahma são profundos e maravilhosos,
provocando deleite em quem os ouve.
Cada um no seu mundo
prega a Lei correcta,
segundo várias causas e condições
e empregando inumeráveis metáforas,
iluminando a Lei do Buddha,
guiando seres vivos até à iluminação.
Se alguém tiver de encontrar problemas,
amargando a velhice, a doença e a morte,
os Buddhas pregam para ele acerca do Nirvana,
explicando-lhe como pôr fim a todas as dificuldades.
Se alguém for afortunado,
tendo no passado feito ofertas aos Buddhas,
determinado em procurar uma Lei superior,
os Buddhas pregam a via dos pratiekabuddha.
Se houver filhos de Buddha
que empreendam várias práticas religiosas,
procurando obter a sabedoria insuperável,
os Buddhas pregam a via da pureza.
Manjushri,
eu tenho estado aqui,
vendo e ouvindo desta forma
centenas de milhões de coisas.
Numerosas como são,
eu falarei delas abreviadamente.
Vejo nestas terras
bodhisattvas numerosos como as areias do Ganges,
de acordo com várias causas e condições
e procurando o caminho do Buddha.
Alguns deles dão esmolas,
ouro prata, coral,
pérolas, lápiz-lazuli,
madrepérola, ágata,
diamantes e outras raridades,
servas e servos, carruagens,
liteiras cravejadas de jóias, palanquins,
apresentando alegremente estes donativos.
Eles davam tais ofertas à via do Buddhado,
desejando atingir o veículo
que detém a primazia nos três mundos
e é louvado pelos Buddhas.
Existem alguns bodhisatvas
que oferecem carruagens cravejadas de jóias, puxadas por quadrigas
com armações e pálios floridos
adornando os lados e o topo.
Vejo ainda bodhisattvas
que alegremente oferecem
a sua pele, mãos e pés,
ou as mulheres e os seus filhos,
buscando a via inexcedível.
Vejo também bodhisattvas
que alegremente dão
suas cabeças, olhos, corpos e membros
na sua busca pela sabedoria de Buddha.
Manjushri,
vejo reis
visitando o Buddha
para o questionar acerca da via inexcedível.
Eles põem de lado as suas boas terras,
os seus palácios, os seus servos e servas,
rapam o seu cabelo e barba
e envergam as roupas do Dharma.
Vejo também bodhisattvas
convertidos em monges,
vivendo sozinhos em quietude,
deleitando-se com a recitação de sutras.
Vejo ainda bodhisattvas
esforçando-se com vigor e bravura,
internando-se nas montanhas ,
com os seus pensamentos no caminho do Buddhado.
E vejo-os renunciando ao desejo,
constantemente imersos na vacuidade e na quietude,
aprofundando a prática da meditação
até conquistarem os cinco poderes transcendentais.
E vejo bodhisattvas,
repousando em meditação, as palmas das mãos juntas,
com mil, dez mil versos
louvando o rei das doutrinas.

Vejo ainda bodhisattvas,
de profunda sabedoria e firme propósito,
que sabem como questionar os Buddhas
e aceitar e cumprir tudo o que assim ouvem.
Vejo filhos de Buddhas
proficientes quer na meditação quer na sabedoria,
que usam imensuráveis números de metáforas
para expor a Lei à assembleia,
deleitando-se na pregação da Lei,
convertendo os bodhisattvas,
derrotando as legiões do demónio
e fazendo soar os tambores do Dharma.
Vejo bodhisattvas
profundamente imóveis e silenciosos,
honrados por seres celestiais e dragões,
sem que isso os inebrie.
E vejo bodhisattvas
vivendo em florestas, emitindo luz,
salvando os que sofrem no inferno,
fazendo-os entrar no caminho do Buddhado.
Vejo filhos de Buddha
que nunca dormem
e que circulam pela floresta
diligentemente à procura do caminho do Buddhado.
E vejo aqueles que observam os preceitos
numa conduta sem mácula,
pura como jóias ou pedras preciosas,
dessa forma buscando o caminho do Buddhado.
E vejo filhos de Buddha
tolerando com força inquebrantável
os insultos e agressões
de pessoas prepotentes e arrogantes,
e dessa forma procurando o caminho do Buddhado.
Vejo bodhisattvas
furtando-se à frivolidade, ao riso
e às companhias tolas,
amigando-se dos sábios,
unificando as suas mentes, dissipando a confusão,
ordenando os seus pensamentos na montanha e na floresta
por, mil, dez mil, um milhão de anos,
dessa forma procurando o caminho do Buddhado.
Vejo bodhisattvas
com bebidas e iguarias deliciosas
e centenas de diferentes poções medicinais,
oferecendo tudo isso ao Buddha e aos seus monges;
mantos finos,
vestuário luxuoso e de preço elevado,
ou mantos de valor incalculável,
oferecendo-os a Buddha e aos seus monges;
mil, dez mil, um milhão
de variadas moradias feitas de sândalo
e inúmeros e maravilhosos artigos de enxoval,
oferecendo-os a Buddha e aos seus monges;
imaculados bosques e jardins
onde abundam frutos e flores,
nascentes generosas e lagoas,
oferecendo-os a Buddha e aos seus monges;
ofertas deste tipo,
em inúmeras e maravilhosas variedades
oferecidas de bom grado e sem hesitações
enquanto procuram a via inexcedível.
Ou ainda, bodhisattvas
que expõem a Lei da extinção tranqüila
a inumeráveis seres viventes.
Ou ainda Bodhisattvas
vendo a natureza dos fenômenos
como isenta de dualidade,
sendo como espaço vazio.
E vejo filhos de Buddha
cujas mentes não têm apegos,
que usam esta sabedoria maravilhosa
para procurarem a via inexcedível.

Manjushri,
existem também bodhisattvas
que após o passamento do Buddha
fazem oferendas às suas relíquias.
Vejo filhos de Buddha
construindo torres votivas
numerosas como as areias do Ganges,
ornamentando com elas cada terra,
torres de jóias, altaneiras e maravilhosas,
quinhentas yojanas de altura,
comprimento e largura
exactamente duzentos yojanas,
cada uma destas torres votivas
com os seus mil estandartes e fitas,
com cortinas bordadas com jóias como orvalho
e sinos de jóias tinindo harmoniosamente.
Aí seres celestiais, dragões, espíritos,
seres humanos e não humanos,
com incenso, flores e música
constantemente fazendo oferendas.
Manjushri,
estes filhos de Buddha
por forma a fazerem oferendas às relíquias
adornam as torres votivas
de modo que cada terra, tal como é,
é tão excepcionalmente maravilhosa e encantadora
como o celestial rei das árvores
quando as suas flores abrem e desabrocham.
Quando Buddha emite um raio de luz
eu e outros membros da assembleia
podemos ver essas terras
em todas as suas variadas e excepcionais maravilhas.
Os poderes sobrenaturais dos Buddhas
e a sua sabedoria são deveras raras;
emitindo um puro raio de luz,
os Buddhas iluminam terras sem conta.
Eu e os outros vimos isto,
e ganhamos algo antes desconhecido.
Filho de Buddha, Manjushri,
peço-te que esclareças as dúvidas da assembleia.
Os quatro tipos de crentes olham em alegre antecipação,
fitando-nos ambos.
Porquê o Honrado Pelo Mundo
emitiu este raio de luz?
Filho de Buddha, dá-me prontamente uma resposta,
esclarece estas dúvidas dando lugar à alegria!
Que ricos benefícios virão
da projecção deste raio de luz?
Deve ser o caso de o Buddha querer expor
a maravilhosa Lei por ele obtida
quando se sentou no lugar da iluminação.
Ele deve ter profecias para outorgar.
Ele mostrou-nos terras Búddhicas –
com o adorno e pureza de múltiplos tesouros,
e nós vimos os seus Buddhas –
isto não pode ter sido feito sem razões válidas.
Manjushri, vós deveis saber.
os quatro tipos de crentes, os dragões e espíritos
fitam-te expectantes,
imaginando que explicação irás dar.

Nessa altura Manjushri disse ao bodhisattva e mahasattva Maitreya e aos outros grandes homens: “Bons homens, suponho que o Buddha, o Honrado Pelo Mundo, deseja expor agora a grande Lei, soprar a concha da grande Lei, bater o tambor da grande Lei, elucidar o significado da grande Lei. Bons homens, vi no passado estes auspiciosos fenômenos entre os Buddhas. Eles emitem um raio de luz como este, e a seguir expõem a grande Lei. Por conseguinte devemos entender que agora, quando o presente Buddha manifesta esta luz, ele fará da mesma forma. Ele deseja fazer com que todos os seres vivos ouçam e compreendam a Lei, a qual é difícil para o mundo entender. Assim manifestou ele estes auspiciosos fenômenos.
“Bons homens, uma vez, num tempo passado há incontáveis, ilimitados, inconcebíveis asamkhia kalpas, existiu um Buddha chamado Brilho do Sol e da Lua (Candrasûryapradîpa), Tathagata, merecedor de ofertas, de conhecimento recto e universal, clarividência e conduta perfeitas, bem sucedido, compreendendo o mundo, inexcedivelmente meritório, instrutor de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buddha, Honrado Pelo Mundo, que expôs a correcta Lei. A sua exposição era boa no início, boa no meio e boa no fim. O significado era profundo e vasto, as palavras eram hábeis e maravilhosas, Era pura e sem misturas, completa, limpa e sem mácula, ostentando as marcas das práticas Brahma.”

Em prol daqueles que procuravam tornar-se ouvintes ele expôs a Lei das quatro nobres verdades, de modo a transcenderem o nascimento, a velhice, a doença e a morte e assim alcançarem o nirvana. Em prol dos que procuravam tornar-se pratyekabuddhas ele expôs a Lei dos doze Nidanas (doze elos interligados de causalidade). Em prol dos aspirantes a bodhisattvas ele expôs os seis paramitas, fazendo-os atingir anuttara-samyak-sambodhi e adquirir a sabedoria que abarca todas as espécies.”

“Nessa altura, havia outro Buddha também chamado Brilho do Sol e da Lua, e ainda um outro Buddha também chamado Brilho do Sol e da Lua. Aí existiam vinte mil Buddhas como este, todos com o mesmo título, todos chamados Brilho do Sol e da Lua. E todos tinham o mesmo apelido, o apelido Bharadvaja. Maitreya, deves compreender que do primeiro ao último Buddha, todos tinham o mesmo título, todos eram nomeados Brilho do Sol e da Lua. Eram merecedores de todos os dez epítetos e a Lei que expunham era boa no início, boa no meio e boa no fim.”

O último desses Buddhas, quando não tinha ainda deixado a vida familiar, tinha oito filhos príncipes. O primeiro chamava-se Dotado de Intenção, o segundo Boa Intenção, o terceiro Intenção Desmedida, o quarto Intenção de Jóias, o quinto Intenção Reforçada, o sexto Intenção Limpa de Dúvidas, o sétimo Intenção Reverberante e o oitavo Intenção da Lei. A dignidade e a virtude eram-lhes fáceis e cada um presidia a um reino de quatro continentes.”

“Quando estes príncipes ouviram dizer que seu pai tinha abandonado a vida familiar e ganho anuttara-samyak-sambodhi, renunciaram todos às suas posições principescas e seguiram-no deixando também as suas famílias. Concebendo um desejo pelo Grande Veículo, levaram constantemente a cabo práticas Brahma, e todos se tornaram mestres da Lei. Eles tinham plantado já raízes de virtude na companhia de mil, dez mil Buddhas.”

Nessa ocasião o Buddha Brilho do Sol e da Lua pregou o sutra do Grande Veículo intitulado Imensuráveis Significados, uma Lei para instruir os Bodhisattvas, uma Lei que é guardada e mantida em mente pelos Buddhas. Quando ele acabou de pregar o sutra, sentou-se em posição de lótus e entrou no samadhi do Lugar de Incomensuráveis Significados, seu corpo e mente imóveis. Nesse momento, caiu do céu uma chuva de flores de mandarava, grandes flores de mandarava, flores de manjushaka e grandes flores de manjushaka, espalhando-as sobre o Buddha e sobre a grande assembleia e todo o mundo Búddhico estremeceu em seis direcções diferentes”.

“Nessa altura os monges, monjas, irmãos e irmãs leigos, seres celestiais, dragões, yakshas, gandarvas, asuras, garudas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos na assembleia, bem como os reis piedosos e os reis sábios – todos na grande assembleia, tendo ganho o que nunca obtiveram antes, encheram-se de alegria e juntando as palmas das mãos, fitaram o Buddha com uma só mente.”

“Nessa altura, Buddha emitiu um raio de luz do tufo de pêlo branco entre as suas sobrancelhas, um dos seus sinais distintivos, iluminando dezoito mil mundos na direcção Oeste. Não houve lugar onde a luz não penetrasse, tal como o viste iluminar agora estas terras Búddhicas”.

Maitreya, deves entender isto; nessa ocasião estavam presentes na assembleia vinte milhões de bodhisattvas, alegres e ansiosos por receberem a Lei. Quando estes bodhisattvas viram esse raio de luz que iluminou em toda a parte as terras Búddhicas, ganharam o que nunca tinham obtido. Eles desejaram conhecer as causas e condições que ocasionaram essa luz.

“Nessa altura existia um bodhisattva chamado Maravilhosamente Brilhante(Varaprabha) que tinha oitocentos discípulos. Então o Buddha Brilho do Sol e da Lua despertou do seu samadhi e devido ao bodhisattva Maravilhosamente Brilhante, pregou o Sutra do Grande Veículo chamado Lótus da Lei Maravilhosa (Saddharma-Pundarika), uma lei para instruir os bodhisattvas, uma Lei que é guardada e mantida em mente pelos Buddhas. Por dezasseis pequenos kalpas o Buddha permaneceu no seu assento, sem se levantar, e os ouvintes na assembleia também permaneceram sentados por dezasseis pequenos kalpas, seus corpos e mentes imóveis. No entanto, parecia-lhes terem estado a escutar o Buddha pregar por não mais do que o tempo de uma refeição. Nessa ocasião não havia na assembleia uma única pessoa que no corpo ou na mente tivesse o menor sentimento de cansaço.”

Quando o Buddha Brilho do Sol e da Lua acabou de pregar este sutra após um período de dezasseis pequenos kalpas, falou estas palavras para os Brahmas, demónios, shramanas e Brahmans, bem como para os seres celestiais e humanos e os asuras na assembleia, dizendo, ”Esta noite, à meia noite o Tathagata extinguir-se-á entrando no nirvana absoluto.”

“Nessa altura existia um bodhisattva chamado Repositório de Virtudes. O Buddha Brilho do Sol e da Lua outorgou-lhe uma profecia, anunciando aos monges, “Este bodhisattva Repositório de Virtudes será o próximo a tornar-se um Buddha.. Ele será chamado Puro Corpo, Tathagata, arhat, samiak-sambuddha.”

Depois do Buddha ter acabado de fazer esta profecia, à meia noite entrou no nirvana absoluto.”

Após a extinção do Buddha, o bodhisattva Maravilhosamente Brilhante promoveu o Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa por um período de oito completos pequenos kalpas expondo-o para outros. Os oito filhos do Buddha Brilho do Sol e da Lua reconheceram Maravilhosamente Brilhante como seu mestre. Maravilhosamente Brilhante pregou-lhes e converteu-os criando neles a firme determinação de alcançarem anuttara-samyak-samboddhi. Estes príncipes deram ofertas a imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de Buddhas, e depois disso todos eles atingiram o Buddhado. O último a tornar-se um Buddha foi chamado Tocha Ardente.”

Entre os oitocentos discípulos de Maravilhosamente Brilhante havia um chamado Ávido de Fama. Ele ansiava por feitos e aplausos, e apesar de ler e recitar numerosos sutras, não os entendia, mas antes esquecia-os na sua maior parte . Daí ele ser chamado Ávido de Fama. Apesar disso, porque este homem tinha plantado várias raízes de virtude, foi capaz de encontrar imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de Buddhas e de fazer-lhes oferendas, de honrá-los, venerá-los e louvá-los.”

“Maitreya, deves entender isto. O Bodhisattva Maravilhosamente Brilhante que então viveu, pode ser ele por ti conhecido? Ele não era senão eu. E o Bodhisattva Ávido de Fama eras tu.”

Quando eu agora vejo estes auspiciosos fenômenos, eles não diferem do que eu vi antes. Daí que eu suponha que o Honrado-Pelo-Mundo está em vias de pregar o sutra do Grande Veículo chamado Lótus da Lei Maravilhosa, uma Lei para instruir os Bodhisattvas, uma Lei que é guardada e mantida em mente pelos Buddhas.”

Então Manjushri, desejando explicar-se novamente, falou em verso, dizendo:

Lembro que numa era passada
há imensuráveis, inumeráveis kalpas
houve um Buddha, o mais honrado dos homens,
chamado Brilho do Sol e da Lua.
Este Honrado Pelo Mundo expôs a Lei,
salvando imensuráveis seres viventes
e um sem número de milhões de bodhisattvas,
fazendo-os entrar na sabedoria Búddhica.
Os oitos filhos príncipes que este Buddha gerou
antes de deixar a vida de família,
quando viram que este grande sábio deixara a sua família
fizeram o mesmo, levando a cabo práticas brahma.
Nessa altura o Buddha pregou o grande Veículo,
um sutra chamado Imensuráveis Significados,
e no meio da grande assembleia
pelo bem das pessoas estabeleceu distinções.
Quando o Buddha acabou de pregar este sutra
tomou o assento da Lei,
sentando-se de pernas cruzadas no samadhi
chamado “lugar de imensuráveis significados”.
Dos céus choveram flores de mandarava,
tambores celestiais soaram por si,
e os seres celestiais, dragões e espíritos
fizeram ofertas ao mais honrado dos homens.
Todas as terras Búddhicas
de imediato tremeram grandemente.
O Buddha emitiu uma luz de entre as suas sobrancelhas,
manifestando sinais raramente vistos.
Esta luz iluminou a direcção Oeste,
dezoito mil terras Búddhicas,
mostrando como todos os seres viventes
aí eram recompensados em vida e morte pelas suas acções passadas.
Podíamos ver essas terras Búddhicas,
adornadas com numerosas jóias,
brilhando com reflexos de lápiz-lazuli e cristal
devido à iluminação da luz de Buddha.
Podíamos ver também Tathagatas
acedendo naturalmente ao Buddhado,
seus corpos da cor de montanhas douradas,
rectos, imponentes, subtis e maravilhosos.
Era como se do meio de puro lápis lazuli
surgissem colunas de ouro verdadeiro.
No meio da grande assembleia os Honrados pelo Mundo
expunham os princípios da profunda Lei.
Numa após a outra das terras Búddhicas
os ouvintes em incontáveis multidões
mercê da iluminação da luz de Buddha
ficaram visíveis com suas grandes assembleias.
Aí também existiam monges
residindo no meio de florestas,
esforçando-se por manter puros os preceitos
como se estivessem guardando uma jóia rara.

Podíamos ver também bodhisattvas
dando esmolas, sendo pacientes,
numerosos como areias do Ganges, devido à iluminação da luz de Buddha.
Podíamos também ver bodhisattvas
absorvidos na pratica da meditação,
seus corpos e mentes tranquilos e imóveis,
dessa forma procurando a via insuperável.
Podíamos ver também bodhisattvas
sabedores de que os fenômenos são marcados pela tranquilidade e pela extinção,
cada um na sua respectiva terra
pregando a lei e buscando a suprema iluminação.
Nessa ocasião, os quatro tipos de crentes
vendo o Buddha Brilho do Sol e da Lua
manifestar os seus enormes poderes transcendentais,
rejubilaram em seus corações,
perguntando-se mutuamente
a causa destes eventos.
O honrado por seres celestiais e humanos
despertou do seu samadhi
e louvou o Bodhisattva Maravilhosamente Brilhante, dizendo,
“Tu és o olho do mundo,
refúgio para todos, em quem podemos ter fé,
capaz de honrar e promover o repositório do Dharma.
A lei que eu prego-
só tu lhe podes fazer jus.”
O Honrado Pelo Mundo, tendo outorgado este louvor,
que fez rejubilar Maravilhosamente Brilhante,
pregou o Sutra do Lótus
por dezasseis completos pequenos kalpas.
Ele nunca saiu do seu lugar,
e a suprema e maravilhosa Lei por ele pregada
foi aceite e promovida na integra
por Maravilhosamente Brilhante, mestre do Dharma.
Após o Buddha ter pregado o Lótus,
fazendo rejubilar toda a assembleia,
nesse mesmo dia
ele anunciou à assembleia de seres celestiais e humanos,
“expus para vocês
o significado da verdadeira entidade de todos os fenômenos.
Agora, quando a meia noite chegar
entrarei no Nirvana.
Sejam zelosos de todo o coração
e evitem a indolência e a lassidão,
é muito difícil encontrar um Buddha-
entre eles há lapsos de milhões de kalpas.”
Quando os filhos do Buddha
ouviram dizer que o Honrado Pelo Mundo ia entrar no nirvana,
ficaram cheios de pesar
perguntando-se o porquê da sua eminente partida.
O senhor da sabedoria, Rei do Dharma,
confortou e apaziguou a incontável multidão,
dizendo, ”Quando eu entrar no nirvana
não deveis inquietar-vos ou temer!
Este bodhisattva Repositório de Virtudes
após completar o seu percurso sem falhas
será o próximo Buddha, chamado Puro Corpo,
e também ele salvará multidões imensuráveis.”
Nessa noite o Buddha extinguiu-se,
tal como um fogo se apaga quando se esgota o seu combustível.
Eles dividiram e acondicionaram as suas relíquias
e construíram um número incontável de torres,
e os monges e monjas
numerosos como as areias do Ganges
redobraram os seus esforços,
procurando alcançar a via insuperável.
E o mestre do Dharma, Maravilhosamente Brilhante
honrado e sustentado pelo repositório do Dharma dos Buddhas
durante oitenta pequenos kalpas,
propagou largamente o Sutra do Lótus.
Esses oito príncipes
que Maravilhosamente Brilhante converteu
ativeram-se firmemente à via insuperável
sendo assim capazes de encontrar inumeráveis Buddhas.
Após terem feito oferendas a esses Buddhas
seguiram a prática do Grande Caminho
e um após outro sucederam-se como Buddhas,
cada um profetizando o destino do seu sucessor no Buddhado.
O último a tornar-se Buddha
foi chamado Tocha Ardente [Dipankara].
Como líder e mestre
salvou imensuráveis multidões.
Este mestre do Dharma, Maravilhosamente Brilhante
tinha nessa altura um discípulo
cuja mente estava sempre ocupada pelo torpor e pela indolência,
ávido de fama e vantagem;
sempre insaciável por glória
negligenciando e esquecendo o que tinha estudado.
Devido a isto foi ele chamado Ávido de Fama
Mas ele tinha também levado a cabo muitas acções meritórias
tendo assim sido capaz de conhecer inumeráveis Buddhas.
Ele fez ofertas a esses Buddhas
e seguiu-os praticando o grande caminho,
esmerando-se nos seis paramitas,
e agora ele encontrou o leão dos Sakias.
No futuro ele tornar-se-á o próximo Buddha
e o seu nome será Maitreya,
salvando seres viventes
em números para lá de qualquer cálculo.
Esse que então era o discípulo indolente do extinto Buddha
eras tu, e o mestre do Dharma,
Maravilhosamente Brilhante – era eu.
Os sinais são agora como os anteriores fenômenos auspiciosos,
este é um meio expedito usado pelos Buddhas.
Agora que o Buddha emite este raio de luz
está em vias de revelar o sentido da verdadeira natureza dos fenômenos.
Os seres humanos ficarão agora a conhecê-lo.
Juntemos as mãos e aguardemos a uma só mente.
O Buddha fará cair a chuva da Lei
que refresca e satisfaz os que buscam o caminho.
Tu que procuras os três veículos,
se tens dúvidas ou inquietações,
o Buddha resolvê-las-á para ti.